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Pesquisa inédita mostra o desempenho do setor de cartões no Brasil

A indústria de cartões de débito e crédito tem papel vital nos meios de pagamentos. É um setor relevante que impacta diretamente outras áreas, além de ter uma cadeia complexa e, curiosamente, pouca concorrência. Por si só, estes três pontos já deveriam despertar o interesse de especialistas – e leigos – no desenvolvimento dos processos. Entretanto, o tema é pouco estudado, não só no Brasil como também no resto do mundo.

Com o intuito de começar a mudar esse quadro, o Insper realizou uma pesquisa que mapeia as características do setor no mundo e seu desempenho no Brasil. O estudo foi apresentado durante evento organizado pelo Centro de Estudos em Negócios e pelo Centro de Finanças, no dia 24 de novembro.

Diagnóstico do setor

Na indústria de cartões de crédito e débito, o sistema aberto é dominante em todo o planeta. Nessa cadeia, a bandeira não lida diretamente com seus usuários, pois usa intermediários. Em uma ponta, o banco emissor se relaciona com os consumidores. Na outra está o adquirente, que, como o próprio nome diz, é responsável por “adquirir” lojistas.

“O papel da bandeira é apenas ser um ponto de encontro entre as pontas”, explicou Adriana Perez, professora do Insper, ao apresentar a pesquisa. “Para ser relevante para ambos, a bandeira faz questão de administrar o que se chama de tarifa de intercâmbio, que é um aspecto essencial para a funcionalidade do sistema”, completou.

A taxa de intercâmbio é um pequeno valor cobrado para validar as transações e tem como objetivo equilibrar os dois lados do mercado. “Ela precisa ser atraente para os emissores a ponto de gerar a emissão de cartões daquela bandeira, mas também não pode ter uma tarifa tão alta, pois pode desestimular a captura de adquirentes”, comentou Marcelo Nunes, coordenador-geral de análise antitruste do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

De acordo com Nunes, na Europa, a tarifa é regulamentada. Para cartões de débito, o preço máximo cobrado é de 0,2% por transação. No crédito, o valor sobe para 0,3%. “No Brasil, entretanto, a taxa de intercâmbio está entre 1,5% e 2% para ambas as modalidades”, disse o especialista do CADE. Isso ocorre porque o país ainda conta com alguns empecilhos que impedem que taxas mais civilizadas estejam disponíveis.

Cenário brasileiro

Algumas condutas aplicadas em solo nacional atrapalham o bom funcionamento do setor no Brasil. Uma delas é o fato de o emissor cobrar uma taxa de intercâmbio mais elevada se o lojista passar suas transações por outro adquirente que não pertence ao grupo. Outro exemplo se dá quando o adquirente oferece descontos sobre o volume de transações, impedindo a entrada de novos players no mercado que poderiam negociar o valor. Sem contar a famosa venda casada.

“Vale lembrar também que, hoje, vivemos um tombamento da base de clientes. Os bancos que detêm bandeiras fazem a emissão automática de determinada empresa. Isso ocorre principalmente em cartões mais simples, pois os clientes não têm tanto conhecimento da prática. Dessa forma, é mais fácil emitir a bandeira de interesse do banco do que a do cliente”, afirmou Nunes.

Por falar em tipos de cartões, a pesquisa realizada pelo Insper tentou entender o nível de concentração entre os emissores e a taxa de intercâmbio cobrada em cartões básico e premium. A dúvida principal era: quanto mais poder o emissor tem, maior é a tarifa? Segundo o resultado, o cartão básico apresentou 60% de concentração contra 16% do premium. “O número é mais baixo porque o público premium tem um poder de barganha maior. Eles são mais competitivos para o mercado”, explicou Perez.

Contraponto

Paulo Solmucci, presidente executivo da ABRASEL (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), enxerga o cenário de outra forma. Para ele, o número de cartões premium está crescendo. E mais: são entregues para consumidores simples, que não possuem total conhecimento do que a ação implica. “A taxa de intercâmbio desse tipo de cartão é maior. E, consequentemente, o serviço ou produto é mais caro. Só que os clientes não são informados sobre isso”, disse.

Tal conduta é reflexo do mercado com poucos players apresentado pelo setor atualmente. Segundo a pesquisa do Insper, do lado das bandeiras, MasterCard é a maior, com 45% do total. Em segundo lugar aparece o Visa, com 40%, e, em terceiro, a Elo, com 11,1%. “O interessante é que a Elo só apareceu em 2012, mas já tem uma boa representatividade”, revelou Perez. Do lado dos adquirentes, a bandeira mais forte é a Cielo (47%). A marca é seguida por Rede (24%) e Bradesco Cartões (12%).

De acordo com os especialistas, apesar dos impasses, o cenário brasileiro tem salvação. Perez apresentou uma série de soluções que podem reanimar a indústria. Entre elas, a criação de safe harbour (conduta que aponta quais atitudes estão ou não sujeitas à punição) e a adoção de medidas para facilitar a entrada de novas emissoras no mercado.