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Crédito público beneficiou grandes empresas sem aumentar o investimento

A justificativa econômico-social para a concessão de crédito público é que projetos que geram externalidades positivas – tais como de infraestrutura ou inovadores – podem não parecer financeiramente lucrativos.

Esta análise, feita com base em quase 1 milhão de empresas que fizeram empréstimos de mais de R$ 30 mil entre 2004 e 2012, mostra que a expansão de crédito governamental, apresentada como alternativa para aliviar as restrições de crédito enfrentadas pelas empresas, não teve o direcionamento esperado. A expansão de incentivos governamentais pós-crise de 2008 não resultou em apoio para empresas mais novas, menores e potencialmente mais inovadoras. As companhias que receberam mais crédito público subsidiado foram as maiores, mais antigas e de menor risco, que menos sofrem com as restrições de crédito.

Se o crédito público teve papel importante durante a crise financeira, compensando a forte contração na oferta de crédito livre e privado, a expansão de concessões públicas continuou mesmo após a recuperação da atividade econômica. Entre 2008 e 2012, houve um aumento de participação pública de 13,39% do total de crédito.

Apesar da expansão de linhas de financiamento, os empréstimos às empresas que atuam nas áreas de saneamento, infraestrutura e transportes não foram proporcionais. O financiamento oferecido por bancos públicos às empresas sociais cresceu 4%, contra os 17,5% de expansão para empresas de outros setores.

A premissa de que o maior acesso ao crédito público levaria a um maior investimento das empresas também não se comprovou: o efeito dessas operações sobre a taxa de investimento é insignificante, pelo menos para as empresas de capital aberto. Além disso, notou-se um aumento de endividamento, e substituição do crédito privado pelo público direcionado. Como as taxas de juros no crédito direcionado são mais baixas, as empresas com maior acesso a esses empréstimos tendem a reduzir o custo da dívida.

Em suma, a análise sugere que os incentivos de crédito governamentais não aliviaram as restrições de crédito das empresas com menos acesso ao financiamento privado. Em detrimento de sua proposta, o principal efeito do aumento do crédito público foi financiar a taxas subsidiadas empresas que poderiam ser atendida pelo setor de financiamento privado.

O artigo, dos professores Marco Bonomo e Ricardo Brito, em coautoria com Bruno Martins (Banco Central), foi publicado em 2015 no Journal of International Money and Finance.

A versão em Working Paper está disponível no acervo do Insper.