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A importância dos rituais nas organizações

Gazi Islam, pesquisador do Insper, elaborou um estudo no qual analisa as estruturas das relações interpessoais dentro das empresas. A análise de como as organizações atuam em determinadas situações (procedimentos adotados em demissões, promoções e transferências de funcionários, por exemplo) revela o perfil dessas instituições ou dos diferentes grupos existentes dentro das empresas.

Em uma avaliação superficial, as ações dos membros de uma instituição podem ser caracterizadas como maneiras de se alcançar lucro, promoções e metas. Entretanto, essas mesmas ações podem demonstrar um forte simbolismo, expressando elementos pelos quais crenças, emoções e identidades podem ser formadas ou alteradas.

Essa “persona organizacional” tem uma maneira própria de agir e adota procedimentos com grande caráter simbólico. Essas ações afetam os indivíduos e desempenham papel importante na manutenção e reforço das relações sociais existentes, integrando os indivíduos em uma estrutura social mais ampla.

Compreender o simbolismo das ações possibilita uma adaptação mais fácil dos colaboradores. Para os gestores, nas situações de crise, conhecer o significado intrínseco dos procedimentos faz com que as estratégias adotadas sejam mais eficazes.

Simbolismo funcional

Normalmente, nas pesquisas são considerados símbolos os objetos como os uniformes ou logomarcas. No entanto, o modo de agir também pode ser considerado um símbolo funcional. Comportamentos, tipos de comportamentos e comportamentos ocasionais também podem atuar como símbolos quando ocorrem em determinados contextos sociais.

Gazi Islam agrupou situações que têm grande impacto na estrutura social e nos conceitos e valores individuais dos seus funcionários. A maneira como as empresas lidam com esses acontecimentos tem um alto poder simbólico. Elas foram classificadas em seis diferentes “rituais corporativos”.

  • Rituais de passagem;
  • Rituais de rebaixamento;
  • Rituais de valorização;
  • Rituais de renovação;
  • Rituais de redução de conflito;
  • Rituais de integração

Ritual de passagem

Grandes mudanças na vida das pessoas, como casamento, a adolescência e mesmo a morte (com possíveis equivalência nas organizações, como processos seletivos, promoções e demissões) podem ser classificadas em termos de rituais sociais para marcar o fim de um período e a transição para a próxima fase. Isso também se aplica no cotidiano das empresas. Esse tipo de situação ocorre quando um funcionário é contratado, promovido ou transferido de departamento.

O ritual de passagem é composto por uma fase preliminar, na qual o indivíduo é removido de sua função anterior; uma fase de transição, em que a pessoa está entre dois papéis e fica temporariamente desprovida de uma identidade social que a identifica a um grupo; e última fase pós-liminar em que o indivíduo é incorporado no seu novo papel.

Dentro das empresas, podemos citar uma situação comum de transição de um colaborador: contratação (preliminar); treinamento (transição); delegação de responsabilidade (pós-liminar).

Rituais de passagem são normalmente identificados nas interfaces entre as organizações e seus departamentos. “Programas de treinamento e de estágio podem ser caracterizados como rituais de passagem. Isto é particularmente verificado quando os primeiros estágios do treinamento envolvem tarefas difíceis que os trainees devem realizar para alcançar as suas novas posições”, analisa Gazi Islam. Promoções são outras situações que envolvem cerimoniais elaborados para separar os indivíduos das suas funções anteriores e integrá-los às suas novas atribuições.

Ritual de rebaixamento

As situações em que a pessoa tem alguma perda de status são as bases para os rituais de rebaixamento, que também podem estar associadas ao fechamento de uma empresa. Esses rituais também são caracterizados por três estágios: separação; descrédito; e remoção.

Além de retirar membros de suas posições, os rituais de rebaixamento também servem para construir coesão e consistência ao grupo. Para que essas situações criem a solidariedade do grupo duas condições devem ser verificadas: o rebaixamento simbólico não deve envolver uma grande parte da equipe; o rebaixamento deve ser baseada na restauração do bem-estar ou o equilíbrio do grupo.

Os rituais de rebaixamento normalmente têm como objetivo afastar um indivíduo quando sua má reputação individual pode manchar a imagem da organização. “Por exemplo, executivos podem ser demitidos após um desempenho ruim da empresa sem que sua liderança individual seja questionada. Esta remoção simbólica serve para atribuir a baixa performance ao indivíduo, deixando ilibada a organização”, diz Islam.

Ritual de valorização

Ritos de valorização são cerimônias elaboradas para os membros da organização que executaram excepcionalmente bem suas funções ou que personificam os valores e atitudes da empresa.

A importância dada a esses rituais afastam o caráter funcional da atuação do empregado dando maior destaque ao “modelo” de funcionário e mostrando como o comportamento dele/dela e suas atitudes levam ao reconhecimento público e valorização.

Entre os ritos de valorização estão em artigos nos jornais da empresa e relatórios anuais, dar placas e prêmios, e jantares e cerimônias de reconhecimento dos melhores funcionários.

Ritual de renovação

Rituais de renoção consistem em ações simbólicas periódicas realizadas para reforçar a predominância de determinados valores da organização, reforçar os laços sociais dentro da companhia, lembrando cada pessoa a importância do grupo social. “Festas anuais de fim de ano são uma boa ilustração desse tipo ritual. Além disso, conferências anuais ou encontros comerciais têm significados ritualísticos em termos de identidade profissional”, diz Islam.

Também podem ser enquadradas nessa classificação atividades motivacionais e de desenvolvimento organizacional, como feedback de programas e workshops em grupo. Essas atividades renovam aspectos como se elas estivessem voltadas para reafirmar as estruturas existentes, muito mais do que promover a mudança real do sistema.

Ritual de redução de conflito

Rituais de redução de conflito consistem em tentativas públicas de resolver conflitos ou tratar de questões de importância para demonstrar que “algo está sendo feito”. Exemplos disso incluem negociações coletivas, que dão a impressão de negociação cooperativa de interesses; criação de comitês que cria um grupo simbólico que se reúne para resolver problemas.

Estes rituais são usados para dissipar emoções negativas e restabelecer laços sociais. “Assim, discutir conflitos em comitês especiais pode dar ao grupo a sensação de que todas as vozes estão sendo ouvidas e que isso, simbolicamente, reduz as ameaças ao grupo”, diz Islam.

Ritual de integração

Rituais de integração tentar juntar diferentes grupos dentro da organização que normalmente não interagiriam. Festa de final de ano ou de Natal são exemplos desse tipo situação.

Estes rituais são comuns em cenários de fusões e aquisições, nos quais duas companhias com identidades diferentes precisam se unir para criar uma nova imagem. “Estas situações são inerentemente ameaçadoras porque as pessoas podem estar emocionalmente envoltas por suas atribuições anteriores. Desta forma, os rituais podem ser usados para enfatizar os pontos comuns entre as duas companhias ou demonstrar como uma nova e maior empresa é digna de identificação pelo seu tamanho e importância”, analisa Islam.

Melhor Gestão de Pessoas (01/12/2010)

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