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Principais motivos que levam uma empresa a fechar as portas

Em média 25% das pequenas e médias empresas no Brasil fecham suas portas com apenas dois anos de atividade, sendo que com cinco anos este índice aumenta para mais de 50%. Os principais motivos são a falta de capital de giro, baixos lucros, alto endividamento e, principalmente, baixo nível de gestão empresarial. Há diversos outros motivos que também ajudam a explicar a alta mortalidade das empresas: baixa competitividade, conflito entre sócios, falta de experiência empresarial, altos custos e despesas, inadimplência, falta de clientes e interferências governamentais.

O ano de 2015 tem sido um dos piores anos para as empresas brasileiras. A forte crise política associada à leniência do governo para implantar um processo de reestruturação administrativa com impactos relevantes sobre os gastos governamentais produziram uma crise econômica que nos afetará por diversos anos. O que estamos passando neste momento é apenas o início de uma fase dura que terá enormes impactos e consequências na sustentabilidade financeira das companhias e no desenvolvimento da nossa sociedade. A atual gestão governamental vem, há muito tempo, se orgulhando de ter conseguido avanços no desenvolvimento das empresas e no combate à pobreza. Porém, infelizmente, teremos nos próximos tempos um retrocesso importante que, provavelmente, consumirá grande parte da evolução social e empresarial dos últimos anos.

Recentemente a Serasa divulgou que quase 50% das empresas brasileiras têm algum tipo de atraso de pagamentos. A alta da inadimplência de forma acelerada é um indício muito negativo de que precisamos reagir para conseguirmos manter nossas companhias estáveis. O que fazer para não corrermos o risco de comprometê-las? A melhor forma é prevenir-se para não chegar a situações de risco insustentáveis.

Uma boa forma de prevenção é desenvolver um plano de negócios de curto e médio prazos, que levem em consideração como a companhia se desenvolverá. Este planejamento deve contemplar um fluxo de caixa das operações, análise de rentabilidade e, principalmente, um plano de ação que deve ser executado com o máximo de disciplina. Companhias que planejam, são bem controladas e estáveis financeiramente têm, geralmente, maior chance de sucesso.

Seguem algumas dicas de como se prevenir e melhorar a administração de sua companhia:

  • Aumentar controle de resultados;
  • Fazer planejamento financeiro;
  • Reduzir riscos;
  • Separar conta corrente pessoal da conta da empresa;
  • Distribuir lucros somente quando a companhia estiver estável;
  • Reduzir obstinadamente custos e despesas;
  • Reduzir capital de giro empregado em estoque e contas a receber;
  • Manter caixa de segurança;
  • Melhorar relacionamento bancário;
  • Criar parcerias com fornecedores.

Mantenha o arrojo comercial, mas com conservadorismo financeiro. Tente adequar suas finanças pessoais com a capacidade de geração de caixa da companhia, sem descuidar do seu crescimento, pois é ele que garantirá a sustentabilidade dos seus futuros ganhos.

Entretanto, o que fazer quando a companhia está mal? O primeiro passo é diagnosticar os principais problemas e montar um plano de reestruturação com duas fases: de ações emergenciais e de estabilização. Geralmente, a principal ação emergencial é a de se conseguir mais recursos financeiros. As formas mais rápidas para conseguirmos caixa extra são: venda de ativos da companhia ou mesmo dos sócios, busca de empréstimos com garantia de bens pessoais, redução acelerada de estoques e venda de participação acionaria. Contudo, garantir o caixa para a fase emergencial não é suficiente. É necessário atacar as origens dos problemas que levaram a empresa a chegar nesta situação.

É muito difícil empreender no Brasil. O custo Brasil, as altíssimas taxas de juros e de impostos, os altos gastos com logística, burocracia, corrupção e a volatilidade cambial impõem aos empresários enormes desafios de gestão. Em todo país em desenvolvimento, porém, há inúmeras oportunidades para empreender. Como os riscos são altos, os melhores negócios tendem a apresentar ótimo potencial de rentabilidade.

Qualquer crise é algo muito ruim para o desenvolvimento do país e de sua sociedade, porém se há algo de positivo que podemos aprender com este processo é conseguirmos sobreviver, mesmo em situações adversas. Infelizmente diversas companhias deixarão o mercado nos próximos tempos, desta forma, as mais preparadas e competitivas conseguirão sobressair-se e certamente se fortalecerão.

Muitos empreendedores estão vendo a crise como uma oportunidade de ganhar espaço de competidores vulneráveis ou mesmo de compra-los por preços mais baixos. De qualquer forma é muito importante neste momento mantermos o positivismo, considerando que esta crise será apenas mais uma das diversas por que já passamos e que, com planejamento, gestão e foco no crescimento, nossas empresas se manterão com as portas abertas por diversas gerações.

Artigo escrito pelo Professor Ricardo Mollo, docente do programa de Educação Executiva do Insper. 

O retrocesso da sustentabilidade dos combustíveis no Brasil

Os princípios de sustentabilidade pressupõem que a humanidade deveria satisfazer suas necessidades sem comprometer as futuras gerações e respeitando os limites do meio ambiente. Neste sentido, o petróleo não é sustentável porque é poluente e não renovável. Muitas empresas petrolíferas, principalmente aquelas que estão fora dos países da OPEP, têm feito esforços para se transformarem em empresas de energia, num desafio enorme da busca por alternativas energéticas sustentáveis e especialmente renováveis.

O Brasil é dos países que melhor administra sua matriz energética, sendo 44,1% de fontes renováveis, principalmente energia hidroelétrica (14,7%) e energia a partir da cana de açúcar (15,7%). Sem dúvida é motivo de orgulho que tenhamos esta situação, uma vez que o mundo tem apenas 12,9% de suas fontes renováveis. Contudo, o país tem perdido chances de evoluir na sustentabilidade neste setor, principalmente por uma falta de políticas de desenvolvimento, pela exagerada intervenção governamental no mercado de combustíveis e energia e pelo foco de investimentos em extração de petróleo.

O desafio de garantir a energia para o futuro do Brasil é enorme e apesar da boa matriz energética, das descobertas do pré-sal e das novas usinas hidroelétricas, é importante que o país desenvolva urgentemente uma política de longo prazo em relação aos seus preços, para que o setor não dependa apenas dos investimentos governamentais, mas também que consigamos avanços pela iniciativa privada.

Um dos maiores problemas está relacionado aos preços dos combustíveis que o governo insiste em não reajustar, na tentativa de conter contágios inflacionários. Porém o efeito desta ação sobre as empresa de etanol é devastador. Uma vez que o preço do etanol tem como teto subjetivo 70% do preço da gasolina e, os custos de cana de açúcar, sua matéria prima, têm, na média, subido ao longo dos anos, a margem de ganho do setor tem se reduzido. O resultado desta situação que se agrava a cada dia é a baixa rentabilidade das destilarias e o alto endividamento financeiro, o que impede novos investimentos e que, até o momento, levou quase 50 empresas a pararem suas atividades. É baixíssima a motivação do setor de biocombustíveis em investir em novas unidades neste cenário, principalmente porque não há uma perspectiva clara de até quando o governo atuará desta forma.

Outro fator igualmente grave é a necessidade de importação de gasolina e diesel. O país tem um déficit de refino de aproximadamente 800 mil barris por dia de petróleo para produção de combustíveis, quase 30% da necessidade total. Esta necessidade tem sido suprida com importação de combustíveis pela Petrobras que os repassa ao mercado por um preço mais baixo do que compra. Esta situação tem, inclusive, agravado a balança comercial do país, pressionando ainda mais a taxa de câmbio.

A Petrobras tem sido fortemente afetada pela política de não reajuste justo de combustíveis e pela sua importação para suprir os déficits de refino do país. Esta situação prejudica demasiadamente os resultados da companhia, restringindo seus investimentos para aumento de capacidade de extração de petróleo do pré-sal. Apesar de a empresa ter controle estatal, ela é de capital misto. Desta forma, a administração da companhia deveria focar na criação de valor e não no desenvolvimento de políticas de contenção de inflação ou de ajustes de déficits de refino. O mercado de capitais tem penalizado a companhia sistematicamente, sendo que suas ações já valeram quase R$ 45 e agora beiram os R$ 17. Será um desastre se esta situação continuar por muito tempo levando a empresa a perdas operacionais constantes e destruição de valor, o que pode culminar com um downgrade de agências de risco, agravando ainda mais a situação.

O mundo está bem longe do fim da dependência do petróleo e o Brasil tenta fortemente lutar contra esta dependência, porém sua busca desenfreada pela exploração do pré-sal tem sido no caminho oposto à sustentabilidade e tem colocado um peso enorme na Petrobras que claramente não tem conseguido desenvolver seus investimentos como planejado.

A situação está crítica e é necessária uma ação imediata e coordenada do governo, das empresas e da sociedade para direcionamento de esforços para uma solução de longo prazo. O primeiro passo deveria ser a mudança de postura do governo com uma política menos intervencionista e mais de planejamento, criando incentivos para que a solução venha das empresas privadas e não das estatais. O governo precisa urgentemente parar de usar a Petrobras como instrumento de política monetária e de desenvolvimento e assumir os gastos pela situação desequilibrada do setor. Para isto deveria minimamente criar benefícios ou subsídios para as empresas de biocombustíveis, incentivos e financiamentos a refinarias privadas e biocombustíveis de segunda geração, bem como acelerar o desenvolvimento do transporte público.

É necessário que a sociedade aja rapidamente com uma postura pró-ativa exigindo do governo condições para que a iniciativa privada realmente assuma o desenvolvimento do setor. O próximo ano será de Copa do Mundo e de eleições, ou seja, há uma grande chance de pouco ser feito para resolver esta situação. Não podemos admitir o evidente retrocesso na sustentabilidade da nossa matriz de energia. Temos que agir urgentemente, especialmente na próxima eleição.

Artigo publicado no Valor Econômico em 18/10/2013.

O valor das redes sociais

O momento agora no mundo da Internet é o das redes sociais como Facebook e LinkedIn. Algumas delas já abriram seu capital em bolsa, mas o mais esperado IPO ainda está por vir: o do Facebook, que pode valer surpreendentes US$ 100 bilhões. Estas empresas podem valer tanto assim? Estamos passando por uma nova bolha? As empresas valem pela sua capacidade de gerar fluxos de caixa no futuro. Cálculos de valor de empresas levam em consideração a sua competitividade ao longo do tempo bem como os riscos que correm. Consideramos uma série de expectativas em relação às suas performances e quanto mais risco percebemos, dadas as nossas expectativas sobre o futuro das empresas, mais exigiremos para investir em suas ações.

Mas como as redes sociais ganham dinheiro se não pagamos para sermos usuários? Suas receitas vêm prioritariamente de anúncios. O seu valor vem da capacidade de manter milhões de usuários interessados em ficar on-line, “curtindo” comentários, compartilhando experiências, postando fotos e principalmente consumindo produtos divulgados nos sites. Um dos grandes patrimônios destas empresas, além de acessar inúmeros usuários em tempo real, é a enorme quantidade de informações que conseguem armazenar. Cada vez que “curtimos” algum comentário, damos uma indicação de algo que gostamos, o que pode ser utilizado em algum momento por um anunciante para uma futura venda.

Como damos informações de graça sobre nossos gostos para os sites, eles usam isto para nos “oferecer” produtos. De forma pragmática, as redes sociais são grandes veículos de comunicação, publicidade e vendas. Quanto maior for a sua rede de usuários e sua capacidade de mantê-los on-line “curtindo”, maior será seu valor. Especula-se que o valor do Facebook no IPO será de US$ 100 bilhões mesmo tendo tido lucro em 2011 de “apenas” US$ 1 bilhão. Se empresas de tecnologia têm em média valor em bolsa de quinze vezes o seu lucro, por que o Facebook é avaliado por um valor tão maior? Há uma expectativa de que o Facebook consiga no futuro próximo potencializar enormemente seus resultados uma vez que já tem a maior rede de usuários, mais de 800 milhões. É evidente que quando falamos de expectativas, falamos de risco e eles são enormes. Será que o Facebook conseguirá rapidamente multiplicar seus lucros? As pessoas estão literalmente viciadas nestes sites que revolucionaram a comunicação com inovação e tecnologia. Será que não vamos enjoar destas redes? Há muitas incertezas sobre o futuro das redes sociais e de seu potencial de gerar resultados financeiros. É um setor fascinante, cheio de perspectiva, mas ainda de alto risco de continuidade, contudo, isto não parece ser tão considerado pelos seus investidores que se mantêm fortemente otimistas. Não podemos deixar que nosso entusiasmo crie expectativas irreais, o que pode vir a formar mais uma nociva bolha nos investimentos em ações, o que, dada a crise atual, pode postergar ainda mais a volta do crescimento mundial, assim, é imprescindível que a sociedade não se iluda com ganhos fáceis nas bolsas e exija responsabilidade do mercado de capitais e das redes sociais.

(Brasil Econômico – 23/04/2012)

O investimento na bolsa de valores equivale a um jogo?

Era muito comum há alguns anos ouvirmos alguém se vangloriar de que jamais havia “jogado” na bolsa.

O medo de perder dinheiro com ações e a falta de conhecimento fazia com que as pessoas se distanciassem da bolsa e, ainda, em suas relações abordassem o tema de forma pejorativa. Hoje há um consenso de que a bolsa traz uma real oportunidade de retorno, mesmo com juros internos tão altos.

Nos últimos dez anos, os investidores em bolsa no Brasil aumentaram de aproximadamente 70 mil para 600 mil. Evidentemente, esses novos investidores não veem a bolsa como um jogo; porém, para alguns, sua forma de atuação pode ser vista como a de um jogador. E é isso que me preocupa.

Aos poucos, os investidores brasileiros pessoas físicas buscam alternativas de diversificação e a bolsa tornou-se uma boa opção. Porém, essa opção é bem arriscada, especialmente se a estratégia de investimento é de curto prazo.

A bolsa é realmente um negócio fascinante. As pessoas, mesmo sem informações, têm interesse por ela, principalmente quando ouvem que podem ficar milionárias rapidamente. Há uma enorme safra de livros de investimentos pessoais e de cursos dizendo que investidores pessoas físicas não financistas podem ficar ricos. Realmente, há como ficar rico na bolsa, mas é uma falácia afirmar que isso pode acontecer com qualquer um, especialmente no curto prazo.

O mercado de bolsa de valores é altamente especializado. Os grandes investidores, também chamados de investidores institucionais, têm uma influência enorme nas movimentações dos preços das ações no curto prazo. Suas estratégias nem sempre são de longo prazo, mas geralmente motivadas por notícias que podem trazer instabilidade no curto prazo ou mesmo por uma simples mudança de estratégia.

Nós, investidores pessoas físicas, concorremos neste mercado de bolsa em que investidores profissionais usam sistemas avançados e equipamentos de última geração, além de terem uma enorme carga de informações para tomarem as suas decisões.

É evidente que em uma concorrência como essa estamos em desvantagem, principalmente quando, sem esse aparato tecnológico, nos aventuramos a “operar”, comprando e vendendo ações para termos ganhos rápidos. Nessa concorrência de curto prazo, nossa chance de ganhar é baixa. Mas será que mesmo sem termos todos os recursos dos grandes investidores podemos nos beneficiar dos ganhos da bolsa? Sim.

O preço de uma ação é o resultado de uma convergência de percepções e expectativas dos investidores em relação à valorização da companhia e pela sua geração de resultados futuros, o que, a rigor, deveria sustentar-se no longo prazo pelos seus fundamentos, ou seja, por sua capacidade de competir nos mercados em que atua.

Assim, quando analisamos uma empresa devemos tentar entender como sua estratégia terá impacto nos seus resultados futuros. Fazer projeções é sempre muito difícil, principalmente para quem não vive no mundo das finanças e mais ainda para quem não tem tempo para acompanhar os mercados de perto. Mesmo assim, é sempre importante que tenhamos boas e confiáveis informações sobre as empresas nas quais investimos.

Definitivamente, a bolsa não é um jogo. Pelas nossas limitações de tempo e informação, deveríamos optar por fazer investimentos em ações com estratégia de longo prazo, o que aumenta a probabilidade de ganhos e permite uma diversificação mais eficiente nos nossos portfólios. Devemos investir em empresas que acreditamos ter possibilidade de geração de resultados consistentes no futuro e não somente pelas ilusórias chances de obtermos pequenos ganhos diários.

As tentações são enormes para que mudemos nossos portfólios constantemente, principalmente quando o mercado está em baixa. Atuamos como investidores jogadores quando mudamos nossos investimentos em bolsa sem buscarmos e analisarmos informações. É consenso que os maiores ganhos estão no longo prazo. A grande questão é como montamos uma estratégia de investimento que nos permita obtê-los. Claramente, as chances de ganharmos no longo prazo diminuem quando fazemos apostas sucessivas no curto prazo.

(Valor Econômico – 21/06/2011)