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Novas teorias podem ser aplicadas em estudos de séculos passados

Em tempos de Big Data e do desafio de avaliar uma grande base de dados, saber fazer as perguntas certas é fundamental para conseguir a informação que se procura. No entanto, nem toda a resposta precisa de um novo cálculo ou estudo, mas sim da releitura de teorias e fórmulas já pensadas e aplicadas no passado.

Apesar de ainda pouco aplicado no dia a dia dos negócios, o tema foi abordado no Ciclo de Palestras em Ciências Emergentes, coordenado pelo professor Marco Caetano e que aconteceu no decorrer do ano letivo no Insper.

“É importante os alunos entenderem quantas perguntas devem ser feitas para descobrir uma informação e como medi-la”, explica o professor, que ministrou duas palestras para os alunos da Graduação e convidou seis pesquisadores para apresentarem seus projetos.

Entre os temas abordados estão a cosmologia, a astrofísica e a astronomia, que são chamadas de ciências emergentes. Essa nomenclatura é utilizada para teorias e aplicações novas em relação aos estudos desenvolvidos em séculos passados.

Embora existam diversas correntes e perspectivas teóricas, essas ciências podem ser aplicadas em diferentes áreas. “A entropia, por exemplo, mede a perda da informação em determinado evento e o quanto é aleatório. Na Administração, é possível identificar fraudes, sabendo se há invenção de números. Na Biologia é usada na alteração de gene e o que acontece com essa mudança”, detalha.

O estudo, apesar de ser comum no meio acadêmico, é ainda pouco utilizado no mercado brasileiro. Porém, países como Alemanha, França e Inglaterra já perceberam a importância da entropia e o utilizam como base para análise de números.

Para enriquecer o debate, o ciclo de palestras contou com a participação dos palestrantes convidados Osman F. da Silva, Ney Ricardo Moscati, Ronald Buss de Souza, Reinaldo Rosa, Francisco Carlos Rocha Fernandes e Takashi Yoneyama que contribuíram para esta nova abordagem e olhar sobre o tema.

Para saber mais, assista aos vídeos do Ciclo de Palestras em Ciências Emergentes.

 

Novo livro de Marco Caetano aborda medida de risco no mercado financeiro

O professor Marco Antonio Leonel Caetano lançou recentemente Análise de Risco em Aplicações Financeiras pela editora Blucher. Em 2014, seu livro anterior, Mudanças Abruptas no Mercado Financeiro foi finalista do Prêmio Jabuti, entre as obras de tecnologia e ciência. Formado em Matemática, com pós-graduação em Engenharia Aeronáutica pelo ITA, no Insper, trabalha com disciplinas que envolvem o tema Sistemas de Informação. Seu site fornece dados para o mercado e identificou precocemente, por exemplo, a crise de 2008. Em entrevista, conta no que se baseia os seus estudos:

IC – Quais são os principais conceitos que você discute em seu novo livro Análise de Risco em Aplicações Financeiras? O que a obra tem de mais original e surpreendente?

Caetano – Análise de Risco parte de princípios básicos e conceitos bastante conhecidos, não somente do mercado financeiro sobre risco, mas de qualquer curso básico de Estatística. Desde o início a obra oferece ao leitor a chance de usar conceitos simples através de planilhas em Excel. À medida que os capítulos avançam, conceitos mais complexos se sobrepõem aos anteriores, sempre utilizando alguma forma de automação de planilha ou de utilização de programação de algoritmos avançados no estudo.
A ideia surgiu depois que verifiquei que muitos livros abordavam risco e suas metodologias, mas as diversas formas de tratamentos de risco estavam espalhadas em obras diferentes. Em termos de Brasil era ainda pior. Muitos conceitos nem são tratados em livros do Brasil ligados à área financeira. O diferencial do meu livro é congregar conceitos diferentes num único texto, do simples ao complexo, utilizando com exemplos reais sobre ativos em bolsas de valores e programações para ajudar o leitor a repetir os cálculos.
O livro aborda tratamento estatístico dos dados, probabilidades, distribuição normal, distribuições assimétricas, Value at Risk, Transformada de Fourier (FFT), Risco Extremo avaliado com wavelets, Mapa de Risco, Cálculo de Itô e Precificação de Opções usando Black-Scholes e Volatilidade Implícita.

IC – Como suas pesquisas evoluíram entre a publicação de Mudanças Abruptas no Mercado Financeiro, de 2014, e sua obra atual?

Caetano – Junto com a publicação do livro Mudanças Abruptas o site www.mudancasabruptas.com.br tem um canal de assinantes. Esse canal coleta preços de alguns ativos da Bovespa a cada 15 minutos, criando um extenso banco de dados com mais de 1 milhão de dados nos últimos sete anos. Com isso, foi possível fazermos estatísticas dos riscos inerentes aos alertas do IMA (Índice de Mudanças Abruptas) e entender como as formas de risco aparecem em dados reais. Foi possível notar que muitas das definições e conceitos tradicionalmente ensinados nos MBAs e mestrados ligados ao mercado financeiro falham. Isso não é nenhuma novidade, visto que diversos textos bastante conceituados já alertaram para o erro comum e insistente do mercado financeiro em abordar suas formas de análise de risco, adotando o comportamento dos preços dos ativos como Distribuição de Probabilidade Normal. Mas, aprofundamos nessas comparações, para mostrar que em diversos casos é um erro adotar essa ou aquela distribuição de probabilidade, visto que elas falham para dados reais. Por isso, evoluímos e oferecemos uma forma de o leitor comparar formas tradicionais de estudo de análise de risco e formas alternativas e mais avançadas. Além disso, é bastante contemporânea em outras áreas da Ciência e da Academia mundial.

IC – Você pode definir como se calcula o Índice de Mudanças Abruptas? Que elementos entram em sua composição e como ele pode ajudar o mercado financeiro, por exemplo, sem correr o risco de tornar-se um elemento desestabilizador se popularizado?

Caetano – Conforme explico no livro Mudanças Abruptas, no site, nos artigos científicos e no mais recente livro, a abordagem passa pelos conceitos de filtragem, tendência e avaliação do espectro de frequência dos sinais advindos das oscilações dos preços. O estudo começou com análise de modelos de terremoto. O professor Didier Sornette, que nos anos 90 pertencia à UCLA nos Estados Unidos, aplicou o estudo de oscilações e tremores de terra nas bolsas de valores. Estudamos o modelo dele, mas resolvemos avançar propondo um modelo onde o usuário não precisaria inserir ou adaptar nenhum parâmetro, ao contrário do modelo de Sornette. Uma vez filtrado o sinal, o espectro do ruído das oscilações capta padrões bastante interessantes, sendo o mais comum uma forma de “tufão branco” nas frequências. Essa forma que aparece no espectro é resultado de uma composição de termos no estudo de frequência. Quanto mais os termos do espectro se reforçam, mais o mercado se estressa, proporcionando tempos depois uma grande queda.
No artigo principal do início do estudo, fizemos estatísticas sobre tempo de queda, grandeza da queda, perfil da queda, enfim, medidas solicitadas pela revista Physica A, onde o artigo foi publicado. Hoje, com esse banco de dados de mais de um milhão de dados, o refinamento nos mostra que o acerto de fortes crashes quando esse espectro está ativo é de cerca de 93%. O índice não é novo, já está em ampla divulgação nos meios acadêmicos desde 2007 e no mercado financeiro desde 2010. A popularização sempre interfere no mercado à medida que um determinado índice se torna mais conhecido.
No mercado financeiro, o ato de medir ou expor ideias sobre o próprio mercado, sempre influi para que ele se desestabilize. Mas isso acontece muitos anos depois, quando um determinado estudo é amplamente utilizado, como o modelo de Black-Scholes. Não é o caso de nosso estudo, ainda restrito aos meios acadêmicos, aos visitantes do site e aos clientes que utilizam o canal interno do site. No caso do Black-Scholes, esse se tornou popular depois do prêmio Nobel de seus autores e hoje conta com mais de 50 anos de utilização.

IC – Com que linhas de pesquisa acadêmica sua obra pode ser alinhada?

Caetano – A obra está alinhada à área conhecida como “forecasting” de mercado. Na língua portuguesa seria como “previsão” de mercado, englobando assim medida de risco, simulações computacionais, estudos de modelos, estudo de flutuações aleatórias, enfim, métodos quantitativos para o mercado financeiro.

IC – É possível pensar em uma variação do Índice de Mudanças Abruptas para outras áreas além da financeira?

Caetano – Não só é possível como factível. Por exemplo, em ciências físicas, ciências biológicas ou engenharia, o método funciona muito bem, visto a característica dos dados.

IC – O IMA, de acordo com o www.mudancasabruptas.com.br, pode ter antecipado o risco embutido na crise de 2008 e se adequa a cenários históricos, como o Crack de 29. Por que alertas como esses não recebem a devida atenção de agentes financeiros?

Caetano – Em 2007 e 2008, os alertas do IMA foram bastante divulgados na imprensa nacional, no Valor Econômico e em O Estado de S. Paulo, além de algumas emissoras de TV. Após esses alertas e confirmações da queda forte em 2008, muitos agentes financeiros entraram em contato conosco, alguns comprando o software, outros tornando-se clientes. Após o retorno da normalidade, as visitas no site chegaram a mais de 20 mil por mês, tendo o site, apoio financeiro do jornal Valor Econômico por um tempo e da representante do software mais conhecido da engenharia (Matlab) a Opencadd, de São Paulo. No entanto, com o passar dos anos, é natural a diminuição do medo de se arriscar no mercado financeiro e todos os erros do passado voltam a ser praticados.
O esquecimento e a teimosia dos agentes do mercado em criar formas “infalíveis” de retornos positivos fará outras crises maiores aparecerem. E quando essas crises retornam, a procura por análises de risco mais “sérias” e acadêmicas voltam. Enquanto isso não ocorre, os agentes acham que é “perda de tempo” aprenderem e utilizarem formas diferentes de analisar e medir o mercado. Certa vez perguntei a um agente: por que usar modelos lineares e ultrapassados que nada auxiliam em previsão? Sua resposta foi: “… por que eu vou aprender coisas complicadas se o mercado me paga muito bem para usar coisas simples?”. E deu risada. A propósito, depois da crise sua empresa faliu, ele teve que fechar seus fundos e corretora, e mudou de ramo!