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Rankings em Educação: Tipos, problemas, informações e mudanças

Este trabalho classifica os diferentes tipos existentes de rankings na educação. O objetivo é avaliar os dois principais rankings oficiais brasileiros. O primeiro é o ranking das instituições de ensino superior (IES) no qual cada curso recebe uma nota que depende de uma combinação de três fatores: (1) a média das notas dos estudantes no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade); (2) os insumos utilizados no processo educacional – qualidade da infra-estrutura e instalações físicas, corpo docente e recursos didático-pedagógicos; e (3) quanto o curso agrega ao aprendizado do aluno, ou o valor adicionado, tecnicamente chamado de Indicador de Diferença de Desempenho (IDD). O segundo ranking é o das escolas do ensino médio, baseado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no qual cada escola recebe uma nota, que é igual a média das notas de todos os seus alunos que prestam o Enem.

No que se refere ao ranking das IES, o seu principal problema é a falta de uma justificativa teórica e empírica para a compilação de todas as informações numa só, através da atribuição de pesos para cada um dos seus três componentes (itens 1-3 mencionados no parágrafo anterior), de forma a chegar numa única nota para cada instituição. Como a classificação final é sensível a ponderações diferentes, a escolha ad-hoc torna questionável a utilidade do resultado final encontrado.

No entanto, algum dos componentes deste ranking das IES, em separado, tem o potencial de prover informações bastante relevantes para públicos diferentes. Por um lado, um ranking baseado na média das notas do Enade somente dos alunos concluintes, se essa variável for um bom sinalizador da competência do profissional no mercado de trabalho, é de extrema relevância para os seus potenciais empregadores e para os potenciais alunos, que querem estar associados com instituições cujas empresas têm interesse em contratá-los depois de formados. Por outro lado, um ranking baseado na média das notas do Enade somente dos alunos ingressantes, se essa variável for um bom sinalizador da qualidade do corpo discente, é relevante caso o aluno queira se beneficiar do efeito dos pares ao longo do curso e pela sinergia criada por estar em contato com bons alunos. Por fim, um ranking baseado somente no cálculo do valor adicionado (IDD) pode ser útil para os estudantes saberem quais cursos agregam maior valor na sua formação e para o trabalho de fiscalização feito pelo Minstério da Educação (MEC).

No que se refere ao ranking das escolas de ensino médio, o seu principal problema é que ele pode em alguma medida, refletir o comportamento oportunístico por parte das escolas. Em outras palavras, é possível que as instituições expulsem os piores alunos de forma a que eles não representem a escola no Enem, levando ao aumento da sua média e classificação no ranking. Por conseguinte, as escolas preocupadas em recuperar alunos com dificuldades seriam piores ranqueadas.

Caso os pais/alunos escolham as suas escolas com base neste ranking, isto pode levar a uma segregação no mercado. Isto porque as escolas melhores ranqueadas teriam um excesso de demanda, selecionariam cada vez mais os melhores alunos dentro do pool maior disponível de candidatos e, como resultado, manteriam ou melhorariam suas posições no ranking. O contrário se verificaria com as escolas relativamente piores. O problema é que estas últimas podem ser as mais eficientes na produção do serviço educacional.

Mesmo sendo possivelmente influenciado por comportamentos oportunísticos, o ranking das escolas tem o potencial de prover informações relevantes para diferentes públicos. Por um lado, se a nota do Enem sinalizar a futura competência do estudante do ensino médio que segue para o mercado de trabalho, o ranking é relevante para os potenciais empregadores. Por outro lado, se a nota do Enem sinalizar a qualidade do corpo discente da escola, o ranking é relevante para os pais no momento de escolher a escola dos seus filhos, devido ao efeito dos pares. Por fim, se a nota do Enem sinalizar a capacidade do aluno de completar com sucesso a graduação, os pais/alunos teriam interesse em utilizar o ranking.

Por fim, o estudo sugere aperfeiçoamentos nos dois rankings (de IES e escolas). No caso do ranking das IES, pelo menos dois ajustes poderiam ser feitos. O primeiro é referente às informações sobre o valor adicionado da instituição. Como este é estimado, tecnicamente o seu valor é uma variável aleatória. Neste sentido, é importante deixar claro que as diferenças entre os valores adicionados das diferentes instituições podem não ser de fato estatisticamente significativos e elas, apesar de receberem avaliações diferentes, podem na verdade ter a mesma qualidade de ensino. Para contornar este problema, o MEC deveria fornecer os intervalos de confiança dos valores estimados para os valores adicionados de cada instituição. Segundo, o ranking é baseado na premissa de que maiores notas no Enade geram, de alguma maneira, algum benefício para o indivíduo ou a sociedade. Por exemplo, como mencionado acima, maiores nota dos concluintes ou dos ingressantes podem ser um bom sinalizador, respectivamente, da competência do profissional formado ou da qualidade do corpo discente. No entanto, não existe evidencia empírica de que comprovem essas possibilidades. Esse ponto é particularmente importante, pois os testes de proficiência talvez não mensurem adequadamente o produto educacional de uma IES.

No caso do ranking das escolas, para contornar o problema relacionado a comportamentos oportunísticos mencionado acima, o MEC deveria divulgar, simultaneamente ao ranking existente, outro baseado no valor adicionado. Neste cálculo, deveria levar em consideração a razão entre o número de concluintes e ingressantes no curso no cálculo do mesmo, como é feito no cálculo do ranking das IES.

Leia estudo na íntegra.