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Salário mais baixo para as mulheres reduz o crescimento do país

Fonte: Folha de S.Paulo
Data: 08/03/2018

Entre 2007 e 2014, cada 10% de aumento na diferença salarial reduziu em 1,5% a expansão do PIB

Com cinco anos de carreira, a analista de logística Laíse Pereira, 26, recebe menos que o marido, o estatístico Rafael Ribeiro dos Santos, 29, ganhava com um ano de formado.
“Vejo a batalha dela e não me conformo. Sinto na pele a vantagem de ser homem branco em relação a ela, que, além de mulher, é negra”, diz ele. “Sei que a formação importa. O Rafael estudou na USP, sei que a área também influencia. Mas acho que nada justifica a discrepância tão grande”, afirma ela, que fez administração na Unip e pós-graduação no Senac.

Ciente do impacto da desigualdade sobre o orçamento do casal –que ainda não tem filhos–, o estatístico começou a refletir sobre esse custo para a sociedade e resolveu pesquisar o tema durante o mestrado em economia no Insper. Os resultados da tese recém-concluída confirmaram suas suspeitas: a discriminação contra a mulher no mercado de trabalho reduz o crescimento econômico. Segundo o estudo, entre 2007 e 2014, cada 10% de aumento na diferença entre salários –que tenha relação com o preconceito de gênero — reduziu em cerca de 1,5% a expansão do PIB per capita dos municípios brasileiros.

Entre as capitais do país, Curitiba tinha a maior diferença em 2007. O sexo do trabalhador explicava 28% do hiato de remuneração entre homens e mulheres. São Paulo exibia o terceiro pior indicador em 2007: 23%. Para ter uma ideia do efeito econômico disso, se a capital paulista tivesse, naquele ano, o mesmo indicador que Florianópolis, 15,4%, a renda média dos paulistanos subiria de R$ 52.797 para R$ 53.258 em 2014.”É uma descoberta importante. Mostra que a discriminação contra a mulher não é apenas questão de injustiça social. Também gera ineficiência econômica”, diz a pesquisadora Regina Madalozzo, que orientou a tese de Santos.

As causas e consequências da inserção desigual de homens e mulheres no mercado de trabalho têm sido tema recorrente de estudos internacionais recentes que chegam a conclusões semelhantes às de Ribeiro. Embora a diferença salarial por sexo tenha diminuído em alguns países, incluindo o Brasil, ela persiste desde a estreia na vida profissional e se amplia à medida que as pessoas envelhecem. Medir o tamanho da discriminação não é trivial — e o tema às vezes gera polêmica–, mas o avanço de técnicas estatísticas tem facilitado as estimativas.

CÁLCULO
Para calcular a discriminação por gênero em mais 3.000 municípios brasileiros, Santos utilizou a Rais (Relação Anual de Informações Sociais), que reúne dados do mercado formal de trabalho. O estatístico chegou a uma estimativa do tamanho do preconceito depois de isolar o impacto de outros fatores que, comprovadamente, influenciam os salários. Ou seja, ele identificou o que restou de diferença entre as remunerações de homens e mulheres depois de descontados os efeitos de escolaridade, ocupação, tempo de empresa, raça e região. Assim se uma mulher ganha menos do que um homem por ter um diploma de ensino superior de um curso menos valorizado do que o dele, esse efeito não distorceria os resultados encontrados.

Mas há outras questões —como interrupções na carreira causadas por pausas relacionadas à maternidade e qualidade da formação —que não foram quantificadas. Alguns estudos recentes que se dedicam a estimar o impacto desses fatores sobre a desigualdade salarial concluem que, mesmo depois de descontá-lo, ainda sobra uma diferença substancial que provavelmente é causada por discriminação ou o que algumas empresas têm chamado recentemente de “vieses inconscientes”.

Após mensurar o efeito de sua estimativa para a discriminação sobre os salários em 2007, Santos analisou a relação dessa variável com os movimentos do PIB per capita (valor da riqueza gerada no país dividida pelos habitantes) até 2014. Nessa etapa, também foi descontado o impacto de outros fatores que influenciam o crescimento econômico, como o peso de diferentes setores no PIB ou mudanças no nível médio de escolaridade da mão de obra. Descobriu que a parcela do crescimento do PIB per capita explicada pela desigualdade de gênero é relevante.

Outra conclusão de Santos é que a discriminação tende a ser maior em municípios mais ricos do litoral. Isso corrobora estudos que indicam que, conforme o nível de escolaridade dos profissionais aumenta, a desigualdade salarial entre eles também cresce. Esse fenômeno tem sido chamado de “efeito do teto de vidro” e sugere a existência de uma barreira invisível que impede a mulher de avançar a partir de certos níveis hierárquicos. Um número crescente de empresas tem reconhecido esse problema.

Por outro lado, em municípios de renda baixa, a menor diferença entre remunerações por sexo pode ter mais ligação com a prevalência de ocupações que pagam apenas o salário mínimo do que com menor preconceito contra a mulher.

DESISTÊNCIA
Laíse Pereira, esposa de Santos, diz entender perfeitamente porque a desigualdade entre os sexos tem custos para a sociedade: “Acho que muitas mulheres qualificadas acabam desistindo ou optando por trabalhar informalmente, com mais flexibilidade, porque se dão conta de que não vão chegar lá”, diz. Mas a analista se diz otimista com mudanças que vê ocorrendo. Na multinacional onde trabalha atualmente, ela ressalta, há muitas mulheres em cargos de gestão. “Isso motiva quem está em outras posições. ”

Segundo Regina Madalozzo, do Insper, as conclusões de Santos aprimoram a discussão sobre o tema porque mostram que a economia —o que inclui empresas individualmente— é penalizada pela discriminação. “Se ele encontrasse a relação contrária, de que a discriminação gera crescimento, talvez teríamos de concluir que as empresas podem estar lucrando mais com isso, e assim, reduzindo os custos de sua mão de obra. Mas não é esse o caso”.