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O brasileiro poupa o suficiente para a aposentadoria?

Pesquisa realizada pelo professor Ricardo D. Brito e pelo alumnus Paulo T. P. Minari,com base na Teoria do Ciclo de Vida, chegou a uma conclusão surpreendente: mantidas as regras atuais de previdência e assistência social, 95% dos brasileiros não precisariam poupar um centavo durante a idade ativa para garantir o mesmo padrão de vida depois de se aposentarem. E, mesmo sem poupar, a tendência seria que a renda per capita aumentasse com a aposentadoria.

“Uma baixa taxa de poupança voluntária é a reação correta da perspectiva do brasileiro médio que planeja um consumo estável, crente na manutenção do arranjo previdenciário vigente”, conclui o estudo. “Não fosse o altíssimo spread bancário, seria ótimo para o brasileiro médio se endividar na fase ativa para elevar seu nível de consumo.”

Entre 1970 e 2010, a expectativa de vida no Brasil saltou de 58,6 anos para 73,4 anos. Ainda assim, segundo pesquisa de Fábio Giambiagi citado por Brito e Minari, apenas um quarto dos brasileiros está preocupado com a aposentadoria. Mas os números dão razão à maioria.

De acordo com Brito e Minari, a poupança voluntária para a aposentadoria aparece como necessária apenas para famílias com renda mensal superior a R$ 40.000. Ainda assim, a razão entre riqueza complementar e salário anual é bastante inferior ao padrão norte-americano.

As razões principais para a manutenção do padrão de vida pós-aposentadoria são a alta taxa de reposição (razão entre o benefício de aposentadoria e o salário de contribuição) e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. O FGTS é uma poupança compulsória de 8% do salário anual capaz de garantir ao trabalhador 2,2 salários anuais ao se aposentar. Outros ingredientes que garantem o padrão de consumo: a redução dos impostos e a saída dos filhos de casa.

“Ao garantir taxas de reposição tão altas, o INSS impede que a perspectiva de rendimentos decrescentes com a idade opere como incentivo para a poupança durante a fase ativa”, afirmam os autores.

Artigo premiado

A pesquisa teve como base a dissertação de mestrado profissional em Economia de Minari, sob orientação de Brito. Juntos, os autores escreveram o artigo acadêmico “Será que o brasileiro está poupando o suficiente para se aposentar? (Is the Brazilian saving enough to retire?)”, escolhido como o melhor de 2015 da Revista Brasileira de Finanças, publicação oficial da Sociedade Brasileira de Finanças (SBFin), principal associação do país de pesquisadores nesta área.

Saiba mais sobre o alumnus Paulo Minari nesta entrevista para a Alumni News.

Publicado no volume 13 da revista acadêmica, em janeiro de 2015, uma versão anterior pode ser acessada aqui: Será que o brasileiro está poupando o suficiente para se aposentar?

O panorama da previdência social brasileira

Evento realizado pelo Centro de Finanças do Insper reuniu especialistas para debater os problemas e apresentar soluções para a previdência social brasileira. Na manhã do dia 10 de junho, no auditório Steffi e Max Perlman, o evento Previdência social: problemas e soluções foi aberto por Marcos Lisboa, presidente do Insper, que destacou a necessidade de que se reduzam os gastos com o setor, já que a população idosa cresce 4% ao ano, enquanto o número de contribuintes aumenta.

Reunimos em cinco páginas os principais tópicos abordados por cada palestrante. Confira.

Previdência social: problemas e soluções

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Acesse os arquivos das apresentações dos palestrantes.

O evento foi transmitido na íntegra pelo Live stream. Assista:

Crédito público beneficiou grandes empresas sem aumentar o investimento

A justificativa econômico-social para a concessão de crédito público é que projetos que geram externalidades positivas – tais como de infraestrutura ou inovadores – podem não parecer financeiramente lucrativos.

Esta análise, feita com base em quase 1 milhão de empresas que fizeram empréstimos de mais de R$ 30 mil entre 2004 e 2012, mostra que a expansão de crédito governamental, apresentada como alternativa para aliviar as restrições de crédito enfrentadas pelas empresas, não teve o direcionamento esperado. A expansão de incentivos governamentais pós-crise de 2008 não resultou em apoio para empresas mais novas, menores e potencialmente mais inovadoras. As companhias que receberam mais crédito público subsidiado foram as maiores, mais antigas e de menor risco, que menos sofrem com as restrições de crédito.

Se o crédito público teve papel importante durante a crise financeira, compensando a forte contração na oferta de crédito livre e privado, a expansão de concessões públicas continuou mesmo após a recuperação da atividade econômica. Entre 2008 e 2012, houve um aumento de participação pública de 13,39% do total de crédito.

Apesar da expansão de linhas de financiamento, os empréstimos às empresas que atuam nas áreas de saneamento, infraestrutura e transportes não foram proporcionais. O financiamento oferecido por bancos públicos às empresas sociais cresceu 4%, contra os 17,5% de expansão para empresas de outros setores.

A premissa de que o maior acesso ao crédito público levaria a um maior investimento das empresas também não se comprovou: o efeito dessas operações sobre a taxa de investimento é insignificante, pelo menos para as empresas de capital aberto. Além disso, notou-se um aumento de endividamento, e substituição do crédito privado pelo público direcionado. Como as taxas de juros no crédito direcionado são mais baixas, as empresas com maior acesso a esses empréstimos tendem a reduzir o custo da dívida.

Em suma, a análise sugere que os incentivos de crédito governamentais não aliviaram as restrições de crédito das empresas com menos acesso ao financiamento privado. Em detrimento de sua proposta, o principal efeito do aumento do crédito público foi financiar a taxas subsidiadas empresas que poderiam ser atendida pelo setor de financiamento privado.

O artigo, dos professores Marco Bonomo e Ricardo Brito, em coautoria com Bruno Martins (Banco Central), foi publicado em 2015 no Journal of International Money and Finance.

A versão em Working Paper está disponível no acervo do Insper.