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Impactos financeiros da participação de mulheres nos conselhos de administração de empresas abertas no Brasil

A participação das mulheres no mercado de trabalho apresentou uma grande evolução nos últimos cinqüenta anos. Participar do mercado de trabalho envolve não somente trabalhar efetivamente, mas também procurar emprego. Em 1960, segundo dados do IBGE, 16,5% das mulheres com 10 anos ou mais trabalhavam ou procuravam emprego , enquanto 77,2% dos homens na mesma faixa etária o faziam. Já em 2009, utilizando dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD), também do IBGE, o percentual de homens que participavam do mercado de trabalho era de 72,3%, representando uma pequena queda com relação às últimas cinco décadas, mas o percentual de mulheres aumentou significativamente: 52,7% das mulheres em idade ativa participavam do mercado. Essa participação feminina no mercado de trabalho no Brasil é comparável com as taxas de participação das mulheres no mercado de trabalho de países como França (52%), Alemanha (52,1%) e Japão (48,2%) para o mesmo ano. No entanto, ainda é bastante tímida a participação das mulheres no grupo de executivos do alto escalão das empresas, como diretorias ou presidência, e nos conselhos de administração das mesmas.

No estudo conduzido pelos professores do Insper, Regina Madalozzo e Sérgio Jurandyr Machado, foi possível calcular que a participação das mulheres restringe-se a somente 10,3% dos conselhos de administração e 5,6% das diretorias de empresas abertas no Brasil. O estudo utiliza dados de 153 empresas abertas que participavam do Ibovespa entre os anos de 2004 e 2008, inclusive. Essas empresas são dos mais variados setores da economia, exceto o setor financeiro, e, portanto, servem como representação do padrão das empresas abertas no país.

A trajetória histórica da participação das mulheres em conselhos e diretorias pode ser observada na Figura 1. Em 2004, as mulheres compunham 4,1% dos quadros de diretores dessas empresas, enquanto representavam 8,9% do total de conselheiros dessas mesmas empresas. Em 2008, esses números aumentaram timidamente para 5,6% das diretorias e 10,3% dos conselhos. Mais interessante ainda é a analisar o percentual de empresas que não tinham nenhuma mulher em seus altos escalões: em 2004, 80,4% das empresas não tinha nenhuma mulher em suas diretorias e 56,2% das empresas não tinham uma representante feminina em seus conselhos. Esses números foram ligeiramente alterados em 2008, quando 74,5% das diretorias e 51,6% dos conselhos eram compostos exclusivamente por homens.

Em uma economia que exige de suas empresas uma preocupação com a diversidade e o tratamento igualitário entre homens e mulheres, percebe-se a necessidade de uma revisão nos processos de contratação e promoção dentro desses negócios com a finalidade de facilitar o acesso, permanência e promoção de profissionais de ambos os gêneros no mercado de trabalho. Um dos possíveis entraves para a defesa dessa maior participação das mulheres nos quadros de alto escalão das empresas vem dos resultados mistos encontrados em pesquisas anteriores do impacto de um maior número de mulheres em conselhos e diretorias em medidas de lucratividade dessas empresas. Em um estudo publicado em 2009, Adams e Ferreira concluem que, apesar de diversos efeitos benéficos da participação de mulheres em conselhos de administração nas empresas que integram o índice Standard & Poors (S&P), o indicador de retorno sobre os ativos (Return On Assets, ROA) não tem bom resultado: o aumento no número de mulheres nos conselhos diminui significativamente esse indicador.

Não obstante, em um estudo divulgado em 2010 pela Consultoria McKinsey , quando se compara esse mesmo indicador de rentabilidade de empresas sem nenhuma mulher em seus conselhos executivos com as empresas com a maior participação de mulheres em seus conselhos – quartil superior na participação de mulheres em conselhos -, as primeiras apresentam um retorno médio de 15% entre 2004 e 2009, enquanto as segundas têm um retorno médio no mesmo período de 22%. Ou seja, o retorno sobre os ativos é 41% maior para empresas que mais apostaram nas mulheres em seus conselhos.

Os resultados preliminares encontrados pelos professores do Insper mostram não existir efeito do número de mulheres nos conselhos nesse mesmo indicador. Entretanto, no que diz respeito à variabilidade do ROA, que representa aumento ou diminuição no risco da empresa, o aumento de mulheres nos conselhos representa uma diminuição significativa nessa medida de risco da empresa. Esse resultado pode ser conciliado com a literatura que avalia aversão ao risco diferenciada para homens e mulheres (Eckel e Grossman, 2008 ).

O assunto ainda necessita de maior atenção, mas preliminarmente é possível verificar ao menos um efeito bastante benéfico da participação maior das mulheres na alta hierarquia das empresas. Em uma época que as economias do mundo todo lutam para se recuperar de uma grave crise financeira, a notícia de que a presença das mulheres nesses altos escalões pode representar atitudes menos arriscadas nas decisões estratégicas pode ser uma excelente notícia para a maior igualdade dos gêneros no campo profissional.

Figura 1: Participação das mulheres em conselhos executivos e diretorias das empresas abertas no Brasil

figura1

Fonte: Comissão dos Valores Imobiliários (CVM). Tabulação Machado e Madalozzo.

1 – Para dados brasileiros, considera-se que a população em idade ativa é a soma das pessoas com 10 anos ou mais residentes no Brasil. Outros países utilizam idades diferentes para o corte inferior e, algumas vezes, apresentam um limite de idade para a contabilização de pessoas em idade ativa, o que não ocorre para os dados brasileiros.
2 – Adams, R. e Ferreira (2009) “Women in the boardroom and their impact on governance and performance” publicado no Journal of Financial Economics, volume 94, pp. 291-309.
3 – McKinsey (2010) “Women at the top of corporations: making it happen”, da série Women Matter, relatório da consultoria McKinsey que está disponível no endereço: www.mckinsey.com/locations/paris/home/womenmatter.asp
4 Eckel, C. e Grossman, P (2008) “Men, Women and Risk Aversion: Experimental Evidence”, disponível no livro Handbook of Experimental Economics Results, Vol. 1, dos editors C. Plott e V. Smith.

Pesquisa na íntegra.