Controvérsias na bioprospecção mundial

Por Janna L. Rose, Gazi Islam, Cassandra L. Quave

Durante séculos, a extração e exploração arbitrária dos medicamentos à base de plantas mantiveram-se como um dos legados mais marcantes do colonialismo. Especiarias como gengibre, cravo e canela, utilizadas tanto como medicamentos naturais quanto como condimentos, constituíram algumas das primeiras mercadorias a circular nas rotas comerciais durante o Renascimento. Porém, após a Eco-92 (antecessora da Rio+20), os países clamaram por um jogo mais ponderado entre os diversos autores envolvidos com a atividade em que os desequilíbrios de poder não afetassem a produção do conhecimento científico. Esta reunião gerou a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), tratado que garante aos 175 países signatários direitos soberanos sobre o patrimônio natural, particularmente sobre os recursos genéticos, onde se inserem as espécies vegetais com propriedades medicinais.

As possíveis interpretações da CDB e suas aplicações têm sido debatidas durante as duas últimas décadas, com grupos distintos mostrando preocupações naturalmente divergentes. Na literatura jurídica e científica sobre a exploração das plantas, a divisão dos stakeholders costuma ser feita conforme o seguinte tripé: indústria biotecnológica e pesquisa aplicada; governos dos países ricos em patrimônio vegetal e, por fim, ONG’s, ativistas e pesquisadores acadêmicos. Cada um deles persegue uma agenda específica a refletir interesses particulares. Muitas vezes, porém, estes objetivos são deveras conflitantes. Um exemplo: a cada ano, a indústria farmacêutica investe bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento (P&D) de novos medicamentos fitoterápicos e espera que seus diretos de propriedade sobre os fármacos sejam protegidos. Biofarmacêuticas são, ao final das contas, legalmente responsáveis por proteger os interesses dos acionistas, e precisam de incentivo financeiro para operar. Por outro lado, os governos têm interesse no desenvolvimento de medicamentos capazes de contribuírem para o crescimento econômico, de garantir vantagens competitivas para suas indústrias de alto valor agregado e de ajudar na promoção da saúde pública. Agências federais, por sua vez, atuam como guardiãs das proteções legais. E, em último grupo, reúnem-se ONGs, ativistas, e pesquisadores que são, frequentemente, influenciados por intenções ideológicas, comportando-se como “advogados” de defesa dos direitos dos povos tradicionais contra a indústria ou contra o governo.

Tais relações antagônicas limitam, quando não impedem, as poucas tentativas de trabalhar de maneira integrada para fins comuns. Desde a Eco-92, e, em especial, desde as novas regras propostas em 2002 no âmbito global, como os bonn guidelines, que enfatizaram a importância da divisão dos benefícios, estes conflitos tornaram-se sobremaneira intensos que inibiram grande parte de investimento em P&D no campo da medicina herbal. Isto por que as companhias passaram a vê-lo como uma aposta muito arriscada. Desse triunvirato de grandes forças econômicas, políticas e sociais, exclui-se um grupo, em particular, de extrema importância na atividade bioprospectiva: as comunidades tradicionais detentoras do conhecimento popular que tanto contribuem com a pesquisa científica, fornecendo “pistas” iniciais sobre propriedades curativas de uma infinidade de espécies. Ironicamente, estas comunidades são, não raro, romantizadas como “fontes do tesouro escondido” do saber e da prática médica não oficial, mas sofrem o prejuízo da falta de proteção eficaz.

Na maior parte do mundo, é necessário que um (ou alguns) particulares sejam definidos como “donos” do conhecimento a ser resguardado – um conceito de propriedade inadequado para muitas formas de conhecimento cultural, compartilhado ou ancestral. O fato de o conhecimento ser compartilhado entre membros da comunidade, longe de fortalecer a proteção da cultura, pode mitigar as possibilidades de acesso aos ‘‘bônus’’ da atividade pelos povos tradicionais. A pesquisa ética na área da exploração do saber tradicional passa, em primeiro lugar, pela distribuição dos benefícios com aqueles contribuintes à produção do conhecimento científico. Reconhecer o devido valor das comunidades na atividade, particularmente dos grupos que foram marginalizados no passado, é um princípio inclusivo fundamental, que promove o acesso dos cidadãos à vida política e econômica do país, fortalecendo a democracia.

Uma maneira de garantir tal inclusão poderia envolver o estabelecimento de um protocolo transnacional para acesso aos recursos da coletividade. Em tais documentos, conhecidos como Access and Benefit-Sharing Agreements (ABS) no meio ambiental, os interesses de todos os autores podem ser respeitados. O ponto-chave é manter o diálogo aberto entre todos os stakeholders nesse campo bastante estratégico, em especial para países como o Brasil, detentor de uma das floras mais ricas do mundo (19% da global, excluindo fungos) e megadiverso.

Acesse o paper sobre o assunto.

Razão Versus Emoção

Gazi Islam, professor do Insper, explica por que as decisões tomadas em grupo podem não ser tão boas quanto as feitas por uma única pessoa.


Por Murilo Ohl

No calor da hora da decisão, a maioria das pessoas toma uma atitude diferente do que havia planejado. Essa é uma das conclusões de uma série de estudos feitos pelos professores Gazi Islam e Dany Claro, ambos do Insper, escola de negócios de São Paulo. A dupla também demonstrou que, diante da sensação de perda, a pessoa faz opções mais arriscadas do que quando está em vantagem. Por fim, os pesquisadores reaplicaram a experiência em grupos e constataram que o comportamento é muito parecido – os estudos foram feitos com alunos do Insper. Em resumo, urna decisão em grupo é tão exposta a variações emocionais quanto uma individual. Leia entrevista com Gazi Islam.

Quais são as conclusões dos estudos que vocês fizeram?
O que nós concluímos é que as pessoas desviam da estratégia inicial que traçaram quando influenciadas, principalmente, pela sensação de perda. Elas tendem a sair do planejamento e correr mais risco quando estão em desvantagem. A pessoa usa a razão na hora de planejar, mas, quando precisa tomar uma decisão durante a execução, ela tende a mudar o comportamento, e essa mudança é emocional. Na segunda experiência, quando pedimos para o grupo tomar decisões conjuntas, o resultado foi parecido.

Isso contraria o velho dito popular de que duas cabeças pensam melhor do que uma?
É verdade. Claro que era um experimento específico e o mundo real é diferente. Mas as decisões em grupo também tendem a sofrer a influência da emoção. Numa decisão em grupo, tão comum em empresas que formam equipes de trabalho reunindo funcionários de várias áreas, o componente emocional pode até mesmo ficar mais exacerbado. Isso porque o grupo proporciona uma sensação de segurança que alivia a responsabilidade individual de cada participante. Ou seja, as pessoas podem assumir ainda mais riscos quando estão trabalhando em grupo. Note que a experiência não revela se a escolha feita sob pressão é melhor ou pior, apenas que ela contraria o que havia’ sido planejado inicialmente. Às vezes, no trabalho, as opções feitas na última hora podem ser melhores do que o planejamento, ainda que menos racionais.

O que as pessoas podem levar em conta na próxima vez que estiverem trabalhando em grupo?
Quando avisamos as pessoas para controlar a emoção durante o teste, elas conseguiram ser mais fiéis ao planejamento inicial. Ou seja, na próxima reunião, fique atento ao seu comportamento e ao das outras pessoas. Observe os comentários dos participantes sob esse ponto de vista. Talvez você consiga detectar quem está agindo mais sob impulso.

(Você S/A 01/06/2011)

Colegas de trabalho recomendam mais aqueles que têm atitudes favoráveis

O exercício da “cidadania organizacional”, que conceito que expressa atitudes proativas dos trabalhadores que excedem seu escopo de trabalho para beneficiar companhia ou outros funcionários, pode contribuir para que seus praticantes sejam recomendados pelos colegas para novas oportunidades. Esse é um dos achados da pesquisa What Goes Around, Comes Around, de Gazi Islam, professor do Insper e da Grenoble Ecole de Management, na França, e Sean White, alumnus do Mestrado Profissional em Administração.

Ao contrário das atitudes positivas direcionadas a uma equipe, comportamentos de cidadania direcionados a apenas um indivíduo em especial, como um colega de departamento, podem resultar na não recomendação. “As pessoas parecem, realmente, refenderar aquele colega que olha para a coletividade. Então, uma dica seria prestar atenção ao grupo, dosando e perseguindo contatos e proximidades. Relações estabelecidas fora do ambiente de trabalho, como encontros frequentes em associações, clubes, igrejas ou fraternidades, por exemplo, também conduzem à recomendação”, afirmou White.

Para Islam, o estudo reforça a centralidade do network no âmbito organizacional. “Não é só o currículo que soma pontos. A rede pode trazer vantagens para qualquer profissional. Estrategicamente, é possível imaginar que possa ser interessante ter atitudes voltadas ao grupo para a conquista de melhores chances no mercado. Já quem faz isto naturalmente, poderá sair-se melhor ainda”, disse. Para ele, a capacidade de ir além do escopo pelo grupo, além da qualificação técnica, também pode ser entendida como capital humano.

Os resultados do estudo, feito com 100 profissionais, mostram que mesmo aqueles com alta capacidade técnica, mas com posturas favoráveis a um único indivíduo, podem ser prejudicados em relação às recomendações. “A capacidade técnica importa, mas o indivíduo que tem competência e vai além de sua função pelo bem do grupo cresce muito mais do que aqueles igualmente capacitados que se voltam para alguma pessoa em especial ou agem apenas dentro seu escopo, sem ir além”, afirmou White.

A pesquisa também constatou que os chamados meeting points, contatos estabelecidos fora do ambiente de trabalho, como encontros em associações comunitárias, clubes, etc., podem levar a recomendação por si só, o que serviria de alerta para recrutadores, gestores de recursos humanos e head hunters. A orientação dos autores seria investigar a origem do contato para apurar se a recomendação é, de fato, baseada em critérios de desempenho profissional ou motivada por laços estabelecidos socialmente e fora das organizações.

Na imprensa

A revista Você SA também publicou matéria sobre esta pesquisa. Leia no site da revista.