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Fabio Chaddad e o Agronegócio

Por Marcos Sawaya Jank

Na última quinta-feira, o Insper organizou evento para lançar a edição em português do livro “Economia e Organização da Agricultura Brasileira”, do professor Fabio Ribas Chaddad, e batizou uma das salas de aula da instituição com o seu nome.

Em setembro passado, já muito debilitado por uma doença, mas com inacreditável energia e lucidez, Fabio veio ao Brasil para lançar a versão original do livro em inglês. Ele faleceu logo depois, aos 47, em Missouri, onde lecionava estratégias, organizações e agronegócio.

Fabio combinava características difíceis de serem encontradas em uma única pessoa: o rigor acadêmico, o ouvido sempre aberto e interessado nas pessoas e nas experiências do mundo real e uma invejável capacidade de síntese em inglês.

Seu livro traz a melhor narrativa existente sobre a evolução do agronegócio brasileiro desde os anos 1970, uma experiência de sucesso infelizmente ainda pouco reconhecida no país e desconhecida no resto do mundo. Fabio desenvolve uma abordagem microanalítica em cima de estatísticas precisas, descrições factuais e estudos de caso para explicar como o Brasil se tornou uma potência no agronegócio mundial, com ganhos de produtividade total superiores a 3% ao ano no período, quase o dobro dos EUA e o triplo do mundo. Isso colocou o Brasil entre os cinco maiores produtores de 36 commodities de origem agropecuária.

Ele chama de “condições capacitadoras” os fatores de geração de competitividade mais conhecidos e citados:
a) disponibilidade de recursos naturais (terra, água e clima);
b) investimentos públicos e privados em tecnologias tropicais;
c) políticas públicas estratégicas, não só as que apoiaram diretamente o agro —crédito rural, preços mínimos, estoques reguladores e programas sociais— mas também, e principalmente, as que o libertaram das garras excessivas do governo: fim dos controles de preços, desregulamentação, liberalização e enfrentamento da concorrência global.

Mas o lado mais inovador da obra é uma minuciosa descrição das formas organizacionais que marcaram a expansão do agro brasileiro e que talvez sejam os elementos mais sólidos para explicar os fortes ganhos de produtividade.

Fabio mistura histórias individuais de empreendedores que desbravaram o Brasil com a consolidação de robustas cooperativas (Coodetec, Castrolanda, Agrária), associações setoriais (OCB, Ocepar, Unica, Aprosoja) e notáveis instituições de pesquisa (Embrapa, CTC, Esalq, Fundação MT etc.).

Ele identifica três modelos distintos de organização das cadeias de valor do agro:

– Região Sul: integração de pequenos e médios produtores em sólidas cooperativas e arranjos contratuais com processadores de grãos, suínos, aves, lácteos e fumo.

– Região Sudeste: consolidação de sistemas verticalmente integrados de produção, apoiados por contratos a montante e a jusante, como no exemplo das indústrias da cana-de-açúcar, celulose e laranja, fortemente voltadas à exportação.

– Regiões Centro-Oeste e Centro-Norte: emergência de grandes grupos familiares e corporações empresariais, que inauguram sistemas que aproveitam economias de escala e escopo em grãos, algodão e carnes, mas com desafios a vencer na organização das cadeias de suprimento.

Fabio mostra que recursos naturais, tecnologia e subsídios foram condições relevantes, mas não suficientes, para fazer a festa acontecer no agronegócio. Na verdade, o sucesso do modelo brasileiro nasce de milhares de empreendedores anônimos que desbravaram o país, se organizando por meio de sistemas agroindustriais inovadores que geraram aumentos de produtividade sem paralelo no mundo.

Sobre o autor

Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio, líder do grupo Asia-Brazil Agro Alliance.

Artigo publicado na Folha de S. Paulo no dia 19/08/2017

Agricultura brasileira é exemplo mundial em produtividade e inovação

A agricultura é exemplo de inovação no país, além de ser um dos maiores players quando se fala de produtividade. Terceiro maior exportador do mundo, o setor agrícola nacional sempre aposta em novas tecnologias – 25% dos drones em operação no Brasil são usados pela área, de acordo com dados da MundoGeo, promotora da principal feira de drones do país, a DroneShow. O problema é que tal desempenho não é reconhecido internamente e é desconhecido no exterior.

Para discutir o tema, o Insper organizou o evento As lições da agricultura para a produtividade da economia brasileira, no último 17 de agosto. Aberto por um painel com o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, o encontro lançou a versão em português do livro Economia e Organização da Agricultura Brasileira, do professor Fábio Chaddad. A edição em inglês foi lançada também no Insper, em 2016. Veja aqui como foi.

Publicado pela editora Elservier, a obra de Fábio Chaddad traz uma boa reflexão sobre o que foi abordado no evento. Além de contar a história da agricultura brasileira, desenvolveu formas organizacionais inovadoras para obter ganhos de produtividade e competitividade na região tropical do planeta, que deveriam servir de exemplo para os formuladores de políticas globais.

O evento de lançamento ainda contou com um debate sobre a obra com Elizabeth Farina, diretora-presidente da UNICA, Marcos Jank, líder do grupo Asia-Brazil Agro Alliance, e Rodrigo Santos, presidente da Monsanto do Brasil. A conversa foi moderada pelo professor Carlos Melo.

Produtividade

Adam Smith já apontava em A Riqueza das Nações (1776) que a produtividade tinha um papel importante. A passagem mais famosa do livro é a da fábrica de alfinetes, quando ele percebe que é possível produzir bem mais com os mesmos recursos. Esse princípio, entretanto, não mereceu a atenção que merece nos últimos anos.

Em 2016, a produtividade brasileira registrou crescimento de apenas 24% desde a década de 1980, um aumento de 0,6% ao ano. No período entre 1950 e 1980, o ritmo de crescimento havia sido sete vezes maior, de 4,2% ao ano. Muito desse desempenho se deveu à migração das pessoas do campo para cidade e às reformas do governo Castello Branco.

“Castello Branco protagonizou o maior período de reformas na história do Brasil”, afirmou Nóbrega em sua exposição no evento. “Em apenas três anos, criou o Banco Central, um sistema tributário moderno, fez uma reforma tarifária, criou as famosas cadernetas de poupança, aprovou a lei do mercado de capitais, enfim, apresentou um conjunto bem expressivo”, completou.

Com a crise dos anos 1980 e reformas estagnadas, o Brasil transitou para uma economia de baixa produtividade e, assim, de baixo potencial de crescimento. A razão para a queda tem algumas causas: sistema tributário caótico, legislação trabalhista obsoleta, baixo incentivo à inovação. “Hoje, o ICMS é algo que não pode ser salvo. Ele muda 70 vezes por semana e é a principal causa de queda de produtividade”, afirmou Nóbrega.

Um dos setores que estão salvando a produtividade brasileira é o agronegócio. Só no setor, a produtividade representa 92% do crescimento.

Papel da agricultura

Os ganhos nos últimos anos marcaram o crescimento do agronegócio no Brasil, colocando o setor na posição de protagonista da economia do país. Enquanto a produção de outros segmentos aumentou no máximo 1% ao ano, a produtividade agrícola apresentou crescimento anual de cerca de 3% desde 1975.

Para Marcos Jank, alguns fatores levaram o Brasil aos ganhos de produtividade na agricultura, como a queda no preço dos alimentos de 80% desde os anos 1980. “Fabio mostra que recursos naturais, tecnologia e subsídios foram condições relevantes, mas não suficientes, para o sucesso observado no agronegócio. Na verdade, esse sucesso nasce de milhares de empreendedores anônimos que desbravaram o país, se organizando por meio de sistemas agroindustriais inovadores que geraram aumentos de produtividade sem paralelo”, acrescentou.

Segundo Elizabeth Farina, para o Brasil se projetar como player internacional são necessárias mudanças institucionais. Opinião compartilhada por Rodrigo Santos. “Vivemos em um país fechado que não tem acordo de comércio. A agricultura brasileira ganharia muita competitividade com o mercado aberto, seja com a União Europeia, NAFTA ou outro bloco econômico. Precisamos mudar as regras do jogo”, afirmou o presidente da Monsanto.

O cenário futuro, porém, é bastante positivo. Para Nóbrega, o Brasil é o país que apresenta mais condições de continuar a crescer entre os maiores produtores mundiais (EUA, China, União Europeia e Índia). E mais: os brasileiros são os únicos no mundo que conseguem colher até três safras ao ano. No Centro-Oeste, é possível trabalhar com soja, milho e pecuária (integração lavoura-pecuária).

Mais sobre o livro

Leia artigo de Marcos Jank sobre o livro: Fabio Chaddad explicou como ninguém o agronegócio brasileiro.

O livro também inspirou Maílson da Nóbrega a escrever um artigo, publicado na Veja no início deste ano: Uma revolução no campo

Assista a íntegra do evento, transmitido online:

A produtividade do agronegócio e o futuro do setor no Brasil

Os últimos 40 anos marcaram o crescimento do agronegócio no Brasil, colocando o setor na posição de protagonista da economia do país. Enquanto a produção de outros segmentos decresceu ou aumentou no máximo 1% ao ano, a produtividade agrícola apresentou crescimento anual de cerca de 3% desde 1975.

O setor foi tema de encontro com Fabio Chaddad, autor do livro “The Economics and Organization of Brazilian Agriculture”, professor Joint Appointment do Insper e associado na University of Missouri, no último dia 21 de setembro no auditório Steffi e Max Perlman do Insper.

Com abertura de Claudio Haddad, presidente do conselho deliberativo do Insper, e de Marcos Lisboa, presidente da instituição, Chaddad falou sobre seu livro em debate mediado pelo professor Sérgio Lazzarini e com a participação de André Pessoa, sócio-diretor da Agroconsult, Decio Zylbersztajn, professor titular da FEA-USP, e Rodrigo Lima, diretor geral da Agroicone.

O avanço da produtividade

Fábio Chaddad conta em seu livro como o Brasil, um país tropical, pobre, importador de alimentos e com fortes problemas de segurança alimentar tornou-se em 40 anos uma das três potências agrícolas do mundo, atrás somente da União Europeia e dos Estados Unidos.

“O Brasil cresceu 3 vezes mais que o mundo em produtividade agrícola. Conquistamos segurança alimentar. Hoje a família brasileira gasta somente 16% da sua renda em alimentos. Na década de 1960, gastava um terço. O preço real da cesta básica caiu 80%”, analisa Chaddad. Além da produção sustentar o consumo interno, também viabilizou a melhora da balança comercial. O país passou a ser terceiro maior exportador alimentar mundial e desde 1980, o agronegócio acumula um superávit de US$ 664 bilhões, enquanto os outros setores da economia registram um déficit de US$ 313 bilhões.

O Brasil tem recursos favoráveis para a agricultura. Cerca de 14% das terras potencialmente agricultáveis e aproximadamente 13% dos recursos hídricos renováveis do planeta estão no país. O clima tropical é outro fator positivo, permitindo o plantio e a colheita o ano todo. Nos Estados Unidos, na Argentina, no Uruguai, na Austrália, na China e em países da Europa, por exemplo, o setor conta com uma safra por ano devido às condições climáticas.

O evento foi transmitido na íntegra pelo Live Stream.

Mas não é só isso, o casamento entre a inovação tecnológica e os bons centros de pesquisa públicos e privados, como a Embrapa, a ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, e o Instituto Agronômico de Campinas, e o CTC – Centro de Tecnologia Canavieira foram decisivos para esse crescimento, segundo os debatedores.

Chaddad chama atenção para os empreendedores, que, por exemplo, desbravaram o centro-oeste, a boa gestão de pessoas e a organização das cadeias verticais, que colaboraram para impulsionar a produtividade. “Recursos naturais, tecnologia e subsídios não fazem a festa acontecer”, diz. Os diferentes modelos de agronegócio apontados no livro mostram que toda cadeia, quando organizada, se torna bem-sucedida.

O futuro do setor

O livro “The Economics and Organization of Brazilian Agriculture” nasce para ser um marco histórico no agronegócio ao analisar a ascensão do setor no país de forma aprofundada e provocar reflexão sobre o futuro. Para isso, a organização de cadeias e a adequação tecnológica contínua são fundamentais.

Outro ponto de atenção é a necessidade de avanços na área social e ambiental. Muitas áreas foram mal exploradas, tornando-se improdutivas. Os debatedores destacaram que a resposta para esse cenário é discutir uma política de crédito que estimule a concorrência, o empreendedorismo e a inovação.

Fabio Chaddad mostra que a estrutura fundiária é preocupante. Houve uma consolidação excessiva. Em 2006, 3,8 mil propriedades com mais de 2,5 mil hectares concentravam 62% da área de produção e essa tendência aumentou, segundo o professor. “Houve uma injeção de capital externo muito forte nessas grandes corporações. Mas as famílias entre 500 e 2 mil hectares precisam de cooperativas para conseguir competir e sobreviver”, diz.

Sobre o livro

A ideia do livro foi maturada por três anos e ele levou um ano para ser escrito. Fabio Chaddad contou com a colaboração de engenheiros agrônomos gabaritados e entrevistou mais de 50 pessoas para compor sua pesquisa de campo. “Foi muito trabalho para traduzir o conhecimento, as experiências e as histórias que são únicas”, conclui.

“The Economics and Organization of Brazilian Agriculture – Recent Evolution and Productivity Gains” foi lançado em setembro de 2015 na versão em inglês. O livro ainda está sendo traduzido e a expectativa é de que até o primeiro semestre de 2017 a versão em português seja lançada. A escolha de um lançamento prévio no exterior foi elogiada pela importância de se explicar para outros países como funciona o modelo de agronegócio brasileiro.

A obra traz 178 páginas de reflexão sobre a história da agricultura brasileira, táticas para ganhos de produtividade e competitividade internacional, além apresentar exemplos para os formuladores de políticas globais. Já está disponível neste link.

Leia mais sobre o livro neste artigo de Marcos Lisboa.

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