Home/Insper Conhecimento/Carolina da Costa

Os rumos e desafios da inovação social

Muito se fala sobre tecnologia e inovação. Mais do que isso, existe uma certa ‘tecno utopia’ que atribui à conectividade, cada vez maior entre as pessoas, a promoção da democratização instantânea e da prosperidade. Mas será que a tecnologia em si tem o poder de reconstruir o mundo ou será que há um potencial não explorado e ainda mais transformador por trás dessas mudanças?

Para discutir esses e outros dilemas, o Centro de Liderança e Inovação ao lado da Fundação Arymax, receberam o Diretor Executivo do centro cultural e comunitário 92Y, de Nova York, Henry Timms. Ele e a diretora executiva e co-fundadora do Centro, Carolina da Costa, debateram sobre os principais rumos e desafios da inovação social.

Segundo ele, uma visão muito mais interessante e complexa, onde dois poderes distintos se contrapõem, pode ser a resposta para uma transformação que na verdade estaria só começando. Henry Timms afirma que a principal mudança da nossa sociedade não está na tecnologia em si, mas na forma como enxergamos o poder. Assim, ele diferencia dois cenários: o poder antigo e o novo.

O antigo poder seria representado por algo mais restrito, para poucos. “Funciona como uma moeda que deve ser poupada”, explica. Já o novo poder opera de forma diferente, traria um conceito mais participativo e transparente, no qual o objetivo principal não é armazenar o poder (ou a moeda), mas canaliza-lo.

Segundo ele, essa mudança também constitui novas lideranças e perspectivas por parte do grupo. Neste sentido, cada vez menos esperamos soluções prontas. Esperamos que as lideranças criem contextos para a solução de problemas em conjunto.

henry timms
Henry Timms e Carolina da Costa durante debate

A Inovação Social

O novo poder ganha força a partir de grupos de indivíduos com capacidade de ir além do simples consumo de ideias e bens. Com a inovação social, os valores criados a partir de uma nova concepção de poder passam a transformar a forma como as pessoas se sentem, no que acreditam e como se comportam.

Diante disso, se antes não se exigia muito do consumidor além da compra, agora o novo poder traz um fator revolucionário que é a participação, tornando o engajamento com uma causa a maior missão e desafio da inovação social.

Na “Escala de Participação” desenhada por Henry Timms em parceria com seu colega Jeremy Heimans, o modelo novo tem nas pessoas seu principal alicerce, de modo que qualquer campanha precisa e depende da adesão e do engajamento de forma orgânica. Isso já acontece, por exemplo, em plataformas como YouTube, Airbnb ou Wikipedia.

Segundo ele, o termômetro de uma boa campanha começa com o consumo tradicional de conteúdo, passa pelo compartilhamento, bruto ou remodelado de acordo com as necessidades e releituras do público alvo, até as doações em dinheiro (conhecidas como crowdfunding) e a produção de conteúdo pelo próprio público. O pico mais alto de engajamento, segundo Henry Timms, é o momento em que a iniciativa ganha força popular e já não possui mais um dono ou autor. Ela caminha sozinha, ganhando novos formatos e significados organicamente.

Este conceito é muito característico do novo poder mencionado anteriormente, em que a co-criação é mais valiosa do que a patente ou a divulgação da marca. Esta característica é muito presente em alguns contextos digitais atuais, como o recente impasse entre Amazon e a editora Hachette (“Readers United” vs. “Authors United”). Na ocasião, a editora foi pressionada a vender seus e-books por um preço mais baixo dentro da plataforma da Amazon.

“Ambos os lados têm um exército de lobistas, mas apenas um é capaz de mobilizar um exército de cidadãos”, reforça Henry Timms em seu artigo da Harvard Business Review ao mencionar as disputas entre empresas de tecnologia e detentoras de direitos autorais. Neste sentido, Timms destaca o papel da mobilização para os novos modelos de negócio e a importância do novo poder nas empresas.

Giving Tuesday

Considerado o mais recente e brilhante exemplo de inovação social o movimento “Giving Tuesday” parte da simples ideia de converter o consumo (vistos na Black Friday ou Cyber Mondays), encorajando pessoas a aderirem movimentos filantrópicos. “Já temos dois dias bons para movimentar a economia. Aqui está um dia bom para fazer o bem”, pontua Henry Timms.

Novos tipos de organizações estão emergindo e, não há dúvida que chegou a vez do empreendedorismo social ir ao encontro dos recursos tecnológicos e da inovação. O “Giving Tuesday” é o exemplo de algo que começou como uma pequena campanha e ganhou força vertiginosa em todo território dos EUA. Outras marcas se apropriaram da campanha, redesenharam o conceito de acordo com suas necessidades e, graças a isso, o movimento conquistou um forte engajamento orgânico.

O projeto no ano passado arrecadou U$ 116.7 milhões e teve mais de 1.3 milhões de menções nas redes sociais. O “Giving Tuesday” também alcançou novos territórios e hoje está presente em 71 países, entre eles Austrália, Argentina, Grécia e o próprio Brasil.

O futuro do setor

Ao fim do debate, Henry Timms dá três dicas para o que, segundo ele, será o futuro da inovação social.

1.       Ferramentas acima das regras

Estamos acostumados a dar ordens e orientar as pessoas sobre o que deve ser feito, mas fornecemos poucas ferramentas para que isso de fato seja concluído. Em inovação social a missão é criar ferramentas para que as pessoas possam dar o melhor delas mesmas, ao invés de fazer com que se encaixem em nosso ponto de vista.

2.       Precisamos estar preparados para colocarmos a missão do projeto acima das marcas

Na nova estrutura de poder, se o seu projeto é redesenhado e abraçado por outras iniciativas com o mesmo conceito, ele é um grande sucesso. Mesmo que a sua marca ou logo não tenham grande destaque dentro do contexto.

3.       “You´re not luminous. But from time to time you´re a conductor of light”.

O futuro da inovação social é menos sobre ferramentas estruturadas e indivíduos que realizam todo o trabalho e mais sobre pessoas que dão um passo atrás e “conduzem a luz” de tempos em tempos. Este é o papel do novo líder: dar espaço para a evolução individual da equipe e conduzi-los.

Confira o evento na íntegra: