Artigo: Desemprego e Crise Social

Por Naercio Menezes Filho – coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

Os últimos dados divulgados pelo IBGE mostraram que a taxa de desemprego atingiu 9% da força de trabalho no trimestre encerrado em Outubro de 2015, um forte aumento com relação ao mesmo trimestre de 2014. Para entendermos melhor os efeitos desse desemprego crescente sobre o bem-estar das famílias e a situação social do país é importante entender a sua composição. Afinal, se o aumento do desemprego atinge principalmente os jovens que moram com os pais, o seu efeito sobre o bem-estar é menor do que quando o próprio chefe de família é o mais afetado. Como tem evoluído a composição do desemprego nessa crise recente?

A figura ao lado mostra a evolução da contribuição (em pontos porcentuais) de cada grupo etário para a taxa de desemprego total do país nos últimos vinte anos. Essa contribuição depende da taxa de desemprego específica de cada grupo e da sua participação na PEA total. Dividimos a população brasileira em quatro grupos: homens adultos (25 a 70 anos), mulheres adultas, jovens (15 a 24 anos) que moram com os pais e jovens que moram sozinhos. Os resultados são bastante desanimadores.

A figura mostra que em 1995, antes do ciclo recessivo anterior, a categoria que mais contribuía para o desemprego total eram os jovens que moravam com os pais (2,25%). Homens e mulheres adultas contribuíam com a mesma taxa (1,5% cada um) e os jovens que moravam sozinhos contribuíam com menos de 1%. A recessão do final dos anos 90 atingiu principalmente os jovens que moravam com os pais e as mulheres adultas, que na maior parte dos casos não são “chefes” da família. Assim, o impacto da crise anterior sobre a bem-estar das famílias foi menor.

Entre o final da década de 90 e os dias de hoje muita coisa mudou na população brasileira. A proporção das mulheres adultas na PEA total, por exemplo, passou de 30% para 35%, refletindo sua maior escolaridade e o menor número de filhos por família. Assim, a contribuição da taxa de desemprego das mulheres para a taxa de desemprego global também aumentou.

Por outro lado, a participação dos jovens declinou no mesmo período por duas razões. A transição demográfica fez com que o número absoluto de jovens diminuísse na década passada, pela primeira vez na história brasileira. Isso afetou tanto os jovens que moram com os pais como aqueles que moram sozinhos. Além disso, o aumento da renda dos pais que ocorreu na década passada, decorrente dos aumentos do salário-mínimo e do aquecimento dos setores de comércio e serviços, fez com que muitos jovens que moram com os pais pudessem ficar só estudando ao invés de procurar trabalho.

Desta forma, a taxa de desemprego agregada reduziu-se entre 2003 e 2011 por dois motivos. O primeiro foi a redução na importância do grupo mais jovem, que tem uma taxa de desemprego muito alta (16% em 20003), com o concomitante aumento da participação das mulheres, que têm desemprego menor (8,5% em 2003). Além disso, a taxa de desemprego dentro desses dois grupos diminuiu nesse período, como resultado do aquecimento da economia. Vale notar, porém, que as taxas de desemprego desses grupos nunca voltaram aos seus valores iniciais (1995) e que seus níveis em 2015 já são maiores do que no pico da crise anterior (2003).

E o que está acontecendo atualmente? A figura mostra que entre 2011 e 2015 (dados da nova Pnad-Contínua do IBGE), a grupo demográfico que mais contribuiu com o aumento do desemprego agregado foi justamente o homem adulto, que ainda é o chefe de família na maioria dos domicílios. Isso aconteceu porque a taxa de desemprego desse grupo aumentou bastante, de 3,1% em 2011 para 5,5% em 2015, seu maior nível desde 1995. Assim, o grupo mais afetado pelo desemprego atualmente tem sido justamente o que mais precisa de emprego, ou seja, o chefe de família. Assim, a perda de bem-estar nas famílias brasileiras hoje em dia está sendo maior do que na crise anterior.

Mas, isso não é tudo. Vários estudos mostram que quando o chefe de família perde o emprego, o cônjuge e o filho entram na força de trabalho para tentar substituir a renda perdida. Muitas vezes o jovem deixar de estudar para procurar emprego. Mas, como não há empregos disponíveis, a taxa de desemprego entre os jovens e mulheres deve aumentar bastante nos próximos meses. Isso significa que a taxa de desemprego em 2016 deverá superar o pico de desemprego no ciclo recessivo anterior, quando chegou a 10,5% da força de trabalho.

A situação só não será pior porque ao longo da década passada a sociedade aperfeiçoou seus programas de transferências de renda, tais como o bolsa-família, que foram criados justamente para evitar o aumento da pobreza em situações difíceis como essa. Mas será que esses programas serão suficientes para evitar uma crise social em 2016?

Composição

Artigo publicado no Valor Econômico  em 22/01/2016