[{"jcr:title":"Paixão por diversidade e tecnologia. E por fazer a diferença"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Paixão por diversidade e tecnologia. E por fazer a diferença","jcr:description":"Da solidão da mulher negra à luta pela inclusão, a história de Lisiane Lemos, secretária extraordinária de Inclusão Digital no Rio Grande do Sul"},{"subtitle":"Da solidão da mulher negra à luta pela inclusão, a história de Lisiane Lemos, secretária extraordinária de Inclusão Digital no Rio Grande do Sul","author":"Ernesto Yoshida","title":"Paixão por diversidade e tecnologia. E por fazer a diferença","content":"Da solidão da mulher negra à luta pela inclusão, a história de Lisiane Lemos, secretária extraordinária de Inclusão Digital no Rio Grande do Sul   Bárbara Nór   Em pouco mais de uma década de carreira, Lisiane Lemos, 33 anos, já viveu muitas vidas. Ela já trabalhou no terceiro setor, morou na África, foi líder na Microsoft e no Google, fez parte de iniciativas para diversidade e inclusão, como o conselho consultivo do Fundo de Populações da ONU, e hoje é secretária extraordinária de Inclusão Digital e Apoio às Políticas de Equidade no estado do Rio Grande do Sul. Não é à toa que ela já foi apontada pela ONU como uma das mulheres negras mais relevantes no mundo abaixo dos 40 anos e como uma das brasileiras mais influentes na lista “Forbes under 30”, da revista americana de negócios. Lisiane foi a personagem escolhida por InsperDiversidade para falar sobre a representatividade feminina no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho. Nessa data, em 1992, na República Dominicana, foi realizado o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, que discutiu temas como o racismo e o machismo. Para Lisiane, sempre ficou claro que histórias como a dela são exceção — e não a regra. “Nós, mulheres negras, estamos sempre na base da pirâmide, estudando mais e ganhando menos, e é um lugar de muita solidão, não só afetiva, mas intelectual”, diz. Quanto mais ela cresce, mais a sensação pode ser de isolamento. “Em muitos ambientes você não tem como discutir, não tem outra pessoa para falar sobre história e coisas que vive no dia a dia, as pessoas não entendem o tamanho da dor.” Desde cedo, Lisiane teve a sensação de viver em dois mundos. De um lado, estava a sua família, ativamente envolvida com a cultura afro, o carnaval e a valorização da ancestralidade das pessoas negras no Brasil. O gosto pelos estudos, aliás, também veio da família. A mãe, por exemplo, é professora universitária e o pai se aposentou como bombeiro e se formou em Direito já mais velho — o mesmo curso em que Lisiane se formou. Sua primeira opção era Psicologia, mas, por não ter como estuar em uma faculdade privada, ela acabou escolhendo Direito, que cursou na Universidade Federal de Pelotas. Por mais que tivesse uma realidade relativamente privilegiada, ela conta que sua família sempre fez questão de que Lisiane conhecesse desde cedo a realidade da maioria das pessoas negras e pobres do Brasil. “Meu envolvimento com diversidade vem da minha mãe, avó e tias, que sempre tiveram essa atuação voltada para a periferia e vulnerabilidade”, diz. De outro lado, os espaços em que Lisiane estudava e trabalhava sempre foram majoritariamente brancos — e nem sempre tão acolhedores. “Como criança preta, a gente descobre muito cedo o que isso significa. O racismo já apareceu de fora ofensiva para mim desde o início”, diz. “Duas semanas atrás, encontrei pessoas que não reconhecerem que sou secretária do Estado, porque não é o perfil desse cargo ser uma mulher preta”. O lugar onde ela nasceu, Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, acaba sendo uma marca dessa invisibilização. “Essa é uma cidade em que metade da população se autodeclara preta ou negra, mas essa não é a imagem que as pessoas têm do Rio Grande do Sul”, diz Lisiane. “Quando fui embora, em 2013, eu dizia que só voltaria para Pelotas morta dentro de um caminhão de bombeiros, porque tenho muitas lembranças dolorosas.” Mas, durante a pandemia, ela voltou a morar em Pelotas e acabou se reconectando com o lugar. “Isso me fez ressignificar o que a cidade representa para mim e voltar meu olhar para como posso ajudar a construir um estado que seja mais acolhedor para pessoas como eu”, diz. Como um símbolo acidental dessa reconciliação, em julho deste ano, Lisiane foi homenageada pela cidade de Pelotas como cidadã emérita, um marco em sua trajetória.   Retorno às origens Mas, por muito tempo, Lisiane não só queria sair de Pelotas, como queria morar fora do país. Logo no início da carreira, quando atuava junto à Aiesec, uma ONG voltada para o intercâmbio de jovens, Lisiane tinha o plano de morar cinco anos no continente africano. Assim, em 2013, ela saiu do Brasil pela primeira vez para ir morar em Moçambique, no sul da África, como diretora da Aiesec. Por trás desse desejo de ir para a África estava uma ideia de reencontro com suas origens. “Eu sentia um pouco de inveja das pessoas falando de onde tinham vindo os avós, como tinham emigrado para o Brasil, conseguindo contar essa história”, diz. Quando estava na escola, tampouco ainda se falava sobre a África e suas especificidades. O continente era reduzido à sua ligação com a escravidão. “Para qualquer pessoa preta que pisa em solo africano, é algo indescritível, não tem como reproduzir o sentimento que dá quando você desce do avião e pensa: ‘Cheguei ao lugar de onde eu vim’.” Em Moçambique, ela morou com seis pessoas que conheceu pela internet, aprendeu a negociar “como ninguém” e a se responsabilizar em escutar os outros de uma forma mais atenta e aberta. “Eu cheguei muito com arrogância de brasileiro, mas aprendi logo que era uma cultura muito diferente”, diz. “A experiência me mostrou que a África não é uma coisa só; existem várias dentro dela.” O período também despertou seu lado ativista, principalmente em relação às mulheres. Lá, ela via as mulheres com muito menos protagonismo do que no Brasil, relegadas ao papel de mães e esposas. “Percebi o quanto eu queria que nós ocupássemos espaços de poder.” Mas, por causa de um acidente que sofreu ao cair em um bueiro na rua, a experiência em Moçambique acabou durando cinco meses, e não anos, e Lisiane se viu obrigada a recomeçar tudo. De volta ao Brasil, ela resolveu se instalar em São Paulo para tentar a carreira no mundo corporativo, que ela acabara conhecendo em seu trabalho na Aiesec, quando negociava com grandes empresas. “Com esse contato, vi que queria ser executiva de venda, resolver problemas de alta complexidade e ganhando bem para isso.” Ela se candidatou em dezenas de programas de trainees — e, já no fim de 2013, passou no processo seletivo da Microsoft. “Eu me apaixonei. Lembro que fui fazer entrevista sem nem mesmo saber que faziam videogames e celulares, mas vi o quanto isso ia modernizar o país”, conta. Nessa empresa, ela teve um líder que era um executivo negro — algo que se tornaria essencial para que ela pudesse aspirar alcançar lugares ainda maiores e entender a importância da representatividade.   Tecnologia e inclusão Foi também na Microsoft que Lisiane passou a se envolver mais com o mundo da tecnologia, sempre de forma conectada com a diversidade. “Acredito em duas grandes coisas: toda empresa é uma empresa de tecnologia, não importa o setor”, diz. “E a segunda é que não podemos construir coisas para as pessoas se elas não participarem do processo.” Sem reproduzir a sociedade que existe da porta para fora, afirma, não é possível que as empresas possam construir soluções para essa mesma sociedade. Assim, desde o começo, Lisiane procurou se envolver nas iniciativas de diversidade e inclusão na Microsoft e, mais tarde, no Google, onde chegou a ser gerente de programas de recrutamento de diversidade, equidade e inclusão para a América Latina. Para Lisiane, embora muito tenha mudado desde então, muitas empresas ainda estão pouco comprometidas, de fato, com a pauta da inclusão. Segundo ela, nos grandes lay-offs que vêm acontecendo, as pessoas mais atingidas são justamente as que vêm de alguma minoria, em especial mulheres pretas. “Em estado de emergência, a gente esquece dessas práticas e políticas de diversidade”, afirma. Além disso, para Lisiane, algumas empresas precisam ir além do discurso. “Há grandes empresas que dizem ter uma grande política, mas com orçamento zero. Elas não pagam um consultor nem dão suporte para o grupo de afinidade, que praticamente paga para trabalhar”, afirma. Hoje, depois de passar anos atendendo clientes do setor público, Lisiane passou para o outro lado. O convite veio de forma inesperada. Na verdade, o passo seguinte de Lisiane seria morar nos Estados Unidos, outro sonho antigo. “Quando ouvi o convite do governador [Eduardo Leite, do PSDB], eu já estava de guarda alta para dizer não”, conta. “Mas quando ele falou de inclusão e equidade, já comecei a maquinar meu plano para sair de onde eu estava e vir para Porto Alegre.” Em fevereiro deste ano, Lisiane assumiu como secretária extraordinária de Inclusão Digital e Apoio às Políticas de Equidade no estado do Rio Grande do Sul. A mais nova dos 27 secretários — e a única mulher preta —, Lisiane diz que a experiência tem sido uma “grande aventura”. “Minha missão é ajudar a levar a modernização para cerca de 11 milhões de pessoas em quase 500 municípios, no lugar onde cresci e onde estão as pessoas que eu amo”, diz. E a inclusão digital vai muito além de questões como disponibilizar a internet. “É preciso pensar em como fazer a priorização, quais as áreas de alta vulnerabilidade e como contemplar diversidade e inclusão nesse processo”, afirma. Um exemplo são lugares que não têm infraestrutura básica, como estradas e acesso asfaltado. “Antes de colocar internet, preciso conversar com o departamento de rodagens e dizer que é preciso construir rodovia ali”, observa. “Ou então, em uma escola, preciso tratar antes uma epidemia em saúde mental, além de colocar a internet.” É por isso que sua atuação é transversal, sempre em contato com diversas instâncias do poder público. Algo que, apesar dos desafios, tem sido muito recompensador. “Me motiva muito que a população consiga se enxergar em mim”, diz Lisiane. “Sou de questionar e problematizar, mas quero ajudar a melhorar, e sei que estou ajudando a construir um lugar melhor.”"}]