[{"jcr:title":"Lucrar é mandatório nas empresas, mas com responsabilidade"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Lucrar é mandatório nas empresas, mas com responsabilidade","jcr:description":"Com a pandemia e a ascensão do ESG, a era do investimento de impacto ganha força no mundo dos negócios — mas ainda há muito a evoluir, apontam participantes da Oficina do Insper Metricis"},{"subtitle":"Com a pandemia e a ascensão do ESG, a era do investimento de impacto ganha força no mundo dos negócios — mas ainda há muito a evoluir, apontam participantes da Oficina do Insper Metricis","author":"Ernesto Yoshida","title":"Lucrar é mandatório nas empresas, mas com responsabilidade","content":"Com a pandemia e a ascensão do ESG, a era do investimento de impacto ganha força no mundo dos negócios — mas ainda há muito a evoluir, apontam participantes da Oficina do Insper Metricis   Françoise Terzian   Em um passado (não muito distante), lucrar era considerado o começo, o meio e o fim de boa parte das empresas. O economista americano Milton Friedman — que, entre vários papéis, desempenhou o de conselheiro do presidente Ronald Reagan — afirmou na década de 1970 que a única responsabilidade social dos negócios era maximizar o lucro ou o valor de mercado para o acionista. Com o tempo, esse olhar para o próprio umbigo passou a ser questionado por muitas vertentes. Em 1984, o professor e filósofo americano Edward Freeman, autor do livro Strategic Management e considerado um anti-Friedman, disse que a administração das empresas deveria considerar os stakeholders , e não somente os acionistas. Na tomada de decisão, os gestores deveriam formular e implementar estratégias coerentes com todos os grupos que, de alguma forma, afetam ou são afetados pelos negócios. Em 2017, Oliver Hart (do departamento de economia da Universidade Harvard) e Luigi Zingales (Ph.D em Economia pelo MIT) observaram que a afirmação de Friedman de que os stakeholders estariam interessados apenas no retorno financeiro é, de fato, muito simplista. Segundo os autores, as partes interessadas têm preocupações sociais e éticas que também devem ser consideradas pelas empresas. Hoje, cerca de meio século depois da emblemática frase de Friedman, é possível afirmar que o olhar do executivo C-level e do universo corporativo mudou. Inúmeras empresas perseguem o duplo lucro, que significa não só retorno aos acionistas, mas aos stakeholders de forma geral — incluindo os funcionários, os clientes, os fornecedores, a comunidade no entorno e o meio ambiente. O debate em torno dessas questões norteou a [29ª Oficina de Impacto Socioambiental Metricis](https://www.insper.edu.br/agenda-de-eventos/29a-oficina-de-impacto-metricis/?utm_source=newsletter&utm_medium=email_lista_acontece_campaign=inspertech74) , realizada no Insper no dia 11 de maio. Sob o tema Ratings e Certificações de Impacto, o evento contou com as apresentações de Ana Sarkovas, cofundadora da gestoras de investimentos Ecoa Capital e conselheira do Sistema B Brasil, e Mariana Palandi, consultora e especialista em temas ESG.   Investimentos de impacto As companhias da atualidade combinam (ou procuram combinar) elementos financeiros, sociais, políticos e éticos. Quem leva esse assunto a sério e abraça os chamados investimentos de impacto tem seus negócios guiados pelas seguintes siglas: • CSR (Corporate Social Responsibility): modelo de negócios autorregulado que ajuda uma empresa a ser socialmente responsável; • TBL (Triple Botton Line): a ideia de que uma empresa deve focar no lucro, nas pessoas e no planeta; • SRI (Socially Responsible Investing): uma abordagem de investimento que considera tanto os aspectos financeiros quanto os impactos sociais e ambientais das empresas nas quais se investe; • Investimento de impacto: é possível incorporar a busca por retornos financeiros ao mesmo tempo que se obtém impacto social e ambiental positivo, que deve ser claramente definido e mensurável. Com a pandemia, o ESG (práticas ambientais, sociais e de governança) ganhou tração no mundo. Nas buscas do Google, a procura pelo termo vem crescendo vertiginosamente desde 2020. Mariana Palandi, mestre em Administração de Empresas com ênfase em estratégia pelo Insper e bacharel em Ciências Econômicas pela PUC, explica que o termo “investimento ESG” surgiu a partir dos Principles for Responsible Investimento (PRI), publicados pela ONU em 2006. De acordo com esses princípios, a integração ESG é a inclusão “explícita e sistemática” de questões relacionadas a meio ambiente, sociedade e governança corporativa na análise e nas decisões de investimento. É quase inevitável a pergunta: investir em ativos ESG traz retorno financeiro? Tal indagação despertou nos estudiosos do tema a necessidade de desenvolver mais pesquisas e de aprofundar a compreensão sobre o tema. “Essencialmente, o que a gente vê na literatura são dois conceitos distintos. O primeiro é que investir em ativos ESG traz maior retorno, tendo como base a análise de mais de 2 mil estudos. Considera-se que há uma correlação positiva entre o resultado financeiro e os ativos ESG”, diz Mariana. Ela observa, porém, que as pesquisas ainda são inconclusivas. E acrescenta: “Não sabemos exatamente se o investimento em ativos ESG tem maior retorno, mas sabemos que tem menor risco”.   O papel dos índices ESG A verdade é que os índices ESG ainda não estão bem calibrados, alerta Mariana. Na verdade, eles são insuficientes para quem busca tomar uma decisão apenas a partir de sua análise, assim como não conseguem prover comportamento futuro. Outro questionamento é se esses índices identificam, de fato, os ativos mais alinhados a questões sociais, ambientais, cooperativas e lucrativas. Em geral, eles não possuem poder preditivo sobre o desvio moral futuro das empresas, apontam conclusões de estudos que buscaram testar sua confiabilidade. Analisar o índice ESG das empresas de maneira isolada para tomar a decisão de investimento é impreciso. Observou-se que analisar o seu desvio moral passado e o seu setor de atuação é mais relevante, pois explicam o desvio moral futuro. Empresas detratoras do passado têm uma probabilidade grande de serem detratoras lá na frente. O setor de atuação também influencia. “Na minha banca havia um professor convidado que falou que, quando buscamos soluções muito simples para problemas muito complexos, é alta a chance de estarmos deixando muita coisa pra trás”, diz Mariana.   Empresas B Equilibrar propósito e lucro, considerando o impacto para todos os stakeholders , é a base do Sistema B. As Empresas B, cuja certificação busca medir o desempenho social e ambiental de um negócio, segue um alto padrão de métricas verificáveis e comparáveis (de impacto social e ambiental), transparência e prestação de contas. “Não adianta, por exemplo, comprar um fundo de um banco que só visa maximizar o lucro aos acionistas e não tem diversidade no conselho de administração”, observa Ana Sarkovas. Para ela, essa mudança de parâmetro é muito importante no universo corporativo e no mundo dos investimentos. Nem todo investidor mudou seu mindset , mas muitos encontram-se nesse caminho, até porque as empresas estão mais conscientes e preparadas em relação às mudanças propostas pelo ESG. “A visão agora é buscar uma rentabilidade de longo prazo”, afirma Ana. Esse olhar vai ao encontro da proposta do mundo politicamente correto, no qual o lucro rápido a qualquer custo perde sua lógica se prejudicar terceiros. Não por acaso, é extremamente difícil e demorado obter a certificação — a comunidade global de Empresas B gira em torno de 6 mil pelo mundo. Elas estão presentes em mais de 80 países e atuam em 150 setores. Entre elas, Illy Café, Patagonia e Ben & Jerry’s. Já no Brasil, são mais de 250 empresas, como Natura, Grupo Gaia, Movida e Mãe Terra. Atualmente, há mais de 7 mil empresas em processo de certificação do Sistema B no país. O interessante, no entanto, é que muito antes de sua relevância como certificação, o Sistema B tem sua importância como ferramenta de gestão. “O mindset precisa mudar, gerar valor para o stakeholder e, com isso, para o acionista”, afirma Ana. Embora ela diga que nem mesmo as empresas do Sistema B sejam perfeitas, já que ainda há pontos para aprimorar, as companhias certificadas se destacam por apresentar parâmetros acima da média, tanto nos âmbitos morais quanto legais. Entre os exemplos mais inspiradores, Ana cita o da varejista californiana de artigos esportivos Patagonia, que vende roupas para trilhas e outras atividades ao ar livre. Seu fundador, Yvon Chouinard, de 84 anos (mas com herdeiros), doou o negócio de 3 bilhões de dólares para uma ONG de combate às mudanças climáticas. Com a doção — e não com a venda ou abertura de capital —, o intuito do empresário é garantir que os lucros da Patagonia sejam destinados à proteção do meio ambiente. Essa movimentação aconteceu no ano passado e ele chegou a escrever que teria sido um desastre abrir seu capital, pois, mesmo com boas intenções, há muitos pressão de investidores para gerar ganhos de curto prazo em detrimento da responsabilidade de longo prazo."}]