[{"jcr:title":"Pesquisa analisa os tetos de concreto que barram as mulheres em alto escalão no setor público federal","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/diversidade","cq:tags_2":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas"},{"richText":"Em sua dissertação de mestrado, Marcela Garcia Carvalho aponta um caminho para ampliar a diversidade: mulheres em cargos de alto escalão tendem a provocar um ciclo de incentivo ao aumento da diversidade de gênero e de raça","authorDate":"23/07/2025 02h10","author":"Tiago Cordeiro","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","title":"Pesquisa analisa os tetos de concreto que barram as mulheres em alto escalão no setor público federal","variant":"image"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Quando se trata de carreiras no poder público, mulheres têm maior dificuldade de acesso a cargos de liderança. Existe uma espécie de teto de vidro, confirmada estatisticamente. Quando as mulheres são negras, o teto se torna de concreto, já que a dificuldade se multiplica. Mas, quando políticas públicas incentivam a presença feminina em posições mais elevadas na hierarquia, o efeito contrário é observado, e a participação tende a aumentar.   Marcela Garcia Carvalho partiu desses pressupostos para elaborar a  [dissertação](https://repositorio.insper.edu.br/entities/publication/b875886b-d64a-439c-8e10-46954ad30eee)  que apresentou ao  [Mestrado Profissional em Políticas Públicas](https://www.insper.edu.br/pt/cursos/pos-graduacao/mestrado/politicas-publicas)  no Insper. Acabou por confirmar cada um deles e chegou a uma recomendação: impulsionar a presença de lideranças mulheres e negras em alto escalão na administração pública provoca resultados efetivos.   “Existe um efeito cascata, identificado na minha pesquisa: onde mulheres são ministras, por exemplo, vai naturalmente haver mais mulheres em cargos de liderança e alto escalão. O mesmo vale para pessoas negras”, afirma ela. “As pessoas que chegaram ao alto escalão hoje, a muito custo, estão puxando outras pessoas. São lideranças que romperam barreiras. Mas esse resultado ainda não é alcançado de forma institucional. Se houvesse uma política efetiva de valorização de mulheres e negras nos mais altos cargos, esse efeito cascata seria acelerado”.      Transformação profissional   Marcela concluiu a graduação de Psicologia pela Faculdade Anhanguera de Jundiaí em 2014. “Senti que caberia outra graduação e fui cursar Pedagogia na Universidade de São Paulo (USP)”, ela relata. O viés educacional a levou a um posto de trainee na Vetor Brasil, uma organização que oferece programas de capacitação e busca proporcionar vagas no setor público a pessoas qualificadas. Ela continua trabalhando na organização, que, depois de um processo de fusão, se tornou a  [Motriz](https://www.motriz.org/) .    Ao longo de sua jornada, a pesquisadora atuou com políticas públicas de Recursos Humanos. Atualmente, trabalha na área de políticas públicas para lideranças. Ao longo desse processo, sentiu a necessidade de buscar formação específica. “Fiz o  [Programa Avançado em Gestão Pública](https://www.insper.edu.br/pt/cursos/pos-graduacao/programas-avancados/pos-graduacao-em-gestao-publica)  do Insper, e foi apaixonante. Se hoje eu tivesse 17 anos de novo, provavelmente teria cursado Administração Pública, ainda que as duas graduações que cursei contribuíram para a minha formação.”   O passo seguinte foi iniciar o mestrado. Ela foi aprovada tanto no Insper quanto na USP. Optou pelo Insper depois de analisar a grade curricular. “Identifiquei um viés para a econometria aplicada à pesquisa, o que me interessou, porque tenho um desejo de migrar, no longo prazo, para uma carreira acadêmica. Foi a melhor decisão que tomei”, ela conta. “Sempre fui uma pessoa da área de humanas, mas o Insper me mostrou um caminho para a pesquisa quantitativa, que me tirou da zona de conforto. Não foi fácil, mas hoje sou outra profissional.”   Ao longo do primeiro ano de mestrado, Marcela reduziu a carga horária no trabalho. No segundo ano, retomou as atividades, em paralelo com a produção da dissertação. “Desde o primeiro ano, eu já tinha a temática em mente. Ela foi sendo detalhada, enquanto eu já começava a pesquisar sobre o tema. Aproveitei as madrugadas e todas as folgas e férias. Como tenho hiperfoco, consegui fazer mergulhos intensos na pesquisa. Cheguei a passar 14 horas seguidas no computador, principalmente quando precisava decifrar um cálculo que errei.”   Na reta final da produção da dissertação, ela descobriu que havia alcançado um objetivo importante: estava grávida. “Fiz a defesa durante as últimas semanas da gestação”, relata Marcela, que concedeu entrevista por mensagem, com a filha no colo.     Teto de vidro x efeito cascata   A dissertação confirmou a impressão inicial de que mulheres têm mais dificuldade para alcançar cargos de liderança na gestão pública federal, e mulheres negra mais ainda. De fato, em 2023, as mulheres representavam cerca de 51% da população brasileira, segundo as últimas estimativas do IBGE, e cerca de 45,2% da força de trabalho do governo federal.    Contudo, ocupavam apenas 33% dos cargos e funções de Direção e Assessoramento Superiores e Função Comissionada do Poder Executivo (DAS-6 e FCPE-6), no penúltimo nível hierárquico (nível 17), e 27% nos cargos de Natureza Especial (NES), o último nível do alto escalão. Já as mulheres negras representavam apenas 9% das pessoas no segundo escalão (nível 17) dos cargos e funções DAS-6 e FCPE-6 e 8% do primeiro, nos cargos de NES, embora representassem, em 2023, 28% da população brasileira.   “Quando tentamos entender esse fenômeno, a teoria nos apoia: as mulheres crescem na carreira, até um momento em que encontram uma barreira, um teto de vidro. No caso das mulheres negras, é um teto de concreto. Isso acontece por diferentes motivos: o fato de as mulheres serem vistas como menos aptas, ou por conta da dupla jornada, que as afasta de atividades que acontecem fora do trabalho, como  happy hours  e jogos de futebol, quando conexões são fortalecidas e decisões são tomadas”, ela explica.   Mas a dissertação também confirmou outra teoria, conhecida como efeito cascata. “Quanto maior o número de mulheres no alto escalão, maior a presença feminina nos demais níveis de liderança. Em outras palavras, lideranças diversas impulsionam a diversidade institucional”, ela explica.    Ou seja, os achados apoiam a constatação de que as estratégias de diversidade não podem se restringir aos cargos de base: é preciso promover a inclusão nas instâncias de poder e tomada de decisão. “Mulheres líderes não apenas ocupam espaço, elas têm o potencial de reconfigurar culturas organizacionais, tornam-se referências e ampliam o acesso de outras mulheres ao poder. Assim, garantir a presença feminina no alto escalão do setor público não é apenas uma questão de justiça social, mas uma estratégia eficaz de ampliação da representatividade burocrática.”  "},{"jcr:title":"Marcela Garcia Carvalho","fileName":"Marcela Garcia Carvalho_aluna MPP.jpg","alt":"Marcela Garcia Carvalho_aluna de MPP"}]