[{"jcr:title":"O mundo em transição e os riscos de uma ordem internacional sem freios","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas"},{"richText":"No último Café com Políticas de 2025, Hussein Kalout analisou a disputa entre grandes potências, criticou a lógica das esferas de influência e apontou os dilemas estratégicos do Brasil em um cenário global cada vez mais fragmentado","authorDate":"13/02/2026 13h41","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","title":"O mundo em transição e os riscos de uma ordem internacional sem freios","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"O mundo atravessa um período de transformação acelerada, marcado por fragmentação, competição e perda de referências estáveis. Essa foi a tônica do Café com Políticas – Política Internacional, realizado em 15 de dezembro, no Insper, e que marcou o encerramento da série de encontros em 2025. O evento reuniu o cientista político Hussein Kalout, com moderação do professor Carlos Melo, coordenador do [Observatório da Política ](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/observatorio-da-politica) do Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper, e discutiu as tensões geopolíticas contemporâneas e os impactos da transição da ordem internacional sobre grandes potências e países emergentes. Em sua exposição, Kalout afirmou que o mundo vive o esgotamento da ordem unipolar liderada pelos Estados Unidos após o colapso da União Soviética. Segundo ele, “durante duas décadas nos acostumamos a uma única potência hegemônica, a uma ordem baseada em regras e normas; isso claramente chegou ao limite”. O cenário atual, segundo ele, é de uma competição aberta entre grandes potências, com destaque para a rivalidade sino-americana, que se diferencia das disputas do passado por envolver, simultaneamente, dimensões econômicas, tecnológicas, geopolíticas e regionais. “A China é um adversário em todos os tabuleiros ao mesmo tempo”, sintetizou. Kalout chamou atenção para a vulnerabilidade estratégica da Europa, que perdeu simultaneamente três pilares: o guarda-chuva de segurança dos Estados Unidos, a autonomia energética ao se tornar dependente do gás russo e parte de sua competitividade industrial frente à China. A guerra na Ucrânia escancarou essas fragilidades e reativou tensões que pareciam superadas, inclusive disputas territoriais e o crescimento de forças de extrema direita. Nesse contexto, o analista alertou para o risco crescente da normalização de violações do direito internacional. “Estamos caminhando para uma hora extremamente perigosa, porque está se perdendo o limite de contenção”, afirmou. Um dos pontos centrais do debate foi a crítica à ideia de “esferas de influência” como suposta solução para a instabilidade global. Para Kalout, esse conceito é altamente perigoso, pois legitima abusos de poder. “Quando você reconhece uma esfera de influência, você reconhece também o direito de violação daquela potência. Isso é um condomínio de poder à margem do direito internacional.” Em sua avaliação, embora Estados Unidos, China e Rússia falem em multipolaridade, nenhum deles se beneficia verdadeiramente dela. “Multipolaridade significa descentralização de poder, e isso favorece potências médias, não as grandes”, disse, citando países como Brasil, Índia e Indonésia. A rivalidade sino-americana foi descrita por Kalout como qualitativamente diferente da disputa entre EUA e União Soviética. Segundo ele, enquanto a Guerra Fria opunha dois blocos sem complementariedade econômica, a relação entre Washington e Pequim é marcada por profunda interdependência: a China é o segundo maior detentor de títulos da dívida pública americana, e ambas as economias estão intensamente integradas. "A complementariedade econômica é tão grande que um confronto militar seria absolutamente destrutivo para ambos", afirmou. Essa interdependência, paradoxalmente, desloca a competição para os campos tecnológico e de acesso a recursos minerais estratégicos. Kalout destacou que a China expandiu sua influência em regiões negligenciadas pelos americanos durante as duas décadas em que a política externa dos EUA esteve voltada à guerra ao terrorismo, multiplicando sua participação no comércio global de 5% em 2000 para 20% em 2020.   Os dilemas do Brasil em um mundo fragmentado Ao tratar da posição brasileira, Kalout foi direto ao afirmar que o interesse do país não está nem em uma ordem bipolar, nem em uma multipolaridade desordenada, mas em uma multipolaridade multilateral, baseada em instituições, regras e decisões coletivas. “Direito internacional é fundamental para países que não são grandes potências militares. É assim que o Brasil preserva seus interesses”, destacou. Ele avaliou que a política externa brasileira tem acertos importantes, como a busca de equilíbrio entre Estados Unidos e China, evitando uma escolha binária, mas também erros estratégicos, especialmente na condução inicial da guerra na Ucrânia e na tentativa de protagonismo como mediador sem os recursos de poder necessários. Kalout também criticou o que chamou de “ativismo diplomático sem estratégia”. Para ele, viagens, declarações e iniciativas isoladas não constituem política externa. “Ativismo diplomático não é política externa. Se as ações não estão interligadas por um objetivo claro, no final você se pergunta: and so what?” No âmbito regional, apontou falhas na tentativa de recriação de mecanismos de integração sul-americanos sem levar em conta as mudanças políticas, sociais e econômicas das últimas duas décadas. “Quando você dimensiona relações com vizinhos a partir de preferências ideológicas, você cria categorizações perigosas”, alertou. O debate também abordou a expansão dos BRICS, vista com cautela por Kalout. Embora reconheça a importância do bloco em temas econômicos, tecnológicos e climáticos, ele criticou a ampliação rápida e sem critérios claros. “O interesse do Brasil nos BRICS não é securitário. Os interesses de Rússia e China nessa área são muito diferentes dos nossos”, afirmou. Ainda assim, ponderou que o bloco não pode ser visto de forma simplista como uma coalizão antiocidental. Ao final, Carlos Melo ressaltou que a exposição evidenciou o tamanho do desafio enfrentado por países como o Brasil em um sistema internacional mais competitivo e instável. “O grande dilema é como preservar autonomia, defender regras e evitar que o mapa do mundo seja desenhado apenas pelos mais fortes”, concluiu. O encontro reforçou a necessidade de reflexão estratégica e de longo prazo em um cenário no qual, como resumiu Kalout, “o poder voltou a falar mais alto, mas as normas continuam sendo a principal proteção dos que não podem impor sua vontade pela força”."}]