[{"jcr:title":"O Carnaval faz bem aos bebês?","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/saúde","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:políticas-públicas"},{"richText":"Adiamento de cesarianas no feriado aumenta o tempo de gestação e diminui mortalidade dos recém-nascidos, diz estudo de professores do Insper. Mas uma política para reduzir o número de cesáreas — procedimento associado à manipulação da data de parto — teve efeito pequeno, diz outro estudo dos mesmos autores","authorDate":"21/11/2024 18h05","author":"David A. Cohen","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/saúde","title":"O Carnaval faz bem aos bebês?","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"O Carnaval tem um efeito significativo sobre os bebês. Graças ao feriado, boa parte deles tende a nascer com mais saúde (enquanto outros podem correr um risco maior). Esta é uma das conclusões do estudo  [“The Effect of Birth Timing Manipulation around Carnival on Birth Indicators in Brazil”](https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/hec.4858)  (Os efeitos da manipulação de datas de parto em torno do Carnaval nos indicadores de natalidade no Brasil), publicado na  Health Economics , um periódico acadêmico da editora Wiley dedicado à análise de políticas de saúde.   Na pesquisa, Carolina Melo, professora de economia e coordenadora do mestrado em políticas públicas e do Núcleo de Saúde do Insper, e Naercio Menezes Filho, professor e pesquisador do Centro de Gestão e Políticas Públicas e diretor do Centro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância, também do Insper, compararam dados de partos em uma janela de 20 dias antes até 14 dias depois do Carnaval com os números do ano inteiro, no período de 2012 a 2019 — fazendo os devidos controles para descontar efeitos de dias da semana, do ano e outros feriados.   “Nós mostramos que há uma grande manipulação de datas de parto em torno do Carnaval”, escrevem os dois pesquisadores, “tanto na forma de antecipação quanto de adiamento”. Os dois movimentos opostos têm um resultado líquido de aumento na duração da gestação e uma redução na mortalidade neonatal.   “Esses dados são muito sugestivos de que a antecipação de partos seja prejudicial à saúde dos bebês”, diz Carolina, “já que, quando as mães por acidente acabam postergando o parto um tantinho, a gente percebe uma redução grande de mortalidade”.   Se todos os partos fossem naturais não haveria diferença nas médias diárias de nascimento. Ela só acontece porque uma grande parcela das mães opta pela cesariana, em que se pode escolher a data de o bebê vir à luz. “O Brasil é um dos campeões mundiais de cesarianas”, nota a professora do Insper. “Isso é um problema.”   “A literatura especializada não consegue nos dizer se, tudo o mais constante, optar pela cesariana é prejudicial à saúde do bebê”, afirma Carolina. “Mas a gente sabe que as cesáreas estão relacionadas à antecipação do parto.” E isso, sim, tende a ser prejudicial aos bebês.   E não é pouco. Ao analisar as médias diárias de nascimentos em torno do Carnaval, Carolina e Naercio perceberam que o número extra de partos antes do feriado (em relação à média diária) é motivado por cesarianas: não querendo ter um filho durante as festas (no caso da mãe) ou não querendo dar plantão no feriado (no caso dos médicos), opta-se por fazer a cirurgia um pouco mais cedo. Já os nascimentos extras depois do Carnaval são motivados tanto por cesarianas — se a opção for esperar um pouco mais, em vez de antecipar — quanto por partos normais ou induzidos. Provavelmente, ao atrasar a data da cesariana há uma chance maior de a gestante entrar em trabalho de parto e optar pelo nascimento por via vaginal.   A dupla também identificou que as mães mais educadas, menos vulneráveis, são as mais propensas a se engajar na manipulação de datas de parto. “As mulheres de perfil social mais elevado são as que mais conseguem antecipar os partos, na rede de hospitais privados”, diz Carolina. Nos nascimentos antecipados, o período de gestação é menor que a média; nos adiados, maior.   O resultado é que o Carnaval — somando as antecipações e os adiamentos — acaba aumentando o período de gestação em 0,06 dia. E reduzindo a mortalidade neonatal em 0,30 por cada mil nascidos vivos. Não parecem taxas significativas, mas ao dividir esses coeficientes pela fração estimada de nascimentos deslocados (o que compensa a diluição do efeito pelo universo de nascimentos), o impacto se revela considerável: um aumento de 3,41 dias de gestação e um decréscimo de 17,51 mortes por cada mil nascidos vivos!   Não é um efeito apenas do Carnaval. A pesquisa sugere que os partos antecipados levam a consequências indesejadas para os bebês, enquanto os adiados levam a melhores resultados em sua saúde. Para testar isso, os dois pesquisadores analisaram dados do feriado de Corpus Christi e encontraram consequências semelhantes.   “Uma das conclusões a que chegamos é que muitas gestantes estão fazendo cesáreas num momento subótimo para os bebês”, diz Carolina. “Nossa recomendação básica seria: se escolher fazer a cesariana, pelo menos espere o tempo correto do bebê.”     A redução de cesarianas   Originalmente uma prática adotada em casos excepcionais — quando a mãe morria antes ou durante o parto e se tentava salvar o bebê —, com o avanço da medicina a cesariana se disseminou no mundo inteiro. A ponto de se tornar uma preocupação.   A recomendação da Organização Mundial de Saúde é que as cesáreas fiquem entre 10% e 15% dos partos. Quase nenhum país chega a esse índice. Na América do Norte, são 31,6%; na Europa, 25,7%. O Brasil é um dos poucos países com taxa de cesáreas maior que a de partos normais: 55% dos nascimentos. É a maior taxa da América Latina, por sua vez a região com mais cesarianas do mundo (42%).   “Levando em consideração características da população brasileira, a taxa ideal aqui seria de 25% a 30%”, diz Carolina. Menos da metade que a atual.   Há uma variedade de motivos para optar pela cesárea. “Pode ser conveniência do médico, ou da gestante, pode ser por medo da gestante de sentir dor no parto natural, pode ser um símbolo de status social (pessoas mais ricas fazem mais cesáreas)”, enumera Carolina. “Tem ainda o custo: o parto normal pode manter uma gestante no hospital por 24 horas, a cesárea é mais rápida.” Um outro motivo é uma característica do setor privado brasileiro, de a mãe querer ter o bebê com o médico que a atendeu no pré-natal. “Não se trabalha com uma equipe, como em outros países.”   Nos últimos anos, tem-se tentado reduzir essa taxa. No Brasil, foi implementada uma política pública que proíbe a realização da cirurgia sem indicação médica antes da 39ª semana de gestação; e mantém a permissão de que a mãe eleja o tipo de parto, contanto que seja bem informada sobre riscos e benefícios das duas formas de ter o bebê.   Qual o resultado dessa lei? Esse foi o objeto de análise de outro estudo de Carolina e Naercio — “ [The effects of a national policy to reduce c-sections in Brazil](https://repositorio.insper.edu.br/entities/publication/5f0523aa-2842-455a-8bf7-407eae96ab93) ” (Os efeitos de uma política nacional para reduzir cesarianas no Brasil) —, também publicado na  Health Economics .   A pesquisa apontou que a diretriz, adotada em 2016 pelo Conselho Federal de Medicina, teve como resultado um aumento de 0,07 semana, ou meio dia, no período médio de gestação. Ligado a uma duração maior da gestação vem o aumento de peso médio dos bebês ao nascer, que foi de 10 gramas. Além disso, foi notado um aumento no índice APGAR, que mede o bem-estar do recém-nascido, em 0,03 ponto (numa escala de 0 a 10).   “Nossos resultados revelam que a política nacional brasileira reduz a taxa de cesarianas em 1,6 ponto percentual”, escreveram Carolina e Naercio. A maior parte dessa diminuição acontece pelo fator de esclarecimento das mães, segundo a dupla.   Mas esse efeito é desigual. “Ele foi menor entre as mães de classes sociais mais elevadas, que escolhem a cesariana pela tecnologia e pela comodidade, e bem maior entre as usuárias do SUS”, revela Carolina. A exigência de informações é uma das iniciativas em curso em prol de um parto mais humanizado. Isso tem avançado mais no setor público do que no setor privado.   Em suma, a política é efetiva, “mas reduz em muito pouco a taxa de cesáreas”, diz Carolina. Dado que a parcela da conscientização tem mais efeito que a de limitação da cirurgia, a recomendação da dupla é “dar mais informações confiáveis para as mães, em especial as de maior vulnerabilidade”.  "}]