[{"jcr:title":"Mulheres nos conselhos: quanto avançaram?","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios","cq:tags_1":"tipos-de-conteudo:insper-conhecimento"},{"richText":"A participação feminina nos conselhos de administração tem crescido. Mas um estudo de um professor do Insper revela: esse avanço não só é mais tímido do que deveria como a posição que elas conquistam é de menos influência e prestígio","authorDate":"25/10/2024 15h49","author":"David A. Cohen","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios","title":"Mulheres nos conselhos: quanto avançaram?","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Que há poucas mulheres em cargos de liderança nas empresas, não é novidade. Sabe-se, porém, que seu número é maior do que já foi. Há quem diga que o copo está meio cheio (houve avanços) e há quem diga que está meio vazio (a situação está longe do ideal). Nesse debate, com frequência, deixa-se de notar o conteúdo em si do copo, ou seja, a qualidade e a influência dos cargos ocupados pelas mulheres. Foi para isso que olharam os pesquisadores [Charles Kirschbaum](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/charles-kirschbaum) , professor de estratégia e empreendedorismo e métodos de pesquisa no Insper, e Thiago Barros, da Universidade Federal de Ouro Preto, no estudo [“What is Women’s Position in Brazil’s Board Interlocking Network?”](https://repositorio.insper.edu.br/entities/publication/ce8d1217-5388-4845-886f-eb571743bdcc) (Qual a posição das mulheres na rede de Board Interlocking do Brasil?), publicado na  RAE – Revista de Administração de Empresas , da FGV.   Ao avaliar a composição dos conselhos de administração de companhias abertas no Brasil entre 1997 e 2015, a dupla percebeu que as mulheres passaram de uma participação de 6% no início da série para 10% em seu último ano. “É uma mudança importante, mas muito aquém do que poderia ser”, afirma Kirschbaum. Para efeito de comparação, por essa época os Estados Unidos já tinham 16% dos assentos em conselhos ocupados por mulheres, o Reino Unido tinha 15%, os Países Baixos tinham 14% e os países escandinavos estavam com cerca de um quarto de participação feminina (24% na Finlândia, 27% na Suécia).   O avanço no Brasil continuou nos anos seguintes, com a ajuda de leis que estabeleceram cotas e com o ativismo das mulheres. “Em dezembro de 2023, as mulheres atingiram 25% dos postos em conselhos no Brasil”, nota o professor do Insper. “Mas alguns países nórdicos já alcançaram a equidade.”     A rede de conselhos   A grande contribuição da pesquisa, no entanto, não é a quantificação da presença feminina nos conselhos e sim sua qualificação. Utilizando algumas métricas do campo de análise de redes sociais (ARS), os pesquisadores avaliaram o quanto as mulheres estão no centro ou na periferia da rede de conselhos: se pertencem a vários conselhos, se os conselhos a que pertencem são mais ou menos influentes (pela quantidade de membros que compartilham com outros conselhos), se elas se ligam a outros conselheiros por um caminho menor.   “Uma das formas de ver se a pessoa é importante na rede é avaliar o quanto se tem que passar por ela para haver uma conexão entre duas pessoas”, explica Kirschbaum. Um exemplo dessa medida é a brincadeira do número Kevin Bacon para atores: alguém que contracenou com ele tem número 1, um artista que trabalhou com alguém que trabalhou com ele tem número 2, e assim por diante. No campo da matemática há uma escala semelhante, o grau Erdös, referência ao prolífico matemático húngaro Paul Erdös — quem assinou um trabalho com ele tem grau 1, quem assinou um trabalho com quem assinou um trabalho com ele tem grau 2, e assim por diante.   No caso dos conselheiros, Kirschbaum e Barros concluíram que as mulheres têm menor centralidade de grau: participam em média de 4% a menos de conselhos que os homens. Entre os conselheiros que participam de mais um conselho — chamados de conectores —, no entanto, elas apresentam um grau 19% maior que o dos colegas de sexo masculino.   Um outro índice é o autovetor (Eigenvector), que mescla a posição de um indivíduo no conselho e a centralidade daquele conselho na rede. “A centralidade de autovetor capta noções de poder e prestígio, sua vantagem especial na obtenção de recursos, informações e favores”, escrevem os dois pesquisadores. Ela captura, dizem, “a propensão dos indivíduos a estarem conectados a outros indivíduos bem conectados”. Neste segundo medidor as mulheres ficam 18% atrás dos homens — e as mulheres conectoras ficam 59% à frente dos homens conectores.   Quanto à centralidade de meio, uma medida de quantos caminhos críticos de conexão passam por um indivíduo — se para A falar com B o caminho mais curto é uma intermediação de C —, as mulheres apresentam um índice 20% abaixo do dos homens. Isso entre os conectores; no universo dos conselheiros em geral a desvantagem das mulheres é bem maior, de 50%.     As conclusões   O fato de as mulheres conectoras (as que estão em mais de um conselho) terem maior centralidade de grau que os homens corrobora, diz o estudo, a ideia de que elas estão recebendo um grande número de oportunidades de inserção. Porém, sua presença ainda percentualmente baixa, combinada ao maior números de conselhos por mulher, sugere que as mesmas mulheres são convidadas para vários conselhos. Aqui, provavelmente, está havendo uma movimentação das empresas em resposta a pressões variadas para o aumento da diversidade de gênero nos conselhos. Os dados revelam, no entanto, que a forma como isso se dá embute alguns riscos:   =1. Há mais mulheres superconectadas:  “Será que não estão tendo que dividir a atenção entre conselhos demais?”, questiona Kirschbaum. É comum que conselheiros muito requisitados apresentem menor capacidade de dedicação e comprometimento, afirma a dupla.   =2. Os indícios de que os conselhos em média aumentam a participação de mulheres, mas não as engajam da mesma forma no processo de tomada de decisões, sugerem uma “inclusão simbólica” (tokenismo). “Isso pode ter acontecido logo após a promulgação das leis de cotas, em que houve uma corrida pelas mulheres”, diz Kirschbaum. “Mas se eu coloco alguma mulher no conselho só para dizer que tenho uma mulher, isso não necessariamente traz os benefícios da diversidade.” Alguns estudos, aponta o professor do Insper, indicam que a diferença começa a acontecer quando você tem duas ou três mulheres no conselho.   =3. A baixa participação das mulheres nos conselhos em empresas com uma taxa muito mais elevada de mulheres nos cargos executivos internos leva a crer numa dificuldade de promoção das executivas a postos mais elevados, de maior visibilidade. “Por que as mulheres não conseguem subir mais?”, pergunta Kirschbaum. “Uma das hipóteses é algum gargalo.”   “Quando você fala de uma pessoa que não consegue subir, às vezes ela está muito ligada àquela empresa em particular”, avalia Kirschbaum. “Aí tem menos influência na rede, menos conexões, menos oportunidades tanto laterais quanto de progressão. É mais dependente.”   =4. A menor centralidade de meio das mulheres significa que elas têm menor intermediação global na rede de conselhos. Isso sugere que elas dependem mais de homens intermediários para ter acesso a recursos e informações. “Isso acarreta uma visão estratégica mais restrita”, escrevem. Além disso, acrescentam, elas podem enfrentar obstáculos maiores na indicação de outras mulheres para postos nos conselhos.   “Quando a gente fala de conselhos de administração, estamos falando da elite econômica do país”, considera Kirschbaum. “Dependendo de quem está lá, a direção da empresa pode mudar bastante.”   É em parte por isso que surgiu a pressão por uma maior participação feminina, desde os anos 1990 nos países mais ricos e uma década depois aqui no Brasil.   De lá para cá, houve avanços significativos — embora bem mais tímidos que em outras partes do mundo. “A outra questão”, lembra Kirschbaum, “é se existe uma abertura para participação efetiva das mulheres”.  "}]