[{"jcr:title":"Crises interconectadas? A policrise e as cadeias de suprimento na nova fronteira da gestão de riscos","cq:tags_0":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade"},{"richText":"Novo cenário vai forçar as empresas a desenvolver capacidades que ultrapassem as meras fronteiras das suas operações diretas","authorDate":"27/02/2026 14h00","author":"Vinicius Picanço Rodrigues*","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:ceneg-opina","title":"Crises interconectadas? A policrise e as cadeias de suprimento na nova fronteira da gestão de riscos","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A visão tradicional de gestão de riscos foi alicerçada na concepção de potenciais choques isolados: um risco financeiro aqui, outro risco político ali, talvez um risco climático acolá. Já faz algum tempo que podemos concordar, talvez com pouca controvérsia, que os riscos que atualmente se impõem já não cabem mais em caixotes estanques. Estamos diante de um fenômeno que especialistas chamam de policrise. Não exatamente novo, o termo foi cunhado na década de 1990 por  [Edgar Morin](https://www.lemonde.fr/en/opinion/article/2024/01/24/edgar-morin-faced-with-the-polycrisis-humanity-is-going-through-the-first-resistance-is-that-of-the-spirit_6460205_23.html)  e Anne Brigitte Kern, sendo mais recentemente  [popularizado por Adam Tooze](https://www.weforum.org/stories/2023/03/polycrisis-adam-tooze-historian-explains/) , historiador da Universidade de Columbia. A policrise nos diz que estamos em um contexto global no qual choques aparentemente distintos interagem, se reforçam e produzem efeitos sistêmicos inesperados. Notem que não é apenas uma coexistência de múltiplas crises. Na policrise, elas se interconectam causalmente e seus efeitos se cascateiam nas mais variadas dimensões sociais, ambientais, econômicas e tecnológicas. Esse fenômeno é particularmente visível nas cadeias de suprimento em escala global. Nelas, estruturas altamente interdependentes e geograficamente dispersas transformam qualquer choque localizado em um risco global de magnitude difícil de prever. A gestão de risco tradicional, fragmentada por categorias, está se provando insuficiente para lidar com um ambiente onde choques físicos, geopolíticos e econômicos interagem aceleradamente. Segundo a United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), o transporte marítimo, responsável por mais de 80% do comércio mundial de mercadorias, enfrenta  [custos crescentes e volatilidade](https://unctad.org/news/stormy-seas-global-shipping-unctad-warns-uncertainty-volatility-and-rising-costs)  que refletem a combinação de choques climáticos, conflitos, instabilidade política e social, e mudanças críticas em rotas comerciais. Disputas e ataques no Mar Vermelho, por exemplo, reduziram praticamente à metade o tráfego pelo Canal de Suez no início de 2024, enquanto o volume de mercadorias que passa pelo Canal do Panamá caiu cerca de  [32% no mesmo período devido à seca severa e restrições operacionais](https://www.imf.org/en/blogs/articles/2024/03/07/red-sea-attacks-disrupt-global-trade) . Desde novembro de 2023, ataques a navios comerciais no Mar Vermelho transformaram o corredor em um ponto de tensão geopolítica e logística. Gigantes do setor, como Maersk, MSC e CMA CGM, foram forçadas a desviar navios pela rota do Cabo da Boa Esperança,  [adicionando cerca de 10 dias e milhões de dólares em custos de combustível e emissões de carbono](https://www.reuters.com/world/middle-east/maersk-diverts-vessels-away-red-sea-for-foreseeable-future-2024-01-05/) , além dos riscos de segurança. Essas perturbações deixaram as apólices de seguro mais salgadas e aumentaram sensivelmente a volatilidade de preços de frete, ampliando custos para importadores e exportadores. As pressões nas cadeias de suprimento em 2024 levaram empresas a  [perdas equivalentes, em média, a cerca de 8% de sua receita anual](https://procurementtactics.com/supply-chain-statistics/) , representando um pesadíssimo fardo econômico que muitas vezes desaparece das análises econômicas e de risco. Os impactos também se refletem nos custos de transporte. Estudos e análises de mercado mostram que o custo de frete para contêineres  [na rota entre China e Brasil durante períodos de ruptura atingiu US$ 9 mil por contêiner de 40 pés](https://www.cccer.org.br/caos-logistico-no-brasil-importacoes-e-exportacoes-em-risco-de-paralisacao) . Manaus viu esse custo chegar a US$ 14 mil devido à “taxa da seca”, cobrada por empresas para compensar as complexidades impostas pelos baixos níveis de água nos trechos navegáveis nas secas históricas dos últimos anos na região amazônica. Esses valores representam saltos substanciais, em função de uma combinação de tensões nos portos, gargalos logísticos locais, infraestrutura precária e custos elevados de transporte internacional, exemplificando como fatores domésticos e externos se interconectam e se amplificam. Esse novo cenário de crises interconectadas vai forçar as empresas a desenvolver capacidades que ultrapassem as meras fronteiras das suas operações diretas. A visibilidade em múltiplos níveis da cadeia de suprimentos, os cenários de resposta com base em simulações e as parcerias estratégicas que não se limitem a contratos míopes de fornecimento passarão a ser profundamente críticos. A luta por um compartilhamento de dados mais amplo e efetivo, a busca por alinhamento de contingências e ajustes de estratégia conforme os choques emergem continuarão a ser o Santo Graal da gestão da resiliência, agora com pitadas adicionais de complexidade face à incerteza e volatilidade. Para governos e formuladores de políticas públicas, uma lição similar também se impõe. Instrumentos setoriais fragmentados não são capazes de capturar riscos que atravessam indústrias e fronteiras geográficas, não respeitando idiomas, culturas ou fuso horário. O desenho e implementação de políticas deverá passar necessariamente por arranjos de governança multilaterais e colaborativos com vistas a fortalecer as infraestruturas críticas dos países e mitigar externalidades em grande escala. A verdadeira provocação que a policrise propõe é simples na mesma medida em que é desconfortável: se continuarmos tratando e gerindo riscos isoladamente, construiremos estratégias para uma realidade que ficou nos livros de história. Em um ambiente marcado por choques interconectados, pontos críticos e efeitos em cascata, compreender o risco como atributo sistêmico deixa de ser uma mera sofisticação analítica e se torna uma condição mínima de sobrevivência organizacional. A questão central, portanto, não é mais se novos choques ocorrerão, mas quem, de fato, conseguirá enxergar as interconexões, antecipar sua propagação e decidir com velocidade suficiente para reverter impactos negativos nas pessoas, organizações, economias e natureza quando o sistema começar, de fato, a falhar. [*Vinicius Picanço Rodrigues](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/vinicius-picanco-rodrigues)  é professor pesquisador de Operações e Sustentabilidade no Insper, onde coordena a graduação em Engenharia de Produção, o Núcleo de Sustentabilidade e Negócios e o Programa Avançado em Sustentabilidade (PAS), além de liderar o portfólio de sustentabilidade da Educação Executiva"}]