[{"jcr:title":"Theranos: entre a promessa da inovação e o colapso da ética","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:economia","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios","cq:tags_2":"programas:graduacao"},{"richText":"Quando a ambição tecnológica ultrapassa os limites da ética","authorDate":"18/11/2025 01h00","author":"Rodrigo Palhares Yamasaki","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:economia","title":"Theranos: entre a promessa da inovação e o colapso da ética","variant":"image"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal { margin: 0.0cm; font-size: 11.0pt; font-family: \"Times New Roman\" , serif; } p.MsoBodyText, li.MsoBodyText, div.MsoBodyText { margin: 0.0cm; font-size: 12.0pt; font-family: \"Times New Roman\" , serif; } p.MsoListParagraph, li.MsoListParagraph, div.MsoListParagraph { margin-top: 0.0cm; margin-right: 6.9pt; margin-bottom: 0.0cm; margin-left: 7.05pt; text-align: justify; font-size: 11.0pt; font-family: \"Times New Roman\" , serif; } span.CorpodetextoChar { font-family: \"Times New Roman\" , serif; } *.MsoChpDefault { font-size: 11.0pt; font-family: Calibri , sans-serif; } *.MsoPapDefault { } div.WordSection1 { page: WordSection1; } div.WordSection2 { page: WordSection2; } * { } * { } * { } * { } * { } * { } * { } * { } * { } * { } “Uma mentira dá meia-volta ao mundo antes que a verdade tenha tempo de vestir as calças.” — dizia Churchill. Ora, não é exatamente essa a sensação que temos ao assistir ao documentário À Procura de Sangue no Vale do Silício (HBO)? A Theranos, fundada em 2003 por Elizabeth Holmes, prometia a lua em uma gota: centenas de exames de sangue, rápidos, baratos e, quem sabe, dignos de Nobel. Mas o que parecia uma sinfonia de progresso se revelou uma partitura dissonante. A promessa era elegante; a prática, um tropeço. E, quando o laboratório é substituído por metáforas de grandeza, o palco se abre para o risco clínico e para a erosão da confiança pública.   O filme, quase como um ato teatral, encena em três movimentos: o brilho da valorização bilionária e da aura quase messiânica de Holmes; o atrito dos bastidores, com segredos e pressão sufocante; e o colapso, quando John Carreyrou expõe a fissura, FDA e CMS entram em cena e a SEC acusa o espetáculo de enganar investidores. Eis o roteiro clássico: ascensão, apogeu e queda — um “trono de pó” que se desintegra diante da plateia.   Os dilemas éticos aparecem como personagens secundários, mas fundamentais. Carroll (1991), com sua Pirâmide da Responsabilidade, poderia figurar como um crítico severo: a Theranos falhou em todas as camadas, do econômico ao legal, do ético ao filantrópico. Freeman (1984), com sua teoria dos stakeholders, talvez se levantasse da poltrona para perguntar: onde ficaram pacientes, funcionários e reguladores, enquanto o capital e a narrativa ocupavam o centro do palco? E Donaldson & Dunfee (1999) lembrariam, como coro grego, que contratos morais foram rasgados e hipernormas de honestidade ignoradas. Difícil discordar: a governança falhou quando mais se pedia prudência.   Mas, afinal, que contexto permite tais desvios? Ah, o famoso “fake it until you make it” —  útil talvez em software, mas trágico em saúde, onde o erro não se corrige com um “update”. A estética da disrupção e o culto ao fundador funcionam como o Anel de Giges: conferem invisibilidade e anestesiam a crítica. Internamente, a confidencialidade sufoca a voz técnica; externamente, parceiros aceitam de olhos vendados. E de que servem métricas de crescimento quando o núcleo da tecnologia permanece opaco? As lições, embora evidentes, parecem ignoradas como notas de rodapé que ninguém lê. Promessa deve caminhar de mãos dadas com prova. Comunicar incertezas não é fraqueza; é compromisso público. Conselhos independentes, auditorias externas, comitês de ética —  burocracia? Não, sinfonia de segurança. Segurança psicológica e canais de denúncia não atrasam; antecipam riscos. Relação com mídia e capital? Ora, prestação de contas antes de slogans. Talvez seja hora de ampliar a crítica. O mantra do Vale do Silício — “mover rápido e quebrar coisas” — virou gramática global, exportada como se fosse software universal. Só que, em setores sensíveis, quebrar significa expor vidas a riscos. Ecossistemas periféricos importam o hype sem o mesmo lastro institucional: revistas robustas, reguladores fortes, investidores diligentes. Resultado? Ambição e carisma transformados em temeridade. Queremos disrupção? Sim. Mas não sem freios e contrapesos. O documentário, em tom quase socrático, oferece um roteiro mínimo de prudência. Antes de escalar, publique evidências. Antes de buscar manchetes, fortaleça ciência e governança. Khalifeh (2022) e Williams (2022) lembram: credibilidade nasce de processos verificáveis, não de slogans. Holmes preferiu a retórica de Jobs, mas esqueceu que até Sócrates sabia: admitir o não saber é o início da sabedoria. Em última cena, o filme não mostra apenas uma tecnologia falida, mas um castelo de areia construído sobre vaidade, silêncio e medo. Para jovens profissionais, fica o recado — simples, embora incômodo: transparência, validação independente e foco nos stakeholders não são antagonistas da inovação. São, na verdade, seu alicerce. Do contrário, voltamos a Ripley: imitamos, fingimos, conquistamos aplausos — até que a cortina caia e reste apenas o eco de um espetáculo vazio. Referências Bibliográficas: CARROLL, A. B. The Pyramid of Corporate Social Responsibility: Toward the Moral Management of Organizational Stakeholders. Business Horizons, v. 34, n. 4, p. 39-48, 1991.   DONALDSON, T.; DUNFEE, T. W. Ties That Bind: A Social Contracts Approach to Business Ethics. Boston: Harvard Business School Press, 1999.   FREEMAN, R. E. Strategic Management: A Stakeholder Approach. Boston: Pitman, 1984.   KHALIFEH, A. Ethical Failures in the Theranos Case: Lessons for Corporate Governance. Journal of Business Ethics, v. 180, n. 3, p. 715-732, 2022. WILLIAMS, J. Innovation, Hype, and Accountability: The Case of Theranos. Journal of Applied Corporate Finance, v. 34, n. 2, p. 56-67, 2022.   À Procura de Sangue no Vale do Silício. Direção: Alex Gibney. Produção: HBO Documentary Films, 2019. (Título original: The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley).   CARREYROU, J. Bad Blood: Secrets and Lies in a Silicon Valley Startup. New York: Knopf, 2018."},{"richText":"Este texto é um dos trabalhos vencedores do Prêmio Pensamento Crítico I, realizado na disciplina Pensamento Crítico e Ética, dos cursos de Administração e Economia do Insper. A ética empresarial foi o tema que norteou os textos. Confira abaixo os demais vencedore","title":"Prêmio Pensamento Crítico I"},{"linkUrl":"https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/economia-e-financas/to-what-extent-can-success-be-considered-genuine-if-it-undermines-ethical-standards","linkIcon":"icon-insper-return-arrow","linkText":"To what extent can success be considered genuine if it undermines ethical standards?"},{"linkUrl":"https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/economia-e-financas/finja-ate-conseguir.html","linkIcon":"icon-insper-return-arrow","linkText":"Finja até conseguir"},{"linkUrl":"https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/economia-e-financas/gotas-de-sangue-oceanos-de-mentiras","linkIcon":"icon-insper-return-arrow","linkText":"Gotas de sangue, oceanos de mentiras"},{"jcr:title":"transparente / vermelho / turquesa"},{"buttonBackgroundColor":"rgb(229,5,5)","themeName":"transparente / botao vermelho / tag amarelo"}]