[{"jcr:title":"Em aula magna no Insper, Esther Duflo propõe novo pacto global por justiça climática","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:economia","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper","cq:tags_3":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade"},{"richText":"Em apresentação para estudantes do Programa de Dados, Economia e Desenho de Políticas Públicas (DEDP) e docentes dos cursos de pós-graduação do Insper, a Nobel de Economia defende compensações financeiras diretas para os países mais afetados pelas mudanças climáticas","authorDate":"12/12/2025 19h12","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper","title":"Em aula magna no Insper, Esther Duflo propõe novo pacto global por justiça climática","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"A economista Esther Duflo, ganhadora do Prêmio Nobel de Economia em 2019, defendeu uma mudança na maneira como o mundo enfrenta as mudanças climáticas durante sua aula magna no Insper, no dia 13 de novembro. Com uma apresentação fundamentada em dados e argumentos rigorosos, Duflo destacou os impactos desproporcionais da crise climática sobre as populações vulneráveis e propôs colocar os mais pobres no centro da discussão. Sua proposta é chamada de  [FAIR](https://fairclimate.earth/pt)  (iniciais em inglês para  Foreseeable, Automatic, Immediate and Regular ), um modelo de compensação financeira direta às pessoas afetadas a ser financiado por um novo arranjo tributário internacional. Uma das ações desta proposta inclui transferências diretas a populações vulneráveis em momentos urgentes, ganhando popularidade no Brasil com o apelido “PIX do Clima". A aula magna marcou o início das aulas do primeiro curso “Desenho e Implementação de Avaliações Experimentais” do Programa de Dados, Economia e Desenho de Políticas Públicas (DEDP). O programa é oferecido pelo Insper, enquanto um dos membros da  [Aliança para Formação em Dados, Economia e Desenho de Políticas Públicas (ADEPT)](https://www.povertyactionlab.org/adept) . Essa aliança global é formada por instituições acadêmicas ao redor do mundo comprometidas em formar a próxima geração de formuladores de políticas públicas, tomadores de decisão e pesquisadores em temas como avaliação de impacto e análise de dados. A ADEPT é uma aliança liderada pelo Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab (J-PAL), centro de pesquisa global cofundado por Duflo. Reconhecido por promover políticas públicas baseadas em evidências rigorosas, o J-PAL tem sido uma referência internacional na avaliação do impacto de programas sociais em diversas áreas, como educação, saúde, moradia e transferência de renda. Para Duflo, que é professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT), a proposta FAIR nasce dessa mesma lógica: testar, medir e aplicar o que funciona com base em dados concretos.   Um novo modelo para enfrentar a crise climática “O planeta aquece, os pobres estão na linha de frente da tragédia climática, mas não estão no centro das negociações ou das soluções propostas. Isso precisa mudar”, afirmou a professora. A partir dessa constatação, ela detalhou a proposta desenvolvida em parceria com o também laureado Abhijit Banerjee e o economista da Universidade de Chicago Michael Greenstone. A ideia é simples e ambiciosa: transferir diretamente recursos para pessoas afetadas pelas mudanças climáticas, com base em critérios automáticos e mensuráveis, como o número de dias de calor extremo em determinada região. Isso eliminaria a necessidade de negociações lentas e politizadas em momentos de crise. Inspirada no sucesso de programas como o Bolsa Família, a proposta parte de evidências acumuladas sobre o impacto positivo de transferências diretas. Segundo Duflo, mais de 70 programas desse tipo foram avaliados com rigor no mundo, totalizando cerca de 100 estudos que demonstram sua eficácia. Em países extremamente pobres, a proposta prevê uma renda básica de 3 dólares por dia (em paridade de poder de compra) para cada adulto, financiada pelos países ricos como forma de compensação histórica pelas suas emissões acumuladas. Esse valor, argumenta a economista, seria suficiente para eliminar a pobreza extrema em grande parte da África Subsaariana — uma medida com potencial transformador imediato e duradouro. O FAIR se estrutura em três pilares: transferências diretas para indivíduos; financiamento comunitário para infraestrutura adaptativa (como proteção contra enchentes e sistemas de resfriamento); e um fundo de resseguros climáticos para governos de baixa renda, que atualmente dependem de ajuda internacional emergencial — geralmente lenta e insuficiente. Países como o Brasil, com maior capacidade institucional e econômica, estariam fora desse terceiro eixo, mas poderiam adotar os dois primeiros de forma autônoma. Duflo citou o Brasil não apenas como inspiração para o nome da proposta, mas como protagonista em sua concepção. Foi durante a presidência brasileira do G20 que surgiu a oportunidade de articular um novo modelo de financiamento climático, mais justo e eficaz. Como financiar um pacto climático centrado nas pessoas Além de sua eficácia econômica, Duflo destaca o potencial político da proposta: ela cria um incentivo claro para países em desenvolvimento se comprometerem com metas climáticas mais ambiciosas, ao mesmo tempo em que oferece uma resposta concreta aos impactos já em curso. Ao contrário das negociações globais paralisadas por exigência de consenso, como nas Conferências das Partes (COPs), o FAIR pode ser implementado gradualmente por coalizões de países, fundações e instituições multilaterais, sem a necessidade de aprovação unânime. “Hoje, não há um CEO do clima. Tudo precisa ser acordado por unanimidade, e isso paralisa o sistema. Precisamos de um novo pacto em que todos tenham algo a ganhar”, afirmou. Para viabilizar o financiamento, Duflo propõe medidas como um imposto global sobre grandes fortunas — inspirado na proposta apresentada pelo Brasil durante sua presidência do G20 — e o aumento da taxação mínima sobre lucros de multinacionais, dos atuais 15% para 21%. Essas mudanças, segundo suas estimativas, poderiam gerar até 700 bilhões de dólares por ano, o equivalente ao que o mundo gasta atualmente em subsídios diretos aos combustíveis fósseis e menos de 1% do PIB global. “É uma questão de priorização e de visão de longo prazo. O dinheiro existe — falta vontade política”, reforçou. A economista também argumentou que o atual sistema de financiamento climático, baseado em promessas voluntárias e burocracias multilaterais, é desigual e ineficiente. A ausência de um mecanismo previsível e automático para compensar os mais afetados mina a confiança entre países e populações, tornando mais difícil alcançar acordos duradouros. “Prometer bilhões sem mecanismos claros de execução apenas alimenta o ceticismo. Precisamos de instrumentos que funcionem, que entreguem resultados tangíveis.” A proposta também se ancora em princípios de justiça e responsabilidade histórica. Duflo invoca o “poluidor-pagador” — princípio comum em legislações ambientais nacionais — como base para uma arquitetura global mais equitativa. Ela defende que o sistema seja transparente, universal e centrado nas pessoas, com contrapartidas reais, não apenas promessas vagas. Como exemplo de viabilidade técnica, citou um experimento conduzido pelo J-PAL no estado de Gujarat, na Índia, onde a criação de um mercado de emissões regulado reduziu significativamente a poluição com baixo custo para as empresas, mostrando que inovação e justiça podem caminhar juntas. Ao final da aula, Duflo reforçou que o projeto ainda está em construção, mas que as evidências acumuladas em décadas de pesquisa indicam ser possível alinhar justiça social e ação climática de forma efetiva. Ela também deixou um convite aos presentes — estudantes, pesquisadores e formuladores de políticas — para que se engajem na construção de soluções concretas, justas e inclusivas. “Estamos diante de uma escolha coletiva: continuar com promessas não cumpridas, ou criar um sistema que funcione, que entregue justiça e que coloque as pessoas — todas as pessoas — no centro da agenda climática”.  "},{"jcr:title":"Aula magna de Esther Duflo no Insper","alt":"Aula magna de Esther Duflo no Insper"}]