[{"jcr:title":"A má educação de nossas escolhas: o que ninguém vê","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:economia","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios","cq:tags_2":"programas:graduacao"},{"richText":"Uma reflexão sobre corrupção cotidiana, autoengano e os limites da integridade humana","authorDate":"16/12/2025 13h47","author":"Luis Gustavo Vilela Oliveira","madeBy":"Por","tag":"programas:graduacao","title":"A má educação de nossas escolhas: o que ninguém vê","variant":"image"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal { margin: 0.0cm; font-size: 12.0pt; font-family: Aptos , sans-serif; } p { margin-right: 0.0cm; margin-left: 0.0cm; font-size: 12.0pt; font-family: \"Times New Roman\" , serif; } *.MsoChpDefault { font-family: Aptos , sans-serif; } div.WordSection1 { page: WordSection1; } * { } * { } * { } * { } * { } * { } * { } * { } * { } * { } Frank Tassone era, aos olhos de todos, o superintendente ideal. Carismático, dedicado e obcecado por resultados, ele transformou o distrito escolar de Roslyn, em Long Island, em um dos melhores dos Estados Unidos. Sob sua gestão, a escola retratada no filme, Abbey Grove, alcançou uma excelente posição nos rankings de melhores escolas públicas dos EUA, e o valor dos imóveis na região dispararam a crescer. Mas por trás da fachada de excelência, Tassone orquestrou a maior fraude financeira da história da educação pública americana, desviando mais de 11 milhões de dólares. Assistir a “Bad Education”, dirigido por Cory Finley, é como olhar no espelho e não gostar muito do que se vê. O filme nos joga no centro de uma das questões mais antigas da filosofia: o que é mais importante, ser justo ou apenas parecer justo? Essa pergunta, que Platão imortalizou no mito do "Anel de Giges", é o coração da história. No mito, um pastor encontra um anel que o torna invisível e, protegido pela certeza de nunca ser descoberto, comete todo tipo de crime. Para Tassone, o "anel" não era mágico, era sua reputação impecável e a confiança cega da comunidade. Protegido por essa invisibilidade moral, ele acreditava poder fazer qualquer coisa. E fez. O que me incomoda, e acho que deveria incomodar qualquer um, é como a fraude não começou grande. Foi gradual, quase imperceptível. Um jantar pago com o cartão da escola aqui, uma passagem aérea "justificada" ali. É o que chamamos de "ladeira escorregadia": cada pequena transgressão, racionalizada como uma "recompensa merecida" pelo sucesso que ele trazia, tornava a próxima mais fácil. Tassone e sua assistente, Pam Gluckin, desceram essa ladeira passo a passo, convencendo a si mesmos de que mereciam aquilo. Não se viam como ladrões, mas como profissionais mal remunerados que apenas pegavam o que o sistema não lhes dava formalmente. Mas aqui está o problema central, e é onde precisamos tomar uma posição: se aceitarmos a lógica de Tassone, onde paramos? Se ele pode desviar dinheiro público porque "entrega resultados", então qualquer professor que melhora as notas de sua turma também pode? Qualquer funcionário público que trabalha duro merece um "bônus" não autorizado? A questão não é apenas se Tassone é culpado, ele é, mas o que acontece com uma sociedade que abre exceções para quem "produz". A ética não pode ser negociável assim. Ou temos regras que valem para todos, ou não temos regras de verdade. De um ponto de vista utilitarista, alguém poderia argumentar que os benefícios, valorização imobiliária, acesso dos alunos às melhores universidades, superavam os custos da fraude. A comunidade estava feliz, afinal. Mas isso é perigoso. Uma ética deontológica, que defende deveres morais universais, nos diz algo fundamental: roubar é errado, ponto. Não importa se você é carismático ou entrega resultados. Se relativizarmos a honestidade com base nas consequências, estamos dizendo que a moralidade é questão de conveniência, não de princípios. E não é só Tassone. O filme expõe uma rede de cumplicidade. Pam Gluckin representa a corrupção pela ostentação. O conselho escolar, ao descobrir a fraude, opta por acobertá-la para proteger o valor de suas propriedades, tornando-se cúmplice. A própria comunidade, obcecada com rankings, prefere não fazer perguntas difíceis enquanto os resultados são bons. Todos colocaram o anel no dedo. Em contraste, a jovem jornalista Rachel Bhargava representa algo raro: a coragem de buscar a verdade mesmo quando isso é inconveniente para todo mundo. "Bad Education" é um espelho desconfortável porque nos mostra que a corrupção raramente nasce de um plano maligno. Ela nasce de pequenas escolhas que vamos normalizando, de exceções que abrimos para nós mesmos, de vezes em que decidimos que as regras não se aplicam porque somos "especiais". A história de Frank Tassone nos deixa com uma pergunta que não dá para ignorar: se tivéssemos o poder da invisibilidade, se soubéssemos que nunca seríamos descobertos, quão fiéis permaneceríamos aos nossos valores? Minha resposta, depois de assistir ao filme, é clara: não podemos abrir exceções. Não para Tassone, não para ninguém. Porque no momento em que dizemos "mas nesse caso é diferente", estamos colocando o anel no dedo. E uma vez que fazemos isso, é difícil demais tirá-lo. Referências:  ·  The slippery slope of getting away with small stuff:  [https://www.bbc.com/worklife/article/20140806-the-slippery-slope ](https://www.bbc.com/worklife/article/20140806-the-slippery-slope) · Bad Education is a class act on ethically-grey educators:  https://deconrecon.asia/bad-education-is-a-class-act-on-ethically-grey- educators-review/  · The high school in “Bad Education” rings true. I know because I taught there myself:  https://qz.com/1837891/hbos-bad-education-reviewed-by-a- former-roslyn-high-teacher  · Filme Bad Education (2019), Cory Finley   "}]