[{"jcr:title":"Uma trajetória entre Estado, gênero e democracia","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:direito","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_2":"docentes:","cq:tags_3":"centro-de-conhecimento:centro-de-gest-o-e-pol-ticas-p-blicas"},{"richText":"Depois de quase dez anos na advocacia, Sara Tironi chegou ao Insper com uma agenda de pesquisa construída entre o direito e as políticas públicas","authorDate":"08/06/2026 10h43","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:direito","title":"Uma trajetória entre Estado, gênero e democracia","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Há um fio que atravessa toda a trajetória de Sara Tironi — da infância entre o interior paulista e a fronteira do Brasil com o Paraguai à vida acadêmica. Esse fio tem nome: o interesse por Estado, democracia e direitos. Não por acaso. A família materna de Sara veio do Paraguai na década de 1960, em meio à perseguição política associada ao regime de Alfredo Stroessner. Seu avô materno, dono de uma rádio AM, recusou-se a ceder espaço gratuito para a propaganda do regime — uma decisão que custou à família ameaças e o exílio no Brasil. Já do lado de cá da fronteira, no Mato Grosso do Sul, foi preso por militares brasileiros e ficou incomunicável em um quartel, ainda em 1962, por uma inscrição de cunho político em um muro atribuída, então, a ele. Sara cresceu ouvindo essa história. “Governo, ditadura, sobretudo privação de direitos, eram questões muito recorrentes que apareciam”, lembra. “Para mim, ciência política e direito eram o conflito: qual carreira devo escolher?” Nascida em Pirassununga, no interior paulista, Sara passou parte da infância entre a cidade natal e um município na fronteira com o Paraguai, onde viviam os avós. Quando chegou a hora de escolher a faculdade, optou pelo Direito. Ingressou na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP (FDRP), na primeira turma do curso. A escolha tinha também um componente familiar: para os pais, o Direito parecia uma carreira mais segura, com caminhos possíveis na advocacia ou em concursos públicos. Mas a academia a conquistou já no primeiro semestre. “Meus pais me perderam no primeiro semestre da faculdade de Direito”, brinca. “Havia a disciplina de Teoria Geral do Estado, e eu fiquei nela para sempre.” Em paralelo, começou uma iniciação científica em direitos humanos — sem saber exatamente o que era pesquisa científica, mas movida pela curiosidade. Esse passo definiria sua trajetória. Mestrado, advocacia e a virada para o gênero Formada em 2013, Sara se mudou para São Paulo para cursar o mestrado em Direito do Estado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Para bancar os estudos, começou a advogar em direito econômico — área que lhe apresentou discussões em matérias antitruste, comércio internacional e regulação que pode colocar em diálogo com seus interesses acadêmicos, já então mais focados em políticas públicas. Concluiu o mestrado em 2016, com uma dissertação sobre política pública para a educação infantil e sobre como o Congresso Nacional havia legislado a respeito do tema entre 2001 e 2010. Orientada pela professora Nina Beatriz Stocco Ranieri, Sara integrou um núcleo de pesquisa da USP que investigava 25 anos de democracia brasileira à luz da produção legislativa. Foi nesse trabalho que percebeu algo que marcaria toda a sua agenda de pesquisa. “A gente estava falando de política para a primeira infância, e as crianças não apareciam nas políticas públicas”, recorda. “Por que não apareciam? Os caminhos levavam ao fato de que mulheres são bastante invisibilizadas em política; elas não estão ocupando cargos no Congresso ou em outros espaços de poder.” O tema das mulheres na política estava ali, latente, esperando para ser investigado. Depois do mestrado, Sara fez uma pausa na advocacia para cursar o European Master in Law and Economics, vinculado à rede Erasmus. Foram seis meses na Universidade de Hamburgo, na Alemanha, estudando como a economia impacta normas jurídicas, com foco em direito público, e três meses na Universidade de Viena, na Áustria, com ênfase em avaliação de políticas públicas — análise de custo-benefício e avaliação de impacto regulatório. Os dois períodos renderam um LL.M. e um M.A. e ampliaram o repertório metodológico que ela traria de volta ao Brasil. De volta a São Paulo, retomou a advocacia. Mas o doutorado continuava no horizonte. Em 2022, Sara ingressou no programa de doutorado em Direito do Estado na Faculdade de Direito da USP, novamente sob orientação de Nina Ranieri. A tese, concluída em 2025 com apoio da Capes, investigou como deputadas federais brasileiras atuaram, após a redemocratização, para concretizar políticas públicas voltadas às mulheres — campo que ela define como representação substantiva para a equidade de gênero. “Esse foi o caminho que eu fui seguindo, que sigo até hoje: mulheres na política, representação política de mulheres em sua diversidade, e o que isso significa para políticas públicas”, afirma. O Insper e a confluência de interesses Em 2023, Sara deu o passo que havia planejado desde a graduação: deixou suas atividades na advocacia — foram quase dez anos de prática — e, pouco tempo depois, ingressou no Insper como assistente de ensino na Graduação em Direito. “Assim que eu me desliguei do escritório em que trabalhava, arrumei uma bolsa de pesquisa, e o Insper estava começando o programa de assistente de ensino na graduação em Direito. Eu me inscrevi e fui admitida”, conta. Em 2024, passou a atuar como professora em tempo parcial. O que ela não esperava era a intensidade das conexões que o ambiente do Insper proporcionaria. Ao entrar em contato com o grupo de pesquisa sobre emendas parlamentares ao orçamento, vinculado ao Centro de Gestão e Políticas Públicas (CGPP), Sara encontrou um espaço para unir duas pontas de sua trajetória: o estudo do Legislativo e o estudo das mulheres na política. “Meu interesse passou a ser saber se as deputadas estão usando as emendas de orçamento como uma oportunidade para a concretização de políticas públicas, se há diferença nas preferências temáticas delas e como elas enfrentam barreiras ou dificuldades”, explica. Em parceria com as pesquisadoras Bianca Casais e com Julia Marques Silva — ambas do Mestrado Profissional em Políticas Públicas (MPP) —, ela desenvolve uma pesquisa que analisa o comportamento parlamentar das deputadas federais na alocação de recursos orçamentários. O trabalho foi aceito para ser apresentado em junho na European Conference on Politics and Gender, na Universidade de Newcastle, na Inglaterra, e também em encontros na Universidade Brunel, em Londres, e na Universidade de Edimburgo, na Escócia. Paralelamente, em colaboração com o professor Marcelo Marchesini, também no âmbito do CGPP, Sara investiga as emendas parlamentares em nível subnacional — pesquisa que deve ser apresentada em agosto no congresso da Associação Brasileira de Ciência Política, no Pará. Pesquisa colaborativa e sala de aula No Insper, Sara leciona clínica jurídica na Graduação em Direito. A docência, que era uma incógnita quando deixou os escritórios, revelou-se uma fonte inesperada de satisfação. “A troca em sala de aula é algo que me dá muita satisfação. Você fala uma coisa e o aluno vem com uma dúvida porque está partindo de um lugar completamente diferente. Ir construindo isso me anima muito.” Sobre o ambiente de pesquisa no Insper, Sara aponta como principal diferencial a cultura colaborativa. “Em outros lugares, às vezes, acaba sendo um pouco a ideia do pesquisador isolado, da pessoa que tem a ideia genial. Aqui eu tenho sentido muito que é um trabalho em grupo, que a ciência se constrói por colaborações — cada um contribui com aquilo que sabe.” Há também uma simetria curiosa entre sua trajetória e o curso em que atua. Sara se formou na primeira turma da FDRP, em Ribeirão Preto. Agora, acompanha a Graduação em Direito do Insper, curso que formou sua primeira turma em 2025. “Tenho uma sensação de que estou fazendo parte da construção de algo”, reflete. “A novidade às vezes é difícil, mas às vezes é uma grande oportunidade de construir algo diferente, de poder ser criativo.”  "}]