[{"jcr:title":"Iniciação científica de aluno do Insper investiga o casamento infantil no Brasil","cq:tags_0":"tipos-de-conteudo:pesquisa-na-graduação","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:direito","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:políticas-públicas"},{"richText":"Pesquisa de Felippe Furtunato de Faria, do curso de Direito, expõe a dimensão invisível das uniões informais entre menores de idade e propõe caminhos para políticas públicas mais eficazes","authorDate":"12/03/2026 11h37","madeBy":"Por","tag":"tipos-de-conteudo:pesquisa-na-graduação","title":"Iniciação científica de aluno do Insper investiga o casamento infantil no Brasil","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"É comum que projetos de iniciação científica comecem por motivações acadêmicas. No caso de Felippe Furtunato de Faria, aluno bolsista que cursa o 7º semestre de Direito no Insper, a motivação surgiu, antes de tudo, de uma necessidade pessoal. “Passei por dificuldades familiares no início da graduação e precisei sair da casa dos meus pais. Eu precisava de renda para conseguir morar perto da universidade e continuar o curso”, relata. Foi assim que ele se aproximou da pesquisa acadêmica. O que começou como uma oportunidade financeira tornou-se um projeto pessoal, acadêmico e social de grande impacto: um  [estudo](https://repositorio-api.insper.edu.br/server/api/core/bitstreams/1c18db20-059d-459c-ac52-9d174cef301b/content)  sobre casamento infantil e gravidez na adolescência no Brasil. “Ao longo da iniciação científica, fui notando que muito do que eu estava pesquisando se conectava com a minha história”, conta Felippe, que é fruto de um casamento infantil. Sua mãe conheceu seu pai aos 12 anos de idade, em uma pequena cidade do Rio Grande do Norte. “Era uma criança cuidando de outra”, resume. Esse vínculo pessoal com o tema trouxe urgência e profundidade ao trabalho. “Quando terminei meu trabalho, olhei para o relatório final e vi o número de pessoas que vivem esse fenômeno. Por um instante, senti que estava representando uma massa de pessoas que dependem de estudos como esse para terem oportunidades.” A professora  [Isabela Brandão Furtado](https://www.insper.edu.br/pt/docentes/isabela-brandao-furtado) , orientadora do projeto ao lado do professor  [Darcio Genicolo Martins](https://www.insper.edu.br/content/insper-portal/pt/docentes/darcio-genicolo-martins.html) , destaca que um dos maiores desafios — e também méritos — do trabalho foi justamente fazer a ponte entre áreas distintas. “Felippe é aluno de Direito, e tanto eu quanto o Darcio somos professores de Economia. Foi um desafio interessante tentar chegar a uma linguagem comum entre essas duas áreas de conhecimento”, explica. Ela ressalta que o aluno teve que lidar com programação, bases de dados brutas e estatísticas descritivas, elementos pouco comuns na formação jurídica. “Foi muito bonito ver como ele se desenvolveu nesse aspecto.” Essa curva de aprendizado também foi sentida de forma intensa pelo próprio Felippe. “Eu comecei a pesquisa sem saber programar, sem dominar ferramentas de estatística, sem saber sequer onde procurar informação relevante”, relembra. Ao longo do projeto, ele mergulhou em temas como economia da saúde, ciência de dados e direito público. “Descobri uma paixão por law & economics nesse processo. Hoje, curso uma trilha em Ciência de Dados no Insper e quero seguir carreira na intersecção entre Direito e Economia.” Uniões invisíveis e a lacuna nos dados oficiais A pesquisa de Felippe, intitulada “Entre a lei e os números: um estudo sobre casamento infantil e gravidez na adolescência no Brasil”, revela uma discrepância importante entre os dados oficiais de cartório e a realidade das uniões informais. “Grande parte dos estudos analisa os casamentos infantis a partir de registros civis. Mas e as uniões informais? Quantas famílias vivem em condições semelhantes ao matrimônio antes dos 18 anos?”, questiona Felippe. A principal contribuição de sua pesquisa é justamente quantificar e caracterizar essas uniões invisíveis. Com base na compatibilização de dados de registros civis, nascimentos e pesquisas domiciliares, Felippe e seus orientadores estimaram que mais de 80% das uniões entre menores não são oficialmente registradas. “Enquanto os registros oficiais apontam entre 20 mi e 30 mil casos por ano, os dados informais ultrapassam os 200 mil.” Para a professora Isabela, esse é um dos principais alertas trazidos pelo trabalho. “Existe uma urgência de olhar para esse tema como uma pauta necessária para pensarmos uma agenda de garantia de direitos e proteção de crianças e adolescentes no Brasil de forma mais ampla”, afirma. Segundo ela, o trabalho mostra que há um ponto cego na legislação — especialmente no que diz respeito às uniões estáveis — que dificulta o enfrentamento adequado do problema. A pesquisa revelou também que a queda observada nos casamentos infantis pode estar relacionada menos às reformas legais e mais à transição demográfica em curso no país. Com menos adolescentes na população, é natural que haja menos uniões entre menores, mas isso não significa que o problema esteja resolvido. “Existe uma interpretação equivocada de que o problema está diminuindo porque os números oficiais estão caindo. Mas essa queda ignora as uniões informais e a mudança na estrutura etária da população”, observa Felippe. Outro diferencial da pesquisa foi a preocupação em traçar o perfil socioeconômico das famílias envolvidas. “Se vamos propor uma política pública, precisamos saber para quem estamos falando. Qual a escolaridade dessas meninas? Elas chegam ao ensino médio? Como são suas famílias?” Essas perguntas nortearam o estudo e permitiram a construção de um retrato mais preciso da população afetada. Segundo Isabela, uma das qualidades do trabalho de Felippe foi saber lidar com a forte motivação pessoal sem perder o rigor acadêmico. “Nós trabalhamos muito isso ao longo do processo. Como era algo que carregava uma dimensão pessoal e social muito forte para o Felippe, ele estava muito motivado. Mas eu dizia: podemos ter opinião, mas precisamos ser agnósticos no método. Precisamos olhar para os dados, mapear evidências, e só depois chegar às conclusões”. A iniciação científica de Felippe foi desenvolvida no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica ( [PIBIC](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/pesquisa-na-graduacao/pibic) ) e conquistou menção honrosa entre os trabalhos apresentados durante o  [3º Simpósio de Iniciação Científica e Tecnológica](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/acontece-no-insper/da-tecnologia-ao-direito-3-simposio-de-iniciacao-cientifica-e-tecnologica-destaca-a-diversidade-da-pesquisa-na-graduacao-do-insper) , em 2025. O trabalho também foi aceito para extensão em parceria com o Becker Friedman Institute, da Universidade de Chicago, onde Felippe deverá continuar a pesquisa em intercâmbio acadêmico, em julho deste ano. Mais do que uma pesquisa acadêmica, o trabalho de Felippe tem um propósito claro: fazer barulho. “O que eu queria com essa pesquisa é acender um debate: o que está sendo feito, o que pode ser feito, e onde precisa ser feito. Porque não adianta uma proibição legal se a realidade continua a mesma.” Para Felippe, o estudo não só contribui para a formulação de políticas públicas, mas também para dar visibilidade a um fenômeno muitas vezes invisível para a sociedade e para a própria academia. “Eu achava que o problema estava limitado ao Nordeste, à minha família. Mas quando fui estudar, percebi: é um problema nacional. Existe muito mais do que eu imaginava.”  "},{"jcr:title":"Felippe com os professes Isabela Brandão Furtado e Darcio Genicolo Martins, orientadores do trabalho","alt":"Felippe com os professes Isabela Brandão Furtado e Darcio Genicolo Martins, orientadores do trabalho"}]