[{"jcr:title":"Painéis da história urbana","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","cq:tags_2":"area-de-conhecimento:comunicação/cultura"},{"richText":"Como um grande museu da humanidade, livro de Leonardo Benevolo reúne fragmentos da urbanização para contar a trajetória das sociedades","authorDate":"31/08/2026 15h38","author":"Heloisa Loureiro Escudeiro*","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"Painéis da história urbana","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"vermelho / amarelo / preto"},{"themeName":"vermelho / amarelo / preto","backgroundColor":"rgb(229,5,5)"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Publicado originalmente na Itália em 1975,  História da cidade , de Leonardo Benevolo, chegou ao Brasil em 1997 pela Editora Perspectiva, permanecendo em seu catálogo desde então — com uma edição revista lançada em 2019. Presença constante nas disciplinas de história e evolução urbana dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, nos quais é considerada uma referência obrigatória, a obra impressiona pela amplitude temporal — da Pré-História às cidades contemporâneas —, bem como pela didática. Essas duas características acabam por ampliar seu alcance, fazendo com que o livro não interesse apenas a estudantes e profissionais da área.     O percurso histórico apresentado por Benevolo funciona como o fio condutor de uma investigação profunda. Ao atravessar sucessivas civilizações, o autor procura compreender como os modos de organização política, econômica, religiosa e cultural foram sendo inscritos no território. O ambiente construído torna-se, assim, um registro da própria sociedade, permitindo acompanhar sua evolução por meio das formas urbanas que produziu, e não apenas por uma sequência de acontecimentos históricos. A partir desse ponto, ruas, edifícios, infraestruturas e espaços públicos passam a ser tratados como evidências capazes de revelar as maneiras de cada civilização se organizar.   Essa interpretação é montada gradualmente no decorrer das páginas da obra. Em vez de buscar uma origem única, Benevolo destaca os processos ao longo do tempo. A formação dos assentamentos urbanos passa a ser compreendida em relação às transformações na produção, ao aperfeiçoamento das técnicas construtivas, às formas de exercício do poder e às mudanças na vida cotidiana. Isso porque o interesse do autor não está em identificar um momento fundador, mas em revelar como essas sucessivas transformações deixam marcas permanentes. Assim, o livro acompanha a evolução das cidades à medida que revela as sociedades que lhes traçaram os contornos, mostrando como cada uma delas encontrou respostas próprias para o seu dia a dia.   E é justamente para tornar visíveis essas relações que a obra recorre com frequência ao repertório gráfico. Cartografias ajudam a compreender processos territoriais; cortes e perspectivas aproximam os leitores das soluções arquitetônicas; fotografias, desenhos e reconstituições revelam aspectos do cotidiano que dificilmente seriam percebidos apenas pela descrição textual. Aos poucos, o livro ensina uma nova maneira de ler as estruturas urbanas: uma muralha passa a escancarar relações de poder; um sistema de abastecimento evidencia capacidades técnicas; uma praça fala sobre modos de convivência.   Ao aproximar estruturas monumentais e aspectos da vida cotidiana, Benevolo chama a atenção para outro ponto fundamental da urbanização: as cidades raramente começam do zero. Elas acumulam permanências, reinterpretam soluções anteriores e incorporam novas camadas no decorrer dos tempos. Mesmo experiências que buscaram representar novos começos — Brasília talvez seja o exemplo mais evidente — continuam expressando os projetos políticos, econômicos e culturais de sua época.   Essa compreensão das cidades como processos históricos acompanha também os capítulos finais da obra. Já na década de 1970, Benevolo sublinhava a distância existente entre a cidade concebida pelas normas e aquela efetivamente de fato edificada. Sua crítica alcança também parte do pensamento moderno, excessivamente concentrado nas funções urbanas e menos atento às relações que dão sentido ao espaço vivido. Passadas quase cinco décadas, essas questões seguem presentes e ajudam a explicar por que muitas cidades ainda enfrentam dificuldades para responder às transformações sociais que as produzem.   Como toda grande síntese,  História da cidade  não deixa de fazer escolhas. A tradição europeia ocupa o centro do estudo, enquanto cidades americanas aparecem, em muitos momentos, já tendo no horizonte a colonização. Permanecem menos exploradas as formas de organização territorial desenvolvidas pelos povos originários, relegando ao segundo plano uma camada importante da história urbana das Américas. É uma ausência que salta aos olhos porque o próprio método adotado por Benevolo valoriza o acúmulo de camadas históricas na compreensão das cidades.   Quase cinquenta anos após sua publicação,  História da cidade  se mantém atual porque alarga nossa capacidade de formular perguntas sobre o presente. Se as cidades são resultado de processos históricos, também permanecem abertas às transformações de seu tempo. Ler Benevolo é compreender que nenhuma rua, infraestrutura ou espaço público existe por acaso: todos condensam escolhas, conflitos, conhecimentos e modos de organização acumulados durante séculos. Essa percepção altera também a maneira como encaramos o futuro. As cidades que estamos construindo hoje serão, amanhã, documentos de nossa própria época, revelando às próximas gerações aquilo que decidimos preservar, transformar ou ignorar. Talvez essa seja a principal contribuição do livro: lembrar que a história urbana nunca termina. Ela continua sendo escrita a cada nova camada incorporada ao território.   * Heloisa Loureiro Escudeiro é coordenadora-adjunta do Núcleo de Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper.   "},{"fileName":"Capa livro_História da Cidade_Leonardo Benevolo.png"},{"text":"HISTÓRIA DA CIDADE , de Leonardo Benevolo Tradução: Silvia Mazza Revisão da tradução: Anita Di Marco Editora Perspectiva, 864 págs., R$ 294,90."}]