[{"jcr:title":"História e saúde em Sampa","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades"},{"richText":"Como um “patologista urbano”, Jeffrey Lesser analisa a cidade, do século XIX até os dias atuais, no recém-publicado Viver e Morrer em São Paulo","authorDate":"28/08/2025 12h11","author":"Paulo Saldiva*","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"História e saúde em Sampa","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Qual é a minha cidade? É onde viveram Tibiriçá e João Ramalho, quando o trabalho era caçar índios nas lonjuras?  Seria a dos índios catequizados por Anchieta? Porventura seria aquela dos negros do Saracura ou a descrita por Mário e Oswald de Andrade? Talvez seja a cidade dos imigrantes, que vieram de terras distantes, como os judeus e os carcamanos, como eram chamados os italianos no tempo passado, por Antônio de Alcântara Machado? Seria aquela habitada pelos peregrinos, os imigrantes nordestinos, que trocaram o seu viver pausado e lento para vir de encontro à cidade onde o tempo não para, na caçamba de um pau de arara? Ou a cidade dos japoneses da Liberdade e a de tantos povos, que aqui recomeçam a vida nos ares novos e poluídos?  Talvez não exista uma só cidade e sim as várias cantadas por aqui, nas vozes de Adoniran, Vanzolini e Rita Lee. Cada um de nós tem a sua Sampa, em sua beleza crua, que pode ser chamada de “divercidade”. Uma cidade diversa onde somente interessa o ofício do viver e sobreviver. São Paulo, minha gente, fala muito sobre viventes. São Paulo é um duvido, São Paulo é um divido, São Paulo é apenas ser. Ler o livro Viver e Morrer em São Paulo , de Jeffrey Lesser, foi para mim extremamente prazeroso — e, penso eu, assim o será para todos que se interessem pela vida urbana, seus desafios, contrastes e dramas. Conheci o autor enquanto era professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Fiquei impressionado pela vitalidade e bom humor daquele historiador americano, que se interessa pela história do Brasil e por São Paulo, combinando intensidade afetiva e amorosa com um domínio historiográfico preciso e rigoroso. Lesser ocupa atualmente a Cátedra de Estudos Brasileiros na Universidade Emory, em Atlanta, EUA, e é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP. Como sou um patologista de seres humanos, permiti-me definir Lesser como um patologista urbano, que através de seu microscópio provido de lentes de humanidade analisa as ruas, as pessoas e suas histórias, o território físico e afetivo onde vivem e os valores culturais de cada época. A obra se organiza em seis capítulos principais, nos quais Lesser articula história social, saúde pública, imigração e urbanismo de São Paulo, tendo o bairro do Bom Retiro ( na foto acima, a Rua José Paulino ) como epicentro analítico na transição dos séculos XIX e XX, período da transformação de São Paulo da mais brasileira das cidades (de capital provinciana a metrópole de ares europeus como nenhuma outra do país), a partir do início do século XX, chegando aos dias de hoje como a mais global das cidades do território nacional.  A pesquisa integra fontes históricas (arquivos, jornais, registros oficiais), observações etnográficas e experiências pessoais do autor, compondo uma narrativa interdisciplinar que conecta passado e presente. O fio condutor é a relação entre imigração, saúde e infraestrutura urbana, demonstrando como políticas públicas, condições ambientais e trajetórias migratórias se sobrepõem para moldar desigualdades em saúde. A escolha do Bom Retiro, um dos cinco bairros paulistanos que tradicionalmente receberam e recebem até hoje imigrantes (ao lado do Brás, Bexiga, Barra Funda e Belém, formando os cinco Bs), é apropriada — uma amostra representativa do processo de mudanças que São Paulo desvairadamente experimentou no período analisado. O Bom Retiro de má saúde humana que — perdura até a atualidade — foi o cenário da peça estrelada por pessoas miseráveis, pela intolerância sanitária caracterizada pelo Desinfectório Municipal e da Polícia Médica (à semelhança dos lazaretos da Idade Média) e do último surto da peste bubônica (aquele mesmo, a medieval) ocorrida na capital paulista no período compreendido entre os últimos anos do século XIX até o alvorecer do século XX. Não pense, contudo, que o livro é um relato de tragédias. O texto é sensível e apresenta tinturas de humor, como as imperdíveis crônicas de Juó Bananére, pseudônimo do jornalista e engenheiro civil paulista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (1892-1933), que contou a história da Sampa daqueles tempos não nos termos de Caetano Veloso e Rita Lee, mas na gramática do português macarrônico dos imigrantes que afluíam à cidade daqueles tempos. O texto introduz o conceito de “saúde ruim” ( bad health ), englobando desde doenças infecciosas até condições de trabalho, violência e poluição. As oficinas-residências têxteis, verdadeiras “cortiço-oficinas”, condensam riscos ambientais e sociais. Lesser enfatiza que os edifícios e a infraestrutura são atores ativos no processo de adoecimento. A tentativa de “salvar” o bairro por meio de reformas urbanas e vigilância sanitária revela a medicalização autoritária da vida cotidiana, cenário no qual algumas formas de adoecimento poderiam levar a pessoa em questão à prisão em vez de um tratamento na Santa Casa de Misericórdia. Aliás, “Misericórdia” era um artigo raro no almoxarifado da gestão urbana daqueles tempos — e, temo eu, até dos dias atuais. Ao longo de toda obra, Lesser mostra como viver e morrer em São Paulo é, sim, sublinhemos, inseparável das histórias de imigração, das políticas de saúde e da infraestrutura urbana. Ao recuperar a longa duração dos processos, o autor demonstra que a desigualdade em saúde não é produto apenas de condições atuais, mas de camadas históricas de exclusão e resistência. São Paulo cresceu e novos guetos de exclusão foram espalhados pela cidade. Para além dos cinco Bs, a cidade de São Paulo ganhou um abecedário complexo. Eu convivo diariamente com os corpos das pessoas falecidas nos novos guetos de exclusão, lendo a cidade através das doenças encontradas nos seus corpos e na narrativa dos familiares.   Novos desafios impostos pelas mudanças de clima, pela poluição do ar e pelas novas formas de trabalham levaram às cidades a um burnout urbano. Adoecemos não somente pela falta de saneamento de nossas ruas ou da qualidade de nossas moradias, pois exercemos livremente o ato de conhecer novos germes nos compactos e apinhados meios de transporte urbano. A gestão do espaço urbano também cresceu em complexidade e incorporou novos atores, alguns munidos de leituras bíblicas, outros portando armas, ou mesmo as duas coisas juntas. Nem por isso o livro do professor Lesser perdeu atualidade. Ele retrata com delicadeza e precisão alguns aspectos essenciais da natureza humana. As cidades hoje são o habitat deste bípede que somos. Nesse cenário, que cada vez mais muda para um ambiente construído, temos um novo ecossistema, onde a natureza cede progressivamente espaço para a concretude do asfalto. A maior parte do que consideramos como civilização foi construída pela força criativa do espírito humano, alimentado pela seiva vital composta pela troca e mistura de ideias de saberes, de sonhos e utopias, que se renovam todos os dias, no ambiente urbano.  Esse é o palco de um conflito eterno entre as delícias e os sofrimentos — que convivem nas cidades sem perfeito entendimento. * Coordenador da Iniciativa Saúde Urbana do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper. Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Doutorou-se pela mesma instituição, onde é professor titular do Departamento de Patologia desde 1996."},{"fileName":"Capa do livro_Viver e morrer em São Paulo.png"},{"text":"VIVER E MORRER EM SÃO PAULO . Imigração, saúde e infraestrutura urbana (século XIX até o presente), de Jeffrey Lesser. Tradução: Giuliana Gramani Editora Unesp 392 páginas R$ 90,00"}]