[{"jcr:title":"Como a moradia, o calor e os vínculos sociais moldam a saúde mental nas cidades","cq:tags_0":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","cq:tags_1":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper"},{"richText":"Encontro no Insper reuniu especialistas e representantes dos territórios para discutir os efeitos das desigualdades urbanas — e os caminhos para construir espaços de cuidado e convivência","authorDate":"30/10/2026 08h05","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"Como a moradia, o calor e os vínculos sociais moldam a saúde mental nas cidades","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Uma casa pode oferecer abrigo sem garantir descanso. Um bairro violento pode dar sensação de segurança a quem conhece seus moradores. Uma área verde pode criar vínculos, no entanto precisa estar perto e ter quem cuide dela. Essas relações estiveram no foco do evento  [“Psicanálise Urbana, uma conversa sobre como as condições das cidades atravessam nossa psique”,](https://www.insper.edu.br/pt/eventos/2026/10/psicanalise-urbana-uma-conversa-sobre-como-as-condicoes-da-cidades-atravessam-nossa-psique)  realizado em 15 de outubro no Insper. Na abertura, Adriano Borges Costa, coordenador acadêmico do [Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-estudos-das-cidades) , apresentou a proposta de aproximar psicanálise e cidade. As experiências subjetivas já aparecem nas pesquisas qualitativas e nas escutas realizadas pelo Centro nos territórios. O encontro buscou avançar nessa discussão ao trazer a psicanálise como referencial teórico para compreender como os fatores materiais e relacionais das cidades impactdam a vida psíquica. Na primeira mesa, mediada pela arquiteta e pesquisadora Hannah Arcuschin Machado, coordenadora-adjunta do Programa Cidade + 2º C, do Laboratório Arq.Futuro, a psicanalista Maria Lucia Homem questionou a ideia de que a saúde mental se restringe ao indivíduo. Para ela, a mente é “transindividual”: constitui-se na língua, na família e nos laços sociais. O individualismo moderno foi libertador, contudo dá sinais de esgotamento. Maria Lucia defendeu um paradigma que preserve os direitos individuais e reconheça a interdependência entre pessoas, coletividades e natureza. Nas políticas públicas, isso significa considerar também os sonhos e as aspirações de quem vive nos territórios. Evaniza Lopes Rodrigues, da coordenação executiva da União Nacional por Moradia Popular, observou que, ao dizer onde mora, uma pessoa cita o bairro, não se em uma casa ou um apartamento. O endereço expressa pertencimento, desperta julgamentos sobre o lugar social de quem vive ali e condiciona o tempo gasto no transporte e o acesso a serviços. Há quem aceite piores condições de trabalho ou de estudo para se deslocar menos “nessa cidade que nos adoece o tempo todo”. Ela relatou o caso de uma moradora de uma favela violenta da região de Sapopemba que, prestes a se mudar para um novo empreendimento habitacional, disse que perderia a segurança. Segundo o relato de Evaniza, a moradora explicou: “Aqui eu conheço as pessoas e as pessoas me conhecem. Aonde vou, ninguém sabe quem sou”. Para Evaniza, se moradia e cidade são direitos, sua negação é inadmissível, e a organização popular atua justamente contra o conformismo de quem acredita que o bairro será sempre assim. Ela lembrou um embate recente com uma grande empresa em São Paulo, vencido quando o movimento combinou força política, pressão e instrumentos jurídicos. Ana Cláudia Rossbach, subsecretária-geral da ONU e diretora-executiva do ONU-Habitat, situou o debate em uma crise habitacional global: de acordo com os dados apresentados por ela, cerca de 3 bilhões de pessoas vivem em condições inadequadas de moradia e cerca de 1 bilhão mora em favelas. A dificuldade de pagar aluguel ou comprar uma casa atinge também a Europa e os Estados Unidos. Ainda assim, ela vê a cidade como casa, por ter ampliado o acesso à educação, ao emprego e à autonomia, sobretudo das mulheres. Construir longe dos serviços, alertou, pode aprofundar a segregação, enquanto imóveis ociosos podem ser reaproveitados. Em Mauá, citou, uma reunião comunitária teve de ser feita num bar por falta de espaço público. “Como isso não vai afetar a saúde mental das pessoas?”, questionou."},{"jcr:title":"Hannah Arcuschin Machado, Ana Cláudia Rossbach, Maria Lucia Homem e Evaniza Lopes Rodrigues no primeiro painel","alt":"Hannah Arcuschin Machado, Ana Cláudia Rossbach, Maria Lucia Homem e Evaniza Lopes Rodrigues no primeiro painel"},{"text":"Temperatura, verde e escuta Entre as mesas, o médico Paulo Saldiva, professor titular da Faculdade de Medicina da USP e coordenador da iniciativa Saúde Urbana no Insper Cidades, participou remotamente. Para ele, colaboração e cuidado são necessidades básicas da sobrevivência humana, todavia as cidades favorecem o isolamento, tanto nos condomínios que reúnem moradia, lazer e trabalho na mesma portaria quanto na experiência de quem perde laços com o avanço da idade. Somado à falta de sono, à insegurança e ao medo do futuro, esse isolamento cobra “um imposto mental enorme”. Ainda assim, mostrou-se otimista: “As cidades têm a força criativa para a transformação”. Citou um projeto do Insper com a Faculdade de Medicina que busca usar jardins e hortas urbanas para promover atividades e aproximar pessoas idosas e crianças — e propôs um “urbanismo de encontro”. Na segunda mesa, mediada pela psicóloga Ana Carolina Jacob Manzoli, pesquisadora da Iniciativa Saúde Urbana do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, Paulina Achurra, coordenadora institucional do Centro, relatou experiências que conheceu na Holanda, onde médicos prescrevem atividades em hortas e moradores participam de decisões sobre parques. O ponto de partida foi uma pergunta: “Se o verde cuida da saúde das pessoas e do planeta, quem cuida da saúde do verde?”. Lá, ela notou que participar como voluntário é um privilégio, porque nem todos podem doar seu tempo. Em São Paulo, a desigualdade é evidente: segundo os números apresentados por Paulina, Heliópolis tem 1,8% de cobertura vegetal, e Pinheiros, quase 29%. Paulina defendeu um “verde de proximidade”, presente no cotidiano e capaz de favorecer encontros; um parque a 10 quilômetros de casa não cumpre esse papel. Em bairros adensados, as escolas são uma oportunidade, por estarem espalhadas pela cidade e receberem as crianças por muitos anos. Em Heliópolis, sua equipe trabalha com uma escola, ao lado de secretarias, da Faculdade de Medicina e de parceiros holandeses para transformá-la em laboratório vivo, com avaliação de temperatura, poluição, qualidade das interações e saúde mental dos professores. A ideia é que ela se torne uma escola-parque, aberta à comunidade fora do horário de aulas, com formas de governança que garantam o cuidado das áreas verdes. Rian de Queiroz Cunha, morador da Maré e coordenador de projetos socioambientais da Redes da Maré, mostrou que as desigualdades ambientais se repetem dentro das favelas. Ele apresentou dados do projeto Respira, diagnóstico da qualidade do ar e das ilhas de calor na Maré. O estudo, iniciado em 2023, nasceu porque os moradores perceberam que fazia mais calor do que antes e que a saúde respiratória, sobretudo das crianças, estava piorando. As medições indicaram que a Maré é seis graus mais quente que o entorno. O epicentro do calor está em Nova Maré, conjunto habitacional construído pelo poder público nos anos 1990, que não resfria à noite e concentra população jovem e de baixa renda. Para Rian, o caso desmente a ideia de que áreas planejadas são necessariamente melhores. O estudo também encontrou a maior concentração de dióxido de nitrogênio, gás poluente especialmente nocivo a meninos e meninas e aos idosos, no maior complexo de escolas da Maré, que atende crianças pequenas. Outra pesquisa, intitulada CliMaré, iniciada em 2025, apontou que 57,5% dos 1.648 moradores entrevistados percebem a casa como quente, 38,6% dizem que ela está sempre quente, 53,7% indicam o quarto como o cômodo mais quente e 47% ficam irritados ou muito irritados com o calor. “Seu descanso depende de a temperatura finalmente baixar”, resumiu Rian. Para ele, “o calor é uma experiência ambiental, porém a possibilidade de escapar dela não é igual para todo mundo”. O pesquisador alertou que relatos de irritabilidade, estresse e dificuldade para dormir nem sempre se convertem em registros de saúde e, assim, podem permanecer fora dos dados que orientam as decisões públicas. O psicanalista Jorge Broide, que há cinco décadas atua com pessoas em situação de rua e em contextos como os presídios, abordou a “escuta territorial”. Conhecer um território, explicou, é compreender as relações conscientes e inconscientes que o constituem, e isso exige escutar, não apenas ouvir. “Eu tenho o princípio de que, se nós escutamos, o outro fala.” Ele defendeu a articulação entre universidade, poder público, empresas e movimentos sociais e a formação de equipes para atuar em contextos de crise. Relatou já ter participado da capacitação de cerca de 3 mil trabalhadores do setor público. No encerramento, Ana Carolina Jacob Manzoli destacou o papel da psicanálise para “trazer vida para o dado”. A cidade apareceu, assim, como lugar de sofrimento, mas também de prazer, potência e mudança — possibilidades que dependem de escutar quem a habita e de criar condições concretas para o encontro.  "},{"jcr:title":"Ana Carolina Jacob Manzoli, Jorge Broide, Paulina Achurra e Rian de Queiroz Cunha no segundo painel","alt":"Ana Carolina Jacob Manzoli, Jorge Broide, Paulina Achurra e Rian de Queiroz Cunha no segundo painel"}]