[{"jcr:title":"Amazônia urbana: o centro do jogo","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/cop30"},{"richText":"A Região Norte atingiu 78,47% de urbanização. É preciso preparar suas cidades para um futuro climaticamente instável.","authorDate":"10/11/2025 09h30","author":"Élcio Batista* e Hannah Machado**","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/cop30","title":"Amazônia urbana: o centro do jogo","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"cinza / vermelho / turquesa"},{"themeName":"cinza / vermelho / turquesa"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Diferentemente do que se costuma supor, a Amazônia que recebe a Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP30) é, antes de tudo, urbana. O recorte oficial do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) confirma 772 municípios na Amazônia Legal e, no Censo 2022, a Região Norte atingiu 78,47% de urbanização, o maior avanço do país desde 2010 (+4,96 pontos percentuais). A pressão demográfica persiste: a Taxa de Fecundidade Total do Norte é 1,89 filho por mulher, acima da média nacional (1,55). Em números absolutos, a Amazônia Legal abriga cerca de 28 milhões de pessoas, 13,7% da população brasileira. A pressão urbana fica evidente em quatro casos. No Pará, Altamira passou de 99.075 habitantes (2010) para 126.279 (2022) e Canaã dos Carajás saltou de 26.716 para 77.079 no mesmo período. Fora do Pará, Boa Vista (RR) cresceu +45,4% (de 284.313 para 413.486) e Sinop (MT) foi de pouco mais de 113 mil para 196.067 habitantes. Sem projeto, norma e orçamento orientados ao clima, esse crescimento vira calor, alagamento e custo público evitável. O aumento da população das cidades em uma Amazônia mais quente, ou seja, com mais eventos climáticos extremos, [amplia a demanda por investimentos eminfraestrutura urbana adaptada à mudança do clima](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/cidades/os-caminhos-para-financiar-a-adaptacao-climatica-no-brasil) . Além da pressão nas demandas por água, moradia e drenagem, é necessário que cada real de obra enderece os riscos climáticos — mais drenagem por bacia, arborização e habitação ventilada; menos asfalto impermeável e adensamento mal planejado. Além de preparar os espaços urbanos para um futuro climaticamente instável, esses investimentos podem melhorar a qualidade de vida da população. Cidades com oportunidades de emprego e renda são a melhor forma de desincentivar atividades ilícitas como o desmatamento, responsável por quase metade das emissões de gases de efeito estufa (GEE) no território nacional. Há disponibilidade fiscal para realizar tais investimentos. Em 2023, os municípios brasileiros investiram R$ 121,41 bilhões, um recorde histórico, de acordo com a Multi Cidades – Finanças dos Municípios do Brasil 2025 FNP/Aequus. Esse dado mostra uma janela real para transformar discurso em obra quando a carteira de projetos está tecnicamente madura. Entre as capitais, um indicador do Tesouro que ajuda a medir capacidade efetiva é a participação do investimento com recursos próprios. No painel mais recente da Secretaria do Tesouro Nacional, ano-base 2022, Macapá (AP) aparece com 97,4% do investimento financiado por fonte própria; Boa Vista (RR) supera 90%; Belém (PA), Cuiabá (MT), Manaus (AM) e São Luís (MA) orbitam a faixa de ~60%; Palmas (TO) opera mais baixo (~29%) e Porto Velho (RO) zera no ano. A mediana nacional das capitais é 69,2%. Ressalte-se: existe, sim, base fiscal para investir — a condição é vincular esse investimento à adaptação, para evitar má adaptação (quando as intervenções para se ajustar às mudanças climáticas, em vez de reduzir a vulnerabilidade, acabam piorando riscos climáticos ou criando problemas para sistemas e pessoas). Alguns exemplos são deslocamentos de populações vulnerabilizadas sem governança participativa, infraestruturas de drenagem subdimensionadas e impermeabilização do solo pelo asfaltamento. No pano de fundo global, o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres, reconheceu que ultrapassar 1,5 °C é “inevitável” no curto prazo. A consequência prática é priorizar adaptação de baixo carbono e financiamento. No Brasil, a licença para perfuração exploratória na Foz do Amazonas abriu uma contradição de alto risco: se houver descoberta comercial, a produção pode começar por volta de 2030, ano em que o país está comprometido em cortar pela metade a emissão de GEE. A sociedade captou o dilema: segundo o Datafolha, 61% dos brasileiros defendem proibir a exploração na Foz. Na geopolítica, o quadro piorou às vésperas de Belém. Os Estados Unidos iniciaram, em 20 de janeiro de 2025, o processo de saída do Acordo de Paris por ordem executiva, o que reduz coordenação e previsibilidade num dos principais emissores. A síntese de NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) publicada pela UNFCCC (Secretaria da Convenção) às vésperas da COP30 registrou apenas 64 novos planos submetidos até 30 de setembro de 2025, com 131 países ainda sem atualização — cobertura insuficiente para convergir a 1,5 °C. Há, portanto, um descompasso entre o chamado ao fortalecimento do multilateralismo — destacado na própria carta da Presidência da COP30 — e a realidade. A cooperação formal está em baixa quando seria mais necessária. Uma resposta prática é perseguir um multilateralismo de resultados: metas simples, linhas de base comparáveis, verificação independente e desembolsos atrelados a entregas, combinando a via ONU/UNFCCC com arranjos complementares (bancos multilaterais, filantropia, redes de cidades e coalizões setoriais) capazes de operacionalizar pagamentos por carbono com contabilidade transparente e projetos urbanos de adaptação em capitais e cidades médias da Amazônia. Fatores econômicos e de segurança energética empurram decisões de curto prazo. A guerra na Ucrânia desorganizou o mercado europeu de gás, reativou termelétricas e encareceu energia. A dependência de minerais críticos e terras raras — com a China dominando etapas relevantes de mineração e, sobretudo, de processamento — cria risco de oferta e incentiva soluções fósseis de transição. Enquanto isso, uma certeza avança: a urbanização acelerada da África e da Ásia, com a Índia projetada para somar mais 416 milhões de habitantes urbanos até 2050. Essa pressão por infraestrutura, bens e serviços decidirá o balanço de carbono das próximas décadas; se não for climaticamente orientada, fechará a porta para 1,5–2 °C. A solução para a floresta não virá só da política, mas da economia ancorada em ciência. [José Alexandre Scheinkman e um grupo de outros economistasdefendem combinar preço de carbono e pagamentos por tonelada de CO₂ evitada oucapturada,](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/economia-e-financas/como-o-mercado-bilionario-de-carbono-pode-acabar-com-o-desmatamento-da-amazonia) com mensuração e verificação independentes, para integrar a Amazônia à economia mundial do carbono e alinhar incentivos no território. Na mesma direção, [Lars Peter Hansen (Prêmio Nobel de Economia em 2013) argumenta que omundo precisa pagar para restaurar e preservar a Amazônia](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/economia-e-financas/nobel-de-economia-defende-acao-proativa-diante-das-incertezas-climaticas) , com transferências internacionais atreladas a resultados mensuráveis; ordens de grandeza na casa de dezenas de dólares por tonelada podem alterar o uso da terra. A calibragem do preço e a governança dos dados são decisivas para previsibilidade e custo de capital. A oitava carta da Presidência da COP30, assinada por  [André Corrêa doLago](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/cidades/um-conselho-para-impulsionar-a-adaptacao-das-cidades-as-mudancas-climaticas) , chama Belém de “COP da verdade” e recoloca adaptação no centro: sem adaptação, a mudança do clima se torna multiplicador da pobreza. A carta também recupera a leitura correta de Darwin: não é a força isolada que prevalece e sim a capacidade de cooperar. Até aqui, cooperamos para competir contra a natureza; daqui em diante, a sobrevivência depende de cooperar com a natureza e entre atores para entregar resultados medidos em risco reduzido e emissões evitadas. Traduzindo essa régua para a Amazônia urbana, a entrega é mensurável: saneamento e drenagem dimensionada por bacia; parques alagáveis e arborização de ruas e equipamentos públicos; habitação ventilada e sombreada (projeto bioclimático e materiais frios); mobilidade por rios integrada (terminais, bilhetagem e embarcações de baixa emissão); sistemas de alerta multirrisco acoplados à defesa civil, saúde e assistência. Com monitoramento e avaliação simples — antes, durante e depois — o investimento sai do anúncio e entra na redução de perdas humanas, fiscais e patrimoniais. Na órbita metropolitana de Belém, Barcarena já mostra o caminho ao usar saneamento como espinha dorsal da adaptação e alinhar planejamento porto–cidade com drenagem e arborização. É o tipo de carteira que deveria sair de Belém com fonte definida, cronograma publicado e resultados acompanhados. Para sustentar a virada depois da Conferência, o programa Cidade +2 °C, do [Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper,](https://www.insper.edu.br/pt/pesquisa/centro-de-estudos-das-cidades) estruturou a frente Fluxos Financeiros na Amazônia Legal. A ideia é consolidar séries anuais de Investimento de estados e capitais e de Investimentos liquidados e pagos a partir da plataforma do Tesouro e de demonstrativos contábeis, cruzando esses dados com métricas de qualidade adaptativa do gasto. Quando couber, amarraremos a carteira aos instrumentos de planejamento (Plano Plurianual e Lei Orçamentária Anual) e a mecanismos financeiros como blended finance (financiamento misto) e seguros paramétricos. O objetivo é dar régua e compasso para que prefeitos, governadores e financiadores priorizem o como — e não o se — da implementação de ações de adaptação. Se a COP30 cravar adaptação como critério do investimento e reconhecer que nossa força evolutiva é a cooperação, Belém poderá ser lembrada como a Conferência que tirou a Amazônia urbana do rodapé e a colocou no centro da solução para a floresta — e, sobretudo, para as pessoas que nela vivem. *Coordenador do Programa Cidade +2°C do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper (Insper Cidades) **Coordenadora-adjunta e pesquisadora principal no Programa Cidade +2°C do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper (Insper Cidades)"},{"title":"Insper na COP30"},{"linkIcon":"icon-insper-return-arrow","linkText":"A COP e as populações urbanas: desafios e oportunidades"},{"linkIcon":"icon-insper-return-arrow","linkText":"Insper Cidades promove Bienal Indígena de Arquitetura e Urbanismo em parceria com lideranças e instituições nacionais"},{"jcr:title":"transparente / vermelho / turquesa"},{"buttonBackgroundColor":"rgb(229,5,5)","themeName":"transparente / botao vermelho / tag amarelo"}]