[{"jcr:title":"A profissão de arquiteto, sem a vertigem do glamour","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/urbanismo","cq:tags_1":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades"},{"richText":"Em  Como Viver da Arquitetura , Caterina De La Portilla convida à reflexão sobre a formação universitária nessa área e ao descompasso em relação à “vida como ela é” do mercado, propondo uma metodologia para sustento da prática autônoma","authorDate":"28/11/2025 01h47","author":"Heloisa Loureiro Escudeiro*","madeBy":"Por","tag":"centro-de-conhecimento:laborat-rio-arq--futuro-de-cidades","title":"A profissão de arquiteto, sem a vertigem do glamour","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Como Viver da Arquitetura , de autoria da arquiteta espanhola Caterina De La Portilla, recém-lançado no Brasil, apresenta-se como um manual, estruturado em seis capítulos, cada um organizado em dez pontos de reflexão — alguns deles bastante diretos, com caráter prático e aplicável ao cotidiano profissional. A obra tem como foco, conforme já sinaliza o título, os arquitetos, seguindo seus passos desde a formação universitária até a construção de uma atuação autônoma, estratégica e, sobretudo, financeiramente sustentável. De maneira geral, o livro propõe um deslocamento da idealização da profissão, comumente vinculada à arte, para uma aproximação com o trabalho concreto que sustenta — ou não — a vida de quem escolheu a arquitetura como ofício, sem recorrer à romantização desse percurso.   O ponto de partida é uma angústia que, segundo a autora, é amplamente compartilhada entre arquitetos, ainda que nem sempre nomeada: a dificuldade de viver da carreira escolhida em um ambiente marcado por baixos salários, jornadas exaustivas e a insistente sensação de instabilidade. A narrativa conduz à constatação de que a profissão, historicamente associada a prestígio e autoria, hoje se desenvolve em meio a relações de trabalho fragmentadas, contratos frágeis e expectativas frequentemente desalinhadas quando se pensa em esforço empregado e retorno financeiro.   A leitura aponta, em seguida, o descompasso entre a formação acadêmica e os mercados contemporâneos. As escolas de arquitetura, moldadas por contextos de expansão urbana e reconstrução no pós-guerra, estruturaram o ensino em torno da prática voltada à edificação como grande e único objetivo final. O projeto permanece, assim, como núcleo principal da formação, quase sempre orientado para exercícios abstratos ou altamente especializados no que se refere a encomendas — como museus, escolas ou centros culturais —, que pouco dialogam com a realidade do mercado dos dias de hoje. Caterina sublinha que essa lógica não corresponde às demandas das cidades atuais, especialmente as consolidadas, onde o desempenho profissional pode e deve ser mais diverso e criativo.    Ao mesmo tempo, a obra reconhece uma característica estruturante da formação em arquitetura: seu caráter multidisciplinar. A grade curricular articula artes, teoria, técnica, matemática, física, engenharia de materiais, além da compreensão das cidades, de seus marcos legais e de seus fundamentos históricos e sociais. Esse repertório contribui para formar trabalhadores capazes de ler cenários complexos e articular diferentes campos do conhecimento. No entanto, sem um esforço posterior de posicionamento, a formação generalista tende a produzir profissionais versáteis e, simultaneamente, pouco objetivos quanto ao valor específico que oferecem, a quem o oferecem e em quais termos.   Outra questão essencial abordada no livro diz respeito à distância entre aprender a projetar e aprender a gerir. A formação ensina a conceber, representar e detalhar espaços com precisão, mas raramente prepara para organizar processos, estruturar honorários, dimensionar tempo de trabalho ou lidar com contratos, responsabilidades legais, fornecedores e clientes. Para arquitetos autônomos ou que se empregam em pequenos escritórios, essa lacuna impacta diretamente a sustentabilidade da prática profissional. A obra relaciona a precarização do trabalho não apenas quanto às condições de mercado como também frente à ausência de ferramentas básicas de organização e gestão capazes de sustentar a atividade a longo prazo.   Há ainda um aspecto cultural recorrente: a baixa circulação de trocas entre arquitetos sobre as dimensões organizacionais e econômicas do trabalho. Compartilham-se imagens, referências e soluções técnicas, todavia, raramente entram em pauta valores financeiros, erros de negociação, estratégias comerciais ou modelos contratuais. Esse isolamento dificulta a calibração entre os horizontes vislumbrados e o reconhecimento das transformações em curso. A metodologia apresentada pela autora estrutura-se justamente a partir da explicitação dessas experiências, trazendo à superfície processos, números e decisões que costumam permanecer invisíveis.   No conjunto,  Como Viver da Arquitetura  se afasta da ideia de um guia voltado ao “sucesso” individual e se aproxima de uma reflexão sobre responsabilidade profissional. O livro sustenta que viver da arquitetura envolve mais do que projetar com qualidade: implica compreender o próprio posicionamento no mercado, estruturar processos de trabalho e transformar repertório técnico e cultural em valor concreto, de modo a tornar a prática viável, sustentável e prazerosa. * Heloisa Loureiro Escudeiro é coordenadora-adjunta do Núcleo Arquitetura e Cidade do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper. "},{"fileName":"Capa livro_Como viver da arquitetura.png"},{"text":"COMO VIVER DA ARQUITETURA, de Caterina De La Portilla   Editora Perspectiva 416 páginas R$119,90."}]