[{"jcr:title":"A COP e as populações urbanas: desafios e oportunidades","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/cop30"},{"richText":"Às vésperas da Conferência da ONU, coordenadores do Centro de Estudos das Cidades que estarão no evento falam sobre o que se pode esperar do encontro em Belém","authorDate":"30/10/2025 00h24","author":"Leandro Steiw","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/cop30","title":"A COP e as populações urbanas: desafios e oportunidades","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"text":"No Brasil, as áreas urbanas abrigam 87% da população, segundo dados do Censo 2022. Até mesmo na região da Amazônia brasileira, dominada por sua floresta de 4,2 milhões de quilômetros quadrados, 75% da população mora em centros urbanos. É inevitável que essa realidade esteja em debate na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), que começa no dia 10 de novembro, em Belém do Pará — uma capital enraizada no verde da floresta. Para o Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper — que terá integrantes participando tanto do encontro da ONU em si como de alguns de seus eventos preliminares, como a Bienal Indígena de Arquitetura e Urbanismo ( [mais informações aqui](https://www.insper.edu.br/pt/conteudos/cidades/insper-cidades-promove-bienal-indigena-de-arquitetura-e-urbanismo-em-parceria-com-liderancas-e-instituicoes-nacionais-) ) — a COP30 será um marco nas reflexões em torno dos desafios e das oportunidades que se apresentam à complexa questão urbana do país. “Toda a discussão sobre mudanças climáticas, sustentabilidade e justiça social passa necessariamente pelo contexto das cidades”, diz Tomas Alvim, coordenador-geral do Centro. “Os grandes desafios brasileiros são urbanos e, aliás, são também os desafios do Sul Global, que ainda apresenta muitas assimetrias sociais nas suas zonas urbanizadas. Nessa avaliação sobre o modo de viver a cidade, é fundamental lembrar que os centros urbanos são os maiores emissores de gases responsáveis pelo aquecimento global.” Para Alvim, se o encontro em Belém aprofundar essa reflexão, de que mesmo a floresta é dependente do desenvolvimento e do equilíbrio dos centros urbanos, podem-se abrir oportunidades para enfrentar os desafios dos efeitos das mudanças climáticas. “O Brasil está endereçando esse ponto, e o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, tem sido muito vocal nessa frente”, atesta Alvim. “Ele tem uma linha estruturada de propostas para lidar com as questões dos centros urbanos que é essencial para o futuro, porque a população mundial nos próximos 25 a 30 anos vai crescer principalmente nesses territórios no Sul Global. Seja no problema que já existe hoje, seja numa perspectiva futura, é importante que essa discussão tenha como foco também o desenvolvimento urbano sustentável e socialmente justo.” A produção científica do Centro de Estudos das Cidades pode colaborar com dados e estudos de casos. Um dos trabalhos que converge com os debates da COP30 é o policy brief “Barcarena +2°C: urbanismo, saneamento e adaptação climática na Amazônia em transformação”, produzido no âmbito do Programa Cidade +2°C e que será levado à Conferência. Barcarena é um município de 126.650 habitantes da região metropolitana de Belém, com porto ligado ao Oceano Atlântico pela Baía de Marajó. A economia local é influenciada pelas cadeias produtivas da indústria do alumínio e do setor logístico-portuário. Como resultado do compromisso político assumido e as oportunidades de financiamento, a expectativa é que, até o final de 2025, 99% dos moradores tenham acesso a água potável e 90% tenham esgoto tratado. Élcio Batista, coordenador do Programa Cidade +2°C e um dos integrantes do Laboratório Arq.Futuro do Insper que estarão em Belém, sintetiza o interesse no estudo de Barcarena em seis pontos negativos e positivos que se cruzam no tempo: crescimento demográfico acelerado, baixa capacidade de planejamento da urbanização, ausência de infraestrutura urbana, universalização do saneamento básico, realização de obras de contenção de erosão das encostas e aperfeiçoamento da gestão pública. O relatório mostra que o dinamismo econômico de Barcarena também carrega fragilidades. A presença de complexos industriais intensivos em energia e matéria-prima coloca o município sob risco ambiental permanente. Por sua vez, as barragens de resíduos industriais expõem a cidade a acidentes de grandes proporções, como aponta o Serviço Geológico do Brasil (SGB). Mesmo em meio à floresta, a cidade paraense tem índice de arborização inferior a 8% na comparação com a extensão de vias urbanas e calçadas – carência que impacta no conforto térmico, na qualidade ambiental, na drenagem natural e na biodiversidade local. O policy brief lista 11 recomendações estratégicas válidas não só para a Barcarena, mas para toda a região amazônica e outros municípios do país. Um dos conselhos é fortalecimento da governança intersetorial e a coordenação entre as diversas secretarias (planejamento, meio ambiente, infraestrutura, saúde e assistência social) em torno de um comitê gestor de adaptação urbana, agindo em conjunto com um comitê de redução de riscos e desastres e de resiliência. “A matriz de risco climático não pode estar descolada dos outros instrumentos de planejamento”, ressalta Batista. As outras 10 recomendações são: integrar saneamento básico à drenagem, arborização urbana e infraestrutura verde nos projetos de urbanização; priorizar soluções baseadas na natureza em obras de contenção e drenagem; instituir indicadores integrados de adaptação urbana e justiça climática; reorientar o planejamento urbano para uma lógica bioclimática e amazônica; articular acesso a financiamento climático internacional com base em desempenho; incorporar as cartografias de risco geológico à política municipal de planejamento e proteção; desenvolver uma matriz de risco climático sistêmica; ampliar estratégias de comunicação climática e educação ambiental; garantir adesão equitativa às redes de esgoto por meio de políticas públicas de conexão assistida; e instituir uma política de reuso de água pela indústria. As oportunidades que estão surgindo acabam criando novos desafios e reforçando outros que não foram vencidos ainda. Segundo Batista, o saneamento é um exemplo de problema irresoluto do século 20 que se combina às questões climáticas do século 21. Da mesma forma, a pressão sobre ecossistemas frágeis (como zonas costeiras e margem de rios e lagoas) manteve-se porque o Brasil não desenvolveu programas habitacionais e de acesso à terra mais consistentes e planejados, com modelos de financiamento bem estruturados. Alagamentos, inundações, deslizamentos de encostas e ilhas de calor são problemas que se acumulam desde o século passado. “O caso de Barcarena nos permite uma boa reflexão sobre o presente e o futuro do desenvolvimento urbano sustentável nas cidades do país”, comenta Batista. O nó do financiamento A COP30 terá que enfrentar o dilema do financiamento dos projetos de adaptação climática. Estima-se que, para adaptação, seria necessário o repasse de pelo menos 1,3 trilhão de dólares por ano dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento — valor que, atualmente, está na ordem de 300 bilhões de dólares. Agravando a escassez de financiamento, metade dos recursos que vão para projetos de adaptação climática não cumpre os seus objetivos, aponta Hannah Arcuschin Machado, coordenadora-adjunta e pesquisadora principal do Programa Cidades +2°C, que estará ao lado de Élcio Batista em agendas da Conferência. O dado é do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Em busca de mais evidências, um dos trabalhos realizados pela equipe do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper e que também será divulgado no encontro da ONU, analisou os projetos de adaptação urbana no Brasil aprovados pela Comissão de Financiamentos Externos (Cofiex), órgão do Ministério do Planejamento e Orçamento. Os pesquisadores consideraram o conteúdo das cartas-pleito submetidas à Cofiex no período de 2015 a 2024, que coincide com os 10 primeiros anos do Acordo de Paris, no qual se assumiram vários compromissos de redução das emissões globais de gases do efeito estufa. A pesquisa identificou a aprovação de 390 projetos pela Cofiex, com valor total de 111,7 bilhões de reais. Apenas 27% dos projetos haviam sido efetivamente iniciados na época da análise dos dados. Classificando os projetos de desenvolvimento urbano e mobilidade, por exemplo, chegou-se a 122 cartas-pleito e financiamento de 14 bilhões de reais. No entanto, 45% do volume de recursos está aplicado em projetos sem qualquer aspecto climático. Da quantia restante, 22% tem aspectos de adaptação, e 33%, de mitigação da emissão de gases de efeito estufa. Só três projetos de desenvolvimento urbano e mobilidade foram realmente pensados para atender a todos os elementos de adaptação. Como observa Hannah Machado, um cálculo rápido demonstra que, em média, os 3 bilhões de reais comprometidos em projetos iniciados de adaptação climática urbana perfazem 300 milhões de reais por ano. “Se a gente pensar que no país há um pouco mais de 300 municípios com mais de 100.000 habitantes, chega-se a menos de 1 milhão de reais por ano investidos em projetos de adaptação nessas cidades, ou seja, um valor ínfimo”, sugere a coordenadora-adjunta do Programa Cidades +2°C. Este recorte é importante: são justamente esses municípios que têm maior capacidade de elaborar projetos mais estruturados para conseguir financiamento externo — e pagá-los depois. Mesmo que não seja um momento mágico que vai resolver todos os problemas, a COP30 é um evento que oferece oportunidades de avançar nas ambições climáticas, avalia Hannah. Ela complementa: “Na perspectiva da cidade, essa ambição está muito relacionada à adaptação. Então, passa por entender que, primeiro, a adaptação tem que ser um tema transversal em todos os setores da cidade. Em segundo lugar, tem que se acrescentar a camada de resiliência. Então, acredito que a COP30 ajuda a colocar esses temas na agenda e a compreender que essa é uma realidade com a qual as pessoas das cidades precisam lidar”. Transição energética Destravar o financiamento é um ponto-chave para a pretensão de reduzir as emissões no transporte de pessoas. “Precisamos atrair capitais internacionais dos grandes fundos de investimento para projetos de descarbonização”, observa Sérgio Avelleda, coordenador do Núcleo Mobilidade Urbana do Laboratório Arq.Futuro do Insper, que acompanhará a abertura e a reta final da Conferência das Nações Unidas. “Existe muito dinheiro disponível no mundo para financiar os projetos de transição energética, muito mais do que se necessita. Mas a gente precisa tornar os projetos atraentes para esse dinheiro, com incentivos fiscais e medidas mitigadoras de riscos.” O estudo “Coalizão dos Transportes: como tornar o setor de transportes um contribuidor ativo para a redução das emissões brasileiras” oferece um roteiro de alavancas para a descarbonização até 2050. Encampado inicialmente por 60 organizações do setor privado, da academia e do terceiro setor — hoje são 120 participantes —, o documento foi liderado pela Motiva (ex-CCR), pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) e pelo Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável, que integra o Núcleo Mobilidade Urbana. Com base em evidências sobre seis verticais (infra/transversalidade, mobilidade urbana, rodoviário, ferroviário, aeroviário e aquaviário), o estudo delineia ações que poderão compensar a emissão residual no transporte, uma vez que não será possível atingir a neutralidade de carbono em 2050. Cinco alavancas têm alta viabilidade relativa, considerando consolidação, maior viabilidade relativa de adoção e menor necessidade de mudanças estruturais significativas para a implementação: renovação e/ou aprimoramento da frota dos diferentes modos de transporte, expansão do transporte coletivo urbano, melhoria da infraestrutura rodoviária e ferroviária, aperfeiçoamento da gestão de atividades portuárias e otimização de rotas aeroviárias. Avelleda informa que os resultados da Coalizão já foram apresentados para a cúpula da COP30 e para diversas autoridades estaduais, municipais e federais. “No campo da mobilidade urbana, temos um desafio enorme, porque o setor de transporte é o grande responsável pela contaminação do ar e pelas mudanças climáticas nas cidades”, afirma ele. As cidades também devem reduzir a dependência do carro, aumentar a atratividade do transporte público (em confiabilidade, velocidade, qualidade do serviço e preço da tarifa) e promover a mobilidade ativa (a pé e de bicicleta). Parte da solução passa por acelerar a eletrificação do transporte público – que, apesar de não ser o mais poluente, é o modal no qual o Estado pode gerenciar a troca da frota com mais eficiência. “Ao acelerar a substituição dos ônibus, vai se criar uma escala para reduzir os custos dos veículos elétricos em todos os segmentos. Para incentivar esse processo, precisamos equacionar o financiamento”, enfatiza Avelleda. “A prefeitura de São Paulo é um bom exemplo de trabalho para equacionar a questão do financiamento, pois já está se aproximando do milésimo ônibus elétrico e é, de longe, a cidade que mais comprou esse tipo de veículo .” Entre as oportunidades da COP30, Avelleda torce pelo sucesso de bons acordos vinculantes entre os Estados-membros para a adoção de medidas de descarbonização, com metas claras e comprometimento na execução. Ele lembra que o último consenso impactante das COPs foi o Acordo de Paris, em 2015, que impulsionou a adoção da energia solar e eólica. “O principal efeito do encontro em Belém será aumentar o engajamento de todos em torno da agenda da descarbonização, especialmente do setor privado”, salienta o coordenador do Núcleo Mobilidade Urbana. A partir de novembro, portanto, as decisões da Conferência podem causar novo impacto sobre o bem-estar das populações urbanas."},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"}]