[{"jcr:title":"Soluções tecnológicas simples podem ser mais eficazes para a inclusão social","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade","cq:tags_1":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper/internacional","cq:tags_3":"area-de-conhecimento:gestão-e-negócios","cq:tags_4":"area-de-conhecimento:políticas-públicas","cq:tags_5":"area-de-conhecimento:tecnologia"},{"richText":"Na São Paulo School of Advanced Science in Systems Change and Sustainability, no Insper, Israr Qureshi defende que a tecnologia deve se adaptar às pessoas, e não o contrário","authorDate":"30/03/2026 12h36","author":"Leandro Steiw","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade","title":"Soluções tecnológicas simples podem ser mais eficazes para a inclusão social","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"Durante a  [São Paulo School of Advanced Science in Systems Change and Sustainability](https://www.insper.edu.br/pt/eventos/2025/12/school-of-advanced-science) , realizada no Insper em dezembro de 2025 com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o professor Israr Qureshi, da Queen’s University Belfast, na Irlanda do Norte,  [apresentou](https://www.youtube.com/live/HyEnrUK7NBE)  o conceito de “technoficing”, destacando como tecnologias simples podem, em certos contextos, promover objetivos sociais de maneira mais adequada do que soluções de alta complexidade tecnológica. Citando o sociólogo e filósofo Herbert Marcuse (1898-1979), Israr afirmou que a tecnologia se tornou um modo de organizar e perpetuar a dominação. “A tecnologia não é neutra e contém algumas filosofias e aspectos de poder. E, se o acesso a essas tecnologias não é distribuído igualmente, isso significa que poder e dominação também não são iguais”, disse o palestrante. Para Israr, vivemos em uma era de paradoxos, como uma geração tecnologicamente mais conectada, mas socialmente desconectada e excludente. Ele mostrou um mapa mundial com a relação entre a densidade populacional e a taxa de conectividade. “Vocês podem ver que até mesmo o acesso à internet não é democrático, mas desigual”, afirmou o professor. “Isso também significa em quais dados a inteligência artificial será treinada e quais visões, perspectivas, ideias e conhecimentos serão refletidos em uma tecnologia treinada com dados que não são democraticamente distribuídos.” Os números apresentados por Israr indicam que 34% da população mundial não está na internet e que, mesmo entre aqueles que estão conectados, há uma enorme disparidade. Uma pessoa na Libéria, por exemplo, gastaria 147% de toda a sua renda se quisesse acessar cinco gigabytes por mês durante um ano inteiro. Considerando a conectividade móvel, esse custo é de 53,7% da renda anual média de alguém que mora na África Central. Segundo Israr, a questão fundamental sobre acesso e desigualdade é que, embora as pessoas em situação de vulnerabilidade dos países em desenvolvimento usem menos as tecnologias da informação, a maior parte do lixo eletrônico acaba sendo despejada nos seus territórios, legal ou ilegalmente. Dessa forma, o uso da tecnologia pelos mais ricos impacta desproporcionalmente o resto da população mundial. O professor prosseguiu: “O problemas é que ainda estamos vivendo em um mundo do passado, enquanto nossa tecnologia deu um salto para um futuro que não conseguimos compreender plenamente, nem criar leis ou regulá-lo adequadamente. E, como indivíduos, também não conseguimos lidar com o uso dessas tecnologias para melhoria e bem-estar, em vez de exploração, dano e prejuízo”. Historicamente, lembrou Israr, pensava-se que a tecnologia ajudaria a melhorar o acesso à informação. “No entanto, vemos a ascensão de megacorporações que tomam todo o poder e gostariam de controlar cada momento seu, cada fala e atividade sua”, disse ele. “É como se um estranho entrasse na sua casa e ouvisse, em silêncio, toda a sua conversa com os seus amigos. Fazemos isso todos os dias no ambiente online, nas redes sociais. As plataformas não apenas ouvem você, não apenas capturam os seus dados, mas também transformam esses dados em armas para fazer você brigar com os seus amigos, com forças que você nem imagina.” Essas redes criam câmaras de desinformação, nas palavras de Israr, e transformam as pessoas em consumidores passivos. Como engajar-se de maneira mais acadêmica e argumentativa exige tempo — e as redes sociais requerem respostas rápidas —, gritar e xingar tornaram-se o comportamento padrão. Além disso, estatísticas mostram que apenas de 6% a 10% das pessoas publicam 90% do material online, seja em tweets ou posts. Israr falou sobre os custos invisíveis que as tecnologias mais recentes impõem ao planeta, em consumo de energia, água e elementos de terras raras, deslocando a poluição geográfica e temporalmente. “Os diversos instrumentos de alta tecnologia que usamos agora têm uma data de expiração”, disse ele. “Reciclamos cerca de 9% dos elementos de terras raras de smartphones e outros dispositivos. É irrisório em relação ao que estamos desperdiçando. Isso acabará eventualmente em aterros sanitários e vai infiltrar nos lençóis freáticos, na água que bebemos.” O conceito de ‘technoficing” O professor chegou, então, ao conceito de “technoficing”. Diante dos resultados das suas pesquisas na Índia, na China e em países da África Subsaariana, ele constatou que, com frequência, as iniciativas de alta tecnologia falham entre populações em vulnerabilidade. “Se você leva algo que é estranho para eles, algo que eles não têm capacidade de usar, gerenciar ou manter, isso não vai se sustentar por muito tempo, a menos que você esteja permanentemente lá, tentando orientar e trabalhar com eles”, afirmou. “Se você se engajar por um período muito longo, isso pode funcionar, mas sempre será dependente de você, que é quem está levando aquela tecnologia.” Se o cientista quiser que as pessoas se apropriem da tecnologia, é preciso usar ferramentas simples, suficientemente boas, que possam ser gerenciadas pela população local — ou pelo menos que elas possam desenvolver rapidamente as habilidades para gerenciá-las. Na opinião de Israr, entre várias tecnologias que entregam o mesmo resultado, deve-se optar pela mais simples. Dependendo do problema que se está tentando resolver, talvez a tecnologia nem seja necessária, se tudo puder ser feito presencialmente. Uma solução pronta provavelmente não vai se encaixar no contexto de todas as populações. “Primeiro, identifique quem são os beneficiários da sua ajuda”, disse Israr. “Depois, pergunte a essas pessoas qual é a questão social mais importante. Se os recursos locais não forem suficientes, pergunte como você pode trazer recursos externos para reforçar os recursos locais.” Israr explicou: “A ideia do ‘technoficing’ é reduzir o fluxo de materiais. Se você consegue estender a vida útil da tecnologia existente, dos dispositivos existentes, haverá menos consumo de recursos adicionais. E, como você está construindo isso com as pessoas, é possível criar mais autossuficiência e independência no grupo, reduzindo a dependência do mundo externo — seja de corporações, governos ou outras entidades. E, finalmente, você pode criar mais resiliência na comunidade, porque eles conseguem gerenciar os seus próprios recursos, a sua própria tecnologia e os seus próprios projetos”. Em resumo, o professor ponderou que a questão social vem em primeiro lugar, bem antes da tecnologia. “Se a tecnologia for necessária, você a usará; se não for, tudo bem”, afirmou Israr. “O conhecimento local não é uma limitação, mas um ativo. Projete para reparar, reutilizar e prolongar a vida útil, não para usar e descartar. Minimize a extração de recursos. Deixe os dados na aldeia ou na comunidade, em vez de extraí-los como um tipo de ‘petróleo digital’. Avalie impacto e marginalização em termos de dignidade, não de downloads e engajamento. Quando a tecnologia se curva às pessoas, em vez das pessoas se dobrarem à tecnologia, a inclusão se torna possível.”"}]