[{"jcr:title":"Cadeias de suprimento na era da policrise e os limites ecológicos do modelo econômico atual","cq:tags_0":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade","cq:tags_1":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper","cq:tags_2":"tipos-de-conteudo:acontece-no-insper/internacional"},{"richText":"Na São Paulo School of Advanced Science, o professor Jury Gualandris, da Ivey Business School, defendeu uma mudança de paradigma rumo a sistemas produtivos regenerativos","authorDate":"17/03/2026 10h27","madeBy":"Por","tag":"area-de-conhecimento:políticas-públicas/sustentabilidade","title":"Cadeias de suprimento na era da policrise e os limites ecológicos do modelo econômico atual","variant":"imagecolor"},{"jcr:title":"transparente - turquesa - vermelho"},{"themeName":"transparente - turquesa - vermelho"},{"containerType":"containerTwo"},{"jcr:title":"Grid Container Section","layout":"responsiveGrid"},{"text":"“Não podemos resolver nossos problemas com o mesmo tipo de pensamento que usamos quando os criamos.” A célebre frase de Albert Einstein serviu como ponto de partida para Jury Gualandris, professor da Ivey Business School, da Western University (Canadá), estruturar sua provocadora palestra durante a  [São Paulo School of Advanced Science in Systems Change and Sustainability](https://www.insper.edu.br/pt/eventos/2025/12/school-of-advanced-science) , realizada no Insper entre 8 e 17 de dezembro de 2025. Em uma  [apresentação](https://www.youtube.com/live/rzgAHYRyS-I)  densa e apaixonada, Gualandris fez uma crítica contundente aos fundamentos que sustentam o sistema produtivo global e propôs caminhos alternativos para lidar com os desafios sistêmicos do presente. Segundo o pesquisador, estamos imersos em uma “policrise” — um entrelaçamento de crises simultâneas, como a emergência climática, o colapso da biodiversidade e a desigualdade social. Embora muitas dessas crises sejam bem documentadas, ele argumenta que a forma como estruturamos e operamos cadeias de suprimento e modelos de negócio não apenas falha em mitigar esses problemas, como os aprofunda. A palestra foi dividida em três partes: uma análise da crise, uma crítica ao pensamento dominante que a sustenta e, por fim, a apresentação de novos princípios para guiar a transformação. O diagnóstico da crise climática e suas desigualdades Gualandris começou descrevendo o colapso climático com dados atualizados, ressaltando que o aumento das temperaturas nos últimos 200 anos é inédito em milhões de anos e está fortemente correlacionado com a queima de combustíveis fósseis. Mais do que isso, ele demonstrou como as mudanças no padrão de precipitações, secas prolongadas e furacões mais intensos são sinais claros de um planeta sob estresse. Mas foi ao tratar da distribuição desigual da responsabilidade sobre essa crise que sua fala ganhou ainda mais força. “A parcela mais rica da população mundial — o 1% do topo — emite quase o dobro de carbono do que os 50% mais pobres somados”, afirmou. “E o mais grave: essas pessoas são as menos impactadas pelas mudanças climáticas e pela perda de biodiversidade.” Para ele, essa desconexão entre causa e consequência cria um sistema perverso, no qual os maiores responsáveis pela crise são também os mais blindados contra seus efeitos. “No furacão Harvey, no Texas, as inundações atingiram apenas os bairros latinos e de baixa renda. Os bairros ricos tinham drenagem e infraestrutura. Isso não é coincidência, é estrutura.” O modelo atual de eficiência está obsoleto Na sequência, Gualandris passou a discutir as origens desse cenário, propondo que a raiz da crise está nos modelos mentais e nas lógicas de gestão que estruturam nossas economias. Ele focou em três ideias muito presentes no ensino e na prática da administração: a busca por eficiência via especialização e escala, a responsividade à demanda e o controle centralizado das cadeias de suprimento. Para o professor, essas ideias, que por muito tempo impulsionaram o crescimento econômico, hoje estão descoladas da realidade planetária e social. Ele exemplificou com casos concretos. A Califórnia, por exemplo, produz 80% das amêndoas do mundo. Para viabilizar essa produção concentrada, é necessário transportar milhões de abelhas de outras regiões dos Estados Unidos durante um curto período de floração. Isso cria um sistema frágil, poluente e insustentável. “Seguimos a lógica matemática da especialização e do comércio para maximizar a eficiência econômica, mas ignoramos os limites ecológicos e sociais desse modelo.” Outra crítica incisiva recaiu sobre os sistemas de produção animal intensiva. “Se queremos responder rápido à demanda por carne, confinamos bois para que eles engordem mais rápido, sem se mover. Alimentamos com rações específicas e usamos antibióticos para controlar as doenças que surgem quando os animais vivem em seus próprios dejetos.” Segundo ele, esse tipo de lógica não apenas compromete o bem-estar animal e humano, como também degrada o solo, contamina a água e agrava as emissões de gases de efeito estufa. “Se forçamos demais o sistema para obter mais produtividade, não resolvemos o problema — apenas o agravamos.” Mesmo ferramentas vistas como “boas práticas”, como as auditorias em cadeias de suprimento globais, foram alvo de críticas. Gualandris explicou que essas auditorias, em geral, são ineficazes, pois os fornecedores — pressionados por prazos e preços baixos — tendem a abandonar os protocolos assim que o auditor vai embora. Além disso, essas práticas removem a autonomia dos fornecedores, em vez de capacitá-los a resolver seus próprios problemas. Proporcionalidade, polirritmicidade e reciprocidade Diante desse diagnóstico, Gualandris apresentou três novos princípios para reconstruir as cadeias de suprimento de forma regenerativa: proporcionalidade, polirritmicidade e reciprocidade. Ele defende que as empresas devem ajustar o tamanho e o ritmo de suas operações à capacidade de regeneração dos ecossistemas e comunidades locais, em vez de tentar forçar a natureza a se moldar à lógica produtiva. Um dos casos mais inspiradores trazidos por ele foi o de comunidades pesqueiras na Finlândia. Diante da degradação de lagos causada por excesso de nutrientes, desmatamento e barragens, esses pescadores mudaram suas práticas e passaram a focar na captura de peixes menores, considerados menos valiosos pelo mercado. Com isso, removeram o excesso de nutrientes do lago e permitiram o retorno de zooplâncton e grandes peixes. “Eles ajustaram suas operações ao ecossistema, em vez de forçar o ecossistema a se ajustar às operações deles”, relatou. “Com a água mais limpa, os peixes maiores voltaram, e comunidades a jusante puderam usar essa água para beber. Isso é reciprocidade.” Ao final da palestra, o professor lançou um convite à ação para estudantes, pesquisadores e profissionais: olhar para os chamados viable outliers — empresas e comunidades que já operam de maneira regenerativa, mesmo enfrentando incentivos contrários do mercado. “Exemplos que incorporam esses princípios já existem. Mas eles ainda são exceção. A maior parte da pesquisa foca em comportamentos médios. Devemos começar a estudar os outliers viáveis — aqueles que prosperam em harmonia com a natureza." Em tom otimista, mas realista, Gualandris concluiu que trabalhar em harmonia com a natureza não é apenas possível — é economicamente viável. Mas exige uma transformação profunda, que começa com a forma como pensamos, ensinamos e tomamos decisões. “Precisamos inverter os meios e os fins. Em vez de adaptar o mundo ao crescimento econômico, devemos adaptar a economia à vida.”  "}]