O valor da cultura em debate promovido por ÉPOCA e Insper

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Fonte: Época – 6/9/2017

O professor de literatura Nuccio Ordine e o cientista político Fernando Schüler discutiram ética, lucro e o valor da literatura, filosofia e das artes na formação do cidadão.

A reação de preocupação de muitos pais à decisão de os filhos escolherem graduações como filosofia, letras, história, ciências sociais é um bom exemplo em favor do argumento do professor de literatura italiana Nuccio Ordine, autor de A utilidade do inútil (Editora Zahar). “Essas são áreas associadas a conhecimentos inúteis. A educação hoje é vista por um ponto de vista meramente utilitário. Qual diploma me dará mais dinheiro?”, disse ele hoje durante o debate “Precisamos falar sobre humanidades”, promovida por ÉPOCA e pelo Insper, na sede da faculdade, em São Paulo. O debate teve a participação do cientista político e doutor em filosofia Fernando Schüler, professor da cátedra Palavra Aberta do Insper e colaborador de ÉPOCA.

Para Nuccio Ordine, está se perdendo a noção de que o papel das escolas e das universidades é ser um espaço de descoberta e exploração de relações humanas e de si próprio. “Somente dessa forma pode-se formar adultos críticos, pensantes, capazes de construir uma vida de sentido ético e com propósito”, disse ele. Para o professor Ordine, a busca da educação com sentido meramente utilitário coloca em risco nosso desenvolvimento como civilização. “Hoje, os saberes humanos são vistos como inúteis”.

Nuccio Ordine disse que ao lançar seu livro na Itália, no fim de 2015, ele percorreu 100 escolas públicas de ponta a ponta na Itália. Na ocasião, ouviu de muitos jovens que os pais faziam pressão para que eles seguissem carreiras que dessem boa remuneração e que boa parte das famílias têm aversão à possibilidade de os filhos serem artistas, professores, filósofos, matemáticos. “Essa é uma visão absolutamente distorcida do valor do conhecimento. O ser humano precisa dessas áreas para ser capaz de compreender a complexidade das relações humanas, o alcance das artes e o poder inestimável que somente o conhecimento é capaz de dar à criatividade do homem”, disse ele.

Com doutorado em filosofia, o cientista político Fernando Schüler concordou com a fala de Ordine sobre o valor das humanidades na formação humana, mas, por outro lado, se manifestou contra a “demonização do lucro”. “Salvo casos como assalto a bancos ou desvio de dinheiro público, o lucro é resultado de ser capaz de entregar algo de valor a alguém”, disse. “Encontramos a expressão criativa em muitas iniciativas que visam lucro. É o caso da obsessão de Steve Jobs com o design do iPhone, por exemplo”, disse. Schüler também defendeu a importância do ensino privado no Brasil. “Temos no Brasil, escolas e faculdades de primeira linha, capazes de formar alunos pensantes e preparados para empreender na área que quiserem, enquanto a educação pública no Brasil é uma vergonha”.

Ordine afirmou que não é contra a ideia do lucro, mas, sim, à do lucro como único fim da educação. Também condenou a busca desenfreada de lucro, que fere princípios éticos, estimula a corrupção e produz mais desigualdades. Citou como exemplo negativo a Volkswagen, que roubou um software para aumentar sua margem de lucro e hoje tem de pagar milhões de euros em multa. E como positivo, falou dos empresários que entendem que devem produzir riquezas para todos. Usou o caso do empresário italiano Adriano Olivetti que investiu em escolas, bibliotecas, teatro e contratou arquitetos para erguerem uma fábrica em que os funcionários se sentissem bem com os espaços e a luminosidade.

Ordine também defendeu o investimento na escola pública como forma de combater injustiças sociais e a corrupção – que mina a máquina pública e corrói a civilidade. Para o professor, a insegurança e pobreza também são fruto da falta de educação decente. “A corrupção não se combate somente com juízes e a polícia. A corrupção se combate com boa educação. Somente o conhecimento é capaz de blindar o ser humano para que ele não seja engolido pelo capitalismo voraz”, disse Ordine.

Schüler questionou a ideia de que vivemos uma era de capitalismo voraz. Ele ressaltou que há dados que mostram que nunca houve tanto dinheiro em filantropia. Citou os exemplos de doações astronômicas de Bill Gates, Mark Zuckerberg e do brasileiro Jorge Paulo Lemann. “Esses são casos que mostram que não vivemos nessa fase de capitalismo selvagem, como o senhor coloca”, disse Schüler. Ordine retrucou e questionou a eficácia dessas doações para o bem-estar das sociedades. Ele citou a norma da União Europeia pela qual grandes empresas como Microsoft, Apple, Facebook e Google pagam apenas 0,01% de imposto enquanto os cidadãos chegam a pagar 46% de imposto de renda na Itália. “Se esses empresários quiserem mesmo aderir a um capitalismo ético, eles deveriam se preocupar em levar suas filiais a pagar mais impostos. O resultado seria muito mais efetivo do que doações filantrópicas”, disse ele.

O evento foi encerrado com a abertura a perguntas da plateia. Duas delas vieram de estudantes que pretendem dar aulas e que em algum momento se questionaram sobre as escolhas que fizeram, no caso, literatura e matemática. Nuccio Ordone fez um relato de que passou pelas mesmas dúvidas e aproveitou para falar da importância do papel do professor na vida dos estudantes. Citou o caso do escritor Albert Camus, que escreveu a seu professor de educação básica quando ganhou o Prêmio Nobel da Paz para lembrar a plateia da importância de bons professores na trajetória dos alunos.

Nuccio citou o trabalho de Albert Einstein e de importantes artistas cujas obras, consideradas inúteis em seu tempo hoje são obras primas na mundo das artes e descobertas imprescindíveis para a vida moderna no mundo das ciências. “O saber enriquece a todos”, disse ele. “O conhecimento é o único anticorpo que o homem tem para não ser usado pelo dinheiro e, sim, fazer uso dele”.

O cientista social Fernando Schüler também rememorou as dúvidas que ele mesmo teve quando optou por cursar humanas e se especializar em filosofia. E falou de biografias de grandes talentos das “artes inúteis”, que mostram que eles também sofreram a seu tempo, mas afirmou que perseguir o que dizia respeito à própria natureza os impulsionou a seguir um propósito de longo prazo.

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Cátedra Insper e Palavra Aberta

Parceria entre o Insper e o Instituto Palavra Aberta, o Prof. Fernando Schüler tem com esta cátedra a missão de promover a defesa da liberdade de pensamento, iniciativa econômica e expressão política.

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