O jogo perdeu a lógica e a lógica perdeu o jogo

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Fonte: Uol Notícias – 12/5/2017

A dinâmica política nacional é, ao mesmo tempo, um jogo asfixiante cheio de suspense e uma partida modorrenta, plena de erros e jogadas banais. As imagens se sucedem em velocidade espantosa, mas parece que já foram vistas — déjà vu: ainda anteontem, Lula diante de Sérgio Moro; ontem, o casal Mônica e João Santana, com revelações que não surpreendem; hoje, a Polícia Federal novamente às ruas retratada nas manchetes, ocupando o cotidiano das pessoas como se fosse apenas mais um cão perdido no bairro.

Em paralelo, no STF, outros processos da Lava Jato atingem mais de uma centena de políticos importantes de vários partidos; a votação, no Congresso Nacional, de reformas tão necessárias quanto impopulares, a voracidade parlamentar por mais e mais vantagens e recursos públicos; a crise dos estados, a insegurança nas cidades; o primeiro ano de um governo controverso, os 14 milhões de desempregados.

A pergunta que mais tenho ouvido nos últimos meses é: como sair desse labirinto? Não sei. Arrisco dizer o que “deveria” ser feito — mas, não é —, componho uma narrativa do que seria ideal, mas que também a mim não parece possível: retomar a grandeza da Política, construir nova lideranças, fazer reformas profundas no que tenho chamado de “instrumentos políticos de poder”, transformar o quadro fisiológico, estabelecer limites ao poder, tornar o sistema mais representativo, crível, funcional…

Confesso, porém, não acreditar que algo disto seja possível; não neste momento, pelo menos. Não se afobe não, que nada é mesmo para já. A Grande Política se faz com gente — pessoas capazes e dispostas; abertas a ouvir, pesar, trocar, construir. Se faz com projetos e estratégias, colocando-se no lugar do outro: empatia, comunicação e persuasão. Não há matéria-prima para isto, não por enquanto.

Apaixonado pelo futebol e intrigado pelo problema da “Liderança Política” — sua crise, é evidente já há muito tempo —, há anos, dizia que o país carecia de um Didi. Não, não se trata do mais famoso dos já saudosos e hoje líricos e inofensivos Os Trapalhões; trapalhões (mais perigosos) há às mancheias. Refiro-me ao jogador de futebol, craque do Botafogo e da seleção brasileira, Valdir Pereira, o “príncipe etíope”, como lhe apelidou Nelson Rodrigues.

Didi foi herói do título mundial de 1958 por uma cena ao mesmo tempo viril e singela. Como se sabe, em 1950, o Brasil perdera a Copa do Mundo em casa (foi a primeira, outras vieram) e estava naturalmente traumatizado. Nelson Rodrigues alertava para o complexo de vira-latas que dominava o país, sentimento de inferioridade comum em momentos com aquele — e como este.

Pois em 1958, o Brasil chegou novamente a uma final (contra a Suécia) e aos 4 minutos de jogo levou o primeiro gol. Claro que o moral baixou, a desconfiança, o medo e o desânimo se expandiram. Pois, Didi foi às redes, pegou a bola, colocou-a embaixo do braço; cabeça erguida, caminhou lentamente ao meio-de-campo para recomeçar o jogo. Respirou, deu tempo ao time, reorganizou a equipe. Final: Brasil 5, Suécia 2. Brasil campeão mundial.

Imaginava, há pelo menos 10 anos — várias vezes, escrevi sobre isto — que a política nacional carecia de um Didi: um sujeito capaz de acalmar, organizar; serenamente, comandar o time. Por incompleto e injusto, era um pensamento tolo: ao pegar a bola, Didi tinha a seus pés Gilmar dos Santos Neves, o maior goleiro da história do Brasil; Djalma e “a enciclopédia” Nilton Santos, nas laterais; Belline e Mauro, na zaga; Zito a seu lado, no meio-de-campo; na frente: Garrincha, Vavá. Pelé e Zagalo. Pelé e Garrincha, juntos, nunca perderam um jogo. Didi tinha uma equipe, o Brasil tinha plantel; sozinho, o “príncipe” não faria milagres.

Também na política, o Brasil já teve time — não tem mais, mas já teve. Hoje, o esquadrão dos Cínicos se defronta com a massa do Farisaísmo. Pernas-de-pau passam por craques; não importa se enfiam as mãos na bola, fazem firula, jogam-se na área; agitam as torcidas. Não há fair play e as regras ficaram velhas. Quem não torce nem por um nem pelo outro — quem é saudoso do Futebol-Política maiúsculo do passado — leva garrafada na arquibancada, apanha de ambos os lados.

Na verdade, ninguém mais se interessa por este esporte. Ele pegou má fama, as pessoas vão ao estádio para amaldiçoá-lo. Ferozes, as torcidas se insultam, prometem se pegar nas ruas; com sinalizadores fazem muita fumaça; vândalos prejudicam a partida, retirando a visibilidade do público que assiste pela TV.

O juiz ocupou o campo; mais que os jogadores, é a estrela da partida. A punição é necessária, mas poucos percebem que ela não basta. Não se discute novas regras, não se forma novos jogadores, nem se educa. Os times estão acuados, o cartão vermelho é para sempre. Não há reservas, a banca está em crise. Sem, Didi, sem time, sem bola, as galeras torcem pelo juiz — a favor e contra. Esse jogo perdeu a lógica ou foi a lógica que perdeu o jogo? Campeonatos assim terminam mal.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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