Marcos Lisboa: A arte é o sussurro da história, ouvido acima do ruído do tempo

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Fonte: Folha de S.Paulo – 10/9/2017

Eu devia ter cerca de 16 anos. Flavia, um ou dois anos mais jovem.

A Galeria Alaska, na Copacabana do fim dos 1970, reunia homossexuais e travestis naquele fim da ditadura que prometia tempos mais liberais. Em meio a tudo, Flavia e eu, os jovens que se acreditavam modernos.

O beco estreito escondia um pequeno teatro. As cadeiras decoradas com cor de abacate denunciavam o espetáculo.

A plateia surpreendeu. Em sua grande maioria, casais mais velhos de classe média, com aspecto conservador. Jovens e senhores estávamos todos ali reunidos para assistir Rogéria, depois de anos longe dos palcos do Rio.

Rogéria era o espetáculo. Vestido de mulher, engrossava a voz e declarava: “Sou Astolfo”, em meio a histórias tão deliciosamente engraçadas quanto surpreendentes. Ele se destacava pela inteligência e desde sempre buscava tornar-se mito. Rogéria era a sua personagem, o travesti da família, como dizia.

Anos antes, Fernanda Montenegro lhe dissera: artista não tem sexo, vá para o palco. Astolfo seguiu o conselho e assumiu as suas escolhas. Em um país marcado pela repressão, reagiu às críticas com bom humor e convidou-nos a conhecê-lo, desarmando o preconceito com graça e integridade.

O Brasil que recebeu Rogéria, na antessala do resgate da democracia e da liberdade de expressão, foi beneficiado por uma revolução improvável: a transformação provocada pela arte e pelo exemplo. A repressão política teve o seu antípoda inesperado nas manifestações no teatro, na música, na literatura e na pintura.

A explosão da arte invadiu o cotidiano e subverteu a política. No caminho, provocou as novas gerações, entrelaçou o erudito e o popular, encantou-se com a cultura negra, abraçou novos comportamentos e deixou como legado um país mais iluminado e tolerante.

A promessa era de mudança após tantos anos de ditadura, com abertura à divergência em meio a indignação com o preconceito e com a pobreza. Prometemos tanto, porém corremos o risco de entregar aos nossos filhos um país com retrocessos inesperados, como na gestão da coisa pública.

O debate sobre os desafios e dilemas esbarra, com frequência, na intolerância preconceituosa com a discordância, que desqualifica as pessoas em vez de prosseguir na troca de ideias sobre como superar os problemas.

Não há dúvidas de que perdemos tempo demasiado com polarizações ensurdecedoras que deixaram sequelas. Hora de cicatrizá-las.

Os tempos e a arte permitiram o encontro entre Rogéria e a classe média conservadora de Copacabana.

Rogéria virou purpurina, como antecipava.

O teatro da Galeria Alaska foi convertido em igreja evangélica na década de 1990.

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