Imprensa | Por que Cristiane Brasil ainda é uma opção para ministério?

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Fonte: Exame – 7/2/2018

A deputada federal foi nomeada em janeiro para o Ministério do Trabalho, mas a Justiça ainda impede que ela assuma o controle da pasta.

São Paulo — Os mais de 30 dias de polêmicas em torno da nomeação da deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ) para assumir o Ministério do Trabalho e a insistência do governo para mantê-la no cargo são mais uma amostra da ofensiva do Palácio do Planalto para manter sua coalizão satisfeita com vistas a ganhar apoio no Congresso — no caso, aprovar a Reforma da Previdência.

Motivos não faltaram para Michel Temer, que ostenta baixíssimos índices de aprovação, abrir mão da indicação.

A deputada do PTB já foi condenada em processos trabalhistas movidos por dois ex-motoristas, foi citada em uma delação premiada da Odebrecht como beneficiária de 200 mil reais em caixa dois e ainda é alvo de inquérito por associação ao tráfico de drogas durante a campanha eleitoral de 2010. Se não fosse o bastante, no fim de semana, foi divulgado um áudio em que a deputada aparece ameaçando servidores públicos para conseguir votos para a sua campanha de 2014.

Segundo o cientista político Antônio Flávio Testa, professor da Universidade de Brasília (UnB), desistir da nomeação de Cristiane Brasil colocaria em risco o equilíbrio do presidencialismo de coalizão, prática fundamental para a sustentação do governo. Por essa estratégia, a governabilidade do Executivo Federal é condicionada à uma coesa política de alianças.

Dependente de 308 votos para aprovar a Reforma da Previdência, Michel Temer sabe que cada apoio é valioso nessa saga. Sozinho, o PTB de Cristiane Brasil têm 16 cadeiras na Câmara dos Deputados — onde a proposta deve ser votada neste mês.

“Esse é o fator mais importante para o Planalto manter Cristiane como uma opção no comando da pasta”, diz o cientista político Fernando Schüler, professor do Insper.

Ele lembra que, em ano eleitoral, o custo político para os parlamentares apoiarem medidas impopulares, como a reforma da Previdência, tende a crescer e a estratégia de dar cargos em troca de votos acaba sendo a tática mais certeira para fortalecer a coalizão. “Temer é um expert em termos de Congresso. Ele conhece bem essa estratégia de preservar relações e manter apoio”, afirma Schüler.

“No jogo político, não seria uma boa estratégia para o presidente ceder à pressão, voltar atrás e retirar o apoio à nomeação de Cristiane. Ele não pode se comprometer com os partidos de base”, argumenta Testa, da UnB.

A insistência do PTB e do governo nesta indicação, contudo, pode estar se esgotando.

Segundo informações do jornal Folha de S. Paulo, após a revelação de que Cristiane é investigada por envolvimento com tráfico de drogas nas eleições de 2010, o Palácio do Planalto estaria aventando a possibilidade de um novo nome do PTB para o posto. Ao mesmo tempo, a própria bancada, de acordo com o jornal, já estaria questionando a permanência de Roberto Jefferson, pai de Cristiane, na presidência da sigla.

Apesar dos esforços em torno da reforma da Previdência, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem demonstrado que só colocará o tema em votação se a vitória for garantida. Por ora, o governo parece ter certeza de apenas 237 votos.

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