Imprensa | Luciano Huck, o ator e suas circunstâncias

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Fonte: Uol Notícias – 6/2/2018

No final de novembro, Luciano Huck publicou na Folha de S. Paulo um artigo em que afirmava não pleitear candidatura alguma à presidente da República, nesta eleição pelo menos. Comparava-se a Ulisses, de ””A Odisseia””, dizendo amarrar-se aos mastros de forma a não ceder aos cantos das sereias. Causou impacto porque, naquelas semanas, os boatos e a expectativa de sua candidatura se expandiam aceleradamente.

No mesmo dia, publiquei neste BLOG um artigo que procurava captar, nas entrelinhas, o sentimento mais profundo do apresentador da TV Globo. Afirmei que a impressão que sua ””negativa”” deixava era a de que ””as portas de Huck para a política parecem mais abertas que fechadas””. Até porque, afirmava, ””em política nada é definitivo””.

Com efeito, se as circunstâncias persistissem, seria muito provável que o espaço para um outsider, ao feitio de Luciano Huck, continuasse em aberto. E ””logo mais adiante””, ponderava, ””novas turbulências podem produzir ondas de ”queremismo” por esse tipo de ator. Um canto aí, sim, irresistível seja para Ulisses tanto quanto para aqueles que o rodeiam””.

O problema do outsider é que ele pode ser qualquer pessoa, mas jamais será qualquer um. Esse espaço, quando aberto, espera ser ocupado por características específicas e bem definidas. Alguém amplamente conhecido, sem qualquer problema de recall; alguém com franca e direta comunicação com a massa de eleitores. Alguém que signifique mais que uma promessa (e aposta) de elevação do que a certeza de mediocridade.

Não há muitos assim. Joaquim Barbosa, por exemplo, parece mercurial demais, personalista demais para um sistema político tão complicado e repleto de armadilhas como o brasileiro. Ademais, não se saberia com que equipe poderia contar, ao contrário de Huck cujos nomes de eventuais ministros já são desde logo aventados, para reduzir a resistência a seu nome.

Na ocasião, não escrevi mas tenho repetido que, como estratégia, o artigo e a ação de Huck eram perfeitos: a porta aberta nas entrelinhas permitiria um recuo do recuo. E afastamento evitava que se sujeitasse a todo tipo de pancada a que estaria exposto. Por que antecipar constrangimentos quando é possível protelar? Encurtar a exposição, reduzindo desgastes e aumentando a intensidade do impacto de uma decisão.

Coisa fácil de entender: ao invés de submeter-se a pressões, investigações, ilações e eventuais denúncias pelo prazo de um longo ano, seu artigo tem lhe permitido reduzir esse processo a apenas seis meses — com uma Copa do Mundo, naturalmente dispersiva de atenções, no meio do caminho.

Não é possível afirmar, já, que Huck será candidato a presidência. Como tudo nessa conjuntura, qualquer cenário nasce, morre e ressuscita sem uma lógica que se possa capturar. Todavia, pistas e ””mal-entendidos”” — como a aparição no Domingão do Faustão, marcante demais para ser apenas acidente — alimentam a lenda que pode tornar-se realidade.

O fato é que o espaço para um outsider com as suas características continua como uma ampla avenida aberta para as urnas de outubro próximo. E, em dois meses, as circunstâncias só fazem reforçar esse sentimento.

Desde a publicação de seu artigo, nenhuma candidatura do autodenominado ””centro democrático”” se consolidou. Henrique Meirelles permanece mais como candidato de sua vontade do que de forças políticas capazes de alavancá-lo. A candidatura de Rodrigo Maia coloca-se como vagalume, acendendo e apagando ao sabor da desgraça ou sorte de seus aliados/adversários de base governista: Temer, Meirelles e Alckmin.

A candidatura de Michel Temer, embora plausível, seria apenas uma cartada para negociação e não pode ser levada a sério, consideradas suas chances de vitória.

Geraldo Alckmin, o candidato em melhores condições neste campo, continua patinando nas sondagens de intenção de voto, com índices pouco expressivos — entre 8% e 11%. O que, para um político que já concorreu à presidência e cumpre o QUARTO mandato como governador do maior e mais visível estado da federação é pouco, mesmo para esta fase do processo.

Além disso, a mais que provável ausência do ex-presidente Lula, nas urnas, abre amplo espaço para um candidato popular, acostumado a se comunicar com os setores mais pobres — e majoritários — do eleitorado como um braço assistencialista e sem assustá-lo com radicalismos e promessas de uso atabalhoado da força.

A propósito, a ausência do petista ocasiona a mesma fragmentação de forças que se vê ao centro, agora, na esquerda sem um aglutinador natural. A fragmentação somada às possibilidades de elevados índices de abstenção, brancos e nulos desenha um cenário em que Jair Bolsonaro, à frente de fiéis setores rediviva Linha Dura, começa a assustar.

Assim, entre os que rodeiam Luciano Huck, cresce a angústia e ansiedade, e ondas de ””queremismo”” tornam-se inevitáveis. O nome do apresentador volta à boca de políticos e analistas, consta das sondagens eleitorais, num ciclo que enfraquece, ainda mais, Geraldo Alckmin, colocando maior volume de água do moinho de Huck. O que faz com que se pressinta o risco de ””cristianização”” de Alckmin.

Enfim, se será candidato ou não, é provável que nem mesmo Luciano Huck consiga responder. E qualquer um que o faça neste momento arrisca-se a escrever na água. Na volatilidade que se vive, as circunstâncias pesam mais que os atores, cujos desejos ou indisposição tornam-se detalhes, variáveis de segunda ordem. Na verdade, circunstâncias assim determinam a lógica dos atores, não o contrário. Quem os navega é o mar.

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