Imprensa | A anormalidade como regra e as chances de Jair Bolsonaro e Marina Silva

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Fonte: Uol Notícias – 5/7/2018

No artigo anterior — que você pode ler aqui argumentei ser, no mínimo, controversa a visão de que há uma dinâmica natural da eleição, que se impõe ao cenário conjuntural. Que estrutura partidária, tempo de TV e recursos financeiros sejam o suficiente para definir o quadro eleitoral. Sendo que, nesse sentido, bastaria comparar à dinâmica de outras eleições para prever tanto quanto possível a trilha pela qual esta eleição deve caminhar.

Como disse, avalio isto como insuficiente. E antes de avançar um tanto mais na análise e nas condições que possuem Jair Bolsonaro e Marina Silva para o próximo pleito eleitoral, acrescento mais um argumento, de modo a reforçar a necessidade de ponderar um tanto mais o poder das circunstâncias:

Analistas políticos na Europa e nos Estados Unidos quando estudam séries históricas para compreender a dinâmica eleitoral de seus países, lidam com dezenas de ocorrências. Donald Trump, por exemplo, é o 45º. presidente norteamericano, para um número de eleições muito maior, considerando as reeleições naquele país. Vários países europeus possuem uma longa tradição democrática, com eleições regulares há décadas. No Brasil, não é assim.

Entre 1889 e 1930, a “Primeira República” foi um regime  oligárquico em que apenas 2,3% da população votava. De 1930 a 1945, uma ditadura se estabeleceu. Entre 1946 a 1964, o país teve 5 presidentes: um praticou suicídio, outro renunciou com 8 meses de mandato, um terceiro, vice, foi deposto pelo golpe militar. De 1964 a 1985, nova ditadura e o regime militar nomeava seus generais-presidentes. Em 1985, o presidente eleito indiretamente pelo “Colégio Eleitoral” (Tancredo), sequer tomou posse; adoeceu às vésperas agonizando num hospital por 36 dias, até falecer.

Em 1989, o primeiro presidente eleito (Collor), na redemocratização, sofreu um impeachment e não passou a faixa presidencial ao sucessor. O segundo eleito (FHC), beneficiou-se da reeleição, passado a faixa ao sucessor (Lula), em 2002. Este, dois mandatos depois, aí sim, transmitiu novamente a faixa à sucessora que sua popularidade elegeu (Dilma). Esta sofreu novo impeachment, sendo sucedida pelo vice que participou do processo de conspiração para sua queda, pela falta de apoio e governabilidade.

A rigor, o presidente Lula, em 2010, foi o primeiro presidente da história do Brasil que recebeu a faixa presidencial de um presidente igualmente eleito e a repassou a uma terceira, também escolhida pelo voto popular. Isto faz meros 8 anos. E houve nova ruptura. O próximo presidente não receberá a faixa do eleito. Oxalá a repasse e o ciclo recomece.

Da redemocratização para cá, o país realizou 8 eleições; 5 presidentes foram eleitos — Tancredo, Collor, FHC, Lula e Dilma. Um, pela via indireta, três reeleições; três vice assumiram e concluíram os mandatos ds titulares. Isto tudo para dizer que a democracia no Brasil é jovem, não havendo significativa tradição e normalidade eleitoral. Qual a normalidade que que pode retirar disto? Apenas a turbulência.

Logo, parece razoável admitir que tudo é muito instável. Modelo postos por outras realidades não se ajustam exatamente à realidade brasileira. Se funcionarem, terá havido a influência da sorte e da aleatoriedade.

Assim como o Brasil, Jair Bolsonaro e Marina Silva não se ajustam à estabilidade das normas e do jogo. Individualmente, seus partidos não têm estrutura e tempo de  TV. Marina, por exemplo, sem coligação, sequer participará dos debates na TV.  Num processo normal, seriam sumariamente descartados como competitivos. Mas, a normalidade, no Brasil, como se viu, assumiu um sentido próprio. A instabilidade
— sobretudo, nos últimos 5 anos — tem sido a regra.

Ademais, Bolsonaro parece ter-se consolidado no eleitorado conservador, de viés autoritário. Esse setor sempre existiu na política nacional, com forte representação: o integralismo, a UDN, a Marcha com Deus pela Liberdade, o Regime Militar, a Arena, o PDS, Paulo Maluf… Foi com o ocaso do malufismo que o vazio à direita foi ocupado pelo PSDB — ou, antes, por pragmatismo eleitoral, foi abraçada pelos
tucanos. Com Bolsonaro, a direita reencontra seus signos e volta ao seu leito de origem.

Embora não se possa dizer que a maioria do eleitorado nacional se amarre a princípios ideológicos, o fato é que esse eleitorado conservador sempre contou com relativa densidade eleitoral. Num ambiente de mau humor elevado como o presente, tem aí o auxílio do voto de protesto “contra tudo isto que está aí”, o que favorece a Jair Bolsonaro.

As pesquisas mostram a irredutibilidade do ex capitão, num patamar entre 15% e 20% das intenções de votos. Nunca é demais lembrar que em 1989, Lula foi ao segundo turno com 16,9% dos votos. Suas chances num segundo turno, com os olhos de hoje, parecem reduzidas pela dificuldade em atrair o eleitor de centro, moderado, o fiel da balança em qualquer ambiente eleitoral. Ainda assim, os olhos
de hoje não advinham o amanhã. Bolsonaro não pode ser descartado.

Já Marina Silva demonstra possuir um eleitorado cativo, próximo aos 20%, desde 2010. Engana-se quem afirma que em 2014 deixou de ir ao segundo turno por falta de estrutura partidária e tempo de TV. Seu principal problema foi o salto alto — acreditava já estar no segundo turno —, o que lhe fez desprezar os efeitos dos ataques que recebeu de seus adversários e inibiu a percepção da necessidade em dar respostas a esses ataques.

É sempre possível que Marina insista nos mesmos erros; o de se colocar como uma figura olímpica na competição, o de figurar como São Jorge na entrada de um prostíbulo. Parece estar agindo de modo diferente, buscando coligações. O fato é que, nesta eleição, o chamado centro político moderado e democrático está desarticulado, parece não depositar esperanças na capacidade de reação de Geraldo Alckmin; esse vazio pode ser preenchido por Marina.

Como a haste móvel de um compasso — escrevi sobre isto, aqui (https://carlosmelo.blogosfera.uol.com.br/2018/06/06/geraldo-e-marina-duas-hastesdo-compasso/)—, Marina parece possuir mais amplas condições que Alckmin em expandir-se a partir do centro, atingindo o eleitorado conservador de centro-direita, religioso, e uma esquerda ligthe ambientalista, descolada do PT e não seduzida pelo pragmatismo brizolista que agora Ciro Gomes parece expressar. Além disso, a ex-senadora pode assumir o papel de mau menor, aos olhos do mercado financeiro e do empresariado em geral.

Ambos, Bolsonaro e Marina, embora absolutamente integrados há décadas à dinâmica política nacional, podem vir a se arvorar como “os ousideres possíveis”, aquilo que restou de mais distante das grandes estruturas rejeitadas pelo eleitor. Atores descomprometidos com o status quo, ocupando espaços antes destinados a personagens novos, como Luciano Huck e Joaquim Barbosa.

É sempre bom lembrar que estes, Huck e Barbosa, se não mergulharam na disputa eleitoral, não foi por falta de estrutura partidária — adesistas os receberiam de braços abertos —, mas por cálculo e restrições exclusivamente pessoais.

Galopando fluxos de informação, o descontentamento patente do eleitor em relação aos grandes blocos políticos; navegando nas ondas das desgraças de candidaturas que, em que pesem as estruturas com que poderiam contar, não decolam, Bolsonaro em Marina podem surpreender mais como fenômenos de opinião pública e das circunstâncias, da ruína do sistema político, do que como fenômenos partidários, político-eleitorais. Estão aí as suas chences.

Ademais, daqui até o início de agosto, os desafios de Bolsonaro e Marina serão os mesmos: fechar coligações que minimizem a precariedade de estrutura, ampliando apoios, recursos e tempo de televisão. No caso de Marina, que lhe permita, ao menos, participar de debates. Não à toa, as grandes estruturas se debatem para fechar os caminhos aos nanicos, Bolsonaro e Marina. Mas, eleição é luta renhida
que somente aos fracos abate. Se serão exaltados só o tempo dirá.

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