Eleição 2018: mais perguntas que respostas

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Fonte: Uol Notícias – 10/8/2017

Artigo do professor Carlos Melo


Com a sobrevida de Michel Temer, ficam mais fortes as especulações e mais intensa a ansiedade em torno da eleição de 2018. Mesmo para o mercado financeiro, que ainda guarda sob as dobras dos paletós alguma esperança de reformas estruturais mais profundas do que simbólicas, a eleição presidencial já é o principal assunto e o maior prêmio de risco nas rodas de apostas e aflições financeiras. À falta de bambus e flechas do Ministério Público, tudo o que se quer saber é se o próximo presidente da República estará (ou não) comprometido com reformas e ajustes fiscais. Mas, não se sabe sequer quem serão os candidatos.

A precariedade de analisar e prever 2018 é ainda muito grande; neste momento, as interrogações são mais fartas que as eventuais respostas. Há pouco mais de um ano do pleito, não se conhece o mais elementar do jogo, que são as regras eleitorais: com qual e com quanto dinheiro se farão as campanhas, como ficará o tempo de televisão; sequer se sabe se o sistema será proporcional ou se retirará dos bolsos de coletes a invenção do Distritão — cujo benchmark é o Afeganistão e o que deve determinar o perfil Congresso com quem o próximo presidente dividirá o poder.

À parte disto, como estará a economia por ocasião da eleição: terá que tipo de influência? Michel Temer será que tipo de eleitor? Em meados de 2018, haverá sentimento de melhora — o desemprego caindo e a renda subindo — ou as condições de penúria de estados e municípios, afetando os serviços públicos, será determinante como expressão do caos do Estado e o mal-estar de cada indivíduo-cidadão? O inferno da vida urbano será amenizado pelo paraíso de algum aumento de renda?

Claro que isso tudo interferirá no grid de largada: será vantagem para todos os partidos lançarem candidatos ou as coligações serão alternativa mais razoável? Como ficarão postulantes como Marina Silva e Jair Bolsonaro, por exemplo, filiados a partidos minúsculos, provavelmente preteridos na divisão de recursos? Bolsonaro, como se sabe, é um dos bichos-papões das pesquisas e sondagens eleitorais, o capitão-deputado terá condições de competividade, as redes sociais de sua base social serão o suficiente para alavancá-lo?

E o que dizer do líder das pesquisas, Lula: poderá concorrer, estará em liberdade? Sendo impedido, qual será o clima da eleição e das ruas? E diante de uma eventual absolvição pela justiça, qual será a reação do eleitorado de classe média dos grandes centros urbanos, cada vez mais avessos ao ex-presidente e ao PT? Na ausência do ex-presidente, quem poderá ser o candidato do PT? Seu perfil e suas chances.

E mesmo aí não param as questões: no cenário de Lula candidato e eleito, o presidente de 2019 será o mesmo do passado, em 2003? A ilusão de muitos quer crer que sim, afinal, ””Lula é pragmático””, dizem. Mas, os tempos são outros: o Brasil é outro, uma parte da sociedade tende a ter menos tolerância agora do que teve com a ””novidade”” de 2003. O diálogo entre o ex-presidente e o país será diferente. Além do mais, faltará ao PT a qualidade dos quadros que um dia teve — Dirceu, Palocci, Gushiken, Márcio Thomaz Bastos, para ficar em nomes memoráveis.

E o PSDB, como resolverá sua equação interna, a começar pelo destino que possa dar a Aécio Neves? A imagem do partido, implacável com o que chama de lulopetismo, durante o e depois do impeachment, saiu arranhada nas gravações e nas malas que rondaram seu presidente e último candidato; o mea-culpa que a legenda promete fazer será o suficiente para retomar contato com sua base social e até com os principais quadros econômicos e intelectuais tucanos?

Isto, é claro, sem mencionar o enredo intrincado e confuso que vai se transformando a relação do PSDB com o prefeito da Capital paulista, João Doria, evidente postulante ao Planalto — em que pese a mesma pretensão de seu correligionário e padrinho, Geraldo Alckmin, governador de São Paulo e, hoje, preferido pelos principais caciques do partido. Doria e Alckmin, ao que tudo indica, já se enfrentam nos bastidos e os humores de seus entornos — inclusive aliados como o PMDB e o DEM — já são afetados pela apreensão da indefinição. Qualquer resultado aí tende a deixar marcas.

Por fim, e o mais perigoso, é que a maior parte das pessoas que já voltam suas atenções para o processo eleitoral pensa exclusivamente no ””melhor candidato””, mas desprezam o ””presidente””, no dia seguinte da eleição. No mercado financeiro, o foco é para quem teria a agenda mais adequada à sua pauta fiscal e reformista. Ok, a capacidade de competir eleitoralmente é, obviamente, fundamental numa eleição, assim como a agenda do candidato. Mas, não se pode retirar do foco uma questão que talvez preceda a todo o resto: quem, eleito, seria o melhor presidente, capaz, de fato, levar a termo tudo o que prometerá na campanha?

Qual indivíduo ou grupo estará mais apto a conduzir o processo político desta quadra histórica de crise profunda; quem conseguirá contornar as incertezas do sistema, remover o entulho fisiológico, fazer reforma e promover mudanças positivas? ””Quem tem perfil para isto”” é detalhe que se omite e pergunta que ninguém faz — o tradicional ””trocar os pés pelas mãos””. Mas, definidas as regras eleitorais, as indagações deveriam começar daí. Discutir candidatos sem definir o perfil necessário do futuro presidente é uma forma arriscada de pensar no futuro. E, também, pouco inteligente.

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