Aprenda a calcular o risco de seu fundo de investimento da mesma forma que os grandes bancos fazem

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa
Fonte: Estado de S.Paulo – 11/9/2017

Devido à complexidade dos cálculos de risco dos fundos de investimento, o pequeno investidor normalmente se vale apenas de tabelas que dimensionam o risco dos produtos por meio de cores que variam entre verde a vermelho, sendo verde o mais conservado e vermelho o mais agressivo. Algumas vezes, essa tabela é apresentada com quatro degraus: conservador, moderado, arrojado e agressivo.

Entretanto, essa tabela de cores não esclarece várias dúvidas, por exemplo, qual seria o pior resultado esperado em um fundo classificado na cor vermelha, ou seja, o mais agressivo? Também é possível se perguntar como relativizar o risco entre fundos dentro da mesma faixa, ou mesmo entre faixas de risco diferentes, ou seja, quão pior seria o resultado esperado em um fundo classificado como arrojado em relação a um moderado.

Essas e outras perguntas podem ser respondidas com uma medida de risco que é utilizada pelos grandes bancos para medir o risco de suas tesourarias e operações.

Embora não se consiga atribuir a um criador único, a medida de risco que abordaremos foi inicialmente utilizada de forma mais extensiva pelo banco JP Morgan no início da década de 1990. Naquele tempo, o presidente do JP Morgan, Dennis Weatherstone estava cansado de metodologias de risco complexas e que não forneciam uma clara intuição sobre o risco que seu banco estava correndo. Assim, ele demandou para seus analistas a implementação de uma medida de risco única que fosse intuitiva, simples e capaz de apresentar o risco máximo que o banco corria de forma clara. A simplicidade de cálculo e facilidade de entendimento fez com que esse modelo de risco rapidamente fosse utilizado por todo o mercado financeiro.

Desde então, a medida de risco mais utilizada pelos grandes bancos é o modelo desenvolvido naquele momento acima e que é conhecida pela sigla VaR que significa Valor em Risco (Value at Risk). Vamos mostrar que essa metodologia é simples de calcular e você pode usar para medir o risco de seu fundo de investimento. Vários fundos já apresentam o seu VaR no seu próprio material de divulgação e com a explicação abaixo você vai saber interpreta-la. Esse material de divulgação pode ser encontrado no site da gestora do fundo.

Como calcular?
A medida do VaR representa o pior resultado esperado pelo fundo em condições normais de mercado, em um determinado intervalo de tempo e com um nível de confiança escolhido. Seu cálculo considera três fatores: a média e a volatilidade esperada dos retornos do fundo de investimento e um elemento multiplicador que representa o nível de confiança.

Para os dois primeiros fatores, o retorno médio e a volatilidade dos retornos, podem ser utilizados os dados passados que são informados no material de divulgação do fundo. Mas caso não encontre, você pode calcular. Por exemplo, considere os retornos mensais dos dois fundos abaixo. O fundo A e B possuem a mesma média aritmética dos retornos de 1,05% (para o fundo A, 1,05% = (1,4%+0,7%+1,3%+0,8%)/4).

Entretanto, os retornos do fundo A se situam mais distantes dessa média que os do fundo B. A volatilidade é representada pela dispersão dos retornos do fundo em relação ao seu retorno médio. Portanto, a volatilidade do fundo A é maior que a do B. A volatilidade é calculada usando a medida estatística de desvio padrão. Esse é um cálculo um pouco mais difícil, mas pode ser realizado de forma simples no Excel usando a função “DESVPAD.A(núm 1, núm 2, …)”. O desvio padrão, ou volatilidade dos retornos mensais dos dois fundos é de 0,35% e 0,08% ao mês, respectivamente. Não se preocupe se achou o cálculo da volatilidade difícil, pois, como ela já é fornecida no material de divulgação do fundo, você não vai precisar calcula-la.

De posse dos dois primeiros fatores, agora falta pouco para calcular a medida de risco VaR. Falta apenas o terceiro fator, o multiplicador que está associado ao nível de confiança. O nível de confiança vai expressar a probabilidade de que não haveria um pior resultado que o valor encontrado pelo VaR. Normalmente, o mercado utiliza o nível de confiança de 95%. Esse número quer dizer que existe uma probabilidade de 95% de que não haveria um resultado pior que aquele apresentado pela medida VaR em condições normais de mercado.

Para encontrar o multiplicador é preciso considerar a distribuição de retornos do fundo. Em geral, o mercado considera uma distribuição Normal que é aquela em forma de sino que vemos em várias apresentações estatísticas. Para calcular o elemento multiplicador, utiliza-se a função do Excel “INV.NORMP.N(probabilidade)”. A tabela abaixo apresenta alguns exemplos para o fator multiplicador em função da probabilidade.

Agora podemos calcular, o VaR para o nosso exemplo, ou seja, o pior resultado esperado em condições normais de mercado, em um intervalo de tempo de um mês e com um nível de confiança de 95%. Basta realizar a seguinte operação: VaR = Retorno médio – Volatilidade * Nível de confiança.

Portanto, para o Fundo A, o VaR = 1,05% – 0,35% * 1,64 = 0,47% no mês, ou seja, em um horizonte de tempo de um mês, o pior resultado esperado com 95% de confiança seria uma rentabilidade de 0,47% para o fundo A. Para o Fundo B, o VaR = 1,05% – 0,08% * 1,64 = 0,92% no mês, ou seja, em um horizonte de tempo de um mês, o pior resultado esperado com 95% de confiança seria uma rentabilidade de 0,92% para o fundo B. As duas medidas de risco apresentam nesse exemplo um retorno positivo. Logo, aquele que tem o VaR mais elevado, possui menor risco.

Agora que você aprendeu, vamos aplicar com três fundos conhecidos no mercado, o fundo Garde D’Artagnan, o fundo Galileo do Safra e o fundo Kinea Sistemático . A tabela abaixo apresenta como retorno médio e volatilidade os valores anuais apresentados nos últimos 12 meses no site de cada gestora. Para o cálculo do VaR, utilizamos o multiplicador de 1,64 que está associado a probabilidade de 95% de o pior resultado esperado nos próximos 12 meses ser o apresentado pela medida de VaR.

Observe que o fundo que apresenta o maior risco medido pelo VaR é o fundo Safra Galileo. Isso ocorre, pois ele é o que pode apesentar o pior resultado dentre os três em um horizonte de um ano dada as características de retorno e volatilidade apresentadas nos últimos doze meses. Embora a volatilidade do fundo da Kinea seja menor que a do Garde, como esse último possui um melhor retorno médio, o risco do Garde medido pelo VaR acaba sendo menor. Da mesma forma, como todas as medidas de VaR são positivas, o que possui menor risco é o que apresenta o maior VaR. Ou seja, com um nível de confiança de 95%, o pior resultado esperado em um ano para o fundo Garde seria um retorno positivo de 11,49%, que é melhor que os outros dois fundos.

Ressalto que essa medida, considera o pior resultado esperado apenas em condições normais de mercado e não reflete o pior resultado quando uma crise ocorre. Para mensurar o pior resultado em uma crise é utilizada outra medida de risco que abordaremos no futuro.

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