Disciplina, acima de tudo

Espaço do Presidente
Insper Instituto de Ensino e Pesquisa

Na hora do almoço, sempre o mesmo ritual: abrir o saquinho de papel marrom, sacar o ovo cozido, o sanduíche de queijo, acompanhados de um copinho de leite. Terminada a refeição de improviso, chegava o momento de mergulhar novamente nos clássicos das ciências econômicas na biblioteca da Universidade de Chicago – uma jornada que podia durar até 11 horas, todos os dias. Numa ensolarada quarta-feira de verão, Cláudio Haddad, o engenheiro que virou banqueiro, diverte-se com as lembranças da dureza estudantil, enquanto se prepara para degustar um bufê bem mais farto e sofisticado no Praça São Lourenço, restaurante bem arborizado no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo.

Pontual até demais, Haddad chega dez minutos antes do combinado para o encontro. Sentamos ao lado de uma porta envidraçada que nos permite desfrutar um pouco do ar livre e da visão das árvores. “Aquela é uma jabuticabeira”, aponta. Quem nos acompanha é Fernanda Buisch, assessora de imprensa do Insper, antigo Ibmec São Paulo – que Haddad comprou em 1999 e tornou sem fins lucrativos em 2004. A escola de graduação e pós-graduação é considerada uma das melhores do país no ensino de administração e economia. Nos primeiros minutos, parece um pouco tímido diante dos cliques ininterruptos da fotógrafa Carol Carquejeiro, mas ao falar das peripécias como bolsista de pós-graduação na meca dos economistas ortodoxos começa a relaxar. Quando foi para os Estados Unidos, após ter cursado engenharia mecânica no IME (Instituto Militar de Engenharia) e, paralelamente, administração na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – curso que acabou não concluindo -, ele mal sabia falar inglês. “Conseguia ler, mas perdia muita coisa.” O fato de não ser formado em economia era outro motivo de preocupação e insegurança. “Tinha muita gente competente por lá.”

A saída foi “estudar feito um condenado”. Nada demais para quem, desde pequeno, sempre esteve entre os cinco melhores alunos da classe. O dinheiro nessa época era curto. Em Chicago, recém-casado com a mulher que o acompanha por mais de 40 anos, vivia espartanamente. Foi ao cinema uma ou duas vezes, no máximo. Atualmente, também é difícil desfrutar da telona. O problema não é mais o dinheiro, mas a falta de tempo. Mesmo assim, está sempre por dentro dos lançamentos. É cliente assíduo do site da Amazon, no qual, além de filmes, compra livros no formato tradicional ou digital para ler no Kindle.

Como leitor contumaz, acompanha quatro ou cinco obras ao mesmo tempo. Algumas em português, outras em inglês e até em francês. “Não sou fluente, embora me vire bem na França.” Escrever na língua de Napoleão? Só se for um e-mail curto. Neste início de ano, entre outros livros, está lendo “The Racional Optimist”, de Matt Ridley, “Le Colonel Chabert”, de Honoré de Balzac, e “Estado e Capitalismo”, de Octavio Ianni.

O gosto pela leitura e pelos estudos vem da família. Carioca, é o segundo de quatro filhos de um casal de professores. O pai, formado em direito, lecionava matemática, além de ser um “perito contador”. A mãe dava aulas de inglês. “Casa de ferreiro, espeto de pau. Nunca tive aula com ela.” A vontade de enveredar pela vida acadêmica surgiu após a formatura em Chicago, quando acabou indo lecionar na Escola de Pós-Graduação da FGV, no Rio. Em cinco anos de magistério, ensinou alguns alunos famosos, como André Lara Rezende e Daniel Dantas. “Ambos brilhantes”, faz questão de afirmar. Nessa época, começou a atuar como consultor do Garantia, mítico banco de investimentos fundado nos anos 1970 por Jorge Paulo Lemann, um trabalho que mudou o rumo de sua história.

Pausa para nos servimos. Haddad conta que, por recomendação médica, está fazendo dieta. Nada de fritura e temperos fortes. Depois de uma boa olhada nas opções expostas, ele pergunta ao maître sobre os grelhados. Acaba se servindo de um pedacinho de truta com ervas, galeto e alguns legumes grelhados na lenha. Voltamos à mesa. Para acompanhar, mais água mineral para todos. O restaurante começa a lotar e as conversas ficam um pouco altas. A ideia inicial era que “À Mesa com o Valor” fosse realizada no restaurante do Insper, a poucas quadras dali. Isso porque, quando não está tratando de negócios, Haddad costuma comer no bufê da escola. “É mais prático; almoço de verdade só dá para ter no fim de semana.” Por precaução, para que o barulho dos estudantes não atrapalhasse nossa conversa, transferimos o encontro para o Praça São Lourenço, que ele frequenta eventualmente. A escolha, entretanto, não se mostrou tão bem-sucedida, pelo menos em relação ao barulho. Já a comida estava saborosa.

Entre uma garfada e outra, retomamos do ponto onde paramos. Haddad diz que a primeira grande virada em sua carreira aconteceu quando soube que a mulher estava grávida de sua primeira filha. Ele tem duas filhas e dois netos pequenos, que adoram usar o novo “brinquedo” do avô, o iPad adquirido no fim do ano. “Também estou adorando”, revela. A vida de professor era boa, mas ele sentia que havia chegado o momento de mudar. “Nosso apartamento tinha uns almofadões, estante de tijolo; eu sabia que estava na hora de tomar vergonha na cara e ganhar dinheiro de verdade.” Risos.

Partindo dessa premissa, aceitou o convite para trabalhar como economista-chefe do Banco Garantia em 1979. Tomou gosto pelo mercado financeiro. “Participei do momento de criação de muitas coisas.” Aos 31 anos, a boa formação o ajudou a se destacar rapidamente, o que rendeu um convite do então ministro da Fazenda do governo João Figueiredo, Ernane Galvêas, para trabalhar no Banco Central. Entrou como o primeiro diretor de dívida pública da instituição. A experiência no governo foi rica e, segundo ele, suficiente. “Já recebi convite para voltar, mas não tenho vontade de repetir.”

Haddad não gosta de ser político, embora admita que todo mundo precise aplicar um pouco de política no que faz. “Uma coisa é fazer isso em prol dos próprios negócios, outra é ter que engolir sapo no governo.” A tarefa da presidente Dilma Rousseff nos próximos anos, segundo ele, não será fácil. “Ela é uma pessoa inteligente, energética, bem-intencionada e vai fazer o possível para acertar”, diz. Algumas incompatibilidades e inconsistências terão que ser resolvidas, como a questão do câmbio. O Brasil vive um momento que, para Haddad, lembra a pujança dos anos 1970, com pessoas animadas querendo manter o crescimento. O risco é que as coisas terminem mal como no fim do “milagre”.

As crises econômicas não o assustam, entretanto. Elas são cíclicas. “Não vejo diferença entre o que aconteceu nos últimos anos com o que se passou nos anos 1930 ou no fim do século XIX”, afirma. Ele comenta sobre um documentário de Rick Burns sobre a história de Nova York a que assistiu neste ano. “É tudo a mesma coisa, aquela fila de desempregados, bancos alavancados… Só não existia o Federal Reserve e a política fiscal de estímulo.” Para ele, um liberal convicto, os governos conseguiram aplainar a flutuação econômica, mas terão um custo maior no futuro porque toda a dívida aumentou. “Não existe nada de graça.” Ele acredita que o mercado vai se recuperar, “porque isso sempre acontece”. A maior diferença da última crise em relação a outras é a escala. “O mundo está mais tecnológico; portanto, há mais transparência e a transmissão é muito mais rápida.”

Haddad diz ter a sensação de que o ano passa cada vez mais rápido. Pergunto se isso tem a ver com a agenda cheia de compromissos. Ele diz que não: trata-se de uma questão matemática. Quanto mais velho, mais o tempo voa. “O mundo é logarítmico e não aritmético. As variações percentuais são muito mais importantes do que as aritméticas. Quando você tem 64 anos, 1 sobre 64 não significa nada. Quando você tem 10 anos, 1 sobre 10 é coisa pra burro.”

A agenda lotada existe e também ajuda o tempo a passar mais corrido. As reuniões dos vários conselhos de administração dos quais participa ocupam boa parte de seu dia. Antes aceitava mais convites para conselhos; agora recusa. Ele conta que passou a manhã em uma reunião do grupo Ibmec, rede de ensino da qual participa agora como investidor – ela começou às 8h30 e terminou depois do meio-dia. No conselho da Bovespa, no qual atua por causa de um convite de Armírio Fraga, são oito compromissos por ano. No Instituto Unibanco, mais quatro ou cinco. Parece pouco, mas tudo isso somado às reuniões periódicas do comitê executivo e acadêmico do Insper se torna muito. “Antigamente, achava que virar conselheiro significava se encostar para ganhar sem trabalhar; hoje eu sei que é diferente; além de dar muito trabalho, é uma tarefa de grande responsabilidade.”

Toca o BlackBerry. Ele atende e se desculpa. O aparelho é novo, comprou há apenas dois meses. Haddad diz que não costuma levar trabalho para casa, mas olha o e-mail até nas férias. “É melhor do que ter aquele monte de coisa para ler na volta.” No fim do ano passado, tirou alguns dias para descansar no seu sítio, em Itu, no interior de São Paulo. Depois, passou oito dias em Paris. Em outubro, planeja viajar com a mulher para o Japão, que ainda não conhece. “Sou a favor de férias. Não acho bom tirar 30 dias seguidos porque você fica muito fora das coisas, mas dividindo em duas vezes é ótimo.”

Na época do Garantia, tirava férias bem curtas. Eram de, no máximo, uma semana. “Passei uns três anos assim.” Ele diz que gostava da adrenalina do mercado em sua “vida anterior”, mas se cansou. “Uma coisa é você ser um investidor e acompanhar o mercado, outra é ter aquela preocupação constante: compro agora? Espero?” A venda do Garantia, do qual se tornou sócio, foi estressante. O banco não sobreviveu à crise asiática e acabou sendo vendido para o Credit Suisse. Meses antes desse desfecho, ele teve um problema de saúde quando negociava a entrada do banco no setor de telefonia celular em Paris. “Fui parar duas semanas no hospital.” Nesse momento, começou a pensar em dar a segunda grande virada de sua vida.

Decidiu entrar para a área de educação. “O Brasil passava pelo momento de lançamento de várias faculdades. Vi uma boa oportunidade de negócio.” Montou com Paulo Guedes, que tinha sido do banco Pactual, a rede Ibmec em São Paulo, no Rio e em Belo Horizonte. A sociedade acabou em 2004, quando passou a comandar apenas o Ibmec São Paulo, transformado em uma instituição sem fins lucrativos. Ele continuou participando como investidor do grupo Ibmec Educacional. Em 2009, o Ibmec São Paulo passou se chamar Insper. Haddad acredita que sua missão como presidente da instituição é formar pessoas que farão diferença para o país. “A sociedade precisa dessa contribuição de escolas de qualidade.”

Haddad diz que vê progressos na educação no Brasil. “Começou no governo Fernando Henrique, continuou no governo Lula, virou uma coisa importante. Existem movimentos em prol do tema, exames nacionais e metas a serem seguidas; estamos bem melhor do que há dez anos.” Quero saber como analisa o governo de Lula. Diz que o primeiro mandato foi muito bom, mas o segundo foi fraco. “Ele surfou uma onda internacional favorável e não fez reforma alguma; perdeu uma boa oportunidade para o país avançar mais.”

“Vamos para a sobremesa?”, convida. Mais uma vez, disciplinado, passa longe da mesa de doces, bastante convidativa: cocada, manjar, mousse, brigadeiro… Prefere uma porção de peras assadas na lenha. Ele diz que procura manter hábitos saudáveis. Faz Pilates três vezes por semana e dá algumas pedaladas em uma bicicleta ergométrica, com a ajuda do personal trainer em casa. “Faço no colchão, porque esses aparelhos de ginástica me parecem uma coisa meio medieval”, brinca.

Como sempre foi bem-sucedido em suas empreitadas, pergunto como lidaria com um eventual fracasso. “Já perdi dinheiro quando apostei em educação a distância oferecendo no Brasil MBA de Harvard e Chicago no início de 2000.” Diz que não tem problema em errar. Também é tolerante com quem erra, embora seja exigente e acredite na meritocracia, aprendida nos tempos do Garantia. Uma coisa que o aborrece é gente desanimada. “Sabe aquele cara que acha sempre que tudo vai acabar mal, que reclama de tudo?” A displicência também o irrita. “Não gosto de quem pega um negócio para fazer e faz de qualquer jeito.”

Embora tenha conseguido ficar rico muito cedo, ele não acredita que se trata apenas de uma questão de sorte. “Tudo bem: eu estava no lugar certo, na hora certa. Mas, como diz o Lemann, se você não fizer algo para estar lá no meio, a oportunidade não aparece.” Sem café, pedimos a conta. “Esta é a primeira vez que uma jornalista paga uma almoço para mim. Gostei.”

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