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Brasil deve apostar em produtividade para diminuir a pobreza

Para identificar os principais problemas enfrentados pelo Brasil e apresentar os desafios para o desenvolvimento do país, o Banco Mundial fez um diagnóstico que estudou o cenário dos últimos 15 anos. Sob o título Retomando o caminho para a inclusão, o crescimento e a sustentabilidade, o documento foi divulgado pela instituição no dia 24 de maio de 2016, no auditório Steffi e Max Perlman, do Insper.

Vale ressaltar que o relatório tem como foco a população pobre, que compreende 40% dos brasileiros, e tem o objetivo de trazer um entendimento sobre quais são os principais problemas do país. O Banco Mundial coloca-se à disposição para apresentar os dados aos líderes de forma imparcial e sem trazer recomendações ou soluções, que, na visão deles, está sob responsabilidade do governo.

Cenário brasileiro

“Se o Brasil quiser diminuir a pobreza e promover a igualdade, ele deve prestar atenção em três pontos expostos pelo diagnóstico”, afirmou o especialista em setor público do Banco Mundial, Roland Clarke, que apresentou o relatório durante o evento.

O primeiro item é que o país precisa criar novos postos de trabalho e aumentar a sua produtividade, em comparação com países desenvolvidos e alguns emergentes os trabalhadores brasileiros produzem pouco.

O segundo é que o Brasil deve fornecer os recursos públicos para quem precisa de fato – os 40% da população mais pobres, como citado acima – já que boa parte é gasta com um segmento da sociedade que não tem necessidades sociais prementes.

Por fim, é necessário ter a consciência de que a nação tem grande potencial numa estratégia green growth,  que promove o crescimento econômico e desenvolvimento do país enquanto preserva recursos naturais para que eles continuem sendo fornecidos para a população.

Ao deixar os três fatores de lado, o documento apontou que o Brasil também precisa focar em cinco desafios para ter um melhor desenvolvimento. São eles:

1) incrementar a concorrência de mercado, abrindo sua economia;
2) reparar as distorções do setor financeiro, sobretudo as intervenções dos bancos públicos;
3) organizar a insustentável situação fiscal que provoca um preocupante crescimento da dívida pública;
4) enfrentar os problemas de governabilidade e fragmentação política que impossibilitam a melhorias do ambiente de negócios;
5) reduzir as deficiências na gestão dos recursos naturais brasileiros e baixa resiliência contra riscos climáticos.

“Ao analisar os últimos 15 anos, podemos identificar muitos problemas. Porém, também vemos um desenvolvimento do Brasil. Ele tem evoluído e passado por um período bom em comparação aos outros países da América Latina. Na verdade, o Brasil está relativamente bem e só perde em duas áreas: saneamento e violência”, afirmou Clarke. O problema é que, ao ser colocado lado a lado com o resto do mundo, o cenário brasileiro não está tão favorável assim.

Escala global

Em relação ao crescimento de produtividade, o Brasil é um dos países com a menor taxa no mundo. Entre 2000 e 2013, o PIB agregado por trabalhador cresceu 1,3% ao ano. O índice é baixo e coloca a nação atrás de Colômbia, Tailândia e Turquia. Além disso, há uma disparidade entre a produtividade e a oferta de empregos. Por exemplo, enquanto no setor de agricultura a produtividade cresceu 105,6%, o emprego teve queda de -19,6%. Já na indústria, os empregos aumentaram em 50,8%. A produtividade, caiu5,5%.

Outro ponto controverso é o setor público brasileiro. Embora tenha papel importante na economia nacional (aproximadamente 40% de gastos do PIB), ele não é tão eficiente quanto deveria ser. “O Brasil possui um setor público parecido com os das economias mais ricas, porém, ele não apresenta a mesma qualidade e eficiência em seus serviços”, ressaltou Clarke. “A questão não é que o Brasil não tem um bom suporte. O problema é que temos instituições que não atendem as demandas corretamente”.

Falando ainda sobre os gastos públicos, é necessário melhorar a eficiência na distribuição -. Segundo dados coletados pelo Banco Mundial em 2014, o Brasil, um país de população jovem, separa 28,9% para a previdência. A saúde recebe13,9a educação 12,9% (tirando o ensino superior), no entanto, é notório que os serviços prestados nessas áreas está aquém do desejado. Os 44,3% restantes são difundidos entre os demais gastos primários, como segurança, transporte, trabalho, entre outros.

Vale ressaltar também que, ao comparar o Brasil com os outros países do mundo, a nação ganha o título de uma das mais violentas e desiguais do planeta. Isso porque a cada 100 mil pessoas, 26,5 são vítimas de homicídio intencional. Já a desigualdade abrange 52% da população. O país está atrás apenas da Colômbia e África do Sul em ambos os quesitos.

Em debate

Após a apresentação do relatório, o Insper organizou um debate para discutir os problemas apontados pelo documento. Além de Roland Clarke, participaram da conversa Martin Raiser, diretor do Banco Mundial para o Brasil, Marcos Lisboa, diretor presidente do Insper e Ricardo Paes de Barros, professor titular da Cátedra Instituto Ayrton Senna no Insper.

Tendo como mediadora Paula Miraglia, Diretora Executiva do jornal Nexo, cada participante teve 10 minutos para expor seu ponto de vista e em seguida foram abertas às perguntas da plateia.

Ao levantar a questão sobre a violência no país, Lisboa relembrou que esse problema já foi mais grave e é possível revertê-lo. “A minha geração viu um Brasil em que a cada seis jovens cariocas, dois estavam mortos antes dos 20 anos. Ainda é um país muito violento, mas a escala era maior anteriormente”, revelou.

Com relação ao relatório em si, Paes de Barros apontou que faltou cobrir uma questão delicada, mas importante: a privatização de empresas estatais e dos serviços públicos. “Ter serviços produzidos pelo setor privado, não quer dizer que eles precisam ser pagos. Na Holanda, toda escola é privada, embora ninguém pague pela educação”, comentou. “Seria bem melhor se a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, em vez de tomar conta de 200 mil professores, pudesse regular um sistema que tivesse diversas instituições privadas que em conjunto tivessem 200 mil educadores”.

Por fim, Raiser ressaltou os problemas de produtividade. Ele afirmou que apenas haverá crescimento se a questão estiver intrinsecamente ligada à redução sustentável da pobreza. “O Brasil tem feito muitos esforços para aumentar investimentos na produtividade, mas não consegue ter sucesso nessa área. Era necessário ter uma análise aprofundada desse cenário. E foi isso o que tentamos entregar”, disse.

Para conferir o relatório completo preparado pelo Banco Mundial, clique aqui

Assista ao vídeo do evento na íntegra: