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Dez negócios desconhecidos no Brasil para inspirar novos empreendedores

Vai empreender ou já está liderando o seu negócio próprio? Não se acanhe em se inspirar em outros negócios. Grandes empreendedores fizeram ou fazem isto o tempo todo. Henry Ford se inspirou no processo que viu no frigorífico do seu amigo Gustavus Swift para criar sua famosa linha de produção. Phil Knight, co-fundador da Nike, guiou-se pelos calçados fabricados pela Adidas e quando criou sua primeira linha de roupas, foi buscar inspiração da Jantzen, pioneira na fabricação de maiôs nos Estados Unidos e na White Stag, marca de referência em roupas de esportes de inverno na época. Steve Jobs constantemente buscava padrões observados nos automóveis da Porshe, nos eletrodomésticos da Braun, na sofisticação da Sony e na simplicidade da Polaroid. Howard Schultz trouxe referências da própria Nike e da Apple, mas também pesquisou a logística da Zara e o design popular da Ikea para recriar a experiência das cafeterias Starbucks.

Buscar inspiração nas grandes referências em suas categorias é uma atividade que não só sofistica a criatividade do empreendedor como também permite a criação de novos conceitos de negócios. Contudo também há outros exemplos bem menos conhecidos que podem inspirar os que estão realmente comprometidos com a criação e desenvolvimento de negócios inspiradores.

Se estiver empreendendo na área de educação, por exemplo, conhecer os negócios que estão sendo investidos pelo fundo de investimento NewSchools é uma obrigação. Vai se encantar com dezenas de novas soluções educacionais inovadoras. Mas também conheça a tradicional Thames & Kosmos.  Lembra-se daqueles kits de ciências para crianças? Se bateu uma saudade, vai ficar um bom tempo olhando a longa lista de opções que a empresa oferece. Mas mesmo que não atue em educação, será que o seu negócio não precisa transmitir conhecimentos para clientes, fornecedores, colaboradores ou parceiros?

Se atuar em negócio que implique no uso e/ou produção de produtos químicos, deveria conhecer a Method. Fundada por um químico e um designer, a empresa cria produtos de limpeza que são lindos e totalmente sustentáveis. E mesmo que não atue com nada químico, ainda assim, deveria entender como Dam Lowry e Eric Ryan conseguiram deixar algo tão chato como limpar a casa em uma experiência um pouco mais prazerosa e inspiradora.

Mas se atuar no mercado da moda, conhecer Yvon Chouinard e a Patagonia é ter acesso a uma lição de vida e de empreendedorismo de impacto. A empresa produz roupas esportivas de alta qualidade a partir de material reciclado e algodão orgânico, cobra bem mais caro do que seus concorrentes, tem uma legião de clientes apóstolos, cresce em faturamento anualmente (mesmo avisando que as pessoas não precisam de tanta roupa assim), é uma das melhores empresas para se trabalhar nos Estados Unidos e ainda entra na categoria de melhores ambientes profissionais para mamães. É tanta verdade que parece mentira.

E se o seu negócio for algo bem tradicional e com tecnologia quase ultrapassada, estudar a corajosa reviravolta liderada por Ray Anderson na sua empresa, fabricante de carpetes, a Interface, pode ser uma boa dose de inspiração. Fundada em 1973, apenas em 1994, Anderson se deu conta do enorme impacto negativo que o seu negócio causava ao meio ambiente. A partir deste ano, investiu cada recurso que tinha em desenvolver produtos 100% recicláveis com material 100% reciclado.

Se pensa ou já produz alimentos, conhecer a Honest Tea pode ser interessante. A partir de um estudo de caso da Coca-Cola versus Pepsi na escola de negócios da Universidade de Yale, o professor Barry Nalebuff e seu aluno Seth Goldman, se deram conta do que estavam bebendo. Só de açúcar, cada latinha tem pelo menos três colheres de sopa cheias. Decidiram criar uma linha de bebidas que chamaram de honestas por serem mais saudáveis. Na mesma linha da honestidade, a atriz Jessica Alba ficou preocupada com a quantidade de químicos potencialmente tóxicos que iam nos produtos que estava usando em sua filha recém-nascida. Era o plástico da mamadeira, o tecido sintético da fralda descartável, os shampoos, protetores solares, pasta de dente. Pode até ser preocupação excessiva das mães, mas ela não ficou parada. Decidiu criar a Honest para fabricar produtos mais naturais e seguros. Fundada em 2011, a empresa vale mais de US$ 1 bilhão atualmente.

Agora, se pensa em abrir algo no ramo de alimentação fora do lar como uma lanchonete ou um food truck, abrir um Pret a Manger no Brasil é o sonho dos empreendedores mais atualizados. Originalmente fundado na Inglaterra, o Pret tem feito muito sucesso nos Estados Unidos por ter se tornado referência em alimentação rápida, saudável e para “ser levada”. Mais do que uma simples opção de “grab & go”,  a empresa mantém um sério compromisso em “fazer a coisa certa” no que diz respeito em atuar de forma saudável e sustentável.

Mas o ramo de alimentação pode ter vários outros produtos e visitar uma loja da Whole Foods Market é um parque de diversões para quem busca inspiração em inovação, atendimento, experiência do consumidor, igualdade de gênero e sustentabilidade.

Ainda há muitos que sonham em criar o seu próprio negócio de comércio eletrônico. A Amazon é uma das primeiras referências que vem à cabeça. Mas a Better World Books é uma nano concorrente que tromba de frente com o gigante do e-commerce. Ela não quer apenas vender livros, mas tornar o mundo melhor por meio da leitura. Isto começa com a seleção dos livros que vende. E para cada livro vendido, doa outro para pessoas ou comunidades carentes. A doação de livros está próxima dos 17 milhões desde a fundação da empresa em 2002. Mas a livraria também recolhe livros usados em mais de duas mil faculdades e três mil livrarias nos Estados Unidos. O que tem uso é doado e o que não tem, é reciclado. E mesmo tendo todo este trabalho, a empresa é lucrativa.

Em todos estes exemplos menos conhecidos havia e ainda há uma única crença: É possível fazer melhor! E esta é a melhor e a maior inspiração para quem quer fazer diferente e fazer a diferença.

Publicado em: Estadão – PME – 15/05/2015

O que você quer ser quando crescer?

A filha de uma amiga minha quer fazer faculdade de jornalismo. Ainda não acabou o ensino médio, mas visitou uma redação e está quase decidida: quer ver seu nome assinando uma grande reportagem. Mas um amigo jornalista me ligou ontem me pedindo conselhos: quer largar o jornalismo e seguir sua paixão pessoal: cozinhar.

Mais precisamente, ele quer montar um negócio de produto único e com muitas variações como as temakerias, brigaderias ou loja de bolos caseiros. Achei a ideia bem interessante. Depois de ter conversado com ele, lembrei de um colega que já tinha aberto um negócio semelhante, de cupcakes, mas que tinha desistido e voltado para a área que tinha se formado, informática. Ele só seguiu o conselho de outro amigo que tinha sugerido que o mercado de TI estava pagando muito bem. Mas este amigo conselheiro, formado em engenharia de produção, largou seu emprego bem remunerado para empreender um negócio infantil, bem mais arriscado, principalmente para alguém que nem filhos tem.

Mas a filha de outra colega quer fazer faculdade medicina. Escolheu o curso porque viu um ranking de profissões e entendeu que médico ganhava bem. Por mais que sua mãe explicasse que deveria escolher algo que realmente gostasse, sua filha ainda continuava decidida pela medicina. Na hora em que ela comentava isso, lembrei de uma amiga médica que precisa trabalhar em vários lugares diferentes e, de vez em quando, assumir funções administrativas em um plano de saúde para ter uma remuneração descente. Esta amiga achava que estava na profissão errada. Gostava mesmo era de ser uma administradora pois lidava bem com números, metas e processos. Mas um dos meus melhores alunos do curso de administração, mesmo antes de estar formado, já tinha montado uma startup na área médica, intermediando demandas de pacientes e médicos.

E ainda tem a minha sobrinha e afilhada que talvez preste arquitetura para aproveitar sua aptidão em desenhar bem. Talvez ela nem tenha pesquisado quanto ganha um arquiteto em início de carreira ou mesmo está preocupada em assinar grandes projetos. Ela só quer fazer o que gosta.

Qual das três garotas está certa em sua decisão a respeito da faculdade a ser escolhida? A que quer ser reconhecida, a que quer ganhar dinheiro ou a que quer fazer o que gosta?

De certa forma, todos nós já tivemos este dilema no momento de escolher a faculdade. O que não temos consciência é que a vida sempre será feita de escolhas e isto vale para antes, durante e depois da faculdade.

Conheço jornalistas muito bem-sucedidos, mas também conheço a Juliana Motter, que largou a carreira de jornalista e escolheu criar a Maria Brigadeiro, a primeira e uma das mais bem-sucedidas brigaderias do País.

Há médicos de sucesso e outros que se formaram em medicina como Ricardo Sayon, fundador da RiHappy, Alberto Saraiva do Habib’s ou Oskar Metsavaht, empreendedor da Osklen.

E por fim, há muitos arquitetos vitoriosos e o Cláudio Sassaki, bacharel em Arquitetura e Urbanismo pela USP, tendo sido aprovado em 1º lugar, que trabalhou em bancos de investimento como Goldman, Sachs e Credit Suisse e que escolheu fundar uma das mais prestigiadas e inovadoras empresas de educação do Brasil, a Geekie.

Para os que ainda estão indecisos na escolha da faculdade, encare-a como uma chave que abre as portas do futuro. E quando você a tiver finalmente na mão, descobrirá não precisará mais dela pois não há portas fechadas para quem sabe empreender o que gosta de fazer.

Por Marcelo Nakagawa, publicado no Estadão.com  em 26/09/2014.

Como ser mãe e empreendedora ao mesmo tempo?

Como arranjar mais tempo para ficar com o filho que acabou de nascer? É uma pergunta que cresce na medida em que a gravidez avança e que chega a ser desesperadora nos últimos dias de licença maternidade. Não há nada que se compare a chegada de um filho. É o estado mais puro de amor que se tornar o maior propósito de vida dos pais. E como reduzir este estado de plenitude a poucas horas diárias quando é preciso voltar ao emprego e retomar a esperada normalidade da rotina diária de antes?

Mesmo que haja pais que assumem muitas das novas responsabilidades, as mães são, por diversas perspectivas, as mais afetadas neste momento. Mesmo que não tenham tido depressão pós-parto, terão, muito provavelmente, ansiedade pós-retorno ao trabalho. E não é só a saudade e preocupação com o filho, mas também como fica a amamentação, a volta ao peso normal, a logística de levar (e pegar) o bebê no berçário, a forma como a babá está tratando da sua prole, as preocupações com a casa, o sono, sua aparência pessoal, as pequenas compras especificas de urgência e ainda a concentração e resultados esperados na sua função profissional.

Neste contexto de amor, stress, propósito e responsabilidade, muitas mães pensam em criar um negócio próprio como solução para ter mais tempo e flexibilidade para ficarem com seus filhos.

Para mamães atuais ou futuras, algumas reflexões pode ser importantes.

1) Sempre pense em buscar um sócio que a complemente nos desafios da empresa. Em geral, é preciso ter um sócio que seja um grande vendedor e outro, um exímio “fazedor”. Analise se você é a vendedora ou a fazedora e busque a outra parte que falta. O sócio ainda será importante para manter a empresa funcionando durante suas “pequenas emergências” diárias.

2) Acorde previamente as funções na empresa. Mesmo que o início de qualquer empresa seja sempre um pouco caótico, deixar claro (e se necessário, fazer ajustes) as funções de cada sócio sempre evita desgastes bobos.

3) Não inove muito no negócio. Neste momento, o que menos precisa é correr riscos com as incertezas de negócios muito inovadores. Crie um negócio que consiga alavancar suas competências e habilidades. Neste tópico, google o termo effectutation e aprenda como criar um negócio seguindo esta abordagem.

4) Crie um negócio gastando pouco. Não é o momento de investir muito, pois além dos desafios da maternidade, também estará aprendendo a ser uma empresária. Encare a etapa inicial do negócio como um fase de aprendizagem. Estude o conceito de lean startup para criar um negócio investindo o mínimo.

5) Planeje, planeje, planeje antes da chegada do bebê. Faça cursos, converse com mães empreendedoras e elabore um planejamento do negócio pensando nas etapas de gravidez, chegada da criança, integração das atividades de empreendedora e de mãe.

6) Tenha mentoras. Ainda na fase de gravidez aumente sua rede de relacionamento que será útil quando a empresa estiver funcionando. Coloque metas agressivas como conhecer 100 novas pessoas por mês que poderão contribuir para o desenvolvimento do negócio. Conheça potenciais parceiros, fornecedores, clientes, potenciais investidores e apoiadores. Nestas andanças, busque o apoio de mentores, em especial, de mentoras, que a ajudarão a ter um equilíbrio saudável entre ser mãe e empreendedora.

E por último, uma reflexão importante. Não empreenda com o objetivo principal de ter mais tempo para ficar com seu filho.

Empreenda para resolver (muito bem) os problemas dos seus clientes. E não os seus!

Artigo escrito pelo Professor Marcelo Nakagawa, docente do programa de Educação Executiva do Insper.

Publicado no Estadão.com  em 12/09/2014.

Segundo motor

Dificilmente o Vale do Silício teria se constituído se não fosse por causa de Lucile Salter. Muitos consideram que o Vale, como carinhosamente é chamado a região ao sul da cidade de San Francisco até as redondezas de San Jose na Califórnia, nasceu a partir garagem da casa de David Packard. Ele e seu amigo de faculdade, Bill Hewlett, criaram a Hewlett-Packard, empresa que atualmente fatura US$ 112 bilhões e tem mais de 317 mil colaboradores ao redor do mundo.

Packard tinha pedido demissão da General Electric em 1939 e se juntou ao amigo Hewlett, que havia terminado seu mestrado no MIT, para criar uma nova empresa na cidade em que moravam, Palo Alto, incentivado por um antigo professor de ambos, Frederick Terman, da Universidade de Stanford.

Terman acreditava que seus talentosos alunos poderiam criar um negócio na área de equipamentos e investiu US$ 538 dólares do seu próprio bolso para que fundassem a empresa. Isto foi suficiente para que a dupla comprasse os primeiros equipamentos e alguns componentes.

Jovens e com poucos recursos, passaram a trabalhar na garagem da pequena casa em que Packard morava com sua esposa. Eles não sabiam exatamente o que fazer no início. “Fazíamos qualquer coisa para ganhar dinheiro. Fizemos sensores para pistas de boliche, relógios para telescópios, descargas automáticas de banheiros e máquinas de choque para pessoas perderem peso.” Mas eles não conseguiam vender suas invenções.

Aí entra Lucile. Foi ela, seu salário, sua paciência e seu apoio que manteve a HP funcionando nos primeiros anos. “Trabalhando de segunda a sexta e meio período no sábado (na área administrativa na Universidade de Stanford), ela, essencialmente nos manteve nos primeiros anos.” – escreveu anos depois, David Packard, seu marido, no seu livro The HP Way: Como Bill Hewlett e eu construímos nossa empresa (Ed. Campus, 1995). E não era só o dinheiro para manter a casa. Lucile ainda cozinha para os dois sócios e emprestava seu forno para que a dupla secasse os equipamentos que pintavam. “Meus rosbifes nunca mais ficaram os mesmos depois que Bill e Dave passaram a usá-lo como forno de pintura” – lembrou, certa vez, com bom humor.

Vários empreendedores contaram com o segundo motor para manter seus sonhos de negócios operando enquanto que o motor principal não funcionava como o esperado no início.

Marcelo Malczewski e Wolney Betiol começaram a empresa vendendo impressoras para máquinas telex em um momento em que as máquinas de fax dominavam o mercado. Até descobrirem que a solução que haviam inventado poderia ser utilizada como impressoras em terminais bancários, sobreviviam com seus salários de professores.

Fundada em 1969, a Natura praticamente não vendia nada até 1974. Com despesas para pagar e filhos para criar, as aulas de estética que Luiz Seabra, que co-fundou a empresa, dava no Senac não só ajudavam nas contas mas também na divulgação dos seus produtos.

Ninguém acreditava que o negócio de Juliana Motter teria futuro. Isto incluía seu pai, um amigo consultor que “entendia tudo de negócios” e até ela própria em alguns momentos. Por isso, ela só abandonou o salário de jornalista em uma revista feminina quando o motor principal da Maria Brigadeiro, o primeiro negócio especializado em brigadeiros do Brasil, já funcionava a pleno vapor.

Por mais que o sonho de empreender alimenta o propósito de existência de muitos, é preciso manter o estômago cheio e as contas pagas todos os dias.

Publicado no Estadão.com  em 22/08/2014

Não venda! Reflexão para quem lidera negócios baseados em serviço

Se pensa em empreender investindo pouco e utilizando basicamente seu cérebro como ativo principal, 2015 será o seu ano! A recente mudança no Simples permitirá, a partir do ano que vem, que várias categorias de negócios que são intensivas em conhecimento como consultoria, serviços de engenharia, arquitetura, advocacia, medicina, odontologia, psicologia, representação comercial, design, administração, jornalismo e “outras atividades do setor de serviços, que tenham por finalidade a prestação de serviços decorrentes do exercício de atividade intelectual, de natureza técnica, científica, desportiva, artística ou cultural” tenham o benefício da simplificação da tributação que já era oferecido para outras categorias de negócios.

A medida deve ser celebrada, pois não apenas facilita a gestão contábil-financeira do negócio como também diminui a carga tributária em boa parte dos casos. Os que estão contentes com esta mudança deveriam conhecer e estudar a trajetória de Marvin Bower. Uma de suas decisões está no livro “As 75 melhores decisões administrativas de todos os tempos” (Ed. Manole, 2002) e o negócio que empreendeu contribuiu, direta ou indiretamente, para o desenvolvimento de boa parte das grandes empresas atualmente conhecidas.

Mas mesmo assim, Marvin só é lembrado pelos que passaram pela sua firma. Seguindo o conselho do pai, Marvin Bower se graduou em direito pela Harvard Law School em 1928 e logo em seguida finalizou seu MBA pela mesma universidade em 1930. Seu primeiro emprego foi em um escritório de advocacia e como tinha conhecimento de gestão, passou a cuidar do processo de empresas que estavam em situação falimentar.

Com a experiência, ele começou a perceber que as empresas estavam naquela situação, principalmente, por problemas de estratégia e gestão que poderiam ser equacionados e daí resolvidos. De certa forma, era algo que havia aprendido no curso de direito. Quando tinha 30 anos, ele conheceu um ex-professor da Universidade de Chicago que tinha fundado uma empresa que prestava serviços de contabilidade e engenharia para empresas. Marvin explicou a lógica que tinha desenvolvido para recuperar empresas problemáticas.

James Oscar, o professor, rapidamente se identificou com a abordagem de Marvin, pois a contabilidade e a engenharia seguiam padrões semelhantes de análises para demonstrar os fatos, de decisões baseadas em dados e da padronização de conhecimentos que pudessem ser replicados em outras situações semelhantes.

Marvin se juntou a James e a empresa passou a oferecer serviços de consultoria de gestão, algo inovador na década de 1930. A firma ia bem, expandindo-se para outras cidades dos Estados Unidos quando James faleceu quatro anos depois. Marvin Bower assumiu a liderança do negócio mantendo o sobrenome do professor como razão social da empresa. Isto foi considerado uma das melhores decisões administrativas, pois a McKinsey & Co já era muito conhecida e respeitada em 1937.

Mas a liderança de Marvin tornou a McKinsey ainda maior e mais influente. Adotando práticas de contratação, treinamento, desenvolvimento de produtos, remuneração e sociedade já utilizada nos grandes escritórios de advocacia da época, Marvin começou a atrair os melhores talentos das principais faculdades. Ele ainda incluiu as práticas analíticas dos principais escritórios de contabilidade e os processos padronizados das firmas de engenharia.

O resultado foi uma abordagem coesa e eficaz de desenvolvimento de projetos empresariais que inspirou várias outras empresas de consultoria ao redor do mundo e que atrai o interesse de milhares de empresas que batem na porta da firma em busca de apoio. Mesmo que a McKinsey seja uma grande empresa atualmente, suas práticas como as contadas nos livros O Jeito McKinsey de Ser (Makron, 2000) ou Princípio da Pirâmide (Pritchett, 2011) podem trazer bons insights para empreendedores de negócios intensivos em conhecimento.

Mas o maior legado de gestão de Marvin Bower que deve ser refletido por todos os empreendedores é: Não venda… seja comprado!

Publicado no Estadão.com  em 15/08/2014.

O negócio americano que jamais daria certo no Brasil

Você deixa seu carro no estacionamento do aeroporto e pega o seu voo dando início a sua viagem de dois dias. Aí vem um sujeito esperto, pega o seu carro e o usa durante o tempo em que você está fora. Quando você volta, seu carro está lá, do mesmo jeito que deixou no estacionamento, que, por sinal, cobrará um valor bem menor já que o seu carro não ficou mesmo estacionado por dois dias.

No dia seguinte, você vai trabalhar com seu mesmo carro. Deixa no seu estacionamento de costume e… vem outro espertinho, pega o seu carro, o usa durante o dia inteiro e também o deixa do mesmo jeito e no mesmo local antes que você saia do seu trabalho. Você pega o carro e vai para casa, mas antes recebe o aviso do depósito de algo como R$ 70 na sua conta paga pelo outro espertinho que usou seu carro neste dia.

É isso o que ocorre normalmente com os clientes da RelayRides.com aqui nos Estados Unidos, onde me encontro hoje. Boston é linda em julho, mas o inverno de 2010 estava destruindo o bom humor de Shelby Clark, na época, aluno do MBA de Harvard. Enquanto ia de bicicleta pegar um carro que tinha alugado, ficava se perguntando por que passava por tantos carros que não estavam sendo utilizados. E ficou com isso na cabeça. Suas pesquisas iniciais indicaram que um carro ficava estacionado, em média, 23 horas por dia e que havia 1,2 carro para cada motorista nos Estados Unidos. Havia muita ociosidade dos automóveis.

Não havia um jeito de ter acesso a esses carros particulares e fazer com que seus donos ainda recebessem por isso? Será que as pessoas querem ter carros ou meios de locomoção eficientes, principalmente em Boston que tem um trânsito intenso nos horários de picos de manhã e no final da tarde?

São essas duas perguntas que orientaram a criação da RelayRides.com, um serviço online onde proprietários de veículos colocam seus carros para locações curtas e pessoas que precisam se locomover sem depender do transporte público podem ter acesso a automóveis pagando até um terço de uma tarifa de locação normal. A empresa começou em Boston, depois São Francisco e agora atua em todo o país.

Desde 2010, já recebeu cerca de US$ 44 milhões de investidores como Google e General Motors, que chancelam o potencial do negócio. Esses investidores apostam na tendência mostrada por Jeremy Rifkin, autor do livro “A Era do Acesso” (Makron Books) há mais de dez anos atrás, quando previu que o mais importante no futuro não seria a posse mas o acesso a um bem ou serviço.

Mas mesmo assim, todos os brasileiros a quem mencionei o caso da RelayRides foram unânimes no início dos seus comentários: “Isso não daria certo no Brasil…”

Mas por que não daria certo? Porque ninguém teria coragem de deixar que um desconhecido use algo seu, principalmente, um bem tão caro. Porque teriam medo do carro não voltar e se voltar, vier sem algo, como o popular estepe. Porque se ocorrer algum sinistro o seguro não vai cobrir e adicionalmente irá aumentar o valor da apólice na próxima renovação. Porque o carro pode voltar com algum riscadinho, sujo ou até com cheiro de sei lá o que… Porque o carro pode não ser devolvido no horário e local combinado. Foram algumas das argumentações dadas para explicar porque a RelayRides não teria sucesso… nos Estados Unidos.

Enquanto pensarmos pequeno, continuaremos a ser do tamanho que achamos que somos.

Publicado no Estadao.com.br em 25/07/2014.

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10 lições de empreendedorismo de Steve Jobs

Em qualquer lista dos maiores empreendedores de todos os tempos, lá estará Steven Paul Jobs. Para o mundo: Steve Jobs. E para as pessoas mais próximas, simplesmente Steve. Assim como como qualquer grande físico ou arquiteto precisa estudar os maiores físicos ou arquitetos da história, empreendedores poderiam adotar a mesma linha. O próprio Jobs fazia isso. Era fascinado por Thomas Edison, da GE, Henry Ford, da Ford, e Edwin Land, da Polaroid, por exemplo. Com Edison, aprendeu o papel da inovação para o desenvolvimento de uma empresa; com Ford, sobre como levar inovações para as massas; e, com Land, sobre como ficar atento para que a inovação não seja a causa mortis da empresa.

Mesmo os que conhecem muito pouco sobre Jobs ficam impressionados com a sua capacidade de se expressar por meio de frases de impacto. A seguir, reuni dez lições que qualquer empreendedor pode utilizar no seu dia a dia e no seu negócio.

1. “Todas as coisas que estão ao seu redor e que você chama de vida foram criadas por pessoas que não eram mais espertas que você.” Não entenda mal. No contexto em que que foi dita, essa frase quer dizer que qualquer pessoa pode criar algo, já que sempre haverá pessoas que não sabem que podem ou não querem fazer aquilo. A imensa maioria dos empreendedores não eram prêmios Nobel do mundo, dos seus países, sequer da sua turma. Mas foram lá e fizeram.

2. “Alô… É o Bill Hewlett da Hewlett-Packard?” Sim. “Estou montando um frequencímetro para um trabalho escolar e precisava de algumas peças…” Jobs tinha 12 anos quando ligou para Bill Hewlett, cofundador da HP e um dos empresários mais importantes dos Estados Unidos naquele momento. Ele não só conseguiu as peças como arrumou um estágio de férias e se tornou amigo de Bill e seu sócio Dave Packard. Peça e receberá!

3. “Quando tinha 17 anos, li uma frase que dizia algo como: ‘Se viver cada dia como se fosse o último, um dia estará certo’. Isso me impressionou muito e, nos últimos 33 anos, me olho no espelho todas as manhãs e me pergunto: se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de ter feito o que farei hoje? Se a resposta é ‘não’ por muitos dias seguidos, eu sei que preciso mudar algo.” Se existe algo que me irrita são pessoas que reclamam do seu trabalho pois não se orgulham do que fazem. O que foi dito por Jobs deveria estar impresso no espelho do nosso banheiro para ser lido todas as manhãs.

4. “Um grande marceneiro não vai utilizar madeira vagabunda para o fundo de um armário, mesmo que ninguém veja.” Um grande produto, serviço, empresa ou mesmo pessoa está nos detalhes. Não dá para ser excelente na aparência e sofrível nos detalhes. Cedo ou tarde, ficará claro que aquilo é ruim ou, pior, é medíocre. E tudo o que é medíocre é esquecível e, consequentemente, é invisível. Se for fazer, faça muito bem-feito.

5. “Os botões do Mac OS são tão bem-feitos que você vai querer lambê-los.” Se você tem um equipamento Apple, sabe o que Jobs queria dizer com essa frase. Mais do que bonito, tudo é belo e harmônico. E a beleza não está apenas na aparência, mas em como o produto é percebido. As primeiras caixas do iPod deveriam dar a mesma sensação de estar abrindo uma caixa de joias, daí um pequeno vácuo que se forma para induzir que a caixa seja aberta em câmera lenta. O excelente também deve ser belo!

6. “Criatividade é só conectar coisas. Quando se pergunta a pessoas criativas como fizeram aquilo, elas se sentem um pouco culpadas pois não fizeram aquilo, só vislumbraram algo novo a partir da combinação de experiências que já tinham vivenciado.” Essa frase resume a genialidade reconhecida em Steve Jobs.

7. “Picasso tinha um ditado que afirmava que artistas bons copiam, e grandes artistas roubam. E nós nunca sentimos vergonha de roubar grandes ideias. Tudo se resume a tentar se expor às melhores coisas que os seres humanos fizeram e, depois, tentar trazer essas coisas para o que você está fazendo.” Se a frase anterior resume, essa explica de onde vinha a genialidade de Jobs.

8. “Seu tempo é limitado, assim, não o perca tentando viver a vida de outra pessoa. Não seja ludibriado por crenças daquilo que é viver de acordo com o que outras pessoas pensam. Não permita que o barulho das opiniões alheias cale a sua voz. E o mais importante, tenha a coragem de seguir o seu coração e a sua intuição.” Uma lição para todos os que querem ser o próximo Steve Jobs. Não precisamos de um novo Steve Jobs.

9. “Continue com fome. Continue ingênuo.” Talvez seja a lição mais difícil de ser aplicada pelos empreendedores. Continue querendo aprender coisas novas, mas aberto às novidades. Achar que já sabemos tudo não é ingenuidade, é ignorância.

10. “Ser o homem mais rico do cemitério não é importante para mim. Ir para a cama todas as noites dizendo que fizemos algo extraordinário… isso é o que importa para mim.” Foi a última lição de Jobs e a que o colocou na lista dos maiores empreendedores de todos os tempos.

(Artigo publicado na Pequenas Empresas & Grandes Negócios em 03/07/2013.)

 

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Missão Impossível

Reificação. Confesso que não entendi seu significado quando entrei em contato com este termo nas aulas de epistemologia. Também não sabia o que era epistemologia, mas depois descobri sua relação com o desenvolvimento do conhecimento científico. E desde então passei a valorizar e admirar o conhecimento epistemológico de negócios, aquele oriundo de pesquisas baseadas em métodos científicos.

Mas ainda restava a tal a reificação e a explicação de que isto era o processo da coisificação das coisas. Algo se torna uma coisa (ou se reificica) quando se torna um mero objeto desprovido de qualquer vínculo. É apenas uma coisa. A escravidão já foi muito discutida como processo de reificiação. Em seguida, o trabalho e o trabalhador também passaram pela mesma discussão. Se você é um empregado e ouve que não é insubstituível, na verdade, está virando uma coisa. E se gostar de revanche, empresas também estão em processo de reificação. Várias delas, em sua maioria, viraram coisas. Postos de combustíveis e farmácias podem servir de exemplos. Se um ou outro deixar de existir, você não vai se importar. Antigamente não era assim. Nossos pais tinham o farmacêutico de confiança. Supermercados, bancos e até serviços médicos estão se reificando.

Mas muitas empresas não querem virar coisas e tampouco querem coisas em sua folha de pagamento. É neste contexto que o artigo Building your Company’s Vision de James Collins e Jerry Porras publicado na Harvard Business Review, edição de setembro/outubro de 1996, ainda é muito relevante. O artigo é o resumo de uma parte do livro Feitas para Durar, best-seller que tornou James Collins em Jim Collins e explica a necessidade de organizações terem valores e propósitos essenciais que inspirem a direção e seus colaboradores. Se isto já fazia sentido naquela época, faz muito mais agora quando boa parte das empresas já não sabe mais o que fazer para se diferenciar da concorrência cada vez mais ágil.

Collins e Porras explicam que ao definirem valores e propósitos essenciais, na verdade, as organizações estarão consolidando sua ideologia visceral, algo cada vez mais raro nas grandes corporações atuais mais preocupadas em resultados trimestrais. A receita para a formulação de uma grande ideologia que oriente a atuação da empresa precisa passar pelo teste do “Cinco por quês (isto é importante)” – orientam.

_ Minha empresa faz “A”!

_ Mas por que fazer A é importante? (1)

_ Porque ao se fazer A se obtém B.

_ Mas por que obter B é importante? (2)

_ Porque de B se consegue C.

_ Mas por que C é importante? (3)

_ Porque com C se chega a D.

_ Mas por que chegar a D é importante? (4)

_ Porque aí se alcança E!

_ E por que alcançar E é importante? (5)

_ Porque então se atingirá F.

_ Bom… então F é o propósito essencial do seu negócio?

O artigo traz outras orientações para organizações que queiram fazer a diferença e com isto, fugir da reificação. Mas só este exercício já é suficiente neste momento.

Pode ser que não consiga ir além do segundo ou terceiro “por quê” para a sua empresa, mas só este esforço, se implementado, já a distanciará das demais coisas concorrentes. E isto é uma missão mais do que possível.                                             

(Clássicos HBR – Harvard Business Review Brasil – 23/04/2012)