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Maio de 68: o que mudou 50 anos depois das manifestações que alimentam ideais por gerações

Maio de 68 foi o primeiro flash mob contemporâneo. Assim o professor Fernando Schüler, titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta, resume um dos maiores movimentos sociais da história. A manifestação que ganhou as ruas de Paris e refletiu no mundo todo completa 50 anos, repercutindo até hoje.

Mas por que um movimento tão efêmero é ate hoje tão discutido? Iniciado por universitários franceses, o movimento tinha como bandeira reivindicações que abarcavam desde a reforma da grade estudantil, até o fim da guerra do Vietnã, passando por um embate ao capitalismo, maior participação das mulheres na sociedade e liberdade de expressão sexual. Rapidamente ganhou notoriedade, sendo seguido por outros atores da sociedade, como os sindicatos dos trabalhadores, que promoveram a maior greve da história da França, artistas e intelectuais, como os filósofos Jean-Paul Sartre, Michel Foucault, Gilles Deleuze, André Gorz e a escritora e intelectual Simone de Beauvoir.

Entre esses nomes, surgiu Daniel Cohn-Bendit, jovem alemão radicado na França. Avesso ao sistema partidário tradicional, o estudante não se enquadrava nas tradicionais vertentes de esquerda, nem era conservador. Ele representava uma terceira via. Como os outros pensadores que marcaram o movimento, defendia as novas agendas que deram origem a ideia da destradicionalização da sociedade, tornando-se um ícone de Maio de 68 ao lado de Jackes Sauvageot, vice-presidente da União dos Estudantes Franceses que liderou as marchas por Paris com a participação de estudantes e de trabalhadores, e Alain Geismar, líder estudantil do grupo Estudantes Socialistas Unificados.

Muitas das estruturas que alimentaram as manifestações e mudanças culturais que atingiram seu ápice explosivo em 1968, como o protagonismo juvenil e feminino, as mudanças de classe social, trabalho e divórcio, por exemplo, já vinham sendo abaladas desde o final da 2ª Guerra Mundial. Historiadores avaliam que a data marca não apenas uma crise, mas três, que acontecem na mesma época e se retroalimentam: a estudantil, a operária e a política, mas é o seu caráter difuso que a caracteriza.

“Maio de 68 é uma reação não apenas contra a política tradicional francesa, mas com o modo de vida da mecanização da sociedade industrial. Foi uma manifestação efêmera, no sentido em que ela aconteceu, viralizou e desapareceu”, analisa Schüler. Na sua avaliação, essa onda de protestos não deixou saldos orgânicos, mas deixou um saldo simbólico no campo das mentalidades.

50 anos depois

As manifestações de 68 foram as primeiras a terem apelo midiático, marcado pelo uso de imagens que contam a história de uma geração. Hoje, 50 anos depois, com a eclosão da tecnologia e das mídias sociais, vemos uma nova onda de grandes manifestações pontuadas por imagens, vídeos e narrativas multiplataformas. Mais facilidade e agilidade para mobilizar populações, mas um discurso cada vez mais segmentado e menos unificado, característico dos novos canais de divulgação.

Schüler associa os episódios de maio de 68 com movimentos de massa contemporâneos, como as manifestações e protestos ocorridos em 2013 no Brasil, quando milhares de pessoas foram às ruas reclamar do aumento dos preços de passagens de ônibus, ampliando a projeção para outros temas da agenda política. “Ambos foram movimentos efêmeros, que passaram ao largo das estruturas partidárias tradicionais e apresentam a questão cultural associada à exigência de ética pública”, explica.

O papel da mulher

Nos anos 60, o papel da mulher na sociedade ainda era secundário, com poucos direitos, restrição de trabalho e ainda não era debatida a construção social de seu lugar na sociedade. Em 68, as mulheres levantaram bandeiras contra a submissão, o preconceito no mercado de trabalho, o papel exigido e oferecido às mulheres.

Cinquenta anos depois, apesar de as mulheres ganharem até 58% menos do que os homens em cargos equivalentes e terem dificuldade de ocupar cadeiras de liderança ou mesmo de voltarem ao mercado de trabalho após a maternidade, outras pautas de gênero avançaram. Direitos dos homossexuais e o reconhecimento social de transgêneros são vitórias impensadas naquela época. Hoje, o uso do nome social é um direito legal, assim como outras pautas LGBTS: casamento, adoção e a criminalização da homofobia.

Sindicalismo

Com a adesão dos sindicatos ao movimento, a França viveu uma greve geral que durou várias semanas, reuniu cerca de 8 milhões de trabalhadores e paralisou o país, desdobrando em acordos que conseguiram aumentar o salário mínimo em 35%.

Hoje debate-se o papel dos sindicatos e assiste-se ao encolhimento de sua representatividade. Dados do IBGE apontam que entre 2012 e 2016, cerca de 1 milhão de pessoas se desvincularam de uma entidade representativa da classe profissional no país, que também desobrigou o pagamento de taxa sindical de todos os trabalhadores contratados com carteira assinada no ano passado. O papel dos sindicatos nunca esteve tão questionado.

Difuso, efêmero, midiático, Maio de 68 completa 50 anos ainda convidando para o debate sobre as estruturas e papeis sociais no mundo todo. Quer saber mais? Veja a lista de livros e filmes que selecionamos sobre as manifestações que inspiram gerações até hoje.

CINEMA

  • Confrontação: Paris (1968) – Seymour Drescher e Eugen McCreary
  • Tudo Vai Bem (1972) – Jean-Luc Godard, Jean-Pierre Gorin
  • O Fundo do Ar É Vermelho (1977) – Chris Marker
  • Noites Longas e Manhãs Breves (1978) – William Klein
  • Loucuras de uma Primavera (1990) – Louis Malle
  • Os Sonhadores (2003) – Bernardo Bertolucci
  • 1968 (2008) – Patrick Rotman
  • No Intenso Agora (2017) – João Moreira Salles

LITERATURA

  • Esqueça 1968 – Daniel Cohn-Bendit
  • 1968, o Ano que Não Terminou – Zuenir Ventura
  • Maio de 68: Revolta ou Revolução – Benjamim Stora
  • Geração: Os Anos de Sonhos e Os Anos de Pólvora – Patrick Rotman e Hervé Hamon
  • 1968: Eles Só Queriam Mudar o Mundo – Regina Zappa e Ernesto Soto

Fake news podem ameaçar a disputa eleitoral de 2018

Diariamente, as fake news circulam pela Internet e ganham uma escala sem precedentes com as redes sociais. Isso porque muitas pessoas reproduzem informações que defendem uma posição política, ideológica, religiosa ou até mesmo por uma questão emocional, sem checar a veracidade dos fatos.

Essa questão é preocupante por conta do tamanho da rede que se forma em torno das notícias falsas. Levantamento de setembro de 2017 do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), apontou que 12 milhões de perfis online compartilham regularmente notícias falsas nas redes sociais no Brasil, incluindo os bots, mantidos por programas automáticos.

Fake news são um exercício de despreocupação e irresponsabilidade das pessoas, que se difundiu com a tecnologia. Na economia, damos o nome a esse fenômeno de tragédia dos comuns, em que indivíduos contrariam os interesses de uma comunidade, agindo de acordo com seus próprios interesses”, define Fernando Schüler, titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta.

O cenário se complica quando, em ano de eleições, os websites e as redes sociais prometem ser as principais plataformas para os debates políticos e campanhas eleitorais. A produção de notícias falsas faz parte de uma estratégia de manipulação da informação para atingir o eleitorado.

Cada usuário tem em média 200 seguidores. Isso ampliaria a capilaridade dos 12 milhões de brasileiros que divulgam notícias falsas para 2,4 bilhões de pessoas, o que representa quase um terço da população mundial.

Dado o poder de desvirtuar ideias e ludibriar o eleitorado com informações inverídicas, o tema chegou na Justiça Eleitoral e na Polícia Federal, que estudam formas de punir e desarticular redes de fake news.

Diante disso, o presidente do TSE, Luiz Fux, afirmou que está tomando diversas ações para combater a prática, como a punição aos candidatos que as utilizarem em suas campanhas, a criação de uma comissão de trabalho para o combate de notícias inverídicas e eventualmente a prisão para quem seguir manipulando as informações.

É da natureza humana?

Segundo Schüler, as fake news são quase uma espécie de consequência, um traço da natureza humana, porque o raciocínio humano não foi programado para buscar a verdade o tempo todo. “Não somos máquinas de procurar a verdade, somos máquinas de convencer os outros sobre nossas ideias e paixões”, comenta.

Por isso, na sua visão, uma forma do eleitor distinguir as “notícias falsas” é fazer um esforço para se despir de suas crenças, tendo muito rigor com as evidências e verificando se são suficientes para produzir uma conclusão.

“As pessoas não vão parar de expressar seu pensamento nas redes sociais. E tudo bem. A liberdade de expressão é importante, mas o emissor de notícias falsas precisa ser constrangido”, declara Schüler.

Antídoto online

Pesquisadores da Universidade de Cambridge, em parceria com o coletivo holandês de jornalismo Drog, desenvolveram um jogo online que pretende contribuir e esclarecer aos usuários da Internet em relação aos danos e perigos das fake news. O jogo, chamado Bad News, promete educar o usuário ao colocá-lo no papel de divulgador de mentiras.

“Se você se colocar no lugar de uma pessoa que está tentando enganá-lo, isso deve aumentar a sua capacidade de identificar e resistir a suas técnicas”, diz Sander van der Linden, um dos desenvolvedores do jogo, da Universidade de Cambridge.

“Quando você quer vencer a desinformação, bloquear nunca deveria ser uma opção. Em vez disso, você deveria ridicularizá-la”, defende Ruurd Oosterwoud, fundador do Drog.

Oito dicas para não cair em armadilhas

1. Confira se a fonte da notícia é conhecida e confiável e se suas outras publicações são duvidosas.

2. Não confunda sites de humor ou textos de opinião com notícia. A identificação de fontes originais e comprovação dos fatos são fundamentais.

3. Cheque se a página tem algum disclaimer eximindo-a do compromisso de veracidade dos fatos publicados.

4. Fique atento se o domínio do site publicador é estranho ou duvidoso e observe a URL (endereço que aparece no navegador). Sites de notícias falsas imitam veículos de imprensa, com pequenas alterações.

5. Desconfie de sites com muita propaganda, eles podem estar apenas em busca de cliques para gerar mais audiência e lucro com publicidade.

6. Desconfie de manchetes apelativas, prevendo grandes desastres e conquistas, uso de letras maiúsculas e pontos de exclamação. Conteúdos que incitam raiva ou tristeza também exigem cuidado.

7. Campanhas de empresas ou mesmo de governos usam canais oficiais de comunicação, e não o compartilhamento em grupos de redes sociais digitais ou aplicativos de conversa online. Confirme especialmente quando pedirem que você clique, compartilhe ou faça qualquer tipo de doação.

8. Atenção máxima a conteúdos que pedem: “Repasse” ou “Compartilhe”. Informações que valham ser difundidas não precisam de mensagens promovendo a sua divulgação.

 

A aplicação de novas políticas no Espírito Santo

Em 2003, quando iniciou seu primeiro mandato como governador do Espírito Santo, Paulo Hartung encontrou as contas arrebentadas, a máquina pública sucateada e uma grande teia criminosa dentro das instituições públicas. Além disso, o Estado devia aos servidores e fornecedores uma quantia próxima a quatro receitas brutas. “Me vi diante de um desafio fenomenal, mas sabia que podia contar com a ajuda de dois elementos importantes: uma economia que queria andar e uma sociedade civil com vontade de mudar”, contou o governador.

No final de seu segundo mandato em 2010, Hartung tinha conseguido reorganizar o Estado por meio de novas políticas econômicas e a aplicação de um modelo diferente de gestão. No evento Projeto Espírito Santo: a reinvenção do Estado, o governador falou sobre a trajetória de recuperação do Espírito Santo. Mediada pelos professores Carlos Melo e Fernando Schüler, a apresentação foi realizada no dia 26 de setembro na sala Amador Aguiar, no Insper.

Reinvenção capixaba

Entre as décadas de 1970 e 1980, grandes projetos industriais redesenharam a economia do Espírito Santo. A partir de empresas como Samarco e Fibria, a construção civil evoluiu, o polo de confecções cresceu e um conjunto de atividades importantes alavancou a economia do Estado. Em meados de 1990, no entanto, uma sucessão de administrações públicas problemáticas freou a fase de progresso.

Durante os oito anos de mandato, Hartung enfrentou um cenário socioeconômico difícil, com altos índices de violência, crimes políticos e desvios de dinheiro, além de grandes dívidas públicas. Para colocar o Espírito Santo no trilho certo, o governador procurou acertar as finanças do Estado e desenvolver novas políticas públicas em áreas como educação, saúde e segurança – este último ficou marcado pela reorganização do sistema prisional. No final de 2010, o Espírito Santo apresentava uma capacidade de investimento com recursos próprios de 16%, a maior dos Estados Federais brasileiros.

Segundo Hartung, porém, alguns problemas surgiram nos anos seguintes. Com o aumento de despesas e a diminuição de receita, o Espírito Santo apresentou um déficit de R$ 960 milhões em 2013. Em 2014, o valor passou para R$ 1,4 bilhão. “Era hora de reestruturar o orçamento mais uma vez. Assim, 2015 apresentou um pequeno superávit de R$ 170 milhões”, contou.

De acordo com Hartung, atualmente o Espírito Santo possui todas as contas em dia. “O Estado não deve nada a ninguém.”

Futuro do país

De olho na aplicação de políticas públicas em outras esferas, os mediadores indagaram o governador a respeito de possíveis medidas que o Brasil deveria adotar para melhorar a gestão pública. Hartung apontou que era necessário mudar as instituições políticas. “Também deveríamos usar o voto distrital. Teríamos mais controle social sobre os mandatos e menos gastos com campanhas. Infelizmente, porém, não acredito que isso será implantado tão cedo no país.”

A posição do governador com relação ao voto distrital se assemelha ao que Fernando Gabeira, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, apontou em outro evento também no Insper. Segundo Gabeira, a crise brasileira e o desgaste político e econômico com o processo de impeachment da presidente Dilma deixaram as pessoas mais sensíveis a este cenário.

Hartung também falou sobre a desatualização do setor público. “Se conseguirmos uma cláusula de barreira mínima, o fim de coligações proporcionais e enfrentar com realismo o problema de financiamento de campanhas, daremos um salto para aperfeiçoar as casas legislativas e a ocupação de cargos executivos do Brasil”, disse.

Segundo o governador do Espírito Santo, os políticos também precisam se aproximar da população e conversar didaticamente sobre reformas. “Precisamos explicar e mostrar, por exemplo, como o ajuste fiscal é um benefício de longo prazo para a sociedade”.

Vem por aí

O professor Carlos Melo prepara um e-book que contará a história da destruição e reconstrução do Estado do Espírito Santo. “No final, teremos uma parte analítica que revelará a opinião de especialistas, como Marcos Lisboa e Carolina da Costa”, acrescenta Melo, que é integrante do Centro de Liderança e Inovação (CLI) do Insper.

Ainda sem nome definido, a obra deve chegar ao mercado no segundo semestre de 2017. Junto com o professor, também dedicam-se à organização do conteúdo do livro Milton Seligman, professor do curso de Relações Governamentais no Brasil do Insper, e Malu Delgado, jornalista especializada em política.

Com base em sua trajetória, Fernando Gabeira aponta soluções para cenário político

Jornalista, ativista, ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, intelectual, escritor de vários livros, entre eles O que é isso, companheiro?, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura. O currículo de Fernando Gabeira é vasto e instigante. Talvez seja por isso que ele conseguiu lotar o auditório Steffi e Max Perlman, do Insper, mesmo com o frio da noite paulistana do dia 23 de maio de 2016.

O evento realizado pelo CLI – Centro de Liderança e Inovação do Insper tinha como proposta principal a compreensão da crise atual e possíveis soluções para o futuro. Na prática, Gabeira relembrou um pouco sua história e ainda deu sua opinião sobre o cenário político atual. A conversa foi mediada pelos professores do Insper e integrantes do CLI, Carlos Melo e Fernando Schüler.

A figura do líder

Melo abriu o evento indagando Gabeira sobre a liderança política brasileira, pois, para ele, há uma grande crise neste quesito. Em resposta, o jornalista relembrou um comício em Caruaru (PE) logo no início do movimento Diretas Já que contou com a presença de políticos como Fernando Collor de Mello, Mário Covas, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. “Estava evidente que tinham duas estrelas no palanque: Collor, que vinha em uma trajetória como o ‘Caçador de Marajás’, e Lula, que apresentava sua proposta de ética na política”, disse. “Hoje, olhando para trás, os dois foram ‘lavados a jato’. Embora reconheça a responsabilidade de cada um, me pergunto se não há muitas armadilhas no caminho e se não precisamos retirá-las para que líderes possam surgir de forma espontânea”.

Para Gabeira, o Brasil não teve grandes líderes em sua história moderna. Isso porque o próprio processo político não necessitava de tais figuras. O que o país precisava mesmo era que alguém tomasse o poder e distribuísse cargos. E, nesse caso, uma pessoa que apenas conduzisse o processo já estava apta. “Sabemos que o Brasil precisa de líderes. Mas essa ansiedade nos arrasou. Foram exatamente líderes carismáticos e muito poderosos que nos levaram para o buraco”, afirmou.

Esquerda vs. Direita

Gabeira não mede palavras ao dizer que hoje não há grandes conflitos entre esquerda e direita. Para o ex-deputado federal, a briga presenciada durante o processo de impeachment da – presidente Dilma Rousseff pode ser considerada apenas um episódio nostálgico. “Quem quiser, aproveite, pois talvez não vejamos mais esse tipo de embate”, comentou. “Hoje, na verdade, essa denominação nem é mais importante.”

O jornalista acredita que a separação não é primordial já que não distingue mais ideais. Atualmente, não dá para alegar que apenas a esquerda se preocupa com temas sociais, como uma aposentadoria digna. Uma direita progressista também será sensível ao tema. O que prevalece ainda é a parte emocional de cada ideologia. “O próprio populismo não cresceria tanto se não tivesse essa carga. Essa emoção, principalmente da esquerda, de sempre optar pelo bem, ainda existe em muitos jovens”, revelou Gabeira.

Confira o vídeo do evento na íntegra:

Panorama atual dos partidos

Um dos motivos para existir a falta de clareza quanto as propostas e as reais diferenças é a quantidade de partidos políticos que há no Brasil. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 35 ao todo. “Poucos são aqueles que possuem tendências claras. Sabemos exatamente a linha do PT e do PSDB, por exemplo, mas a maioria não tem unidade de pensamento. Também não há mais reuniões partidárias definindo qual a agenda do mês. Os partidos passaram a ser um agrupamento de ocasião, um apanhado de pessoas que não são movidas por ideias”, alegou Gabeira.

Embora não negue que existam indivíduos que provoquem discussões relevantes e dão o tom certo em determinados momentos, Gabeira acredita que os partidos, como um grupo, não se permitem a aproximação com a sociedade. “Tanto em 2013 com as manifestações quanto no movimento pelo impeachment, eu não vi nenhum esforço de aproximação”, relatou. “Em qualquer lugar do mundo que houvesse participações dessa envergadura, os partidos estariam lutando para absorvê-los. Aqui, só houve esforço do movimento, pois eles compreenderam que para realizar o impeachment precisavam do Congresso”.

Na época em que estava na Câmara dos Deputados, Gabeira teve uma ideia para reverter esse descaso: ele reuniu representantes de diferentes partidos que tinham uma identidade com o país e carregavam a vontade de atuar para melhorar o Brasil. “Foi assim que nós constituímos um grupo de 35 pessoas que fazia sua agenda e tentava modificar o Congresso. E nós modificávamos”, lembrou.

Ideias para o futuro

Hoje, mesmo não estando na linha de frente, Gabeira ainda expõe suas ideias para um Brasil melhor no futuro. Segundo ele, duas propostas que amadureceram e podem transformar o cenário político são a adoção ao voto distrital ou a um sistema parlamentarista. “A crise brasileira e o desgaste político e econômico que nós tivemos com esse sai ou não sai da Dilma está mudando o pensando das pessoas e deixando-as mais sensíveis a estes cenários. Entretanto, não sei se conseguimos conduzi-los de fato”, afirmou.

Outra ideia exposta por Gabeira no evento é a implementação de um sistema como o das primárias norte-americanas, assim, candidatos mais qualificados serão entregues à população. “Por exemplo, se o Lula levasse a Dilma para as primárias no PT, ela não chegaria nem a ser candidata. Isso porque esse é um processo de confronto e de discussão de ideias entre as pessoas do mesmo partido”. De acordo com o ex-deputado federal, o problema do Brasil é que as pessoas são indicadas de cima para baixo.

Ao falar em candidatura, quem torce para que Fernando Gabeira volte para a política brasileira terá que adiar esse desejo, pois isso não está atualmente em vista. “Eu não entro na política só por entrar. Eu preciso ter um quadro ou algumas ideias para poder avançar”, disse. Por enquanto, os únicos planos do ex-deputado são trabalhar ao ar livre e somente voltar para casa para escrever um pouco.

E agora, Brasil? O país para além dos limites do presente

Com o objetivo de constituir um debate sobre o cenário político, jurídico e econômico atual do país e trazer soluções para esse quadro, o evento E agora, Brasil? realizado pelo Centro de Liderança e Inovação reuniu especialistas em19 de maio de 2016. A discussão foi mediada pelos professores – Carlos Melo, cientista político do Insper e Fernando Schüler, professor titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta. Os participantes convidados para a conversa foram José Roberto Mendonça de Barros, economista e fundador da MB Associados; Oscar Vilhena, diretor da escola de direito da FGV.

A Constituição de 1988
A ideia do debate não se resumiu a um exercício de futurologia, mas numa reflexão sobre alternativas para que o Brasil se torne um país que ofereça serviços sociais de forma sustentável economicamente e politicamente.

Uma das alternativas apontadas no evento foi a reformulação da Constituição de 1988. Isso porque, segundo Schüler, a crise do setor público brasileiro tem em sua raiz algumas escolhas tomadas no final dos anos 1980. “Enquanto o mundo vivia uma grande revolução liberal, nós optamos por um modelo de um estado provedor”, afirmou o professor -. “O Brasil criou uma Constituição democrática, resultado da cultura política da época, mas erramos na modulação de nosso sistema de gestão pública”.

Vilhena foi além e destacou que a Constituição é apenas o resultado da desconfiança de setores no jogo democrático. “Ela se diferencia de boa parte das criadas pelo mundo, pois há interesses particulares entrincheirados”, garantiu o diretor da escola de direito da FGV. Para ele, uma possível solução é adotar o modelo dos Estados Unidos. “Eles possuem o molde ideal, que organiza federações, separa poderes e processos de reformas. Não há direitos, pois o país não tinha um consenso de quais seriam corretos”, comentou.

Vale lembrar também que a mentalidade da sociedade brasileira mudou bastante de 1988 até hoje. “Alargamos nossa concepção do que um direito significa e qual a relação que se tem com os outros e com o Estado”, disse Vilhena. “Isso muda a expectativa que a sociedade tem sobre seu Estado, os serviços públicos e o modo como a lei é aplicada àqueles que se safam impunes”.

Um dos acontecimentos destacados por Vilhena e que exemplifica essa mudança de expectativas da sociedade é a Operação Lava Jato. “Ela só ocorreu porque teve por trás um sistema jurídico que adquiriu autonomia com pessoas que foram formadas depois dos anos 2000 e que tinham percepção de como aplicar o direito de maneira igualitária”, afirmou. Outro ponto lembrado pelos participantes do evento foram as manifestações de 2013. A pressão dos protestos motivados pelo preço da passagem de ônibus forçou o governo a revogar o aumento das tarifas.

O governo de transição de Temer
Ao trazer as soluções para o presente, os participantes destacaram que o governo, até o momento, temporário de Michel Temer deve assumir o papel de transição. “Ele precisa saber que está lidando com uma emergência e, ao mesmo tempo, tem que ser proativo na construção de soluções para a retomada do crescimento sustentável. Além disso, ele tem que preparar a passagem de bastão para o próximo presidente, pois esse sim terá a legitimidade para fazer reformas maiores”, ressaltou Barros.

De acordo com o economista -, uma boa atitude de Temer seria tentar desempenhar um governo parecido com o que teve Itamar Franco após o impeachment de Fernando Collor de Mello em dezembro de 1992. Assumindo o país em um cenário conturbado, o novo presidente realizou uma gestão transparente, buscando apoio dos partidos políticos e procurando atender aos anseios prementes da sociedade brasileira na época, como o combate à inflação.

“É muito difícil esperar que o governo temporário de Temer promova reformas importantes neste cenário atual. Porém, há sinais de melhora na economia, na reversão de expectativas, e otimismo de que a inflação volte para a meta”, disse Schüler. O cenário positivo foi compartilhado pelos outros especialistas.

Perspectivas para o futuro
“Ao olhar para os próximos dois anos, não tenho dúvidas de que vamos voltar a crescer. Aliás, já no segundo semestre de 2016, vejo uma evolução positiva do PIB”, comentou Barros. A afirmação do participante do evento foi baseada em dados já coletados por ele anteriormente.

Barros ainda se mostrou bastante otimista em outros pontos. “Nossa expectativa é que o ciclo de baixa de juros comece agora em julho. Já nossa projeção de inflação é de 7%. Isso permite uma baixa para começar o jogo nesse segundo semestre de 2016, o que faz com que o sistema financeiro refinancie parte das empresas com mais facilidade”, destacou -.

Para 2017, a perspectiva é que o Brasil apresente uma projeção de inflação de 5,5% e também 2% na baixa da taxa de juros, além de um crescimento de 2% no PIB.

Os desafios do país irão muito além do que uma tímida recuperação econômica. Só a revisão estrutural de serviços do estado e a conquista de um ambiente político mais aderente aos anseios da sociedade garantirá um crescimento a médio e o longo prazo para o país.

Confira o vídeo do evento na íntegra:


Vargas Llosa 80 anos: Histórias de liberdade

Realizamos em nosso campus no dia 12 de maio de 2016 um evento que contou com palestra do escritor e Prêmio Nobel da Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa.

Falando sobre sua trajetória de vida e paixão pela literatura, Vargas Llosa contou sobre como flertou com diferentes correntes políticas até ancorar-se no liberalismo. Também fez uma análise do cenário político brasileiro e da América Latina e discorreu sobre a evolução social e da mídia nas últimas décadas.

A ocasião também contou com a participação de Fernando Schüler, professor titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta e do professor Carlos Melo, cientista político do Insper em um descontraído debate com o autor sobre política, liberdade de expressão e o papel da mídia. Ao final, o autor também falou sobre suas inspirações para tantas obras literárias.

Elaboramos um resumo especial que apresenta os principais temas e ideias da palestra, além de uma entrevista exclusiva com Vargas Llosa.

Confira a cobertura completa do evento acessando este link.

Não pode assistir o evento? Acesse o link e aproveite o conteúdo.

Sobre o autor:

Jorge Mario Pedro Vargas Llosa é jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, reconhecido como um dos mais importantes escritores da atualidade. Graduado em Direito e Letras pela Universidade Nacional Maior de São Marcos, em Lima, no Peru, é autor de diversas obras, entre romances e peças teatrais. Em 2010, Llosa foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, por “sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre resistência, revolta e derrota individual”.

Vargas Llosa no Insper (57)

 

Por que os milionários brasileiros não doam suas fortunas a universidades?

Stephen Schwarzman costumava fazer suas refeições no Commons, quando estudante em Yale, em meados dos anos 1960. Sujeito tímido, vindo de escola pública, sentia-se bem naquele edifício de estilo neoclássico, situado no coração da universidade. Formado em 1969, Schwarzman percorreu passo a passo o sonho americano. Nos anos 1980, criou o grupo Blackstone, hoje um dos maiores fundos de investimento dos Estados Unidos. Consta como o 122º sujeito mais rico do planeta, na lista da Forbes. No último dia 11 de maio, anunciou uma doação de US$ 150 milhões para a conversão do velho Commons em um moderno centro de artes.

O centro levará o nome de Schwarzman. Há quem veja nisso um simples desejo de “imortalidade através do dinheiro”, como li em uma crítica. Pouco importa. Talvez alguém tenha pensado o mesmo quando Lenand Stanford criou a universidade que levaria seu nome, na década de 1880, na Califórnia. Ou quando resolveram dar o nome de Solomon Guggenheim, logo após sua morte, ao museu projetado por Frank Lloyd Wright, no coração de Manhattan. Quem sabe teria sido melhor, para os Estados Unidos, imitar o exemplo brasileiro. Por aqui, pouca gente tenta perpetuar o próprio nome, doando para universidades e museus. Talvez por isso lê-se, por estes dias, o anúncio de fechamento da Casa Daros, primoroso espaço de artes, no Rio de Janeiro, por falta de recursos.

A tradição da filantropia americana vem de longe. É possível pensar que Andrew Carnegie seja seu maior ícone e, de certo modo, definidor conceitual. Imigrante pobre, Carnegie fez fortuna na siderurgia americana, na segunda metade do século XIX. Em 1901, aos 66 anos, vendeu suas indústrias ao banqueiro J.P. Morgan e tornou-se o maior filantropo americano. Uma de suas tantas proezas, não certamente a maior, foi construir mais de 3 mil bibliotecas, nos Estados Unidos. Em 1889, escreveu o artigo “The Gospel of Weath”, defendendo que os ricos deveriam viver com comedimento e tirar da cabeça a ideia de legar sua fortuna aos filhos. Melhor seria doar o dinheiro para alguma causa, ou várias delas, a sua escolha, ainda em vida. O Estado poderia dar um empurrãozinho, aumentando o imposto sobre a herança, mas deveria evitar a tributação das grandes fortunas. O melhor resultado, para todos, seria obtido se os próprios ricos distribuíssem sua riqueza, com cuidado e responsabilidade. Recentemente, foi o argumento usado por Bill Gates, o maior filantropo de nossa era, em oposição a Thomas Piketty e sua obsessão em tributar os mais ricos.

Gates não fala da boca para fora, nem é uma voz isolada. Em 2009, ele lançou, junto com Warren Buffett, o mais impressionante movimento de incentivo à filantropia já visto: The Giving Pledge. A campanha tem, até o momento, 128 signatários. Para participar, basta ser um bilionário e assinar uma carta prometendo doar, em vida, mais da metade de sua fortuna a projetos humanitários. Para boa parte dessas pessoas, doar 50% é pouco. Larry Elisson, criador da Oracle, comprometeu-se em doar 95% de sua fortuna, hoje avaliada em US$ 56 bilhões. Buffett foi além: vai doar 99%. Como bem observou o filósofo alemão Peter Sloterdijk, parece que, ao contrário do que acreditávamos no século XX, não são os pobres, mas os ricos que mudarão o mundo. Sloterdijt, por óbvio, não conhece bem o Brasil.

Nos Estados Unidos, o valor das doações individuais à filantropia chega a US$ 330 bilhões por ano. No Brasil, os números são imprecisos, mas estima-se que o montante não passa de US$ 6 bilhões por ano. Apenas 3% do financiamento a nossas ONGs vem de doações individuais, contra mais de 70%, no caso americano. Há, segundo a tradicional lista da revista Forbes, 54 bilionários no Brasil. Nenhum aderiu, até o momento, ao movimento da Giving Pledge. Consta que Jorge Paulo Lemann, o número 1 da lista, foi convidado. Não duvido que dia desses anuncie sua adesão. Seria um exemplo para o país.

Explicações não faltam para essa disparidade. Há quem goste de debitar o fenômeno na conta de nossa “formação cultural”. Por essa tese, estaríamos atados a nossas raízes ibéricas, sempre esperando pelos favores do Estado, indispostos a buscar formas de cooperação entre os cidadãos para construir escolas, museus e bibliotecas ou simplesmente para consertar os brinquedos e plantar flores na praça do bairro.

É possível que haja alguma verdade nisso. O rei Dom João III, lá por volta de 1530, dividiu o país em capitanias hereditárias e as dividiu entre fidalgos e amigos da corte portuguesa. Fazer o quê? Enquanto isso, os peregrinos do Mayflower desembarcaram nas costas da Nova Inglaterra, movidos pela fé e pelo amor ao trabalho, para construir um novo país. Uma bela história, sem dúvida. Muito parecida com a de meus antepassados alemães, que desembarcaram em 1824 nas margens do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Há muitas histórias, há muitos tipos de formação cultural, no Brasil, assim como nos Estados Unidos. Não é difícil escolher uma delas para justificar qualquer coisa.

De minha parte, desconfio da tese do caráter cultural. Ela é abstrata demais, difícil de mensurar e, pior, tende a levar à acomodação. Prefiro concentrar o foco na variável sobre a qual – ao menos em boa medida – temos controle. E essa variável é institucional. Minha tese é: o modelo institucional e de incentivos que adotamos simplesmente não favorece o desenvolvimento da filantropia. Ele incentiva que as pessoas esperem que o Estado resolva seus problemas. E é o que elas fazem, em geral.

Vamos a um exemplo: nossos sistemas de incentivo fiscal a doações. Nos Estados Unidos, se alguém quiser doar algum recurso para o MoMA (o Museu de Arte Moderna, em Nova York), poderá abater até 30% de seu rendimento tributável. Para algumas instituições, esse percentual sobe a 50%. No Brasil, seu abatimento é limitado a 6% do Imposto de Renda, se o contribuinte fizer a declaração completa.

O pior, no entanto, acontece do outro lado do balcão. Para receber a doação, o museu brasileiro deverá ter um projeto previamente aprovado pelo Ministério da Cultura, em Brasília. Serão meses em uma via crucis, listando minuciosamente o gasto futuro com o projeto, e depois mais alguns meses para a prestação de contas detalhada do que foi gasto com sua execução. Fico imaginando o que o MoMA faria se, para receber doações, tivesse de enviar previamente um projeto para ser analisado em Washington, linha a linha, por um grupo de funcionários públicos. Os Estados Unidos nem sequer têm um Ministério da Cultura. As doações e os incentivos são diretos, sem burocracia. Por isso, funciona.

Vamos a outro exemplo: os americanos adotam como principal estratégia de financiamento de suas instituições – sejam museus, universidades ou orquestras sinfônicas – os chamados “fundos de endowment”. A ideia é bem simples: uma poupança de longuíssimo prazo, destinada a crescer, ano a ano, da qual a instituição retira parte dos rendimentos para seu custeio. Simplesmente nenhuma grande instituição universitária ou cultural americana vive sem seu endowment. Há 75 universidades com fundos de mais de US$ 1 bilhão. O maior de todos, de Harvard, tem US$ 36 bilhões em caixa.

Pois bem, vamos imaginar que um milionário acordasse, dia desses, decidido a doar uma boa quantia para algum endowment no Brasil. Ele gosta de artes visuais e quer doar a um museu. Em primeiro lugar, ele não teria nenhum incentivo fiscal para fazer isso. O Ministério da Cultura simplesmente proíbe que um museu brasileiro apresente um projeto para receber doações para endowments. Em segundo lugar, não haveria nenhum endowment para ser apoiado. Nos Estados Unidos, ele encontraria milhares, e bastaria escolher algum, na internet. Em Pindorama, nenhum. As leis não favorecem, os incentivos inexistem, as instituições não estão organizadas para receber as doações. E a culpa segue por conta de nossa “formação cultural”.

Outra razão diz respeito ao modelo de gestão de nossas instituições. O Brasil teima, em pleno século XXI, a manter uma malha obsoleta de universidades estatais. Elas consomem perto de 30% dos recursos do Ministério da Educação, mas nenhuma se encontra entre as 200 melhores do mundo, no último levantamento da revista Times Higher Education. Enquanto isso, os Estados Unidos dispõem de 48 das 100 melhores universidades globais. Princeton, Yale, Columbia, MIT seguem, em regra, o mesmo padrão: instituições privadas, sem fins lucrativos, com largos endowments, cobrando mensalidades e oferecendo um amplo sistema de bolsas por mérito (em âmbito global), e ancoradas em uma rede de alumni e parcerias públicas e privadas. Não é diferente do que ocorre com museus e instituições culturais.

O ponto é que o Brasil pode mudar. Há exemplos de líderes empresariais que fazem sua parte. Há o caso exemplar do banqueiro Walter Moreira Salles, fundador do Instituto Unibanco, voltado à educação, e do Instituto Moreira Salles, voltado à cultura. Há a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, há o Museu Iberê Camargo, criado por Jorge Gerdau, e há a Fundação Roberto Marinho, à frente do maior projeto cultural do Brasil, nos dias de hoje, que é o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Há uma imensa generosidade e espírito público, no país, ainda bloqueados pelo anacronismo dos modelos de gestão pública que adotamos. Instituições, mais do que a história. Incentivos, mais do que uma suposta genética cultural. Essa deve ser nossa aposta.

A oposição sem dentes

O PSDB anda dividido sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Uma parte queria ver o partido na vanguarda dos protestos de rua, outra preocupa-se com os “elementos jurídicos”. O partido também se divide no tema das terceirizações. Uma parte apoia o projeto, outra recua, sob pressão das redes sociais. O PSDB parece sempre assim, dividido. Alguns dizem que isso é bom para a democracia. Ao menos, temos um partido “ponderado”. Alguns dizem que é ruim, que seria bom ter uma oposição mais efetiva. Todos, porém, parecem concordar que isso é muito bom para o governo.

O Brasil vive uma situação curiosa. O governo parece viver uma crise cada vez mais aguda, o tesoureiro do PT vai preso e a maioria da população se diz favorável à abertura de um processo de impeachment. Há, inclusive, algo impensável tempos atrás: movimentos de massa contra o petismo. O que parece faltar é uma oposição. O PSDB não parece vocacionado a cumprir esse papel. Há muita gente impaciente com isso, vociferando na internet. Mas parece não ter jeito. O PSDB não fará o que o PT fez, na época em que era oposição. Não é da sua natureza, simplesmente isso.

O PSDB é um “estado de espírito”, diz o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com bom humor. Tem muita simpatia, economistas de primeira linha, mas pouca militância. Tem um bom programa, mas baixa organicidade. Xingado de “neoliberal”, durante anos, pelo petismo, é hoje atacado como “de esquerda” pelos grupo radicais que andam pelas ruas. Partido líder da oposição, elogia o ministro da Fazenda e se preocupa com a governabilidade do país. Talvez um partido cheio de dedos demais para a selva política brasileira. O PSDB tomou forma nas cisões internas do PMDB, na Assembleia Nacional Constituinte. Pesaram o debate sobre o sistema de governo, a rejeição ao mandato de cinco anos para o presidente José Sarney, a ruptura com o quercismo, em São Paulo. O partido surgiu em 1988, oposicionista, a partir de uma base de princípios – a social-democracia, o parlamentarismo, a ideia do “Estado necessário’’. Nasceu com o apoio de intelectuais de alto calibre republicano, como Afonso Arinos, Bresser Pereira e José Arthur Giannotti. Mas nasceu como um partido parlamentar. Nada de sindicatos, movimentos sociais. Nada também de instâncias de base, prévias ou muita democracia partidária. Desde o início, nunca houve dúvidas de que o PSDB seria um partido de quem tinha mandato. Um partido de baixa intensidade, meio sem graça até, feito sob medida para uma “democracia madura”. O que nunca foi o caso, definitivamente, da democracia brasileira.

O partido nasceu sob os ventos de mudança que varreram o planeta no final dos anos 1980. A queda do Muro de Berlim, o fim do socialismo real, a redemocratização da América Latina. Mas não apenas isso. Foi o tempo de revolução tecnológica, em que as fronteiras se abriram, o comércio global explodiu e o velho Welfare State europeu subitamente envelheceu. Nesse contexto, o PSDB foi o partido que levou à frente, junto com figuras isoladas, as ideias da chamada “terceira via”: reforma do Estado, responsabilidade fiscal, abertura ao mercado e políticas inclusivas. De um modo geral, o receituário da “Concertação” chilena, de Ricardo Lagos, transformada em “neoliberalismo” no calor dos trópicos.

Desde o início, é impossível pensar o PSDB dissociado da figura de Fernando Henrique. É ele que escreve, que dá o tom ao debate, que recebe os aplausos mais demorados, já no primeiro encontro do partido. A personalidade de Fernando Henrique, o político bossa-nova, suave na fala, sempre disposto à convergência e fazendo parecer que tudo é muito fácil, mesmo quando de fato não é, definiu, de certo modo, o DNA do novo partido. A turma “em cima do muro”, no humor político. Não tanto pela indecisão, mas por ter feito da moderação uma virtude.

A distância do PSDB dos sindicatos foi a ausência que se tornou um predicado. Privou o partido de extensos aparelhos de suporte político, usados à exaustão por seu maior rival, mas abriu-lhe a via da modernização programática. Presos ao Estado, dependentes do imposto sindical, os sindicatos há muito tornaram-se âncoras do conservadorismo brasileiro. Reforma da previdência? Contra. Reforma da legislação trabalhista? Contra. Meritocracia no setor público? Nem pensar. Em parte, sindicatos são assim, em toda parte. Opõem-se à inovação social, recusam a destruição criadora schumpeteriana. No Brasil, porém, parecem viver inteiramente fora do tempo. Sua folha corrida inclui a oposição ao Plano Real e à Lei de Responsabilidade Fiscal.

Com apenas seis anos de existência, o PSDB chega ao governo, em 1994. Na sua gestão, criam-se as agências reguladoras e executa-se um amplo programa de desestatização da economia. O número de funcionários civis da União cai de 630 mil para 530 mil (voltaria a 630 mil no final do governo Lula). Consolida-se o poder civil, com a criação do Ministério da Defesa. O ensino fundamental é universalizado, sob a gestão do ministro Paulo Renato de Souza. A história dirá sobre seus grandes erros. De minha parte, aponto dois: o relativo abandono da Reforma do Estado, conduzida pelo ministro Bresser Pereira, no primeiro mandato, e a relativa demora na implantação dos programas sociais. Basta dizer que o Bolsa Escola surgiu apenas em 2001, o que ajudou a gerar o estigma – não de todo equivocado – de um partido pouco voltado à questão social.

Uma vez na oposição, o PSDB submerge. Lula captura para si a agenda da estabilidade econômica e dedica seus melhores esforços à desconstrução sistemática da obra e da imagem dos tucanos. No discurso oficial, a história do país é dividida em duas partes: antes e depois de 2003. A estratégia funciona. O PSDB se vê acuado e perde sucessivas eleições presidenciais. Pior: aceita o jogo, e mesmo recua na defesa das reformas empreendidas em seu governo. Em uma década, sua bancada na Câmara dos Deputados é reduzida à metade.

No início de 2011, após a terceira derrota seguida do partido, nas eleições presidenciais, Fernando Henrique publica um artigo sobre os rumos da oposição, na revista Interesse Nacional. Seu argumento é simples: surgiu uma nova classe média urbana, no país, nos últimos anos, e deve ser esse o alvo preferencial da oposição. É inócuo, na visão do ex-presidente, tentar dialogar com o setor sindical, atrelado ao Estado, e difícil penetrar nas áreas mais pobres do país, igualmente mantidas sob controle do governo, via programas de transferência de renda. O artigo produz certa repercussão e toca no ponto certo.

O início da década assiste ao fim do boom das commodities e do crescimento fácil, à base da expansão do gasto público e dos incentivos ao consumo e endividamento das famílias. O governo perde a mão na política econômica, e a corrupção se torna manchete diária nos jornais. O ponto de inflexão ocorre com as grandes manifestações de junho de 2013. Surto de indignação difusa dos cidadãos, nestes tempos de internet. O fato é que a classe média urbana gravitou, naturalmente, para a oposição. Sem que esta tenha feito lá grande esforço, nem entendido grande coisa.

Resultado disso é a eleição renhida de 2014. Os 48% de votos de Aécio Neves, sua vitória inconteste nos grandes centros urbanos, e o inédito início de mandato de Dilma com 78% de desaprovação. E o PSDB segue como sempre: contundente no Congresso e observando discreto as passeatas. Chamado de “partido de bananas” pelos ativistas mais jovens e radicais, encaminha uma consulta jurídica sobre a hipótese do impeachment e apresenta uma nova proposta de reforma política.

Para onde vai o PSDB? Intuo que resistirá, até onde der, à tese do afastamento da presidente. Foi assim também à época do mensalão, com Lula. Apenas fatos novos e de altíssima gravidade farão o partido mudar de rumo. Ainda assim, não imagino que se colocará na vanguarda. Quando muito, seguirá, relutante, o movimento das ruas, que por agora parece ter esfriado. Para chegar ao poder, a oposição terá de ganhar as eleições. Primeiro em 2016, depois em 2018.

Max Weber definiu a política como o “lento perfurar de tábuas duras”. Arrisco dizer que é esta a intuição que anda na cabeça de muita gente, no PSDB. Depois de perder quatro eleições, quem sabe tudo dê certo, na quinta. O partido parece não ter pressa, nem desejar tanto assim o poder. Nestes últimos anos, o partido tem sido o príncipe encantado da classe média oposicionista, Brasil afora. O risco é, qualquer dia desses, aparecer algum tipo menos comportado e lhe roubar a noiva, na beira do altar.

Publicado em: Revista Época – 22/04/2015