Home/Insper Conhecimento/Fernando Schüler

Maio de 68: o que mudou 50 anos depois das manifestações que alimentam ideais por gerações

Maio de 68 foi o primeiro flash mob contemporâneo. Assim o professor Fernando Schüler, titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta, resume um dos maiores movimentos sociais da história. A manifestação que ganhou as ruas de Paris e refletiu no mundo todo completa 50 anos, repercutindo até hoje.

Mas por que um movimento tão efêmero é ate hoje tão discutido? Iniciado por universitários franceses, o movimento tinha como bandeira reivindicações que abarcavam desde a reforma da grade estudantil, até o fim da guerra do Vietnã, passando por um embate ao capitalismo, maior participação das mulheres na sociedade e liberdade de expressão sexual. Rapidamente ganhou notoriedade, sendo seguido por outros atores da sociedade, como os sindicatos dos trabalhadores, que promoveram a maior greve da história da França, artistas e intelectuais, como os filósofos Jean-Paul Sartre, Michel Foucault, Gilles Deleuze, André Gorz e a escritora e intelectual Simone de Beauvoir.

Entre esses nomes, surgiu Daniel Cohn-Bendit, jovem alemão radicado na França. Avesso ao sistema partidário tradicional, o estudante não se enquadrava nas tradicionais vertentes de esquerda, nem era conservador. Ele representava uma terceira via. Como os outros pensadores que marcaram o movimento, defendia as novas agendas que deram origem a ideia da destradicionalização da sociedade, tornando-se um ícone de Maio de 68 ao lado de Jackes Sauvageot, vice-presidente da União dos Estudantes Franceses que liderou as marchas por Paris com a participação de estudantes e de trabalhadores, e Alain Geismar, líder estudantil do grupo Estudantes Socialistas Unificados.

Muitas das estruturas que alimentaram as manifestações e mudanças culturais que atingiram seu ápice explosivo em 1968, como o protagonismo juvenil e feminino, as mudanças de classe social, trabalho e divórcio, por exemplo, já vinham sendo abaladas desde o final da 2ª Guerra Mundial. Historiadores avaliam que a data marca não apenas uma crise, mas três, que acontecem na mesma época e se retroalimentam: a estudantil, a operária e a política, mas é o seu caráter difuso que a caracteriza.

“Maio de 68 é uma reação não apenas contra a política tradicional francesa, mas com o modo de vida da mecanização da sociedade industrial. Foi uma manifestação efêmera, no sentido em que ela aconteceu, viralizou e desapareceu”, analisa Schüler. Na sua avaliação, essa onda de protestos não deixou saldos orgânicos, mas deixou um saldo simbólico no campo das mentalidades.

50 anos depois

As manifestações de 68 foram as primeiras a terem apelo midiático, marcado pelo uso de imagens que contam a história de uma geração. Hoje, 50 anos depois, com a eclosão da tecnologia e das mídias sociais, vemos uma nova onda de grandes manifestações pontuadas por imagens, vídeos e narrativas multiplataformas. Mais facilidade e agilidade para mobilizar populações, mas um discurso cada vez mais segmentado e menos unificado, característico dos novos canais de divulgação.

Schüler associa os episódios de maio de 68 com movimentos de massa contemporâneos, como as manifestações e protestos ocorridos em 2013 no Brasil, quando milhares de pessoas foram às ruas reclamar do aumento dos preços de passagens de ônibus, ampliando a projeção para outros temas da agenda política. “Ambos foram movimentos efêmeros, que passaram ao largo das estruturas partidárias tradicionais e apresentam a questão cultural associada à exigência de ética pública”, explica.

O papel da mulher

Nos anos 60, o papel da mulher na sociedade ainda era secundário, com poucos direitos, restrição de trabalho e ainda não era debatida a construção social de seu lugar na sociedade. Em 68, as mulheres levantaram bandeiras contra a submissão, o preconceito no mercado de trabalho, o papel exigido e oferecido às mulheres.

Cinquenta anos depois, apesar de as mulheres ganharem até 58% menos do que os homens em cargos equivalentes e terem dificuldade de ocupar cadeiras de liderança ou mesmo de voltarem ao mercado de trabalho após a maternidade, outras pautas de gênero avançaram. Direitos dos homossexuais e o reconhecimento social de transgêneros são vitórias impensadas naquela época. Hoje, o uso do nome social é um direito legal, assim como outras pautas LGBTS: casamento, adoção e a criminalização da homofobia.

Sindicalismo

Com a adesão dos sindicatos ao movimento, a França viveu uma greve geral que durou várias semanas, reuniu cerca de 8 milhões de trabalhadores e paralisou o país, desdobrando em acordos que conseguiram aumentar o salário mínimo em 35%.

Hoje debate-se o papel dos sindicatos e assiste-se ao encolhimento de sua representatividade. Dados do IBGE apontam que entre 2012 e 2016, cerca de 1 milhão de pessoas se desvincularam de uma entidade representativa da classe profissional no país, que também desobrigou o pagamento de taxa sindical de todos os trabalhadores contratados com carteira assinada no ano passado. O papel dos sindicatos nunca esteve tão questionado.

Difuso, efêmero, midiático, Maio de 68 completa 50 anos ainda convidando para o debate sobre as estruturas e papeis sociais no mundo todo. Quer saber mais? Veja a lista de livros e filmes que selecionamos sobre as manifestações que inspiram gerações até hoje.

CINEMA

  • Confrontação: Paris (1968) – Seymour Drescher e Eugen McCreary
  • Tudo Vai Bem (1972) – Jean-Luc Godard, Jean-Pierre Gorin
  • O Fundo do Ar É Vermelho (1977) – Chris Marker
  • Noites Longas e Manhãs Breves (1978) – William Klein
  • Loucuras de uma Primavera (1990) – Louis Malle
  • Os Sonhadores (2003) – Bernardo Bertolucci
  • 1968 (2008) – Patrick Rotman
  • No Intenso Agora (2017) – João Moreira Salles

LITERATURA

  • Esqueça 1968 – Daniel Cohn-Bendit
  • 1968, o Ano que Não Terminou – Zuenir Ventura
  • Maio de 68: Revolta ou Revolução – Benjamim Stora
  • Geração: Os Anos de Sonhos e Os Anos de Pólvora – Patrick Rotman e Hervé Hamon
  • 1968: Eles Só Queriam Mudar o Mundo – Regina Zappa e Ernesto Soto

Fake news podem ameaçar a disputa eleitoral de 2018

Diariamente, as fake news circulam pela Internet e ganham uma escala sem precedentes com as redes sociais. Isso porque muitas pessoas reproduzem informações que defendem uma posição política, ideológica, religiosa ou até mesmo por uma questão emocional, sem checar a veracidade dos fatos.

Essa questão é preocupante por conta do tamanho da rede que se forma em torno das notícias falsas. Levantamento de setembro de 2017 do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), apontou que 12 milhões de perfis online compartilham regularmente notícias falsas nas redes sociais no Brasil, incluindo os bots, mantidos por programas automáticos.

Fake news são um exercício de despreocupação e irresponsabilidade das pessoas, que se difundiu com a tecnologia. Na economia, damos o nome a esse fenômeno de tragédia dos comuns, em que indivíduos contrariam os interesses de uma comunidade, agindo de acordo com seus próprios interesses”, define Fernando Schüler, titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta.

O cenário se complica quando, em ano de eleições, os websites e as redes sociais prometem ser as principais plataformas para os debates políticos e campanhas eleitorais. A produção de notícias falsas faz parte de uma estratégia de manipulação da informação para atingir o eleitorado.

Cada usuário tem em média 200 seguidores. Isso ampliaria a capilaridade dos 12 milhões de brasileiros que divulgam notícias falsas para 2,4 bilhões de pessoas, o que representa quase um terço da população mundial.

Dado o poder de desvirtuar ideias e ludibriar o eleitorado com informações inverídicas, o tema chegou na Justiça Eleitoral e na Polícia Federal, que estudam formas de punir e desarticular redes de fake news.

Diante disso, o presidente do TSE, Luiz Fux, afirmou que está tomando diversas ações para combater a prática, como a punição aos candidatos que as utilizarem em suas campanhas, a criação de uma comissão de trabalho para o combate de notícias inverídicas e eventualmente a prisão para quem seguir manipulando as informações.

É da natureza humana?

Segundo Schüler, as fake news são quase uma espécie de consequência, um traço da natureza humana, porque o raciocínio humano não foi programado para buscar a verdade o tempo todo. “Não somos máquinas de procurar a verdade, somos máquinas de convencer os outros sobre nossas ideias e paixões”, comenta.

Por isso, na sua visão, uma forma do eleitor distinguir as “notícias falsas” é fazer um esforço para se despir de suas crenças, tendo muito rigor com as evidências e verificando se são suficientes para produzir uma conclusão.

“As pessoas não vão parar de expressar seu pensamento nas redes sociais. E tudo bem. A liberdade de expressão é importante, mas o emissor de notícias falsas precisa ser constrangido”, declara Schüler.

Antídoto online

Pesquisadores da Universidade de Cambridge, em parceria com o coletivo holandês de jornalismo Drog, desenvolveram um jogo online que pretende contribuir e esclarecer aos usuários da Internet em relação aos danos e perigos das fake news. O jogo, chamado Bad News, promete educar o usuário ao colocá-lo no papel de divulgador de mentiras.

“Se você se colocar no lugar de uma pessoa que está tentando enganá-lo, isso deve aumentar a sua capacidade de identificar e resistir a suas técnicas”, diz Sander van der Linden, um dos desenvolvedores do jogo, da Universidade de Cambridge.

“Quando você quer vencer a desinformação, bloquear nunca deveria ser uma opção. Em vez disso, você deveria ridicularizá-la”, defende Ruurd Oosterwoud, fundador do Drog.

Oito dicas para não cair em armadilhas

1. Confira se a fonte da notícia é conhecida e confiável e se suas outras publicações são duvidosas.

2. Não confunda sites de humor ou textos de opinião com notícia. A identificação de fontes originais e comprovação dos fatos são fundamentais.

3. Cheque se a página tem algum disclaimer eximindo-a do compromisso de veracidade dos fatos publicados.

4. Fique atento se o domínio do site publicador é estranho ou duvidoso e observe a URL (endereço que aparece no navegador). Sites de notícias falsas imitam veículos de imprensa, com pequenas alterações.

5. Desconfie de sites com muita propaganda, eles podem estar apenas em busca de cliques para gerar mais audiência e lucro com publicidade.

6. Desconfie de manchetes apelativas, prevendo grandes desastres e conquistas, uso de letras maiúsculas e pontos de exclamação. Conteúdos que incitam raiva ou tristeza também exigem cuidado.

7. Campanhas de empresas ou mesmo de governos usam canais oficiais de comunicação, e não o compartilhamento em grupos de redes sociais digitais ou aplicativos de conversa online. Confirme especialmente quando pedirem que você clique, compartilhe ou faça qualquer tipo de doação.

8. Atenção máxima a conteúdos que pedem: “Repasse” ou “Compartilhe”. Informações que valham ser difundidas não precisam de mensagens promovendo a sua divulgação.

 

Por que os milionários brasileiros não doam suas fortunas a universidades?

Stephen Schwarzman costumava fazer suas refeições no Commons, quando estudante em Yale, em meados dos anos 1960. Sujeito tímido, vindo de escola pública, sentia-se bem naquele edifício de estilo neoclássico, situado no coração da universidade. Formado em 1969, Schwarzman percorreu passo a passo o sonho americano. Nos anos 1980, criou o grupo Blackstone, hoje um dos maiores fundos de investimento dos Estados Unidos. Consta como o 122º sujeito mais rico do planeta, na lista da Forbes. No último dia 11 de maio, anunciou uma doação de US$ 150 milhões para a conversão do velho Commons em um moderno centro de artes.

O centro levará o nome de Schwarzman. Há quem veja nisso um simples desejo de “imortalidade através do dinheiro”, como li em uma crítica. Pouco importa. Talvez alguém tenha pensado o mesmo quando Lenand Stanford criou a universidade que levaria seu nome, na década de 1880, na Califórnia. Ou quando resolveram dar o nome de Solomon Guggenheim, logo após sua morte, ao museu projetado por Frank Lloyd Wright, no coração de Manhattan. Quem sabe teria sido melhor, para os Estados Unidos, imitar o exemplo brasileiro. Por aqui, pouca gente tenta perpetuar o próprio nome, doando para universidades e museus. Talvez por isso lê-se, por estes dias, o anúncio de fechamento da Casa Daros, primoroso espaço de artes, no Rio de Janeiro, por falta de recursos.

A tradição da filantropia americana vem de longe. É possível pensar que Andrew Carnegie seja seu maior ícone e, de certo modo, definidor conceitual. Imigrante pobre, Carnegie fez fortuna na siderurgia americana, na segunda metade do século XIX. Em 1901, aos 66 anos, vendeu suas indústrias ao banqueiro J.P. Morgan e tornou-se o maior filantropo americano. Uma de suas tantas proezas, não certamente a maior, foi construir mais de 3 mil bibliotecas, nos Estados Unidos. Em 1889, escreveu o artigo “The Gospel of Weath”, defendendo que os ricos deveriam viver com comedimento e tirar da cabeça a ideia de legar sua fortuna aos filhos. Melhor seria doar o dinheiro para alguma causa, ou várias delas, a sua escolha, ainda em vida. O Estado poderia dar um empurrãozinho, aumentando o imposto sobre a herança, mas deveria evitar a tributação das grandes fortunas. O melhor resultado, para todos, seria obtido se os próprios ricos distribuíssem sua riqueza, com cuidado e responsabilidade. Recentemente, foi o argumento usado por Bill Gates, o maior filantropo de nossa era, em oposição a Thomas Piketty e sua obsessão em tributar os mais ricos.

Gates não fala da boca para fora, nem é uma voz isolada. Em 2009, ele lançou, junto com Warren Buffett, o mais impressionante movimento de incentivo à filantropia já visto: The Giving Pledge. A campanha tem, até o momento, 128 signatários. Para participar, basta ser um bilionário e assinar uma carta prometendo doar, em vida, mais da metade de sua fortuna a projetos humanitários. Para boa parte dessas pessoas, doar 50% é pouco. Larry Elisson, criador da Oracle, comprometeu-se em doar 95% de sua fortuna, hoje avaliada em US$ 56 bilhões. Buffett foi além: vai doar 99%. Como bem observou o filósofo alemão Peter Sloterdijk, parece que, ao contrário do que acreditávamos no século XX, não são os pobres, mas os ricos que mudarão o mundo. Sloterdijt, por óbvio, não conhece bem o Brasil.

Nos Estados Unidos, o valor das doações individuais à filantropia chega a US$ 330 bilhões por ano. No Brasil, os números são imprecisos, mas estima-se que o montante não passa de US$ 6 bilhões por ano. Apenas 3% do financiamento a nossas ONGs vem de doações individuais, contra mais de 70%, no caso americano. Há, segundo a tradicional lista da revista Forbes, 54 bilionários no Brasil. Nenhum aderiu, até o momento, ao movimento da Giving Pledge. Consta que Jorge Paulo Lemann, o número 1 da lista, foi convidado. Não duvido que dia desses anuncie sua adesão. Seria um exemplo para o país.

Explicações não faltam para essa disparidade. Há quem goste de debitar o fenômeno na conta de nossa “formação cultural”. Por essa tese, estaríamos atados a nossas raízes ibéricas, sempre esperando pelos favores do Estado, indispostos a buscar formas de cooperação entre os cidadãos para construir escolas, museus e bibliotecas ou simplesmente para consertar os brinquedos e plantar flores na praça do bairro.

É possível que haja alguma verdade nisso. O rei Dom João III, lá por volta de 1530, dividiu o país em capitanias hereditárias e as dividiu entre fidalgos e amigos da corte portuguesa. Fazer o quê? Enquanto isso, os peregrinos do Mayflower desembarcaram nas costas da Nova Inglaterra, movidos pela fé e pelo amor ao trabalho, para construir um novo país. Uma bela história, sem dúvida. Muito parecida com a de meus antepassados alemães, que desembarcaram em 1824 nas margens do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Há muitas histórias, há muitos tipos de formação cultural, no Brasil, assim como nos Estados Unidos. Não é difícil escolher uma delas para justificar qualquer coisa.

De minha parte, desconfio da tese do caráter cultural. Ela é abstrata demais, difícil de mensurar e, pior, tende a levar à acomodação. Prefiro concentrar o foco na variável sobre a qual – ao menos em boa medida – temos controle. E essa variável é institucional. Minha tese é: o modelo institucional e de incentivos que adotamos simplesmente não favorece o desenvolvimento da filantropia. Ele incentiva que as pessoas esperem que o Estado resolva seus problemas. E é o que elas fazem, em geral.

Vamos a um exemplo: nossos sistemas de incentivo fiscal a doações. Nos Estados Unidos, se alguém quiser doar algum recurso para o MoMA (o Museu de Arte Moderna, em Nova York), poderá abater até 30% de seu rendimento tributável. Para algumas instituições, esse percentual sobe a 50%. No Brasil, seu abatimento é limitado a 6% do Imposto de Renda, se o contribuinte fizer a declaração completa.

O pior, no entanto, acontece do outro lado do balcão. Para receber a doação, o museu brasileiro deverá ter um projeto previamente aprovado pelo Ministério da Cultura, em Brasília. Serão meses em uma via crucis, listando minuciosamente o gasto futuro com o projeto, e depois mais alguns meses para a prestação de contas detalhada do que foi gasto com sua execução. Fico imaginando o que o MoMA faria se, para receber doações, tivesse de enviar previamente um projeto para ser analisado em Washington, linha a linha, por um grupo de funcionários públicos. Os Estados Unidos nem sequer têm um Ministério da Cultura. As doações e os incentivos são diretos, sem burocracia. Por isso, funciona.

Vamos a outro exemplo: os americanos adotam como principal estratégia de financiamento de suas instituições – sejam museus, universidades ou orquestras sinfônicas – os chamados “fundos de endowment”. A ideia é bem simples: uma poupança de longuíssimo prazo, destinada a crescer, ano a ano, da qual a instituição retira parte dos rendimentos para seu custeio. Simplesmente nenhuma grande instituição universitária ou cultural americana vive sem seu endowment. Há 75 universidades com fundos de mais de US$ 1 bilhão. O maior de todos, de Harvard, tem US$ 36 bilhões em caixa.

Pois bem, vamos imaginar que um milionário acordasse, dia desses, decidido a doar uma boa quantia para algum endowment no Brasil. Ele gosta de artes visuais e quer doar a um museu. Em primeiro lugar, ele não teria nenhum incentivo fiscal para fazer isso. O Ministério da Cultura simplesmente proíbe que um museu brasileiro apresente um projeto para receber doações para endowments. Em segundo lugar, não haveria nenhum endowment para ser apoiado. Nos Estados Unidos, ele encontraria milhares, e bastaria escolher algum, na internet. Em Pindorama, nenhum. As leis não favorecem, os incentivos inexistem, as instituições não estão organizadas para receber as doações. E a culpa segue por conta de nossa “formação cultural”.

Outra razão diz respeito ao modelo de gestão de nossas instituições. O Brasil teima, em pleno século XXI, a manter uma malha obsoleta de universidades estatais. Elas consomem perto de 30% dos recursos do Ministério da Educação, mas nenhuma se encontra entre as 200 melhores do mundo, no último levantamento da revista Times Higher Education. Enquanto isso, os Estados Unidos dispõem de 48 das 100 melhores universidades globais. Princeton, Yale, Columbia, MIT seguem, em regra, o mesmo padrão: instituições privadas, sem fins lucrativos, com largos endowments, cobrando mensalidades e oferecendo um amplo sistema de bolsas por mérito (em âmbito global), e ancoradas em uma rede de alumni e parcerias públicas e privadas. Não é diferente do que ocorre com museus e instituições culturais.

O ponto é que o Brasil pode mudar. Há exemplos de líderes empresariais que fazem sua parte. Há o caso exemplar do banqueiro Walter Moreira Salles, fundador do Instituto Unibanco, voltado à educação, e do Instituto Moreira Salles, voltado à cultura. Há a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, há o Museu Iberê Camargo, criado por Jorge Gerdau, e há a Fundação Roberto Marinho, à frente do maior projeto cultural do Brasil, nos dias de hoje, que é o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Há uma imensa generosidade e espírito público, no país, ainda bloqueados pelo anacronismo dos modelos de gestão pública que adotamos. Instituições, mais do que a história. Incentivos, mais do que uma suposta genética cultural. Essa deve ser nossa aposta.

A oposição sem dentes

O PSDB anda dividido sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Uma parte queria ver o partido na vanguarda dos protestos de rua, outra preocupa-se com os “elementos jurídicos”. O partido também se divide no tema das terceirizações. Uma parte apoia o projeto, outra recua, sob pressão das redes sociais. O PSDB parece sempre assim, dividido. Alguns dizem que isso é bom para a democracia. Ao menos, temos um partido “ponderado”. Alguns dizem que é ruim, que seria bom ter uma oposição mais efetiva. Todos, porém, parecem concordar que isso é muito bom para o governo.

O Brasil vive uma situação curiosa. O governo parece viver uma crise cada vez mais aguda, o tesoureiro do PT vai preso e a maioria da população se diz favorável à abertura de um processo de impeachment. Há, inclusive, algo impensável tempos atrás: movimentos de massa contra o petismo. O que parece faltar é uma oposição. O PSDB não parece vocacionado a cumprir esse papel. Há muita gente impaciente com isso, vociferando na internet. Mas parece não ter jeito. O PSDB não fará o que o PT fez, na época em que era oposição. Não é da sua natureza, simplesmente isso.

O PSDB é um “estado de espírito”, diz o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com bom humor. Tem muita simpatia, economistas de primeira linha, mas pouca militância. Tem um bom programa, mas baixa organicidade. Xingado de “neoliberal”, durante anos, pelo petismo, é hoje atacado como “de esquerda” pelos grupo radicais que andam pelas ruas. Partido líder da oposição, elogia o ministro da Fazenda e se preocupa com a governabilidade do país. Talvez um partido cheio de dedos demais para a selva política brasileira. O PSDB tomou forma nas cisões internas do PMDB, na Assembleia Nacional Constituinte. Pesaram o debate sobre o sistema de governo, a rejeição ao mandato de cinco anos para o presidente José Sarney, a ruptura com o quercismo, em São Paulo. O partido surgiu em 1988, oposicionista, a partir de uma base de princípios – a social-democracia, o parlamentarismo, a ideia do “Estado necessário’’. Nasceu com o apoio de intelectuais de alto calibre republicano, como Afonso Arinos, Bresser Pereira e José Arthur Giannotti. Mas nasceu como um partido parlamentar. Nada de sindicatos, movimentos sociais. Nada também de instâncias de base, prévias ou muita democracia partidária. Desde o início, nunca houve dúvidas de que o PSDB seria um partido de quem tinha mandato. Um partido de baixa intensidade, meio sem graça até, feito sob medida para uma “democracia madura”. O que nunca foi o caso, definitivamente, da democracia brasileira.

O partido nasceu sob os ventos de mudança que varreram o planeta no final dos anos 1980. A queda do Muro de Berlim, o fim do socialismo real, a redemocratização da América Latina. Mas não apenas isso. Foi o tempo de revolução tecnológica, em que as fronteiras se abriram, o comércio global explodiu e o velho Welfare State europeu subitamente envelheceu. Nesse contexto, o PSDB foi o partido que levou à frente, junto com figuras isoladas, as ideias da chamada “terceira via”: reforma do Estado, responsabilidade fiscal, abertura ao mercado e políticas inclusivas. De um modo geral, o receituário da “Concertação” chilena, de Ricardo Lagos, transformada em “neoliberalismo” no calor dos trópicos.

Desde o início, é impossível pensar o PSDB dissociado da figura de Fernando Henrique. É ele que escreve, que dá o tom ao debate, que recebe os aplausos mais demorados, já no primeiro encontro do partido. A personalidade de Fernando Henrique, o político bossa-nova, suave na fala, sempre disposto à convergência e fazendo parecer que tudo é muito fácil, mesmo quando de fato não é, definiu, de certo modo, o DNA do novo partido. A turma “em cima do muro”, no humor político. Não tanto pela indecisão, mas por ter feito da moderação uma virtude.

A distância do PSDB dos sindicatos foi a ausência que se tornou um predicado. Privou o partido de extensos aparelhos de suporte político, usados à exaustão por seu maior rival, mas abriu-lhe a via da modernização programática. Presos ao Estado, dependentes do imposto sindical, os sindicatos há muito tornaram-se âncoras do conservadorismo brasileiro. Reforma da previdência? Contra. Reforma da legislação trabalhista? Contra. Meritocracia no setor público? Nem pensar. Em parte, sindicatos são assim, em toda parte. Opõem-se à inovação social, recusam a destruição criadora schumpeteriana. No Brasil, porém, parecem viver inteiramente fora do tempo. Sua folha corrida inclui a oposição ao Plano Real e à Lei de Responsabilidade Fiscal.

Com apenas seis anos de existência, o PSDB chega ao governo, em 1994. Na sua gestão, criam-se as agências reguladoras e executa-se um amplo programa de desestatização da economia. O número de funcionários civis da União cai de 630 mil para 530 mil (voltaria a 630 mil no final do governo Lula). Consolida-se o poder civil, com a criação do Ministério da Defesa. O ensino fundamental é universalizado, sob a gestão do ministro Paulo Renato de Souza. A história dirá sobre seus grandes erros. De minha parte, aponto dois: o relativo abandono da Reforma do Estado, conduzida pelo ministro Bresser Pereira, no primeiro mandato, e a relativa demora na implantação dos programas sociais. Basta dizer que o Bolsa Escola surgiu apenas em 2001, o que ajudou a gerar o estigma – não de todo equivocado – de um partido pouco voltado à questão social.

Uma vez na oposição, o PSDB submerge. Lula captura para si a agenda da estabilidade econômica e dedica seus melhores esforços à desconstrução sistemática da obra e da imagem dos tucanos. No discurso oficial, a história do país é dividida em duas partes: antes e depois de 2003. A estratégia funciona. O PSDB se vê acuado e perde sucessivas eleições presidenciais. Pior: aceita o jogo, e mesmo recua na defesa das reformas empreendidas em seu governo. Em uma década, sua bancada na Câmara dos Deputados é reduzida à metade.

No início de 2011, após a terceira derrota seguida do partido, nas eleições presidenciais, Fernando Henrique publica um artigo sobre os rumos da oposição, na revista Interesse Nacional. Seu argumento é simples: surgiu uma nova classe média urbana, no país, nos últimos anos, e deve ser esse o alvo preferencial da oposição. É inócuo, na visão do ex-presidente, tentar dialogar com o setor sindical, atrelado ao Estado, e difícil penetrar nas áreas mais pobres do país, igualmente mantidas sob controle do governo, via programas de transferência de renda. O artigo produz certa repercussão e toca no ponto certo.

O início da década assiste ao fim do boom das commodities e do crescimento fácil, à base da expansão do gasto público e dos incentivos ao consumo e endividamento das famílias. O governo perde a mão na política econômica, e a corrupção se torna manchete diária nos jornais. O ponto de inflexão ocorre com as grandes manifestações de junho de 2013. Surto de indignação difusa dos cidadãos, nestes tempos de internet. O fato é que a classe média urbana gravitou, naturalmente, para a oposição. Sem que esta tenha feito lá grande esforço, nem entendido grande coisa.

Resultado disso é a eleição renhida de 2014. Os 48% de votos de Aécio Neves, sua vitória inconteste nos grandes centros urbanos, e o inédito início de mandato de Dilma com 78% de desaprovação. E o PSDB segue como sempre: contundente no Congresso e observando discreto as passeatas. Chamado de “partido de bananas” pelos ativistas mais jovens e radicais, encaminha uma consulta jurídica sobre a hipótese do impeachment e apresenta uma nova proposta de reforma política.

Para onde vai o PSDB? Intuo que resistirá, até onde der, à tese do afastamento da presidente. Foi assim também à época do mensalão, com Lula. Apenas fatos novos e de altíssima gravidade farão o partido mudar de rumo. Ainda assim, não imagino que se colocará na vanguarda. Quando muito, seguirá, relutante, o movimento das ruas, que por agora parece ter esfriado. Para chegar ao poder, a oposição terá de ganhar as eleições. Primeiro em 2016, depois em 2018.

Max Weber definiu a política como o “lento perfurar de tábuas duras”. Arrisco dizer que é esta a intuição que anda na cabeça de muita gente, no PSDB. Depois de perder quatro eleições, quem sabe tudo dê certo, na quinta. O partido parece não ter pressa, nem desejar tanto assim o poder. Nestes últimos anos, o partido tem sido o príncipe encantado da classe média oposicionista, Brasil afora. O risco é, qualquer dia desses, aparecer algum tipo menos comportado e lhe roubar a noiva, na beira do altar.

Publicado em: Revista Época – 22/04/2015