Regulamentação do lobby é solução para poder público e setor privado

A prática do lobby pode ser saudável para o Poder Público e para o setor privado se realizada de forma transparente e regularizada. Essa é a ideia central do livro Lobby Desvendado: Democracia, Políticas Públicas e Corrupção no Brasil Contemporâneo, organizado por Milton Seligman, coordenador do Programa de Cursos em Gestão e Políticas Públicas do Insper e ex-ministro da Justiça, e pelo jornalista Fernando Mello.

A obra tem prefácio do presidente do Insper, Marcos Lisboa, e conta com autores de relevância nacional como Aldo Musacchio, Anna Prusa, Nelson Jobim, Joel Velasco, Mateus Affonso Bandeira, Mattew M. Taylor, Paulo Sotero, Nelson Jobim, Luciano Inácio de Souza e Alana Rizzo, além dos professores do Insper, João Manoel Pinho de Mello e Sérgio Lazzarini.

O lobby, ao contrário do que muitos pensam, não é uma atividade ilegal e não é sinônimo de corrupção, tendo inclusive regras claras de atuação em alguns países, como os Estados Unidos. Tem como objetivo debater propostas que sejam de interesse de um grupo econômico privado com os poderes públicos, exercendo influência para que seus interesses sejam atendidos, podendo ser por meio de regulamentação ou mudanças de leis e não por meio de pagamento de propina, como acontece nos casos de corrupção.

“É importante lembrar que 88% dos empregos brasileiros estão no setor privado. Então é essencial que as empresas negociem seus interesses frente ao setor público”, analisa Seligman.

Projeto de lei

No fim de fevereiro deste ano, o governo finalmente reconheceu o lobby como profissão e, no dia 20 de março, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), colocou em pauta o Projeto de Lei 1.202/07, que visa regulamentar a atividade no Brasil.

Atualmente, há no País pelo menos 4 mil lobistas, segundo estimativa da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Há registros sobre a atividade no Brasil desde 1940, mas só na década de 1990 a regulamentação começou a ser discutida.

Para Seligman, uma boa relação entre poder público e setor privado é importante para o desenvolvimento do Brasil. O professor defende que a regulamentação traz mais transparência para esse tipo de prática, desassociando-a da corrupção.

O primeiro passo para regularizar o lobby é a transparência. É essencial que os lobistas reportem suas atividades às autoridades, como acontece nos Estados Unidos. “Quem você é, para quem você trabalha e quanto recebe. Essa é a chave para trazer mais transparência para a prática”, defende Paulo Sotero, um dos autores do livro e diretor do Brazil Center no Woodrow Wilson Center, instituição de estudos de geopolítica.

Outro autor participante do livro, o ex-ministro do STF Nelson Jobim defende que cabe ao parlamento definir primeiro o que será proibido na prática do lobby. “Tudo o que for da atividade pública pode ser objeto de lobby”, pontua.

Em debate

É um consenso entre os participantes do livro que a regulamentação do lobby é um grande passo para o fim da corrupção, pois a transparência encareceria as transações clandestinas. Vale reforçar que é uma atividade legítima desde que não envolva condutas criminosas previstas no Código Penal, como pagamento de agentes públicos, oferta de vantagens ou uso de sua influência sobre esses agentes.

O lançamento do livro Lobby Desvendado: Democracia, Políticas Públicas e Corrupção no Brasil Contemporâneo aconteceu no Insper, no último dia 20, com um debate que reuniu alguns dos autores da obra, convidados e alunos da escola, sob mediação dos professores do Insper Milton Seligman, Carlos Melo e Sérgio Lazarini.

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Conjuntura econômica e política do Brasil traz ambiente pessimista para eleições 2018

O Brasil aproxima-se das eleições presidenciais em uma conjuntura de baixo crescimento potencial. Espera-se que o país cresça, em média, 1,7% ao ano na próxima década, uma perspectiva abaixo da estimada nos demais países da América Latina.

“Se não focarmos nos drivers de gastos, dificilmente conseguiremos controlar as despesas do país”, defende Daniel Leichsenring, economista-chefe da Verde Asset Management. “Comparando os resultados primários do governo federal em 2014 e 2017, os gastos com Previdência e da Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS cresceram 15% e 14% respectivamente. Por outro lado, houve uma queda orçamentária de 52% em investimentos, 17% em abono e seguro desemprego e 13% em saúde e educação”, afirma.

“A crise é séria tanto do ponto de vista político como econômico, mas talvez não seja percebida na economia como é percebida na política”, afirma Carlos Melo, professor e integrante do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper.

“A questão é tão crítica que os 11 ministros do Supremo estão mais em pauta do que os 11 jogadores que formam a seleção brasileira de futebol. Em um país como o Brasil, isso é muito sério”, compara.

O professor destaca que, ao longo dos últimos anos, o País tem enfrentado algumas grandes crises. Uma delas, causada pelo cenário fiscal, afetando juros e câmbio e que culmina na falta de infraestrutura, portos, aeroportos, nada que possa comprovar um aumento de produtividade e crescimento da União.

O presidencialismo de coalizão adotado no país, ou seja, de distribuição de postos administrativos em busca de apoio político e a formação de uma maioria parlamentar, criando uma base de sustentação no poder Legislativo, é um dos pontos de atenção, na avaliação de Carlos Melo, que também destaca o uso de empresas que têm relação com o Estado para o financiamento de campanhas, como outra conduta que potencializa uma crise política grave.

“Para fragilizar ainda mais o cenário, o Brasil está carente de liderança política, realidade que infelizmente não acontece somente no Brasil. O País passa por um enorme vazio nesse quesito, pois a qualidade política do Brasil é deplorável”, acrescenta ainda o professor.

Eleições déjà vu?

Para Melo, as eleições de 2018 serão semelhantes às de 1989 se comparar o cenário de crise, mas com agravantes: atual crise econômica é pior do que a de 1989. “Também vivemos muita fragmentação de candidatos. De um lado, Jair Bolsonaro, como aglutinador natural da direita; Ciro Gomes e Geraldo Alckmin lutando no campo do centro; e a esquerda ainda sem um nome definido, mas com a certeza de que Lula não tem mais tanta força de transferência de votos depois do escândalo da Lava Jato”, acredita.

Na avaliação de Carlos Melo, quem tiver uma base de votos fiel, fundamentalista, e for mais questionador em relação aos planos do governo atual tende a ser mais forte. Os candidatos com 15% ou 20% de votos obtidos no 1º turno podem ser considerados fortes porque poderão crescer muito no 2º turno com os votos brancos, nulos e abstenções do 1º turno.

O professor destaca ainda a falta de melhora nos quesitos de bem-estar, com a taxa de desemprego muito elevada, precarização das relações de trabalho e crise social que se traduz em segurança pública.

“Quando pensamos em crise de segurança pública, logo nos vem à mente o estado do Rio de Janeiro. Mas é triste constatar que existem outros estados em situação de segurança pior que a do Rio de Janeiro”, esclarece Melo, referindo-se a Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas, Pará, Amapá, Pernambuco, Bahia, Goiás e Ceará.

Candidato outsider

Os candidatos outsiders estarão em alta nessas eleições como já se pôde comprovar nos Estados Unidos e na França. “No Brasil, não é diferente: a população está cansada dos velhos políticos e irá buscar candidatos fora do establishment”, avalia Carlos Melo.

Para o professor, o Brasil precisa de candidatos que tenham não só boas equipes técnicas preparando seus planos de governo, mas que consigam comunicá-los bem. Diante desse cenário, uma certeza é de que o próximo presidente precisará comunicar que os próximos quatro anos serão muito difíceis.

Conjuntura econômica e política em ano de eleições” foi o primeiro debate do calendário realizado pelo CPP do Insper, confira a agenda e fique por dentro dos próximos eventos.

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Agricultura brasileira é exemplo mundial em produtividade e inovação

A agricultura é exemplo de inovação no país, além de ser um dos maiores players quando se fala de produtividade. Terceiro maior exportador do mundo, o setor agrícola nacional sempre aposta em novas tecnologias – 25% dos drones em operação no Brasil são usados pela área, de acordo com dados da MundoGeo, promotora da principal feira de drones do país, a DroneShow. O problema é que tal desempenho não é reconhecido internamente e é desconhecido no exterior.

Para discutir o tema, o Insper organizou o evento As lições da agricultura para a produtividade da economia brasileira, no último 17 de agosto. Aberto por um painel com o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, o encontro lançou a versão em português do livro Economia e Organização da Agricultura Brasileira, do professor Fábio Chaddad. A edição em inglês foi lançada também no Insper, em 2016. Veja aqui como foi.

Publicado pela editora Elservier, a obra de Fábio Chaddad traz uma boa reflexão sobre o que foi abordado no evento. Além de contar a história da agricultura brasileira, desenvolveu formas organizacionais inovadoras para obter ganhos de produtividade e competitividade na região tropical do planeta, que deveriam servir de exemplo para os formuladores de políticas globais.

O evento de lançamento ainda contou com um debate sobre a obra com Elizabeth Farina, diretora-presidente da UNICA, Marcos Jank, líder do grupo Asia-Brazil Agro Alliance, e Rodrigo Santos, presidente da Monsanto do Brasil. A conversa foi moderada pelo professor Carlos Melo.

Produtividade

Adam Smith já apontava em A Riqueza das Nações (1776) que a produtividade tinha um papel importante. A passagem mais famosa do livro é a da fábrica de alfinetes, quando ele percebe que é possível produzir bem mais com os mesmos recursos. Esse princípio, entretanto, não mereceu a atenção que merece nos últimos anos.

Em 2016, a produtividade brasileira registrou crescimento de apenas 24% desde a década de 1980, um aumento de 0,6% ao ano. No período entre 1950 e 1980, o ritmo de crescimento havia sido sete vezes maior, de 4,2% ao ano. Muito desse desempenho se deveu à migração das pessoas do campo para cidade e às reformas do governo Castello Branco.

“Castello Branco protagonizou o maior período de reformas na história do Brasil”, afirmou Nóbrega em sua exposição no evento. “Em apenas três anos, criou o Banco Central, um sistema tributário moderno, fez uma reforma tarifária, criou as famosas cadernetas de poupança, aprovou a lei do mercado de capitais, enfim, apresentou um conjunto bem expressivo”, completou.

Com a crise dos anos 1980 e reformas estagnadas, o Brasil transitou para uma economia de baixa produtividade e, assim, de baixo potencial de crescimento. A razão para a queda tem algumas causas: sistema tributário caótico, legislação trabalhista obsoleta, baixo incentivo à inovação. “Hoje, o ICMS é algo que não pode ser salvo. Ele muda 70 vezes por semana e é a principal causa de queda de produtividade”, afirmou Nóbrega.

Um dos setores que estão salvando a produtividade brasileira é o agronegócio. Só no setor, a produtividade representa 92% do crescimento.

Papel da agricultura

Os ganhos nos últimos anos marcaram o crescimento do agronegócio no Brasil, colocando o setor na posição de protagonista da economia do país. Enquanto a produção de outros segmentos aumentou no máximo 1% ao ano, a produtividade agrícola apresentou crescimento anual de cerca de 3% desde 1975.

Para Marcos Jank, alguns fatores levaram o Brasil aos ganhos de produtividade na agricultura, como a queda no preço dos alimentos de 80% desde os anos 1980. “Fabio mostra que recursos naturais, tecnologia e subsídios foram condições relevantes, mas não suficientes, para o sucesso observado no agronegócio. Na verdade, esse sucesso nasce de milhares de empreendedores anônimos que desbravaram o país, se organizando por meio de sistemas agroindustriais inovadores que geraram aumentos de produtividade sem paralelo”, acrescentou.

Segundo Elizabeth Farina, para o Brasil se projetar como player internacional são necessárias mudanças institucionais. Opinião compartilhada por Rodrigo Santos. “Vivemos em um país fechado que não tem acordo de comércio. A agricultura brasileira ganharia muita competitividade com o mercado aberto, seja com a União Europeia, NAFTA ou outro bloco econômico. Precisamos mudar as regras do jogo”, afirmou o presidente da Monsanto.

O cenário futuro, porém, é bastante positivo. Para Nóbrega, o Brasil é o país que apresenta mais condições de continuar a crescer entre os maiores produtores mundiais (EUA, China, União Europeia e Índia). E mais: os brasileiros são os únicos no mundo que conseguem colher até três safras ao ano. No Centro-Oeste, é possível trabalhar com soja, milho e pecuária (integração lavoura-pecuária).

Mais sobre o livro

Leia artigo de Marcos Jank sobre o livro: Fabio Chaddad explicou como ninguém o agronegócio brasileiro.

O livro também inspirou Maílson da Nóbrega a escrever um artigo, publicado na Veja no início deste ano: Uma revolução no campo

Assista a íntegra do evento, transmitido online:

Ler a política para entender os caminhos do mercado

A vida política brasileira já serviu de mote para a campanha da série House of Cards, da Netflix, na qual um dos personagens reclama da dificuldade de a ficção competir em desvantagem com a realidade de Brasília. O cenário, de fato, é de instabilidade. O Congresso aprovou o impeachment da presidente Dilma Roussef há um ano, o vice-presidente empossado Michel Temer está no meio de um escândalo disparado pela delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista, e não há semana desde então sem que uma novidade negativa apareça na imprensa, em um país dividido nas ruas. Como empresários e CEOs podem conduzir suas empresas em um mar tão revolto?

“A presença do Estado é tão grande no país que quando ele fica parado acaba travando toda a economia”, afirma o engenheiro e professor do Insper Milton Seligman, que ocupou vários cargos públicos ao longo do governo Fernando Henrique Cardoso.

“Muitos setores do mercado acreditam que a lógica econômica dá o tom das decisões no país”, acrescenta o cientista político Carlos Melo. “Mas em geral os grupos reagem não de acordo com a racionalidade, mas pela força política que possuem.” Melo explica que há questões estruturais da política brasileira que precisam ser resolvidas para que se tenha um ambiente político favorável ao desenvolvimento. “O problema não é econômico”, pontua o professor do Insper.

Administração de riscos

O professor Sandro Cabral lembra, ainda, que “é preciso trabalhar na direção da redução de riscos, estabelecer a noção de protocolos”. Pesquisador da eficiência em serviços públicos, ele ressalta que é importante analisar quando o estado é um gerador ou atenuador de riscos. E usa como exemplo as atuações dos órgãos de controle. “Hoje, alguns órgãos de controle, por exemplo, atuam de forma independente e sem coordenação, muitas vezes avançando sobre atribuições uns dos outros”. Para Cabral, isso é um grande fator de incerteza, que gera questionamentos e, por consequência, riscos para as empresas.

O modelo institucional brasileiro e seus grupos de pressão, como os de integrantes de carreira de Estado, como juízes e promotores, por exemplo.

Para Melo, o risco também ocorre quando os princípios da razão econômica não são capazes de se sustentar no campo político. “É importante olhar para nosso sistema político e saber do que ele é capaz”, diz. “Em outras palavras, é preciso entender a índole da maioria, que pode ser um horror, mas não é surpreendente.” Como afirma Seligman, “no Brasil, é preciso saber ler a política para entender o caminho do mercado”.

Para ler o cenário

Para ajudar executivos a identificar o que é preciso entender do governo e os fatores de risco institucionais, o Insper desenvolveu o curso Riscos Políticos, de Educação Executiva. Realizado em parceria com a Eurasia Group, a maior consultoria de risco do mundo, o objetivo do curso, que acontece no final de julho, é mostrar a complexidade da questão política, identificando questões estruturais para que se possa compreender a conjuntura.

Saiba mais sobre o curso clicando aqui.

A aplicação de novas políticas no Espírito Santo

Em 2003, quando iniciou seu primeiro mandato como governador do Espírito Santo, Paulo Hartung encontrou as contas arrebentadas, a máquina pública sucateada e uma grande teia criminosa dentro das instituições públicas. Além disso, o Estado devia aos servidores e fornecedores uma quantia próxima a quatro receitas brutas. “Me vi diante de um desafio fenomenal, mas sabia que podia contar com a ajuda de dois elementos importantes: uma economia que queria andar e uma sociedade civil com vontade de mudar”, contou o governador.

No final de seu segundo mandato em 2010, Hartung tinha conseguido reorganizar o Estado por meio de novas políticas econômicas e a aplicação de um modelo diferente de gestão. No evento Projeto Espírito Santo: a reinvenção do Estado, o governador falou sobre a trajetória de recuperação do Espírito Santo. Mediada pelos professores Carlos Melo e Fernando Schüler, a apresentação foi realizada no dia 26 de setembro na sala Amador Aguiar, no Insper.

Reinvenção capixaba

Entre as décadas de 1970 e 1980, grandes projetos industriais redesenharam a economia do Espírito Santo. A partir de empresas como Samarco e Fibria, a construção civil evoluiu, o polo de confecções cresceu e um conjunto de atividades importantes alavancou a economia do Estado. Em meados de 1990, no entanto, uma sucessão de administrações públicas problemáticas freou a fase de progresso.

Durante os oito anos de mandato, Hartung enfrentou um cenário socioeconômico difícil, com altos índices de violência, crimes políticos e desvios de dinheiro, além de grandes dívidas públicas. Para colocar o Espírito Santo no trilho certo, o governador procurou acertar as finanças do Estado e desenvolver novas políticas públicas em áreas como educação, saúde e segurança – este último ficou marcado pela reorganização do sistema prisional. No final de 2010, o Espírito Santo apresentava uma capacidade de investimento com recursos próprios de 16%, a maior dos Estados Federais brasileiros.

Segundo Hartung, porém, alguns problemas surgiram nos anos seguintes. Com o aumento de despesas e a diminuição de receita, o Espírito Santo apresentou um déficit de R$ 960 milhões em 2013. Em 2014, o valor passou para R$ 1,4 bilhão. “Era hora de reestruturar o orçamento mais uma vez. Assim, 2015 apresentou um pequeno superávit de R$ 170 milhões”, contou.

De acordo com Hartung, atualmente o Espírito Santo possui todas as contas em dia. “O Estado não deve nada a ninguém.”

Futuro do país

De olho na aplicação de políticas públicas em outras esferas, os mediadores indagaram o governador a respeito de possíveis medidas que o Brasil deveria adotar para melhorar a gestão pública. Hartung apontou que era necessário mudar as instituições políticas. “Também deveríamos usar o voto distrital. Teríamos mais controle social sobre os mandatos e menos gastos com campanhas. Infelizmente, porém, não acredito que isso será implantado tão cedo no país.”

A posição do governador com relação ao voto distrital se assemelha ao que Fernando Gabeira, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, apontou em outro evento também no Insper. Segundo Gabeira, a crise brasileira e o desgaste político e econômico com o processo de impeachment da presidente Dilma deixaram as pessoas mais sensíveis a este cenário.

Hartung também falou sobre a desatualização do setor público. “Se conseguirmos uma cláusula de barreira mínima, o fim de coligações proporcionais e enfrentar com realismo o problema de financiamento de campanhas, daremos um salto para aperfeiçoar as casas legislativas e a ocupação de cargos executivos do Brasil”, disse.

Segundo o governador do Espírito Santo, os políticos também precisam se aproximar da população e conversar didaticamente sobre reformas. “Precisamos explicar e mostrar, por exemplo, como o ajuste fiscal é um benefício de longo prazo para a sociedade”.

Vem por aí

O professor Carlos Melo prepara um e-book que contará a história da destruição e reconstrução do Estado do Espírito Santo. “No final, teremos uma parte analítica que revelará a opinião de especialistas, como Marcos Lisboa e Carolina da Costa”, acrescenta Melo, que é integrante do Centro de Liderança e Inovação (CLI) do Insper.

Ainda sem nome definido, a obra deve chegar ao mercado no segundo semestre de 2017. Junto com o professor, também dedicam-se à organização do conteúdo do livro Milton Seligman, professor do curso de Relações Governamentais no Brasil do Insper, e Malu Delgado, jornalista especializada em política.

Com base em sua trajetória, Fernando Gabeira aponta soluções para cenário político

Jornalista, ativista, ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, intelectual, escritor de vários livros, entre eles O que é isso, companheiro?, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura. O currículo de Fernando Gabeira é vasto e instigante. Talvez seja por isso que ele conseguiu lotar o auditório Steffi e Max Perlman, do Insper, mesmo com o frio da noite paulistana do dia 23 de maio de 2016.

O evento realizado pelo CLI – Centro de Liderança e Inovação do Insper tinha como proposta principal a compreensão da crise atual e possíveis soluções para o futuro. Na prática, Gabeira relembrou um pouco sua história e ainda deu sua opinião sobre o cenário político atual. A conversa foi mediada pelos professores do Insper e integrantes do CLI, Carlos Melo e Fernando Schüler.

A figura do líder

Melo abriu o evento indagando Gabeira sobre a liderança política brasileira, pois, para ele, há uma grande crise neste quesito. Em resposta, o jornalista relembrou um comício em Caruaru (PE) logo no início do movimento Diretas Já que contou com a presença de políticos como Fernando Collor de Mello, Mário Covas, Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. “Estava evidente que tinham duas estrelas no palanque: Collor, que vinha em uma trajetória como o ‘Caçador de Marajás’, e Lula, que apresentava sua proposta de ética na política”, disse. “Hoje, olhando para trás, os dois foram ‘lavados a jato’. Embora reconheça a responsabilidade de cada um, me pergunto se não há muitas armadilhas no caminho e se não precisamos retirá-las para que líderes possam surgir de forma espontânea”.

Para Gabeira, o Brasil não teve grandes líderes em sua história moderna. Isso porque o próprio processo político não necessitava de tais figuras. O que o país precisava mesmo era que alguém tomasse o poder e distribuísse cargos. E, nesse caso, uma pessoa que apenas conduzisse o processo já estava apta. “Sabemos que o Brasil precisa de líderes. Mas essa ansiedade nos arrasou. Foram exatamente líderes carismáticos e muito poderosos que nos levaram para o buraco”, afirmou.

Esquerda vs. Direita

Gabeira não mede palavras ao dizer que hoje não há grandes conflitos entre esquerda e direita. Para o ex-deputado federal, a briga presenciada durante o processo de impeachment da – presidente Dilma Rousseff pode ser considerada apenas um episódio nostálgico. “Quem quiser, aproveite, pois talvez não vejamos mais esse tipo de embate”, comentou. “Hoje, na verdade, essa denominação nem é mais importante.”

O jornalista acredita que a separação não é primordial já que não distingue mais ideais. Atualmente, não dá para alegar que apenas a esquerda se preocupa com temas sociais, como uma aposentadoria digna. Uma direita progressista também será sensível ao tema. O que prevalece ainda é a parte emocional de cada ideologia. “O próprio populismo não cresceria tanto se não tivesse essa carga. Essa emoção, principalmente da esquerda, de sempre optar pelo bem, ainda existe em muitos jovens”, revelou Gabeira.

Confira o vídeo do evento na íntegra:

Panorama atual dos partidos

Um dos motivos para existir a falta de clareza quanto as propostas e as reais diferenças é a quantidade de partidos políticos que há no Brasil. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 35 ao todo. “Poucos são aqueles que possuem tendências claras. Sabemos exatamente a linha do PT e do PSDB, por exemplo, mas a maioria não tem unidade de pensamento. Também não há mais reuniões partidárias definindo qual a agenda do mês. Os partidos passaram a ser um agrupamento de ocasião, um apanhado de pessoas que não são movidas por ideias”, alegou Gabeira.

Embora não negue que existam indivíduos que provoquem discussões relevantes e dão o tom certo em determinados momentos, Gabeira acredita que os partidos, como um grupo, não se permitem a aproximação com a sociedade. “Tanto em 2013 com as manifestações quanto no movimento pelo impeachment, eu não vi nenhum esforço de aproximação”, relatou. “Em qualquer lugar do mundo que houvesse participações dessa envergadura, os partidos estariam lutando para absorvê-los. Aqui, só houve esforço do movimento, pois eles compreenderam que para realizar o impeachment precisavam do Congresso”.

Na época em que estava na Câmara dos Deputados, Gabeira teve uma ideia para reverter esse descaso: ele reuniu representantes de diferentes partidos que tinham uma identidade com o país e carregavam a vontade de atuar para melhorar o Brasil. “Foi assim que nós constituímos um grupo de 35 pessoas que fazia sua agenda e tentava modificar o Congresso. E nós modificávamos”, lembrou.

Ideias para o futuro

Hoje, mesmo não estando na linha de frente, Gabeira ainda expõe suas ideias para um Brasil melhor no futuro. Segundo ele, duas propostas que amadureceram e podem transformar o cenário político são a adoção ao voto distrital ou a um sistema parlamentarista. “A crise brasileira e o desgaste político e econômico que nós tivemos com esse sai ou não sai da Dilma está mudando o pensando das pessoas e deixando-as mais sensíveis a estes cenários. Entretanto, não sei se conseguimos conduzi-los de fato”, afirmou.

Outra ideia exposta por Gabeira no evento é a implementação de um sistema como o das primárias norte-americanas, assim, candidatos mais qualificados serão entregues à população. “Por exemplo, se o Lula levasse a Dilma para as primárias no PT, ela não chegaria nem a ser candidata. Isso porque esse é um processo de confronto e de discussão de ideias entre as pessoas do mesmo partido”. De acordo com o ex-deputado federal, o problema do Brasil é que as pessoas são indicadas de cima para baixo.

Ao falar em candidatura, quem torce para que Fernando Gabeira volte para a política brasileira terá que adiar esse desejo, pois isso não está atualmente em vista. “Eu não entro na política só por entrar. Eu preciso ter um quadro ou algumas ideias para poder avançar”, disse. Por enquanto, os únicos planos do ex-deputado são trabalhar ao ar livre e somente voltar para casa para escrever um pouco.

E agora, Brasil? O país para além dos limites do presente

Com o objetivo de constituir um debate sobre o cenário político, jurídico e econômico atual do país e trazer soluções para esse quadro, o evento E agora, Brasil? realizado pelo Centro de Liderança e Inovação reuniu especialistas em19 de maio de 2016. A discussão foi mediada pelos professores – Carlos Melo, cientista político do Insper e Fernando Schüler, professor titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta. Os participantes convidados para a conversa foram José Roberto Mendonça de Barros, economista e fundador da MB Associados; Oscar Vilhena, diretor da escola de direito da FGV.

A Constituição de 1988
A ideia do debate não se resumiu a um exercício de futurologia, mas numa reflexão sobre alternativas para que o Brasil se torne um país que ofereça serviços sociais de forma sustentável economicamente e politicamente.

Uma das alternativas apontadas no evento foi a reformulação da Constituição de 1988. Isso porque, segundo Schüler, a crise do setor público brasileiro tem em sua raiz algumas escolhas tomadas no final dos anos 1980. “Enquanto o mundo vivia uma grande revolução liberal, nós optamos por um modelo de um estado provedor”, afirmou o professor -. “O Brasil criou uma Constituição democrática, resultado da cultura política da época, mas erramos na modulação de nosso sistema de gestão pública”.

Vilhena foi além e destacou que a Constituição é apenas o resultado da desconfiança de setores no jogo democrático. “Ela se diferencia de boa parte das criadas pelo mundo, pois há interesses particulares entrincheirados”, garantiu o diretor da escola de direito da FGV. Para ele, uma possível solução é adotar o modelo dos Estados Unidos. “Eles possuem o molde ideal, que organiza federações, separa poderes e processos de reformas. Não há direitos, pois o país não tinha um consenso de quais seriam corretos”, comentou.

Vale lembrar também que a mentalidade da sociedade brasileira mudou bastante de 1988 até hoje. “Alargamos nossa concepção do que um direito significa e qual a relação que se tem com os outros e com o Estado”, disse Vilhena. “Isso muda a expectativa que a sociedade tem sobre seu Estado, os serviços públicos e o modo como a lei é aplicada àqueles que se safam impunes”.

Um dos acontecimentos destacados por Vilhena e que exemplifica essa mudança de expectativas da sociedade é a Operação Lava Jato. “Ela só ocorreu porque teve por trás um sistema jurídico que adquiriu autonomia com pessoas que foram formadas depois dos anos 2000 e que tinham percepção de como aplicar o direito de maneira igualitária”, afirmou. Outro ponto lembrado pelos participantes do evento foram as manifestações de 2013. A pressão dos protestos motivados pelo preço da passagem de ônibus forçou o governo a revogar o aumento das tarifas.

O governo de transição de Temer
Ao trazer as soluções para o presente, os participantes destacaram que o governo, até o momento, temporário de Michel Temer deve assumir o papel de transição. “Ele precisa saber que está lidando com uma emergência e, ao mesmo tempo, tem que ser proativo na construção de soluções para a retomada do crescimento sustentável. Além disso, ele tem que preparar a passagem de bastão para o próximo presidente, pois esse sim terá a legitimidade para fazer reformas maiores”, ressaltou Barros.

De acordo com o economista -, uma boa atitude de Temer seria tentar desempenhar um governo parecido com o que teve Itamar Franco após o impeachment de Fernando Collor de Mello em dezembro de 1992. Assumindo o país em um cenário conturbado, o novo presidente realizou uma gestão transparente, buscando apoio dos partidos políticos e procurando atender aos anseios prementes da sociedade brasileira na época, como o combate à inflação.

“É muito difícil esperar que o governo temporário de Temer promova reformas importantes neste cenário atual. Porém, há sinais de melhora na economia, na reversão de expectativas, e otimismo de que a inflação volte para a meta”, disse Schüler. O cenário positivo foi compartilhado pelos outros especialistas.

Perspectivas para o futuro
“Ao olhar para os próximos dois anos, não tenho dúvidas de que vamos voltar a crescer. Aliás, já no segundo semestre de 2016, vejo uma evolução positiva do PIB”, comentou Barros. A afirmação do participante do evento foi baseada em dados já coletados por ele anteriormente.

Barros ainda se mostrou bastante otimista em outros pontos. “Nossa expectativa é que o ciclo de baixa de juros comece agora em julho. Já nossa projeção de inflação é de 7%. Isso permite uma baixa para começar o jogo nesse segundo semestre de 2016, o que faz com que o sistema financeiro refinancie parte das empresas com mais facilidade”, destacou -.

Para 2017, a perspectiva é que o Brasil apresente uma projeção de inflação de 5,5% e também 2% na baixa da taxa de juros, além de um crescimento de 2% no PIB.

Os desafios do país irão muito além do que uma tímida recuperação econômica. Só a revisão estrutural de serviços do estado e a conquista de um ambiente político mais aderente aos anseios da sociedade garantirá um crescimento a médio e o longo prazo para o país.

Confira o vídeo do evento na íntegra:


Vargas Llosa 80 anos: Histórias de liberdade

Realizamos em nosso campus no dia 12 de maio de 2016 um evento que contou com palestra do escritor e Prêmio Nobel da Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa.

Falando sobre sua trajetória de vida e paixão pela literatura, Vargas Llosa contou sobre como flertou com diferentes correntes políticas até ancorar-se no liberalismo. Também fez uma análise do cenário político brasileiro e da América Latina e discorreu sobre a evolução social e da mídia nas últimas décadas.

A ocasião também contou com a participação de Fernando Schüler, professor titular da Cátedra Insper e Palavra Aberta e do professor Carlos Melo, cientista político do Insper em um descontraído debate com o autor sobre política, liberdade de expressão e o papel da mídia. Ao final, o autor também falou sobre suas inspirações para tantas obras literárias.

Elaboramos um resumo especial que apresenta os principais temas e ideias da palestra, além de uma entrevista exclusiva com Vargas Llosa.

Confira a cobertura completa do evento acessando este link.

Não pode assistir o evento? Acesse o link e aproveite o conteúdo.

Sobre o autor:

Jorge Mario Pedro Vargas Llosa é jornalista, dramaturgo, ensaísta e crítico literário, reconhecido como um dos mais importantes escritores da atualidade. Graduado em Direito e Letras pela Universidade Nacional Maior de São Marcos, em Lima, no Peru, é autor de diversas obras, entre romances e peças teatrais. Em 2010, Llosa foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, por “sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre resistência, revolta e derrota individual”.

Vargas Llosa no Insper (57)

 

Uma conversa sobre liderança

Reunimos os professores Maurizio Mauro, Carlos Melo e Carolina da Costa,  para uma conversa sobre um dos grandes temas do Brasil contemporâneo: a crise de liderança. Os três são idealizadores do Centro de Liderança e Inovação do Insper, lançado em março de 2016.

Confira o vídeo com um resumo dessa conversa sobre liderança:

No debate, cujo foco foi a política, mas que se estende também às corporações, apareceram temas como a incapacidade de negociação, a análise de problemas e o desenvolvimento da consciência crítica.

“Enquanto não sentarmos à mesa para começar a avaliar o que o outro está dizendo não sairemos do lugar”, disse Melo. “O pluralismo é fundamental. Isso está virando uma briga de rua, literalmente.”

Para Carolina, “quando se parte para a desqualificação do adversário, não há mais pensamento crítico, e isso ocorre nas empresas também”. Segundo Mauro, neste momento, no Brasil, “não há ambiente político e social que facilite o entendimento”.

abril/2016

Mão de gato

Insondável a alma dos homens. Seu sentido, desejos mais íntimos e ressentimentos guardados; escondidos mais secretos. Insondável ainda mais a alma dos políticos. Seus cálculos, sua razão, o jogo que jogam de olho no futuro. José Sarney, ex-presidente – presidente pelas mãos do destino padrasto – é um desses. Poeta e político, chefe de clã, patriarca no ocaso do poder e da vida politica se não da vida de verdade. Do alto da experiência e dos ombros cansados, Sarney é obrigado a enxergar um Brasil diferente do Brasil de seus olhos: a oligarquia sequestrada pelo país que se modernizou, sem superar o arcaico, resiste como pode. Guarda sentimentos e metáforas, contemplando o mundo com uma dor especial.

Tipo de personagem do Garcia Marquez que queria ter sido como escritor (e não foi), de terno claro, não mais jaquetão, espelha um desses coronéis dos confins, dos rincões. Na sua Macondo pessoal, Sarney agora vai sem mais saber para onde. A luz se apagou. Poder-se-ia parafrasear Drummond: “E agora, José? Pego assim de calças-curtas, adesivo de Dilma na lapela, voto em Aécio na ponta dos dedos?” E agora Sarney: será verdade? Será montagem? Será maldade? Será justiça?

Maledicência boa é aquela que pega porque o maldizer e o maldito fazem sentido. Se Sarney apertou mesmo o 45 de Aécio naquela desafortunada cabine que deveria ser indevassável é quase secundário. O fundamental é que poderia tê-lo feito – por que não? Teria motivos para fazê-lo. O caos partidário permite que o fizesse. O cidadão comum conclui: “Pode não ser, mas é possível que seja”. O fato é que “a política ama a traição e odeia o traidor”.

Pessoalmente, teria motivos. Votar em Aécio é de algum modo reverenciar Tancredo, cuja desgraça pariu o Sarney democrata e deletou o ex-presidente do PDS — partido da ditadura. O espírito do presidente morto sem posse vaga entre mundos e na memória de Sarney; eleger o neto seria apaziguar duas almas, ajustar contas, saldar a dívida histórica e devolver à família Neves o que foi usurpado pelo destino. O coração do político e do poeta bate nesse diapasão – ressentimento, interesses, razão, reminiscências, gratidão. Hesita: votar em Aécio, por que não?

Também é verdade que sua proximidade com Lula, Dilma e o PT não foi de boniteza, mas de precisão. Conciliação forjada por interesses complementares, na troca lancinante de governabilidade por cargos, de poder por apoio. Simples, embora impensável no mundo de ontem; viável porque o PT de hoje, descomedido, cavalga nos campos vastos da oligarquia e confraterniza nos palácios amplos do coronelismo regional. Mas, mesmo assim, dois mundos distintos, soldados pelo pragmatismo, como o visgo que prende passarinho pelas patas e lhe quebra as pernas, impondo-lhe, manco e calado, a imensidão da gaiola.

E há os cálculos dos políticos… Ah, cálculos os mais estranhos da idiossincrasia de quem respira política e processa a equação das vantagens e desvantagens de cada configuração de poder. A eleição apertada de Dilma, naturalmente, embaraça a presidente. Joga-lhe nos braços da dependência e impõe-lhe as regras da coalizão. Mesmo sem mandato, sem tribuna e sem Maranhão, Sarney ainda é chefe de partido. Possui recursos, influências, mandatos que comem em suas mãos. A Dilma raquítica de votos e o PT fragilizado de lambanças fortalecem o PMDB nas contendas, na repartição de cargos e recursos que marcam a política em geral e demarcarão mais ainda o segundo mandato da presidente, debilitado pela disputa acirrada, pela sociedade dividida e divergente que as urnas revelaram. Brasil, cuja eleição nunca acaba; das ofensas e da cizânia que não cessam. O perrengue de Dilma interessa, é claro, à oposição. Mas, também a amigos desse tipo.

Interessaria a Sarney — como diz, ex-presidente sem rancor — saciar a sede do ressentimento na água fria da vingança. O Maranhão que perdeu para Flávio Dino (PCdoB) ainda lateja como um braço que se foi. É natural que a mágoa aconselhe a desforra ao PT que lhe faltou. Nem que seja por seu voto, seu único e intransferível voto, esbraveja por dentro; numa represália íntima, dará o troco. Sim, a aldeia sempre conta, e o fígado nessas horas é soberano; destilado, o fel corre pelas veias. Na desgraça de Roseana, no Complexo Presidiário de Pedrinhas, a hecatombe da dinastia. E o PT vibrou por dentro. Sem apoio, a governadora nem se arriscou ao Senado. O pai resignou-se por fora; renunciou à vida parlamentar. Mas, por dentro, a política fica e pulsa ainda uma vez.

É significativo que o ex-presidente colasse o adesivo de Dilma na lapela direita do paletó, longe do coração. Caminhou para a urna burocrático e cerimonial, na expressão sem cor. Acenou e até ensaiou apertar o 13. Mas, com seu íntimo se confrontou; longe dos olhos do povo, o movimento das mãos foi mais forte: digitou 45, “o neto de Tancredo”. Sem distância entre intenção e gesto. Apenas o cálculo, as reminiscências, o ressentimento e a solidão do tempo que se foi e do tempo que se esvai.

Publicado em O Estado de S. Paulo em 02/11/2014.