Conjuntura econômica e política do Brasil traz ambiente pessimista para eleições 2018

O Brasil aproxima-se das eleições presidenciais em uma conjuntura de baixo crescimento potencial. Espera-se que o país cresça, em média, 1,7% ao ano na próxima década, uma perspectiva abaixo da estimada nos demais países da América Latina.

“Se não focarmos nos drivers de gastos, dificilmente conseguiremos controlar as despesas do país”, defende Daniel Leichsenring, economista-chefe da Verde Asset Management. “Comparando os resultados primários do governo federal em 2014 e 2017, os gastos com Previdência e da Lei Orgânica de Assistência Social – LOAS cresceram 15% e 14% respectivamente. Por outro lado, houve uma queda orçamentária de 52% em investimentos, 17% em abono e seguro desemprego e 13% em saúde e educação”, afirma.

“A crise é séria tanto do ponto de vista político como econômico, mas talvez não seja percebida na economia como é percebida na política”, afirma Carlos Melo, professor e integrante do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper.

“A questão é tão crítica que os 11 ministros do Supremo estão mais em pauta do que os 11 jogadores que formam a seleção brasileira de futebol. Em um país como o Brasil, isso é muito sério”, compara.

O professor destaca que, ao longo dos últimos anos, o País tem enfrentado algumas grandes crises. Uma delas, causada pelo cenário fiscal, afetando juros e câmbio e que culmina na falta de infraestrutura, portos, aeroportos, nada que possa comprovar um aumento de produtividade e crescimento da União.

O presidencialismo de coalizão adotado no país, ou seja, de distribuição de postos administrativos em busca de apoio político e a formação de uma maioria parlamentar, criando uma base de sustentação no poder Legislativo, é um dos pontos de atenção, na avaliação de Carlos Melo, que também destaca o uso de empresas que têm relação com o Estado para o financiamento de campanhas, como outra conduta que potencializa uma crise política grave.

“Para fragilizar ainda mais o cenário, o Brasil está carente de liderança política, realidade que infelizmente não acontece somente no Brasil. O País passa por um enorme vazio nesse quesito, pois a qualidade política do Brasil é deplorável”, acrescenta ainda o professor.

Eleições déjà vu?

Para Melo, as eleições de 2018 serão semelhantes às de 1989 se comparar o cenário de crise, mas com agravantes: atual crise econômica é pior do que a de 1989. “Também vivemos muita fragmentação de candidatos. De um lado, Jair Bolsonaro, como aglutinador natural da direita; Ciro Gomes e Geraldo Alckmin lutando no campo do centro; e a esquerda ainda sem um nome definido, mas com a certeza de que Lula não tem mais tanta força de transferência de votos depois do escândalo da Lava Jato”, acredita.

Na avaliação de Carlos Melo, quem tiver uma base de votos fiel, fundamentalista, e for mais questionador em relação aos planos do governo atual tende a ser mais forte. Os candidatos com 15% ou 20% de votos obtidos no 1º turno podem ser considerados fortes porque poderão crescer muito no 2º turno com os votos brancos, nulos e abstenções do 1º turno.

O professor destaca ainda a falta de melhora nos quesitos de bem-estar, com a taxa de desemprego muito elevada, precarização das relações de trabalho e crise social que se traduz em segurança pública.

“Quando pensamos em crise de segurança pública, logo nos vem à mente o estado do Rio de Janeiro. Mas é triste constatar que existem outros estados em situação de segurança pior que a do Rio de Janeiro”, esclarece Melo, referindo-se a Sergipe, Rio Grande do Norte, Alagoas, Pará, Amapá, Pernambuco, Bahia, Goiás e Ceará.

Candidato outsider

Os candidatos outsiders estarão em alta nessas eleições como já se pôde comprovar nos Estados Unidos e na França. “No Brasil, não é diferente: a população está cansada dos velhos políticos e irá buscar candidatos fora do establishment”, avalia Carlos Melo.

Para o professor, o Brasil precisa de candidatos que tenham não só boas equipes técnicas preparando seus planos de governo, mas que consigam comunicá-los bem. Diante desse cenário, uma certeza é de que o próximo presidente precisará comunicar que os próximos quatro anos serão muito difíceis.

Conjuntura econômica e política em ano de eleições” foi o primeiro debate do calendário realizado pelo CPP do Insper, confira a agenda e fique por dentro dos próximos eventos.

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Mão de gato

Insondável a alma dos homens. Seu sentido, desejos mais íntimos e ressentimentos guardados; escondidos mais secretos. Insondável ainda mais a alma dos políticos. Seus cálculos, sua razão, o jogo que jogam de olho no futuro. José Sarney, ex-presidente – presidente pelas mãos do destino padrasto – é um desses. Poeta e político, chefe de clã, patriarca no ocaso do poder e da vida politica se não da vida de verdade. Do alto da experiência e dos ombros cansados, Sarney é obrigado a enxergar um Brasil diferente do Brasil de seus olhos: a oligarquia sequestrada pelo país que se modernizou, sem superar o arcaico, resiste como pode. Guarda sentimentos e metáforas, contemplando o mundo com uma dor especial.

Tipo de personagem do Garcia Marquez que queria ter sido como escritor (e não foi), de terno claro, não mais jaquetão, espelha um desses coronéis dos confins, dos rincões. Na sua Macondo pessoal, Sarney agora vai sem mais saber para onde. A luz se apagou. Poder-se-ia parafrasear Drummond: “E agora, José? Pego assim de calças-curtas, adesivo de Dilma na lapela, voto em Aécio na ponta dos dedos?” E agora Sarney: será verdade? Será montagem? Será maldade? Será justiça?

Maledicência boa é aquela que pega porque o maldizer e o maldito fazem sentido. Se Sarney apertou mesmo o 45 de Aécio naquela desafortunada cabine que deveria ser indevassável é quase secundário. O fundamental é que poderia tê-lo feito – por que não? Teria motivos para fazê-lo. O caos partidário permite que o fizesse. O cidadão comum conclui: “Pode não ser, mas é possível que seja”. O fato é que “a política ama a traição e odeia o traidor”.

Pessoalmente, teria motivos. Votar em Aécio é de algum modo reverenciar Tancredo, cuja desgraça pariu o Sarney democrata e deletou o ex-presidente do PDS — partido da ditadura. O espírito do presidente morto sem posse vaga entre mundos e na memória de Sarney; eleger o neto seria apaziguar duas almas, ajustar contas, saldar a dívida histórica e devolver à família Neves o que foi usurpado pelo destino. O coração do político e do poeta bate nesse diapasão – ressentimento, interesses, razão, reminiscências, gratidão. Hesita: votar em Aécio, por que não?

Também é verdade que sua proximidade com Lula, Dilma e o PT não foi de boniteza, mas de precisão. Conciliação forjada por interesses complementares, na troca lancinante de governabilidade por cargos, de poder por apoio. Simples, embora impensável no mundo de ontem; viável porque o PT de hoje, descomedido, cavalga nos campos vastos da oligarquia e confraterniza nos palácios amplos do coronelismo regional. Mas, mesmo assim, dois mundos distintos, soldados pelo pragmatismo, como o visgo que prende passarinho pelas patas e lhe quebra as pernas, impondo-lhe, manco e calado, a imensidão da gaiola.

E há os cálculos dos políticos… Ah, cálculos os mais estranhos da idiossincrasia de quem respira política e processa a equação das vantagens e desvantagens de cada configuração de poder. A eleição apertada de Dilma, naturalmente, embaraça a presidente. Joga-lhe nos braços da dependência e impõe-lhe as regras da coalizão. Mesmo sem mandato, sem tribuna e sem Maranhão, Sarney ainda é chefe de partido. Possui recursos, influências, mandatos que comem em suas mãos. A Dilma raquítica de votos e o PT fragilizado de lambanças fortalecem o PMDB nas contendas, na repartição de cargos e recursos que marcam a política em geral e demarcarão mais ainda o segundo mandato da presidente, debilitado pela disputa acirrada, pela sociedade dividida e divergente que as urnas revelaram. Brasil, cuja eleição nunca acaba; das ofensas e da cizânia que não cessam. O perrengue de Dilma interessa, é claro, à oposição. Mas, também a amigos desse tipo.

Interessaria a Sarney — como diz, ex-presidente sem rancor — saciar a sede do ressentimento na água fria da vingança. O Maranhão que perdeu para Flávio Dino (PCdoB) ainda lateja como um braço que se foi. É natural que a mágoa aconselhe a desforra ao PT que lhe faltou. Nem que seja por seu voto, seu único e intransferível voto, esbraveja por dentro; numa represália íntima, dará o troco. Sim, a aldeia sempre conta, e o fígado nessas horas é soberano; destilado, o fel corre pelas veias. Na desgraça de Roseana, no Complexo Presidiário de Pedrinhas, a hecatombe da dinastia. E o PT vibrou por dentro. Sem apoio, a governadora nem se arriscou ao Senado. O pai resignou-se por fora; renunciou à vida parlamentar. Mas, por dentro, a política fica e pulsa ainda uma vez.

É significativo que o ex-presidente colasse o adesivo de Dilma na lapela direita do paletó, longe do coração. Caminhou para a urna burocrático e cerimonial, na expressão sem cor. Acenou e até ensaiou apertar o 13. Mas, com seu íntimo se confrontou; longe dos olhos do povo, o movimento das mãos foi mais forte: digitou 45, “o neto de Tancredo”. Sem distância entre intenção e gesto. Apenas o cálculo, as reminiscências, o ressentimento e a solidão do tempo que se foi e do tempo que se esvai.

Publicado em O Estado de S. Paulo em 02/11/2014.

Vida que segue

Não adianta tentar tapar o sol com a peneira, o resultado da eleição foi muito ruim para o PT — o partido ficou bem aquém de suas próprias expectativas e aquém também dos recursos e do poder de que dispunha para disputar a eleição, no país, nos estados; para a Câmara e para o Senado.

Não adianta a presidente dizer que teve maioria dos votos, pois a verdade é que a maioria dos eleitores não votou em Dilma, ainda que Dilma tenha obtido mais votos que seus adversários.

Não adianta Dilma esbanjar um otimismo forçado porque sabe que o segundo turno transcorrerá sob um clima muito complicado, com acusações de escândalos e com a desqualificação dos resultados do seu governo. Desqualificar pura e simplesmente as críticas será inócuo; e recorrer à velha estratégia de malhar o governo FHC — arma tantas vezes utilizada — pode, um dia, não dar mais resultado. Matar hoje o sujeito que morreu ontem também é repetitivo e cansa.

Não adianta, Aécio, por sua vez, contar vantagem e sentir-se um super-homem — algo tão normal aos tucanos — porque, na verdade, vai ao segundo turno muito menos por seus méritos do que pela ruína de Marina Silva. Sabe que foi salvo menos por um eleitor que o aprova do que por um eleitor que desaprova Dilma. A ordem desses fatores altera, sim, o produto.

Não adianta fazer a crítica econômica ao governo do PT, afirmar que tudo precisa ser alterado, sem antes demonstrar como o fará para que seu ajuste não custe, antes, o emprego das pessoas. Este é o maior medo dos indivíduos e com ele Dilma assombrará a campanha e faz sentido que o faça. Emprego é mesmo coisa séria.

Não adianta dizer que não cometerá os mesmos erros do PT, sem antes demonstrar quais serão as diferenças de seu relacionamento com o Congresso e financiadores de campanha, por exemplo.

De nada vale a Marina dizer que foi desconstruída sem antes admitir que os pontos que a prejudicaram foram, a maioria deles, gerados em sua própria campanha, com toda a dissonância de opiniões e com os recuos que demonstraram indecisão e suscetibilidade à pressão.

Não adianta afirmar que foi um massacre. Como se diz, “os fortes, de verdade, quando tomam veneno, o veneno só os torna mais fortes”. Uma campanha política é mesmo um massacre para quem permite ser massacrado; é preciso saber ser leão e ser raposa, ao mesmo tempo, para sobreviver nessa selva. E, assim, avançar.

Não adianta dizer que não houve tempo de TV ou que tudo foi muito surpreendente e improvisado, a partir da morte de Eduardo Campos, porque foi mesmo assim e se sabia, de ante mão, que seria assim. E ainda assim, seria possível evitar algumas ciladas e dar mais e mais efetivas respostas do que Marina soube ou conseguiu dar.

Não adianta dizer o que se disser; os problemas do sistema político brasileiro não se resolvem com uma eleição. Aliás, em nenhum lugar do mundo se resolvem problemas assim de uma única vez; é preciso calma, engenho e persistência. Em todo o mundo há sistemas políticos com problemas e mesmo assim o processo político segue seu caminho.

Há críticas para todos os gostos, desculpas para todos os pecados; há dor para todos os corações e maldade para todos os cínicos. Não adianta dizer que não dá para seguir adiante. O sol nasce todos os dias, o mundo pesa e mesmo assim seguimos em frente, todos os dias. Amanhã será sempre outro dia da vida que segue… Enquanto a vida seguir.

Publicado no Estadão.com em 06/10/2014.

O potencial de Eduardo

Liderança é palavra gasta. A todos ocorre, poucos compreendem e muitos a confundem com poder. Ao poder bastam os meios: um porteiro tem poder; um sargento, um empresário também. Presidentes têm. Mas liderança é outra coisa. Difícil medir. Adquiri-la demanda talento. Ninguém compra, aluga ou reivindica. É exercício que não se ensina, mas se aprende, supõe percepção apurada do mundo e das circunstâncias, trânsito, abrangência, articulação, sagacidade, sedução, astúcia, coragem, certo atrevimento e, ao mesmo tempo, temperança.

O Brasil passa por uma crise de liderança. Nem sempre foi assim: já houve líderes às pencas, paridos da escuridão das crises. Com tantas crises, vários surgiram. No desafio de consolidar a democracia e instaurar a estabilidade, emergiu Fernando Henrique Cardoso. Com a tarefa de reafirmar a estabilidade e estender a inclusão, confirmou-se Luiz Inácio Lula da Silva. Cada um a seu modo, FHC e Lula são, talvez, os últimos líderes de verdade do Brasil atual.

Mas, vertiginoso, o tempo passa também para eles. E o País carece de quem saiba conduzir processos políticos com habilidade e visão amplas. Esses assim são raros. O controle burocrático – caso da presidente Dilma – não faz ninguém líder. Vocalizar apenas parte da sociedade, bradar eficiência, como Aécio, não basta. Tampouco o líder se reduz a representar justos sonhos e anseios de vanguardas, como Marina. Liderança é habilidade essencialmente política, pragmática. Implica, sim, a submissão da burocracia a um projeto, a capacidade de gestão para realizar, é claro, e, evidentemente, alguma dose de sonho para buscar o futuro. Líder é tudo isso num só.

Há enorme esforço social e político para formá-lo. Ele não nasce das escolas, embora o conhecimento ajude. Não brota de fratricidas disputas partidárias, ainda que elas calejem. O líder tem um jeito especial – um dos apelidos de Vargas era Jeitúlio: sorriso enigmático, timing, sedução… Algo raro. Desgraçadamente, a consolidação de lideranças assim tem sido impedida por cruel destino.

Novamente cada um a seu modo, nos últimos anos despontaram Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), Marcelo Déda (PT-SE), Eduardo Campos (PSB-PE), aparentemente possuidores dessas características. Jovens, coincidentemente, do Nordeste – “a Bahia tem um jeito…” –, eram a negação do carrancudo estilo do Sul-Sudeste, a pálida e apática sociedade pós-industrial. Expressavam a malemolência dos trópicos, no confluir de sinhozinhos e moleques. Uma fórmula antes da antropologia que da sociologia.

Os que conviveram com Luís Eduardo, Déda e Eduardo testemunham a incomum capacidade de agregar, não subtrair, articular maiorias. O diálogo aberto, o trânsito pelos partidos, o humor, o sorriso, a sofisticação de raciocínio, a facilidade da aproximação, a confiança, o pragmatismo e a recusa em fazer inimigos que não pudessem vir a ser aliados… Vidas ceifadas, caminhos interrompidos: o coração de Luís Eduardo, o câncer de Déda, o desastre de Eduardo. A impiedosa sorte, que dá e retira.

No Brasil, que um dia contou com centro político moderador entre extremos – das raposas do PSD aos liberais do MDB – e hoje se corrói na metástase fisiológica, gente assim faz falta.

Cenários de eventuais governos Dilma, Marina ou Aécio permitem imaginar essa falta: é óbvio que a economia não vai bem e qualquer ajuste que se faça – ou não se faça – trará custos consideráveis, reações imprevisíveis.

Ruas inquietas, movimentos sociais, novos e antigos, a ocupá-las com virulência. Congresso desacreditado, ausência de expressão política, oportunismo voraz. Serão artigos de primeira necessidade o pragmatismo, a habilidade, o diálogo e o indescartável auxílio do carisma. Presidentes da República, Dilma, Marina ou Aécio deterão o poder, de direito. Mas o fato é que pode lhes faltar – tende a lhes faltar – a imprescindível liderança.

No entrechoque da sociedade moderna com a antiga há a necessidade de superação progressiva dos conflitos. Há o imperativo de um governo ativo, liberto das amarras da resignada governabilidade defensiva, do tipo e da fase do presidencialismo de coalizão que temos hoje. Quem realizaria a tarefa? Presidentes, nem todos possuem a liderança que a circunstância requer. Na sua ausência, mandam buscar o que Eduardo Campos vinha cultivando. Na vitória eleitoral, ele a exerceria. Fora dela, a emprestaria na condição de interlocutor de interesses diversos, articulador do meio-campo, organizador à mesa de lulistas e tucanos, parte do PMDB, desenvolvimentistas, monetaristas, ambientalistas e novos atores sociais.

Surgirão novas lideranças? Essa é a grande pergunta para o Brasil. É possível. A crise as viabiliza – foram os casos de Ulysses e Churchill. E crise virá. Luís Eduardo, Déda e Eduardo estavam prontos. Outros terão que se fazer: Haddad (SP), Kassab (SP), ACM Neto (BA), Richa (PR), Paes (RJ), quem mais possa surgir do improvável, estão num estágio inferior. Assumirão seus papéis? Em que condições vingarão? Liderança é palavra gasta. Que não seja letra morta.

Publicado no O Estado de S. Paulo  em  24/08/2014.

“Nova política” ainda se situa no futuro

Eduardo Campos era um homem de virtù: sabia ler o tempo, as circunstâncias e as pessoas; construía o possível. Mas, em política, nada é previsível: as nuvens se movem e os aviões, infelizmente, caem. O destino, que ninguém governa, faz da esperança apenas aquilo que poderia ter sido e não foi. Mais que um candidato à presidência, foi-se a promessa de liderança realmente promissora… Faz parte. Mas, a sorte tem sido madrasta com o Brasil.

O agora não fato é que Campos seria relevante de algum modo. Se não como presidente, pelo menos, como referência que reúne, articula e constrói consensos. Lula tinha adoração por ele; FHC o respeitava: era uma espécie de Plano B para todos. Presidente, talvez, promovesse o rearranjo partidário. Derrotado, nas borrascas de Dilma ou Aécio, seria interlocutor; embaixador em contendas, emissário das tréguas que a política exige. Um craque do meio-de-campo, tão escasso ultimamente.

As curvas das nuvens de Santos, no entanto, reescreveram o script. Novamente, um vice-presidente: Marina ressurge encarnando o mártir convocado pela fortuna. É aclamada pelo desastre e pelo esgotamento de um país com dificuldades de se reencontrar. Volta à cena consternada, marcada a fundo pela dor que deveras sente e pela compaixão que sentimos todos pela bonita família de Eduardo. Tudo isso terá, é claro, valor e força simbólicos.

Eleitoralmente, Marina será, num primeiro momento, problema para Aécio. A volta da terceira via e o impulso da tragédia contarão ao seu favor; elevarão seu piso, fazendo-a rapidamente encostar, quem sabe ultrapassar, no tucano — que, mesmo com todo tempo e espaço que teve, não capitalizou o mau momento do governo, o mal-estar na sociedade e a rejeição à presidente.

Se o eleitor a levar ao segundo turno, Marina será um pesadelo para Dilma: reunirá a crítica e o descontentamento difusos, somando-os quase que integralmente ao antipetismo hoje em torno de Aécio. O thriller já aterroriza o PT: a força dos princípios e da moral rígida da ex-petista contra justificativas muitas vezes mal-ajambradas; desculpas pouco claras, nem sempre convincentes do petismo atual.

Mas, Marina não é Eduardo e nem seria justo lhe cobrar o mesmo perfil. Campos praticava a política da responsabilidade, os meios voltados aos fins. Marina é de outra pipa: vem das nascentes das convicções e subiu ao morro dos princípios: seus fins dependem da pureza dos meios; a politica moral acima da moral política. Não se governa, porém, apenas com isso.

Menos pela disposição macroeconômica – havendo vontade e clareza, não será difícil retomar o tripé e recompor fundamentos –, seu governo seria um labirinto de conflitos em torno de questões vinculadas à microeconomia, das quais dependerão a política econômica como um todo. O desenvolvimento do país necessitará de agenda de fortes investimentos em infraestrutura e logística e aí se instalarão a discórdia e a cizânia entre monetaristas e ambientalistas marineiros.

Claro, tudo pode se resolver com ajustes administrativos, reformas de legislação, marcos regulatórios; questões que passam pelo Congresso. Haverá, no entanto, disposição para pagar os pedágios da composição de maiorias? A “nova política” que Marina promete se situa em algum lugar do futuro. No presente, para além da tragédia de Eduardo está a tragédia da realidade do presidencialismo de coalizão. Vivíssimo, por sinal. Ele não morre fácil.

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo no dia 17/08/2014.

Infiel torcida

Quando o Boca Juniors e o juiz Carlos Amarilla eliminaram o Corinthians na Libertadores da América de 2013, vi meu filho amargurado com a perda do bicampeonato. “Tá assim por quê?”, perguntei. “O Corinthians é isso. Demorei 47 anos para ver o título que você viu, ano passado, aos 7. A vitória é sempre passageira. Se não quiser viver nessa oscilação de euforia e sofrimento, esqueça o futebol. Esqueça o Corinthians. Melhor torcer pelo São Paulo”, provoquei.

Mas mesmo os tricolores hão de convir: essa é a dor e a delícia do futebol. Felicidade que vem, tristeza que vai. Vice-versa. Tudo recomeça. A boa fase ilude, a má fase chateia. Tudo tem seu tempo. Os fantasmas – o rebaixamento, a aporrinhação dos adversários. Mas até o glorioso Palmeiras caiu duas vezes… Calma! Se nova queda for inevitável, sem tapetão, épica sempre será a volta. “Vida que segue”, dizia Saldanha.

O garoto pondera. Sabe que nada é tão racional. No fundo, intui, o pai também está aflito. Acerta. Mas o difícil mesmo é fazê-lo compreender que o que ocorreu agora, no CT Joaquim Grava, é muito mais grave que a perda de um título e nada tem a ver com futebol. Não foi paixão, não foi torcida, nem decepção. Vincula-se, antes, a problemas mais profundos que as mazelas de um time. Está atado aos nós de uma dinâmica social complexa, fruto da ineficácia da política brasileira.

O vandalismo, a miséria, a ignorância e a bandidagem, a confusão entre democracia e barbárie, a adesão à violência como método de ação. O mal-estar é evidente e está em qualquer canto. A política claudica quando seus mais relevantes atores abandonam a mesa e encerram a negociação. A tensão, a ameaça, a pancadaria, tornaram-se recursos de última instância. Partidos, movimentos, sindicatos, ilustrados intelectuais – à direita e à esquerda – não dialogam, não criam consensos. Há pouca, quase nenhuma tolerância. A fragmentação é evidente. Anomia? Talvez. O centro, por fisiológico, abre-se numa imensa rachadura, que se alarga no exaurido presidencialismo de coalizão.

Nessas condições, natural é a volta ao estado de natureza. Nas periferias, as chacinas; massacres nos presídios. O País assimilou o UFC como esporte nacional. “Quem nunca deu uma porrada no rosto de alguém?”, perguntou, quase inocente, um quase líder de torcida. Ora, ora, ora… Nem isso causa espanto. Impossível distinguir a barbárie do Maranhão da pancadaria das arquibancadas. Cabeças decepadas ou chutadas diferem na força que as agride, não na volúpia nem na intenção de quem as atinge. Repetidas, imagens da barbárie redesenham o ethos do País nos dias que antecedem a Copa. Que momento!
Vândalos em cólera, então, exalam suor de cachaça; dispostos a esganar pessoas como se fossem patos de verdade, vomitam um fel de muitas misérias. Estão em qualquer canto. Quem tiver estômago, que leia comentaristas de notícia na internet. Entre uma e outra “curtida”, um festival de “mata, esfola, prende” – nessa ordem. No velório da ponderação, enterrada foi também a ternura que o País, um dia, teve. Adeus bossa nova. Na era da comunicação total das redes, o diálogo escasseia; brotam o cinismo e a provocação. Cada qual com sua sede, discute se o copo está cheio ou vazio. A hidrofobia não consegue divisar o meio.

Não são apenas os pobres das fiéis torcidas. Às mancheias, playboys ateiam fogo a índios; atropelam, jogam pedaços das vítimas nos rios. Alguém, é claro, clamará por ordem, autoridade, força. A histeria já tem suas divas nos telejornais, mas quem relincha não escuta. No mais, com viseiras ideológicas não é possível enxergar pelo ângulo da construção política. A ausência de política é o maior e mais lamentável vazio.

No passado a Política amalgamava, dava sentido à massa. Mas, o cretinismo eleitoral, se expandindo, obscureceu quem aprendeu a somar, não dividir. Então, em cada bloqueio de rua, ônibus incendiado, revolta ou excesso policial, em cada quebra-quebra, saque ou arrastão, é a Política que falta. Nos motoboys que nos proíbem mudar de faixa, nos PCCs, nas milícias, nos justiceiros, na corrupção, na arrogância elitista, é a cidadania que morre. E as bestas-feras proliferam: invadem CTs; buscam esganar hoje o herói que adoravam ontem.
O que se entende por democracia é patético. Onde há violência, não há liberdade. E assim, o futebol imita a sociedade, no mesmo pacto de mediocridade. Exceções de praxe, jogadores de futebol são parte da mesma galera que os tocaia; notabilizam-se pelo mesmo individualismo. Mas – ironias do país do futebol -, talvez essa seja a chance de serem heróis de verdade. E, com todos os riscos, dizer “basta!”; paralisando a loucura, colocando-se como exemplos. Igualar 5 x 1 no placar não é tão difícil quanto recuperar uma oportunidade perdida, que, perdida, escapará para sempre. Cito Drummond para meu filho: “A vida é isso (…) hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será”. Pondero, quem não controla o tempo, jamais compreenderá o futebol, a política ou o amor. “Salve o Corinthians!”

Artigo publicado em O Estado de S.Paulo em 09/02/2014.

Faxinas não bastam

Imagens fáceis parecem ignorar a complexidade das circunstâncias: ora tudo se resume a “faxinas” no condomínio lulista, ora é o “marketing” voltado à classe média, ansiosa de moral e salivante de sangue dos políticos. Como se tudo se resumisse à disposição pessoal da presidente Dilma — ora “diarista justiceira”, ora obcecada por popularidade – as explicações têm a profundidade de uma moeda. Mas, nada é tão simples assim.

Os conflitos em torno do governo são muito mais profundos: na verdade, se o analista se dispuser a juntar fragmentos e raciocinar como quem busca montar um quebra-cabeça de fatos, interesses e intenções, logo perceberá que há uma lógica sistêmica nos escândalos quase cotidianos despertados desde a desgraça do ex-ministro Antônio Palocci.

Se Palocci caiu foi porque não reunia mais condições para ficar de pé. Mas seu expurgo foi efeito, não razão da crise. No desenho montado na construção do governo, o ex-ministro administraria os conflitos do governismo, tentaria evitar o colapso do bloco de poder construído por Lula, em 8 anos de governo. Missão impossível, diante da evolução dos fatos e das circunstâncias.

O que assistimos — e que muitos reagem com assombro e indignação — não é matéria para análise conjuntural e nem para comentários rápidos. Certamente, não será este artigo que dará conta de sua complexidade; requer debate e discussão e o teste de validade de hipóteses e premissas. Mas, o fato é que o sistema político passa por uma grave e complexa crise estrutural: um modelo de governabilidade que colapsa e um sistema de poder, heterogêneo e contraditório, que perde unidade.

Polianas defendem a qualidade (sic) do “presidencialismo de coalizão” nacional. Apontam o inegável progresso das últimas três décadas, mas não admitem que o modelo prende-se ao rosário do “é dando que se recebe”. Se já foi inevitável pagar seu preço, hoje, quando pequenas mudanças já não significam grandes transformações e o país encontra evidentes limites fiscais e de transparência, esta forma franciscana de conciliação política já não parece possível.

O poder compartilhado entre Executivo e Legislativo reside na divisão de espaços, recursos e esquemas. O governo não compõe, compra. No princípio, os acordos eram duradouros e o apetite, de algum modo, moderado. Mas, “como já dizia [Jorge Benjor] Galileu da Galiléia, malandro que é malandro não bobeia”: os acordos tornaram-se efêmeros, a fome descambou em gula: uma voracidade de glutões. Individualmente, partidos e parlamentares passaram a exigir mais a cada votação: toda “enxadada” (projeto) tem, por obrigação, que resultar numa “minhoca” (recursos, espaços).

Num processo com alternância de poder, débitos e créditos são zerados a cada eleição. O novo presidente desaloja antigos adversários, negocia novos aliados e constrói o edifício de sua maioria. Mas, com continuidade – o que é novo na política brasileira –, a renovação necessária fica obstruída: além de ceder todo espaço para sustentar seu mandato, reeleição e segundo mandato, excede-se um tanto mais para fazer o sucessor. Suportado por acordos e esquemas pré-existentes, sem renovação e abertura de novos espaços, é como se o governo continuasse precocemente envelhecido. Ainda que o novo presidente tenha muito a pedir, sem nada poder oferecer, o que receberá da franciscana coalizão? Pressão, disputa, conflitos, dossiês, corrupção.

Some-se a isto o fato de a “base” de Dilma ter crescido numericamente e de forma substancial: como abrigar novos aliados e até a oposição adesista sem desalojar velhos “parceiros”? Como contentar PMDB sem desagradar ao PT e assim sucessivamente? Como ceder a municípios e esquemas do aliado “A” se eles são concorrentes com o aliado “B” e estes com “C”?

Articulação política não bastará: o garçom anota pedidos, mas não serve o pasto por falta de pratos e talheres; a arbitragem torna-se necessária e imprescindível. Todavia, sem recursos, virtude, força e sagacidade, a desgraça do arbitro – Palocci, Luiz Sérgio, Ideli — é tão inevitável quanto o fogo cruzado entre os “aliados”.

Nessas condições, os escândalos não são apenas previsíveis como também se tornam estruturais e continuados. Cada escândalo reproduz-se em outro, como derivado ou retaliação; desencadeia-se sem cataclismos.

Não bastasse o esgotamento desse modelo franciscano de coalizão, para maior aflição de Dilma, também o heterogêneo bloco de poder formado por Lula entrou em crise. Num cenário de fartura, com 7,5% de crescimento econômico, a abundância mascara divergências. Mas, diante da desaceleração e do risco de inflação, todos questionam o tamanho das porções que podem ser servidas.

Por contraditório, cada setor empresarial ou social pressionará na defesa de suas demandas naturais: industriais e exportadores querem proteção, subsídios e câmbio; financistas, estabilidade, flutuação da moeda e contenção fiscal; movimentos sociais, políticas públicas. Como conciliar interesses contraditórios — ou antes, arbitrá-los — se todos deram seu quinhão na eleição?

Em paralelo, também a docilidade petista e seu o cessar-fogo interno se esvaem. Por repetidas vezes, a burocracia partidária tem demonstrado a Lula que agora o quer como quadro pendurado na parede. Suas preferências (Vacarezza, Palocci, José Eduardo Dutra/Humberto Costa, Fernando Haddad) não são mais indiscutíveis. A burocracia quer que o ex-presidente aprenda a escolher a partir do cardápio partidário.

Por repetidas vezes, o establishment petista, a partir de São Paulo, indica que pretende dar um basta à sua condição de “braço parlamentar” do governo; preferiria, antes, o governo como seu instrumento. Mais ou menos calado, ressente-se de espaço e autoridade, no interior do governo e da coalizão e, de algum modo, articula-se e manda dizer a Dilma que, naquela igreja, é cristã nova e deve se submeter à sua missa e liturgia.

Não faltam rachaduras; os problemas são estruturais: os sistemas de irrigação, elétrico e hidráulico, telhado, madeiramento, fundações, decoração parecem comprometidos. Construído sob escombros, com entulhos de quase cinco séculos, em quase três décadas de funcionamento, é um edifício envelhecido. Por mais meticulosas, faxinas não bastam.