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Impactos da implementação das IFRS em companhias brasileiras

A professora Camila Boscov recebeu neste mês do Conselho Regional de Contabilidade o prêmio pela melhor tese de doutorado em contabilidade de 2014. Seu trabalho buscou analisar as mudanças organizacionais ocorridas nas empresas em função do processo de implementação das regras contábeis internacionais para as demonstrações financeiras, as IFRS, adotadas a partir de 2010 pelas companhias brasileiras com ações na bolsa. Para isso foi feito um estudo de caso, com entrevistas, observações participantes e pesquisa documental em três grandes empresas brasileiras que passaram pelo processo de convergência contábil: BNDES, CCR, e uma empresa de energia.

De acordo com os resultados, não foi possível constatar que a implementação das IFRS tenha afetado de forma direta a cultura das organizações analisadas. Contudo, o movimento de convergência contábil promoveu alterações nas estruturas das companhias, houve integração das áreas e melhor conhecimento da organização; o conselho de administração envolveu-se nessas mudanças, a área contábil ficou mais próxima do investidor e passou a conduzir consultorias financeiras. Por outro lado, houve desgaste no relacionamento com clientes devido a tantas novas exigências de mensuração e divulgação.

Com as IFRS, diversos departamentos nas empresas passaram a fornecer informações para a elaboração das demonstrações contábeis. Na CCR, por exemplo, as concessões passaram a ser vistas como ativos intangíveis, e não mais como imobilizados. Sua amortização precisa ser calculada pela área de engenharia e é em função da curva de tráfego estimada durante o período de concessão. Foram contratados trainees recém-formados em engenharia que estudaram as mudanças no perfil do engenheiro mediante ao IFRS, principalmente devido aos cálculos de provisões de manutenção das rodovias.

A área contábil precisou, em muitos casos, se aproximar do departamento de relações com investidores para esclarecer as diversas mudanças contábeis principalmente em função de alteração de cálculo de dividendos. As novas informações, por serem mais subjetivas, precisavam, em muitos casos, serem aprovadas pelo conselho de administração. Além disso, o contador da companhia passou a dar consultorias para decisões estratégicas da empresa, como por exemplo, sobre o impacto do ágio na compra de outra companhia.

O BNDES passou a consolidar as informações contábeis em algumas empresas que ele possuía participação. Essas empresas tiveram que passar a elaborar demonstrações contábeis e contratar auditorias. Tais exigências desgastaram o relacionamento do BNDES com essas empresas clientes.

As companhias tiveram que fazer grandes adaptações sistêmicas de modo a acompanharem os novos critérios de mensuração e divulgação, e o SAP foi escolhido como a melhor ferramenta para isso.

Algumas informações que antes eram elaboradas somente para fins gerenciais passaram a ser utilizadas na elaboração das demonstrações contábeis. No Grupo CCR, por exemplo, informações gerenciais sobre projeções de fluxo de caixa para cada contrato de concessão são utilizadas pela organização para realizar o teste de impairment.

Já a empresa de energia que também foi analisada pela pesquisadora precisou alterar alguns procedimentos contábeis ligados à consolidação de suas demonstrações. Tal fato mudou a alavancagem do grupo e alguns covenants precisaram ser renegociados. A negociação com os bancos foi complicada, uma vez que muitos não entendiam os novos procedimentos contábeis.

A tese procurou ainda verificar a questão de resistência às mudanças devida a essa implementação. No BNDE não há, ainda, a cultura de que o número IFRS representa melhor a realidade econômica da instituição. Algumas marcações a mercados de derivativos embutidos não são utilizadas gerencialmente. Porém, outras informações a valor justo são utilizadas para melhor acompanhamento de ativos.

Já a empresa de energia estudada não utiliza as informações em IFRS para seu processo de tomada de decisão. Alguns procedimentos contábeis foram muito trabalhosos, mas a informação gerada não foi útil. A principal queixa refere-se ao fato de o IFRS não permitir o reconhecimento de ativos e passivos regulatórios.

Na CCR, a visão é completamente diferente. Os entrevistados acreditam que o IFRS foi algo muito positivo. Após um ano de implementação viram que as mudanças foram para melhor. A empresa acredita que houve melhorias na qualidade da informação e utilizam-se desses números para a tomada de decisão.

Conheça a professora: