Indústria estagnada

Insper Instituto de Ensino e Pesquisa

Por Naercio Menezes Filho, Professor Titular – Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper e professor associado da FEA-USP

Publicado originalmente pelo Valor Econômico em 23.11.2012

Como sabemos, os resultados da indústria de transformação nos últimos tempos têm sido bastante decepcionantes. Isso tem levado a equipe econômica a tomar uma série de iniciativas para tentar animar esse setor, como políticas protecionistas, desonerações, desvalorização cambial e redução da taxa de juros. Entretanto, essas medidas tiveram pouco impacto até agora. Por que será que a indústria de transformação não tem reagido aos incentivos? Será que a situação da indústria é pior do que imaginávamos?

O gráfico abaixo traz dados das contas nacionais que mostram que o setor industrial realmente sofreu muito nos últimos anos. Entre 1996 e 2009, o emprego na indústria de transformação cresceu 33%, em linha com o restante da economia, o que manteve sua participação no emprego total constante. Entretanto, seu valor adicionado bruto cresceu apenas 18% em termos reais, o que fez com que a participação do setor no valor adicionado total da economia declinasse de 19% para 15%. Assim, a produtividade do trabalho, ou seja, o valor adicionado bruto produzido por cada trabalhador industrial declinou 12% no mesmo período. Isso é muito preocupante, pois a produtividade é o principal determinante da competitividade da indústria, tanto no mercado interno como no exterior.

O comportamento dos custos industriais traz ainda mais preocupações. O montante pago em impostos pela indústria de transformação aumentou 53% em termos reais entre 1996 e 2009! Vale notar que a indústria é um dos principais geradores dos impostos recebidos pelo governo. Explica-se assim a preocupação que o governo demonstra habitualmente com o setor, muitas vezes disfarçada em preocupação com emprego e com dinamismo tecnológico. Além disso, os custos do trabalho (que incluem salários e encargos) aumentaram 38% no mesmo período, mais do que o valor adicionado. Assim, os dados mostram inequivocamente que a situação econômica da indústria deteriorou-se nos últimos anos, com aumento dos custos e queda da produtividade. De quem é a culpa? O que podemos fazer para reverter essa situação?

Só o crescimento da produtividade pode tirar a indústria de transformação da sua situação atual. A situação da indústria é resultado de ampla convergência de fatores. O aumento do custo do trabalho é resultado do aquecimento no mercado de trabalho, provocado pelo aumento da demanda nos últimos anos, cada vez mais estimulada pelo governo. O aumento dos impostos pagos reflete o comportamento da carga tributária como um todo, que aumentou de 26% para 35% do PIB entre 1996 e 2009, juntamente com o crescimento econômico do período. Vale ressaltar que esse aumento da carga tributária serviu principalmente para financiar aumento de gastos com custeio e não investimentos públicos.

A queda da produtividade, por sua vez, é resultado da falta de inovações e de gastos em P&D, das práticas gerenciais atrasadas adotadas em grande parte das nossas empresas, da falta de qualificação do trabalhador brasileiro e dos graves problemas de infraestrutura e logística. Alguns empresários argumentam que é difícil pensar em inovações e novas técnicas gerenciais em um ambiente tão carregado de ineficiências e com a situação econômica tão deteriorada. Quem pode dizer que eles não têm razão?

Como fazer para reverter essa situação? Políticas protecionistas, como aumento das tarifas de importação e de IPI para produtos importados são claramente equivocadas. Elas somente aumentam o preço e a lucratividade dos setores protegidos, onerando o consumidor sem aumentar a produtividade e a competividade no longo prazo. Quedas nas taxas de juros, estímulo ao crédito e desvalorização cambial, também promovem alívio temporário, ao custo de risco inflacionário e aquecimento ainda maior do mercado de trabalho, sem resolver os problemas estruturais da indústria. As desonerações reduzem um pouco a carga fiscal, mas deveriam ser horizontais e promover uma diminuição mais efetiva da carga tributária como um todo.

O que resta fazer então? A solução está em aumentar a produtividade da nossa indústria. Para isso, é necessário diminuir o tamanho e aumentar a eficiência do setor público, com a consequente redução generalizada na carga tributária e transferência para o setor privado da responsabilidade pela realização dos investimentos requeridos em infraestrutura e logística. Além disso, o governo deve simplificar a estrutura tributária, melhorar a qualidade da educação básica e técnica e aumentar a competição na economia, com mais (e não menos) abertura comercial, para estimular a inovação. Só o crescimento da produtividade conseguirá tirar a indústria de transformação da sua situação atual.

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