[{"jcr:title":"Núcleo de Estudos Raciais investiga a disparidade racial na violência de gênero"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Núcleo de Estudos Raciais investiga a disparidade racial na violência de gênero","jcr:description":"O crescimento no número de casos de homicídio, estupro, assédio sexual e violência psicológica no Brasil, especialmente contra mulheres negras, está relacionado à carência de políticas públicas"},{"subtitle":"O crescimento no número de casos de homicídio, estupro, assédio sexual e violência psicológica no Brasil, especialmente contra mulheres negras, está relacionado à carência de políticas públicas","author":"Ernesto Yoshida","title":"Núcleo de Estudos Raciais investiga a disparidade racial na violência de gênero","content":"O crescimento no número de casos de homicídio, estupro, assédio sexual e violência psicológica no Brasil, especialmente contra mulheres negras, está relacionado à carência de políticas públicas Manifestação contra a cultura do estupro em Goiânia   Leandro Steiw   Os dados do estudo “Disparidades raciais na violência de gênero”, realizado pelo [Núcleo de Estudos Raciais do Insper](https://www.insper.edu.br/pesquisa-e-conhecimento/centro-de-gestao-e-politicas-publicas/nucleo-de-estudos-raciais/) (NERI) e aprovado para publicação na Revista Brasileira de Segurança Pública, indicam a urgência de políticas públicas que eliminem todas as formas de violência contra as mulheres. A brutalidade da violência de gênero está expressa no crescimento do número de casos de homicídio, estupro, assédio sexual e violência psicológica de 2020 a 2022 — que abrange o período de isolamento social causado pela pandemia de covid-19. O estudo é assinado por Daniel Duque, Michael França, Fillipi Nascimento e Alisson Santos. O economista Alisson Santos, pesquisador do NERI, explica que o homicídio é o principal evento de mortes de homens no Brasil. Mas o assassinato de mulheres pode ser motivado ainda por questões de gênero, transformando homicídio em feminicídio. Os dados analisados pelo núcleo se referem a homicídios em geral. “Como os homicídios não são o principal elemento de violência contra a mulher, observamos um conjunto de indicadores que inclui também o estupro, o assédio sexual e a violência psicológica”, afirma Santos. A partir dos indicadores, os pesquisadores tentaram entender as dinâmicas de violência em relação às disparidades dos diferentes grupos raciais no Brasil. O número de homicídios no Brasil, tanto masculinos quanto femininos, diminuiu entre 2017 e o primeiro ano da pandemia, mantendo-se em níveis estáveis com poucas oscilações desde então. Nos outros três indicadores, no entanto, as estatísticas pioraram em todos os estratos. “Geralmente, o crescimento da violência é maior entre as mulheres negras na comparação com as brancas”, diz Santos. “Na esteira da discussão recente no Supremo Tribunal Federal e no Congresso sobre a questão do estupro, dá para identificar nitidamente quem são os potenciais afetados quando se tenta criminalizar quem foi estuprada.” O conjunto de indicadores sugere que o país não conseguiu fazer ações preventivas, fortes e eficientes para combater o estupro, o assédio sexual e a violência psicológica contra mulheres, observa Santos. E o viés racial está explícito. A proporção de mulheres pretas e pardas estupradas em relação às brancas vem crescendo gradativamente desde 2017. Em 2022, 63,2% das vítimas eram pretas e pardas. A tendência também é a mesma em assédio e violência psicológica: respectivamente, 58,9% e 68,4% dos casos foram contra mulheres negras. Aplicado o Índice de Equilíbrio Racial (IER), desenvolvido pelo NERI, todos os indicadores, em todas as regiões, tendem a 1 — ou seja, o conjunto de vítimas negras é mais que proporcional à representação dessa população no Brasil. “Quando se aplica esse instrumento de análise, conseguimos demonstrar que existe, de fato, um viés social muito forte em todos esses indicadores”, afirma Santos. “Da forma que as vítimas negras estão marginalizadas, não há uma mudança observável que comece a equilibrar essas distâncias entre a possibilidade de vitimação.”   Racismo e machismo Para o sociólogo Fillipi Nascimento, pesquisador do NERI, os achados do estudo são um retrato da sobreposição do racismo e do machismo que imperam no Brasil. “A sustentação dos índices de violência de gênero entre mulheres negras predominantemente, ao longo de 10 anos, nos faz perceber o caráter estrutural desse tipo de violência e aponta para a necessidade de políticas públicas orientadas para esse público específico”, diz Nascimento. A violência de gênero é mais um problema enfrentado pelas mulheres negras no Brasil. “Já está bem documentado em vários estudos que as mulheres negras, diferentemente de homens negros e de mulheres e homens brancos, são aquelas que mais têm dificuldade para ascender profissionalmente, para ter representação política e para ter acesso à educação, saúde e assistência jurídica”, afirma Nascimento. “A violência de gênero é mais uma camada nesse conjunto de dificuldades que elas enfrentam.” O estudo acrescenta outra camada alarmante: a faixa etária das vítimas. No ano de 2010, 50,6% das vítimas de estupro com até 17 anos de idade eram negras. Em 2022, a proporção aumentou para 61,9%. Entre as vítimas brancas da mesma faixa etária, a incidência dos casos diminuiu, passando de 34,6% em 2010 para 30,8% em 2022. Diferenças regionais O problema torna-se ainda mais complexo devido às particularidades regionais e locais, que podem agravar as desigualdades. “Alagoas é um dos estados que apresentam um dos piores índices de desequilíbrio racial na violência de gênero”, diz Nascimento. “Sou de Alagoas, e entendo que há particularidades locais que contribuem fortemente para a incidência desses casos por aqui, e uma delas é de natureza cultural. Muitas das vítimas dessas violências não denunciam os abusadores pelo receio de que essa denúncia possa trazer vergonha ou desonra para elas e para suas famílias.” Nascimento prossegue: “Soma-se a isso a concentração de vulnerabilidades que há no contexto das vítimas. Por exemplo, vimos que grande parte das vítimas são crianças e adolescentes, meninas e jovens pouco escolarizadas, e esses baixos níveis de escolarização tanto refletem um maior desconhecimento da violência que está sendo vivenciada por elas quanto um maior desconhecimento dos meios necessários para fazer a denúncia. A situação de desemprego ou de desocupação das vítimas é outro fator explicativo, se pensarmos que, estando desempregadas ou desocupadas, muitas das vítimas ficam financeiramente dependentes do agressor, o que dificulta a denúncia”. Existem ainda diferenças entre incidentes em cidades e zonas rurais, subnotificação de casos quando os agressores são conhecidos da vítima ou da sua família e falta de atendimento especializado por parte das polícias em prol de mulheres violentadas. “Todos esses componentes precisam ser reconhecidos pelos gestores públicos para que seja possível desenvolver iniciativas mais efetivas de denúncia dessas violências e de responsabilização dos agressores”, afirma Nascimento. Para ajudar a compreender os efeitos da violência contra a mulher no Brasil, o estudo do NERI responde ainda a duas questões: por que as mulheres não abandonam os parceiros violentos (estratégias de segurança, medo de retaliação, falta de suporte econômico, preocupação com os filhos, falta de apoio familiar e esperança de mudança do parceiro) e quais são os fatores de risco para a violência contra a mulher (individuais, relacionais, comunitários e sociais).  "}]