[{"jcr:title":"Organizações inovam utilizando inteligência artificial em soluções para avaliar leitura de estudantes"},{"targetId":"id-share-1","text":"Confira mais em:","tooltipText":"Link copiado com sucesso."},{"jcr:title":"Organizações inovam utilizando inteligência artificial em soluções para avaliar leitura de estudantes","jcr:description":"Empresas e organizações educacionais apresentaram avanços e desafios no desenvolvimento de ferramentas e soluções para avaliação de fluência leitora"},{"subtitle":"Empresas e organizações educacionais apresentaram avanços e desafios no desenvolvimento de ferramentas e soluções para avaliação de fluência leitora","author":"Ernesto Yoshida","title":"Organizações inovam utilizando inteligência artificial em soluções para avaliar leitura de estudantes","content":"Empresas e organizações educacionais apresentaram avanços e desafios no desenvolvimento de ferramentas e soluções para avaliação de fluência leitora   No dia 12 de abril, a Fundação Lemann, em parceria com o Insper, realizou o Demoday, um dia de compartilhamento e demonstrações de inovação com o uso de inteligência artificial na área da educação. O evento reuniu onze organizações que têm explorado modelos inovadores de avaliação de leitura. O evento foi organizado e apresentado por Laura Mattos, coordenadora de Inovação na Fundação Lemann, Tiago Maluta, gerente de Inovação da Fundação Lemann e em parceria com o professor André Santana, do Insper. Para uma audiência de mais de 100 pessoas, organizações como Árvore, Brainz Group, CAEd, Educacross, Elefante Letrado, Herby, Lize, Mobile Brain, NEES, RadHark e Roar demonstraram funcionalidades de seus produtos. Entre os participantes estavam educadores, equipe pedagógica de Secretarias de Educação, organizações parceiras da Fundação Lemann, pesquisadores, alunos do Insper e profissionais interessados em inovação na educação. Segundo a Associação Bem Comum, organização parceira da Fundação Lemann e que também estava presente no evento, a avaliação de fluência leitora é uma experiência mais recente, entre os modelos de avaliação em larga escala no país e a importância de sua aplicação se dá pelo fato de que “leitores não fluentes costumam gastar muito tempo na decodificação das palavras, demonstrando que ainda não desenvolveram a capacidade de compreender os princípios que regem a relação entre fonemas e grafemas, condição fundamental no processo de alfabetização e no desenvolvimento da compreensão de textos escritos, uma vez que esse domínio é muito importante para o desenvolvimento das habilidades de leitura e de escrita” ( [ABC, 2021](https://abemcomum.org/avaliacao-da-fluencia-em-leitura-edicao-2021/) ) . Por isso a importância de ter ferramentas que possibilitem uma visão sobre a fluência dos alunos com cada vez mais facilidade e rapidez de aplicação. Embora seja nítido o movimento em direção à inovação em avaliações de alfabetização, muitos desafios ainda precisam ser superados para melhorar a tecnologia e a experiência do usuário, como se viu no DemoDay. João Victor de Souza, desenvolvedor de software no CAEd, citou algumas dificuldades relacionadas à captação da voz no ambiente de estudo do aluno, como a qualidade do áudio, a posição do microfone, ruídos, presença de outros falantes e hesitações, entre outras. Há ainda outros obstáculos para a precisão dos resultados que vêm da sub-representação de sotaques nos algoritmos e os vieses da IA. Esses fatores dificultam que o produto alcance abrangência nacional e que os resultados não sejam distorcidos por treinamento tendencioso. Ana Baraldi, gerente de produto sênior da Árvore, afirmou que ainda há muito a se construir em relação aos sotaques até atingir uma taxa de precisão de pronúncia. A Árvore continua treinando a IA e fazendo auditoria dos áudios para garantir que esse treinamento seja reflexo da realidade. Alessandra Debone, pesquisadora do Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (NEES), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), atua com a implantação de políticas públicas. Ela contou que diversas tecnologias falharam na busca por políticas de impacto na aprendizagem dos estudantes válidas para qualquer lugar do Brasil.  Um dos principais desafios é a desigualdade no acesso à internet no país. A solução em IA que o NEES tem desenvolvido e aprimorado baseia-se em aplicativo que funciona “off-line” (sem a necessidade de internet constante) e que demanda uma estrutura mínima em tecnologia de cada escola. Todo o processo — da gravação à avaliação — dura de três a cinco minutos, em média. Além disso, é importante considerar e otimizar o tempo em sala de aula, permitindo que mais tempo seja dedicado ao ensino ativo e à interação com os alunos. Segundo Alessandra, enquanto uma pessoa leva oito minutos para fazer a correção de um teste com questões objetivas, abertas e de fluência, o aplicativo realiza a tarefa em um minuto e meio. Alessandra disse ainda que as notas de correções feitas por dois avaliadores humanos têm de 60% a 65% de concordância. Na comparação entre a correção de um humano e uma feita por IA, a concordância sobe para 80% a 85%. Infere-se que fatores subjetivos aumentem a divergência entre dois avaliadores humanos. Por sua vez, Ronei Pasquetto, cofundador do Brainz Group, e Mônica Timm de Carvalho, diretora executiva da Elefante Letrado, disseram que os algoritmos de suas plataformas já distinguem as entonações regionais dos alunos. Mônica contou que o protocolo da Elefante Letrado incluiu a gravação de 5 mil áudios de todo o Brasil já pensando em reconhecer sotaques e entonações.   Poucos cliques e gamificação O funcionamento das plataformas costuma ser simples. Pasquetto simulou a gravação de um aluno em aprendizado de leitura, cometendo erros propositais, e demonstrou a interface com informações de precisão, fluência, integridade, nível de pronúncia e número de palavras emitidas e repetidas. Ele acredita que a tecnologia ajuda a elaborar estratégias individuais de aprendizagem e sugerir conteúdos de auxílio para cada aluno constantemente. Na opinião de Andrin Pelican, fundador e diretor técnico da Herby, o uso do aplicativo precisa ser fácil, com poucos cliques. Afinal, nem todos têm familiaridade com novas tecnologias. Como vários dos aplicativos, a gamificação é uma característica da plataforma ROAR, criada pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e apresentada pela sua pesquisadora visitante Karine Roncete. Nos testes para crianças do 1º ao 5º ano, palavras e pseudopalavras piscam na tela enquanto o aluno deve reconhecê-las como verdadeiras ou falsas. A interface do usuário do ROAR é concebida para ser extremamente simples e o estudante precisa apenas utilizar as setas do teclado, evocando a dinâmica interativa típica de videogames. Ou então são mostradas frases com e sem sentido. O banco de dados é alimentado com palavras recolhidas de livros didáticos aprovados no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Educação. Da mesma forma, a gamificação faz parte da estratégia da Educacross, cuja ferramenta foca em IA, experiência do usuário (UX) e pedagogia. O diretor executivo Reginaldo Gotardo explicou que o nível de proficiência apresentado pela plataforma é obtido pela equipe pedagógica da Educacross em função da faixa etária do aluno, do ano escolar e do tipo de teste. Depois, a criança é dirigida para atividades lúdicas de avanço na aprendizagem. Segundo Gotardo, uma aplicação temporária em turmas do 4º ano indica um aumento de 22 pontos percentuais no desempenho em matemática e 25 pontos percentuais em português. Encontrar soluções baseadas em ciência, testagens e evidências científicas, obtidas em pesquisas brasileiras e levando em conta a diversidade da população, é uma das preocupações da Mobile Brain, segundo Natália Mota, fundadora e cientista-chefe da empresa. O produto tenta acompanhar o desenvolvimento em linguagem a partir dos áudios de histórias contadas pelos alunos, analisando a estrutura recorrente das palavras. A narrativa é então representada em um gráfico de palavras, que indica a complexidade da narrativa em relação ao tempo de escolaridade. Num universo tão amplo, as motivações para a inovação nem sempre são as mesmas. Luiz Gonzaga Lima Carvalho Neto, diretor executivo da Lize, disse que a plataforma nasceu no setor privado, da dor específica dos fiscais de prova, atividade que a companhia ainda explorava com o nome de Fiscallize. O ensino remoto, acelerado pela pandemia da covid-19, deu origem a uma plataforma de aplicação e monitoramento de provas online. A proposta foi expandida para a solução de avaliação de aprendizagem. Insatisfeita com a precisão dos modelos de IA na avaliação de pseudopalavras, a Radhark optou por uma ferramenta criada do zero, usando plataforma web e solução AIRA baseada na nuvem do Google. Pedro Jorge Machado, sócio da empresa, disse que a tecnologia de nuvem permite um processamento rápido do teste de fluência assim que se encerra a gravação. Ele estimou em um minuto o tempo necessário entre o término da última questão e o acesso ao resultado final na plataforma. Desta etapa em diante, as avaliações ficam disponíveis em diferentes camadas de privilégio (alunos, professores, gestores e secretarias de educação).   Pilar da alfabetização As ferramentas de avaliação de aprendizagem são apenas uma das apostas de tecnologias para contribuir com os resultados de alfabetização no Brasil. Tiago Maluta, gerente de inovação da Fundação Lemann, reforçou um objetivo estratégico definido pela fundação em 2021: que em 10 anos, ou seja, até 2031, o Brasil contasse com 100% das crianças sendo alfabetizadas na idade certa. “Isso é um desafio do tamanho do Brasil”, afirmou. “Há várias organizações e parceiros aqui que estão sonhando junto com a fundação. E acreditamos que a tecnologia terá um papel importante nesse plano. Muito do que vamos descobrir até 2031 será inventado por pessoas como vocês. A avaliação é um dos pilares da alfabetização, e a tecnologia pode contribuir se, obviamente, estiver integrada com discussões pedagógicas, entre outras.” Com a reunião de 11 depoimentos sobre inovação, o evento proporcionou um olhar amplo sobre as tendências de mercado em tecnologias para a educação básica. “Vimos como as empresas acabam seguindo caminhos diferentes”, disse André Santana, professor dos cursos de graduação em Engenharia do Insper e avaliador do DemoDay. “Algumas ainda estão no começo, outras já têm parcerias mais sólidas, algumas têm mais senso de design, outras mais senso de negócio. A ideia do DemoDay era promover a conexão com entusiastas, parceiros e pessoas que queiram buscar tecnologias de inteligência artificial aplicada nessa área.” A possível saturação do mercado de plataformas de avaliação de aprendizagem faz parte do processo de inovação, comentou Santana. “Para as empresas, tantas soluções para um mesmo problema, mesmo que com vertentes diferentes, podem parecer um pouco desmotivador”, disse o professor. “Mas essa oferta ajuda a fomentar o processo de inovação e também indica para o consumidor — educadores, pesquisadores e secretarias de educação que estiveram presentes ao encontro — as possibilidades de tecnologias que estão disponíveis no mercado.” Aprender a ler e escrever é um processo sofisticado e complexo. A alfabetização é composta por múltiplos domínios: a escrita, a leitura, a oralidade e a compreensão de texto. Dessa maneira, devem ser múltiplas também as ferramentas de avaliação para a capturar o aprendizado em cada uma dessas dimensões. Não é razoável atribuir a uma única ferramenta avaliativa, seja ela qual for, essa tarefa. Em vez disso, mais efetivo será contar com um portfólio de avaliações, no qual cada uma, a seu modo, com sua finalidade e foco, seja capaz de gerar informações sobre o que os alunos sabem ou não sabem fazer nessa etapa da escolarização. Ao final do Demoday, cada uma das 11 organizações que apresentaram contribuiu para aprofundar o debate e alimentar o senso de urgência em relação à alfabetização que deve mover todos na direção de encontrar as soluções mais efetivas. Conforme enfatiza Laura Mattos: “O objetivo do Demoday, que acreditamos ter sido cumprido com sucesso, foi reunir várias pessoas que estão pensando sobre a temática de inovação em avaliações de alfabetização e compartilhar o conhecimento. Para alcançar um desafio desse tamanho, a inovação e a tecnologia se mostram como grandes aliadas. É somente abrindo o debate para o público amplo que teremos soluções que geram cada vez mais impacto, mas também de forma ética, responsável e equitativa”.  "}]